REsp 2081071 - ACORDAO
Mantém-se o decisum monocrático: a jurisprudência do STJ presume lucros cessantes em atraso na entrega de imóvel e impede a cumulação de danos emergentes com lucros cessantes pelo mesmo fato; eventual modificação demandaria reexame fático-probatório vedado pela Súmula 7/STJ.
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: CONSTRUTORA LEAL MOREIRA LTDA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 28 February 2024
- Procedural Posture
- Agravo Interno No Recurso Especial / Julgamento Colegiado Da Quarta Turma Decisão Sobre Agravo Interno
- Outcome
- Agravo interno desprovido (negado provimento ao agravo interno).
- Legal Topics
- Atraso Na Entrega De Imóvel, Lucros Cessantes, Danos Emergentes, Cumulação De Indenizações, Reexame De Fatos E Provas (súmula 7)
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Parties
CONSTRUTORA LEAL MOREIRA LTDA
Agravante
Procedural Posture
Agravo Interno No Recurso Especial / Julgamento Colegiado Da Quarta Turma Decisão Sobre Agravo Interno
Legal Issues
- 1 Presunção de lucros cessantes em caso de atraso na entrega de imóvel
- 2 Impossibilidade de cumulação de danos emergentes com lucros cessantes no mesmo fato
- 3 Vedação ao reexame de fatos e provas em recurso especial (Súmula 7/STJ)
Ratio Decidendi
Mantém-se o decisum monocrático: a jurisprudência do STJ presume lucros cessantes em atraso na entrega de imóvel e impede a cumulação de danos emergentes com lucros cessantes pelo mesmo fato; eventual modificação demandaria reexame fático-probatório vedado pela Súmula 7/STJ.
Court Disposition
Agravo interno desprovido (negado provimento ao agravo interno).
Orders
- Negar provimento ao agravo interno.
- Manter a decisão monocrática que afastou a cumulação de danos emergentes com lucros cessantes.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da QUARTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em sessão virtual de 20/02/2024 a 26/02/2024, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros João Otávio de Noronha, Raul Araújo, Maria Isabel Gallotti e Antonio Carlos Ferreira votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Raul Araújo. EMENTA AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL - AÇÃO DE CONDENATÓRIA - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE DEU PARCIAL PROVIMENTO AO RECLAMO. INSURGÊNCIA DA DEMANDADA. 1. No caso de descumprimento do prazo para a entrega do imóvel, incluído o período de tolerância, o prejuízo do comprador é presumido, consistente na injusta privação do uso do bem, a ensejar o pagamento de indenização, na forma de aluguel mensal, com base no valor locatício de imóvel assemelhado, com termo final na data da disponibilização da posse direta ao adquirente da unidade autônoma. Precedentes. 2. A concessão de indenização pelos lucros cessantes decorrentes da demora na entrega do imóvel, exclui a possibilidade de percepção de danos emergentes pelo mesmo fato. Precedentes. 3. Agravo interno desprovido.
RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO MARCO BUZZI (Relator): Trata-se de agravo interno interposto por CONSTRUTORA LEAL MOREIRA LTDA contra decisão monocrática de fls. 699/702 (e-STJ), a qual deu parcial provimento ao recurso especial interposto pela parte ora recorrente. O apelo extremo, fundamentado na alínea "c" do permissivo constitucional, desafiou, a seu turno, acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Pará assim ementado (e-STJ, fl. 560): DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO CONTRA DECISÃO MONOCRÁTICA QUEDEU PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO DE APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃOPOR DANOS MATERIAIS E MORAIS. ATRASO DA OBRA. LUCROS CESSANTES E DANOSEMERGENTES. POSSIBILIDADE. DANO MORAL. EXCESSO DE PRAZO. CARACTERIZADO. INDENIZAÇÃO ARBITRADA DE ACORDO COM OS PARÂMETROS DESTA CORTE. AUSÊNCIA DE INOVAÇÃO FÁTICA-JURÍDICA. DESPROVIMENTO DO RECURSO DEAGRAVO INTERNO. 1. O atraso na entrega do imóvel prometido à venda caracteriza mora, obrigando o promitente vendedor a indenizar o promitente comprador pelos danos emergentes e lucros cessantes diante da privação do uso e utilidade do imóvel. 2. A inadimplência da promitente vendedora por atraso na entrega do imóvel, por si só, não gerada no moral, todavia, em caso de excesso de prazo, extrapola-se o mero aborrecimento, sendo devida a indenização a título extrapatrimonial. Indenização reduzida para R$ 10.000,00 (dez mil reais) de acordo com os parâmetros estabelecidos na jurisprudência pátria.3. Ausente qualquer inovação na situação fática-jurídica estampada na decisão monocrática combatida, o recurso não merece provimento, por uma questão de lógica jurídica da matéria de direito tratada e, principalmente, em nome da segurança jurídica. 4. Confirmar-se a decisão objurgada, que se mostra correta não merecendo reparos, é medida que se impõe, aplicando-se ope legis, a multa prevista no artigo 1.021, § 4º, do CPC. 5. Agravo interno conhecido e desprovido. Nas razões do recurso especial (e-STJ, fls. 581/604), a insurgente suscita dissídio jurisprudencial no tocante à interpretação dos art. 402 e 884 do Código Civil. Sustenta, em síntese, que os lucros cessantes devem ser calculados com base no valor efetivamente pago pelo consumidor, sob pena de enriquecimento ilícito. Aduz que a cumulação de lucros cessantes com danos emergentes gera enriquecimento ilícito do recorrido. Contrarrazões às fls. 678/690, e-STJ. Por decisão monocrática (fls. 699/702, e-STJ), este signatário deu parcial provimento ao recurso para afastar a cumulação de danos emergentes com lucros cessantes em casos de responsabilidade da construtora pelo atraso na entrega do imóvel. Em suas razões de agravo interno (fls. 706/715, e-STJ), a recorrente refuta os fundamentos em que se lastreou o decisum hostilizado, oportunidade em que reafirma os argumentos deduzidos no apelo nobre. Impugnação às fls. 719/726, e-STJ. É o relatório. EMENTA AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL - AÇÃO DE CONDENATÓRIA - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE DEU PARCIAL PROVIMENTO AO RECLAMO. INSURGÊNCIA DA DEMANDADA. 1. No caso de descumprimento do prazo para a entrega do imóvel, incluído o período de tolerância, o prejuízo do comprador é presumido, consistente na injusta privação do uso do bem, a ensejar o pagamento de indenização, na forma de aluguel mensal, com base no valor locatício de imóvel assemelhado, com termo final na data da disponibilização da posse direta ao adquirente da unidade autônoma. Precedentes. 2. A concessão de indenização pelos lucros cessantes decorrentes da demora na entrega do imóvel, exclui a possibilidade de percepção de danos emergentes pelo mesmo fato. Precedentes. 3. Agravo interno desprovido. VOTO O EXMO. SR. MINISTRO MARCO BUZZI (Relator): O presente recurso não merece prosperar, porquanto as razões expendidas pela parte agravante são insuficientes a derruir a fundamentação do decisum ora impugnado, motivo pelo qual ele merece ser mantido na íntegra por seus próprios fundamentos. 1. Consoante o anteriormente decidido e no tocante aos lucros cessantes, o Tribunal de origem declinou a seguinte fundamentação (e-STJ, fl. 517): No caso de descumprimento do prazo para a entrega do imóvel adquirido na planta, o Superior Tribunal de Justiça já firmou entendimento que os lucros cessantes do comprador são presumidos, decorrentes da injusta privação do uso do bem, a ensejar o pagamento de indenização na forma de aluguel mensal a que faria jus, pelo período compreendido entre o fim do prazo de tolerância e data da disponibilização da unidade imobiliária, independentemente da destinação do imóvel (STJ, REsp 1.729.593). Com efeito, justifica-se a manutenção da condenação do réu-apelante ao pagamento de lucros cessantes, tal como estipulado na sentença no valor de R$ 800,00 (oitocentos reais), eis que dentro do valor do aluguel aceito pelos especialistas e pela jurisprudência Pátria que varia em média entre 0,5% (zero vírgula cinco por cento) a 1% (um por cento) do valor de compra do móvel, conforme fatores como localização, tipo do imóvel e suas condições gerais. Nesse contexto, verifica-se que o acórdão recorrido encontra em conformidade com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual o prejuízo do promitente comprador é presumido em hipótese de inexecução do contrato de compra e venda por atraso na entrega do imóvel. Portanto, incide, na espécie, o veto da Súmula 83 desta Corte. A propósito: AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL. ATRASO NA ENTREGA DE IMÓVEL. LUCROS CESSANTES E MORA. CORREÇÃO DO ACÓRDÃO E INSINDICABILIDADE DAS CONCLUSÕES. DISSÍDIO. ADIALETICIDADE DO AGRAVO. 1. Não impugna devidamente os fundamentos da decisão agravada a mera afirmação de que os óbices não se aplicam, sem, todavia, evidenciar a sua impertinência. 2. A presunção dos lucros cessantes no caso dos autos se encontra expressa sintonia com o quanto pacificado por esta Corte Superior. Insistir-se em tese contrária, sem impugnar referido relevante fundamento evidencia patente a dialeticidade. 3. A interposição de agravo manifestamente improcedente e adialético faz concretizada a hipótese do art. 1.021, §4º, do CPC, razão por que imputo ao agravante o pagamento de multa de 1% sobre o valor atualizado da causa. 4. AGRAVO INTERNO NÃO CONHECIDO, COM APLICAÇÃO DE MULTA. (AgInt no REsp n. 1.783.222/SP, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado em 14/3/2022, DJe de 18/3/2022.) CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. RECURSO INTERPOSTO SOB A ÉGIDE DO NCPC. AÇÃO REVISIONAL CUMULADA COM INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL E MATERIAL. COMPRA E VENDA DE IMÓVEL EM CONSTRUÇÃO. ATRASO NA ENTREGA DA OBRA. ART. 393 DO CC/02. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS N.os 282 E 356 DO STF. JUROS DA OBRA. RESTITUIÇÃO DOS VALORES COBRADOS INDEVIDAMENTE, APÓS A DATA PREVISTA PARA A ENTREGA DAS CHAVES. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. (..) 4. No caso de descumprimento do prazo para a entrega do imóvel, incluído o período de tolerância, o prejuízo do comprador é presumido, consistente na injusta privação do uso do bem, a ensejar o pagamento de indenização, na forma de aluguel mensal, com base no valor locatício de imóvel assemelhado, com termo final na data da disponibilização da posse direta ao adquirente da unidade autônoma (REsp 1.729.593/SP, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Segunda Seção, DJe de 27/9/2019). 5. Agravo interno não provido" (AgInt nos EDcl no REsp 1.923.493/SP, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO, TERCEIRA TURMA, DJe 19/11/2021). Ademais, tendo o Colegiado estadual, com amparo no acervo fático-probatório dos autos, consignado que os lucros cessantes fixados em 0,5% e 1% deveriam incidir sobre o valor atualizado do imóvel, a modificação da referida conclusão demandaria o reexame de fatos e provas, procedimento vedado no âmbito do recurso especial pelo óbice da Súmula 7/STJ. 2. Quanto à cumulação de lucros cessantes com os danos emergentes, o Tribunal de origem assim decidiu (fls. 518, e-STJ): Igualmente, deve ser mantida a condenação quanto aos danos emergentes, os quais restaram demonstrados mediante documento de Id. 9929964, Fl. 101, decorrentes diretamente do atraso na entrega do imóvel, o que justifica a condenação dos recorrentes à restituição de tais valores. No ponto, a decisão deve ser reformada. Esta Corte Superior já decidiu pela impossibilidade de cumulação de danos emergentes com lucros cessantes em casos de responsabilidade da construtora pelo atraso na entrega do imóvel. Confira-se: AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROMESSA DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. ATRASO NA ENTREGA. COMPROVAÇÃO DE GASTOS DESPENDIDOS PARA MORADIA. DANOS EMERGENTES. CONCESSÃO. LUCROS CESSANTES. IMPOSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO. 1. O dano material decorrente do atraso na entrega de imóvel residencial pode ser classificado como dano emergente ou lucros cessantes, sendo ambos as duas faces da mesma moeda. O dano, seja em qual dessas rubricas for classificado, será o mesmo: a privação da fruição do imóvel. 2. A concessão de indenização pelos danos emergentes decorrentes da demora na entrega do imóvel, com o pagamento dos gastos de moradia despendidos pelo autor no período da mora, exclui a possibilidade de percepção de lucros cessantes pelo mesmo fato, pois o bem estaria lhe servindo de moradia. 3. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AgRg no AREsp 795125 /RJ, Rel. Min. MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 12/11/2018, Dje 19/11/2018) Corroborando este entendimento: AgInt no REsp n. 2.009.633/RJ, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 18/9/2023, DJe de 22/9/2023. De rigor, portanto, a manutenção da decisão ora impugnada. 3. Ante o exposto, nego provimento ao agravo interno. É como voto.