Rcl 51059 - DECISAO
A reclamação foi considerada manifestamente incabível porque não se verificou qualquer hipótese de cabimento prevista no art. 988 do CPC (ausência de comando expresso do STJ desrespeitado ou usurpação de competência) e, segundo o entendimento da Corte Especial no Rcl 36.476/SP, não é cabível reclamação para garantir...
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- Parties
- Reclamante: IVANEIDE DE FÁTIMA COUTINHO; Autoridade Reclamada: 6ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 20 March 2026
- Procedural Posture
- Reclamação / Indeferida
- Outcome
- Reclamação indeferida; pedido de liminar prejudicado.
- Legal Topics
- Cabimento Da Reclamação, Recurso Especial Repetitivo, Astreintes, Liminar, Tema 706/stj
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Parties
IVANEIDE DE FÁTIMA COUTINHO
Reclamante
6ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Autoridade Reclamada
Procedural Posture
Reclamação / Indeferida
Legal Issues
- 1 cabimento da reclamação para garantir observância de entendimento firmado em recurso especial repetitivo
- 2 aplicação do Tema 706/STJ na redução de astreintes
- 3 competência do STJ para processar reclamação e garantir a autoridade de suas decisões
Ratio Decidendi
A reclamação foi considerada manifestamente incabível porque não se verificou qualquer hipótese de cabimento prevista no art. 988 do CPC (ausência de comando expresso do STJ desrespeitado ou usurpação de competência) e, segundo o entendimento da Corte Especial no Rcl 36.476/SP, não é cabível reclamação para garantir a observância de precedentes oriundos de recursos especial e extraordinário repetitivos; por isso, o pedido de liminar foi prejudicado e a reclamação indeferida.
Court Disposition
Reclamação indeferida; pedido de liminar prejudicado.
Orders
- Indefiro a reclamação
- Prejudicado o pedido de liminar
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de reclamação, com pedido de liminar, proposta por IVANEIDE DE FÁTIMA COUTINHO, apontando como autoridade reclamada a 6ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (e-STJ fls. 1/18). A reclamantes sustenta, essencialmente, que a autoridade reclamada teria sido descumprido o entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça no Tema nº 706/STJ ao modificar o valor das astreintes, reduzindo-o a valor irrisório e inferior ao valor já incorporado ao seu patrimônio por anteriores levantamentos. Assevera que, no caso, há evidente perigo na demora, porquanto o cumprimento do acórdão reclamado pode ensejar a devolução de valores já incorporados ao seu patrimônio. Requer, liminarmente, a suspensão da decisão que reduziu as astreintes, impedindo qualquer determinação de devolução ou bloqueio do valor levantado. É o relatório. DECIDO. A presente reclamação é manifestamente incabível. De fato, o artigo 105, I, "f", da Constituição Federal estabelece que compete ao Superior Tribunal de Justiça processar e julgar originariamente a reclamação para a "preservação de sua competência e a garantia da autoridade de suas decisões". As normas procedimentais aplicáveis à reclamação, definidas constitucionalmente, encontram-se no art. 988 do Código de Processo Civil, que assim regulamentou as hipóteses de cabimento: "Art. 988. Caberá reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para: I - preservar a competência do tribunal; II - garantir a autoridade das decisões do tribunal; III - garantir a observância de enunciado de súmula vinculante e de decisão do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; IV - garantir a observância de acórdão proferido em julgamento de incidente de resolução de demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência;" Da leitura das razões da reclamante , observa-se que não restou caracterizada nenhuma das hipóteses acima destacadas, não havendo, no caso concreto, comando expresso emanado do STJ cuja autoridade tenha sido desrespeitada, tampouco se verifica usurpação de sua competência, o que afasta o cabimento da via eleita. Com efeito, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça, no julgamento da Rcl nº 36.476/SP, acabou concluindo pelo não cabimento da reclamação prevista no artigo 988 do Código de Processo Civil com o propósito de garantir a observância de entendimento firmado em julgamento de recursos especiais repetitivos ou mesmo de apontar eventual distinguishing. Concluiu-se que a última palavra sobre eventual adequação na aplicação de tema consolidado em precedentes repetitivos é do tribunal de apelação, por ocasião do julgamento do agravo interno interposto contra a decisão que nega seguimento a recurso especial com base no artigo 1.030, inciso I, "b", do Código de Processo Civil de 2015. Transcreva-se: "RECLAMAÇÃO. RECURSO ESPECIAL AO QUAL O TRIBUNAL DE ORIGEM NEGOU SEGUIMENTO, COM FUNDAMENTO NA CONFORMIDADE ENTRE O ACÓRDÃO RECORRIDO E A ORIENTAÇÃO FIRMADA PELO STJ EM RECURSO ESPECIAL REPETITIVO (RESP 1.301.989/RS - TEMA 658). INTERPOSIÇÃO DE AGRAVO INTERNO NO TRIBUNAL LOCAL. DESPROVIMENTO. RECLAMAÇÃO QUE SUSTENTA A INDEVIDA APLICAÇÃO DA TESE, POR SE TRATAR DE HIPÓTESE FÁTICA DISTINTA. DESCABIMENTO. PETIÇÃO INICIAL. INDEFERIMENTO. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. 1. Cuida-se de reclamação ajuizada contra acórdão do TJ/SP que, em sede de agravo interno, manteve a decisão que negou seguimento ao recurso especial interposto pelos reclamantes, em razão da conformidade do acórdão recorrido com o entendimento firmado pelo STJ no REsp 1.301.989/RS, julgado sob o regime dos recursos especiais repetitivos (Tema 658). 2. Em sua redação original, o art. 988, IV, do CPC/2015 previa o cabimento de reclamação para garantir a observância de precedente proferido em julgamento de "casos repetitivos", os quais, conforme o disposto no art. 928 do Código, abrangem o incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR) e os recursos especial e extraordinário repetitivos. 3. Todavia, ainda no período de vacatio legis do CPC/15, o art. 988, IV, foi modificado pela Lei 13.256/2016: a anterior previsão de reclamação para garantir a observância de precedente oriundo de "casos repetitivos" foi excluída, passando a constar, nas hipóteses de cabimento, apenas o precedente oriundo de IRDR, que é espécie daquele. 4. Houve, portanto, a supressão do cabimento da reclamação para a observância de acórdão proferido em recursos especial e extraordinário repetitivos, em que pese a mesma Lei 13.256/2016, paradoxalmente, tenha acrescentado um pressuposto de admissibilidade - consistente no esgotamento das instâncias ordinárias - à hipótese que acabara de excluir. 5. Sob um aspecto topológico, à luz do disposto no art. 11 da LC 95/98, não há coerência e lógica em se afirmar que o parágrafo 5º, II, do art. 988 do CPC, com a redação dada pela Lei 13.256/2016, veicularia uma nova hipótese de cabimento da reclamação. Estas hipóteses foram elencadas pelos incisos do caput, sendo que, por outro lado, o parágrafo se inicia, ele próprio, anunciando que trataria de situações de inadmissibilidade da reclamação. 6. De outro turno, a investigação do contexto jurídico-político em que editada a Lei 13.256/2016 revela que, dentre outras questões, a norma efetivamente visou ao fim da reclamação dirigida ao STJ e ao STF para o controle da aplicação dos acórdãos sobre questões repetitivas, tratando-se de opção de política judiciária para desafogar os trabalhos nas Cortes de superposição. 7. Outrossim, a admissão da reclamação na hipótese em comento atenta contra a finalidade da instituição do regime dos recursos especiais repetitivos, que surgiu como mecanismo de racionalização da prestação jurisdicional do STJ, perante o fenômeno social da massificação dos litígios. 8. Nesse regime, o STJ se desincumbe de seu múnus constitucional definindo, por uma vez, mediante julgamento por amostragem, a interpretação da Lei federal que deve ser obrigatoriamente observada pelas instâncias ordinárias. Uma vez uniformizado o direito, é dos juízes e Tribunais locais a incumbência de aplicação individualizada da tese jurídica em cada caso concreto. 9. Em tal sistemática, a aplicação em concreto do precedente não está imune à revisão, que se dá na via recursal ordinária, até eventualmente culminar no julgamento, no âmbito do Tribunal local, do agravo interno de que trata o art. 1.030, § 2º, do CPC/15. 10. Petição inicial da reclamação indeferida, com a extinção do processo sem resolução do mérito" (Rcl 36.476/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, CORTE ESPECIAL, julgado em 5/2/2020, DJe 6/3/2020). Nesse mesmo sentido: "PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NA RECLAMAÇÃO. PRETENSÃO DO RECLAMANTE PELA APLICAÇÃO AO CASO DE ENTENDIMENTO ASSENTADO EM SEDE DE RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. IMPOSSIBILIDADE. NÃO CABIMENTO DA RECLAMAÇÃO PRECEDENTE. CORTE ESPECIAL. RCL 36.476/SP. 1. O Tribunal de origem negou provimento ao agravo interno interposto contra decisão da Vice-Presidência que negou seguimento ao recurso especial da ora recorrente, considerando que o acórdão recorrido estaria em consonância com o Tema n. 1.231 STJ. Nesta reclamação, pretende o reclamante garantir a observância de acórdão proferido em julgamento demandas repetitivas. 2. No julgamento da Reclamação n. 36.476/SP ocorrido em 5/2/2020, a Corte Especial deste Tribunal Superior assentou compreensão de que não é cabível a reclamação para fins de observância de acórdão proferido em recursos especial e extraordinário repetitivos. Entendimento que também se aplica ao caso de adequação à determinação pelo STJ de suspensão do feito. Precedentes. 3. Agravo interno não provido." (AgInt na Rcl 49.830/RS, relator Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Seção, julgado em 24/2/2026, DJEN de 27/2/2026) "DIREITO PROCESSUAL CIVIL. RECLAMAÇÃO. CABIMENTO DE RECLAMAÇÃO PARA GARANTIR OBSERVÂNCIA DE PRECEDENTE REPETITIVO. INDEFERIMENTO LIMINAR. I. Caso em exame 1. Reclamação ajuizada contra ato do Juízo da 1ª Vara Cível de Itapira/SP, nos autos de cumprimento de sentença, para garantir a observância de precedente vinculante oriundo de julgamento de recurso especial repetitivo - Tema n. 410 do STJ -, com fundamento no art. 988, II, do CPC e no art. 187 do RISTJ. II. Razões de decidir 2. A Corte Especial do STJ, no julgamento da Rcl 36.476/SP, firmou entendimento de que não cabe reclamação para o exame da correta aplicação de precedente obrigatório formado em julgamento de recurso especial repetitivo, em razão da alteração promovida pela Lei n. 13.256/2016 no art. 988, IV, do CPC/2015. III. Dispositivo 3. Resultado do Julgamento: processo extinto sem julgamento do mérito." (Rcl 49.718/SP, relator Ministro João Otávio de Noronha, Segunda Seção, julgado em 11/2/2026, DJEN de 19/2/2026) Logo, o instrumento de reclamação está sendo utilizado de maneira equivocada, porquanto não há o preenchimento de nenhum requisito autorizador para a via, não permitindo, assim, o processamento da medida. Ante o exposto, indefiro a reclamação, prejudicado o pedido de liminar. Publique-se. Intimem-se. Arquive-se. EMENTA