REsp 2232855 - ACORDAO
O Tribunal afastou a decisão regional que manteve a mora apesar de declarar a nulidade da capitalização diária, por estar em confronto com a jurisprudência do STJ segundo a qual a ilegalidade da capitalização diária por falta de informação da taxa diária descaracteriza a mora; assim, conheceu do recurso especial e...
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- Parties
- Recorrente: MARIA DAS NEVES GONÇALVES
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 30 October 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Acórdão Provimento
- Outcome
- Recurso especial conhecido e provido; afasta-se a mora do devedor; julgados improcedentes os pedidos da ação de busca e apreensão.
- Legal Topics
- Capitalização De Juros, Taxa Diária, Abusividade, Mora, Ação De Busca E Apreensão, Informação Contratual
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Parties
MARIA DAS NEVES GONÇALVES
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Acórdão Provimento
Legal Issues
- 1 necessidade de informação da taxa de capitalização diária quando pactuada capitalização diária
- 2 efeito da nulidade da capitalização diária sobre a caracterização da mora
- 3 aplicação do Código de Defesa do Consumidor e vedação à revisão de fatos e provas na via especial
Ratio Decidendi
O Tribunal afastou a decisão regional que manteve a mora apesar de declarar a nulidade da capitalização diária, por estar em confronto com a jurisprudência do STJ segundo a qual a ilegalidade da capitalização diária por falta de informação da taxa diária descaracteriza a mora; assim, conheceu do recurso especial e deu-lhe provimento, julgando improcedentes os pedidos da ação de busca e apreensão e afastando a mora do devedor.
Court Disposition
Recurso especial conhecido e provido; afasta-se a mora do devedor; julgados improcedentes os pedidos da ação de busca e apreensão.
Orders
- Afastar a mora do devedor.
- Julgar improcedentes os pedidos da ação de busca e apreensão.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 21/10/2025 a 27/10/2025, por unanimidade, conhecer do recurso e lhe dar provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Moura Ribeiro, Daniela Teixeira, Nancy Andrighi e Humberto Martins votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Humberto Martins. EMENTA RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. TAXA DIÁRIA. ABUSIVIDADE RECONHECIDA NA ORIGEM. DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA. NECESSIDADE. JURISPRUDÊNCIA DO STJ. 1. "A insuficiência da informação acerca das taxas efetivas mensal e anual, na hipótese em que pactuada capitalização diária, sendo imprescindível, também, informação acerca da taxa diária de juros, a fim de se garantir ao consumidor a possibilidade de controle "a priori" do alcance dos encargos do contrato" (REsp 1.826.463/SC, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Segunda Seção, julgado em 14/10/2020, DJe de 29/10/2020). 2. O reconhecimento da ilegalidade da capitalização dos juros cobrada descaracteriza a mora, pressuposto necessário ao ajuizamento da ação de busca e apreensão. Precedentes. 3. Recurso especial conhecido e provido.
RELATÓRIO Trata-se de recurso especial interposto por MARIA DAS NEVES GONÇALVES. O apelo extremo, fundamentado no art. 105, inciso III, alíneas "a" e "c", da Constituição Federal, insurge-se contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná assim ementado: "APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO - CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO - FINANCIAMENTO DE VEÍCULO COM ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA - PLEITO DE DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA POR NULIDADE DA CAPITALIZAÇÃO DIÁRIA DE JUROS - IMPROCEDÊNCIA - NECESSIDADE DE PACTUAÇÃO EXPRESSA DA TAXA DIÁRIA - NULIDADE DA CLÁUSULA - POR OUTRO LADO, A INVALIDADE DA CAPITALIZAÇÃO DIÁRIA NÃO ALTERA A MORA RELATIVA À CAPITALIZAÇÃO MENSAL - PARCELAS PRÉ-FIXADAS - MANUTENÇÃO DOS EFEITOS DA MORA - PROCEDÊNCIA DA AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO - RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO" (e-STJ fl. 349). No recurso especial, a recorrente alega, além de divergência jurisprudencial, a violação dos arts. 6º, V, 47 e 52, incisos I a III, do Código de Defesa do Consumidor, e 28, § lº, inciso I, da Lei nº 10.931/2004, aduzindo, em síntese, que o reconhecimento da nulidade das cobranças de juros remuneratórios capitalizados diariamente deve afastar a mora do devedor. As contrarrazões foram apresentadas (e-STJ fls. 401/407) e o recurso especial foi admitido. É o relatório. EMENTA RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. TAXA DIÁRIA. ABUSIVIDADE RECONHECIDA NA ORIGEM. DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA. NECESSIDADE. JURISPRUDÊNCIA DO STJ. 1. "A insuficiência da informação acerca das taxas efetivas mensal e anual, na hipótese em que pactuada capitalização diária, sendo imprescindível, também, informação acerca da taxa diária de juros, a fim de se garantir ao consumidor a possibilidade de controle "a priori" do alcance dos encargos do contrato" (REsp 1.826.463/SC, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Segunda Seção, julgado em 14/10/2020, DJe de 29/10/2020). 2. O reconhecimento da ilegalidade da capitalização dos juros cobrada descaracteriza a mora, pressuposto necessário ao ajuizamento da ação de busca e apreensão. Precedentes. 3. Recurso especial conhecido e provido. VOTO A insurgência merece prosperar. Da análise dos autos, nota-se que o Tribunal de origem, apesar de ter declarado a nulidade das cláusulas contratuais ante a capitalização diária de juros sem a correspondente informação da pertinente taxa ao consumidor, deixou de afastar a mora do devedor. É o que se extrai do trecho do acórdão recorrido: "No presente caso, foi declarada a abusividade de trecho da cláusula relativa à capitalização de juros remuneratórios (M). De início, importante ressaltar que o acórdão supracitado afirma que os encargos abusivos "possuem para descaracterizar potencial" a mora, isto é, não a fulminam automaticamente. Assim, a mora apenas desapareceria se o descumprimento da obrigação não fosse imputado ao devedor mas sim do negócio durante o período de normalidade, de modo que ausente o abuso, a abusividade obrigação poderia ter sido cumprida. Ao folhear os autos processuais, é incontestável que a devedora não efetuou tempestivamente o pagamento da prestação mensal do contrato de financiamento (movs. 1.10 e 1.12, 1º grau). Por sua vez, a declaração de nulidade da capitalização diária de juros em nada influencia ou altera o estado de mora do devedor, visto que as prestações são calculadas a partir da taxa mensal de juros remuneratórios de 2,24% a. m., com a taxa expressamente prevista no contrato (mov. 1.9, 1º grau) e valores pré-fixados. Quer dizer, subsiste a mora do devedor em relação à prestação calculada a partir da taxa mensal de juros remuneratórios, independentemente da nulidade da capitalização diária. Situação diversa, por exemplo, seria a revisão da taxa mensal de juros, que influenciam diretamente no modo de adimplemento. Não se ignora, em homenagem à colegialidade, a existência de entendimento diverso sobre o assunto por parte dos Desembargadores Antônio Franco Ferreira da Costa Neto e Fábio Marcondes Leite, visto que na ótica destes, a ausência de informação sobre a taxa de capitalização diária acarretaria a ausência de mora. Entretanto, em benefício da decisão colegiada, ambos os magistrados ressalvam suas posições pessoais, aderindo ao entendimento havido pela maioria dos integrantes da 20ª CC, que apenas declaram a nulidade da cláusula respectiva, sem a descaracterização da mora. Portanto, resta caracterizada a mora do devedor pelo inadimplemento da prestação contratual, de forma a irradiar os efeitos moratórios" (e-STJ fls. 354/355). Dessa forma, o aresto combatido encontra-se em confronto com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, que entende que o reconhecimento da abusividade de encargos exigidos no período de normalidade contratual descaracteriza a mora. A propósito: "CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. DECISÃO MANTIDA. I. Caso em exame 1. Agravo interno interposto contra decisão que conheceu parcialmente do recurso especial, dando-lhe parcial provimento. II. Questão em discussão 2. Existência de ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015, inaplicabilidade do CDC, legalidade da capitalização diária de juros e manutenção dos efeitos da mora. III. Razões de decidir 3. A Corte local pronunciou-se de forma clara e suficiente sobre as questões suscitadas, não havendo violação do art. 1.022 do CPC/2015. 4. A revisão da conclusão sobre a hipossuficiência da empresa agravada e a aplicação do CDC demandaria incursão no campo fático-probatório, vedada na via especial pela Súmula n. 7 do STJ. 5. A ausência de informação contratual sobre a taxa de juros diária inviabiliza a cobrança de capitalização diária de juros, nos termos da jurisprudência do STJ. 6. Mantido o reconhecimento da abusividade de encargo exigido no período da normalidade contratual, a mora deve ser descaracterizada, conforme a tese firmada no Tema Repetitivo n. 28. IV. Dispositivo e tese 7. Agravo interno desprovido. Tese de julgamento: "1. A revisão de fatos e provas em sede de recurso especial é vedada pela Súmula n. 7 do STJ. 2. A capitalização diária de juros em contratos bancários requer previsão expressa da taxa de juros diária no contrato. 3. A abusividade de encargos exigidos no período de normalidade contratual descaracteriza a mora." Dispositivos relevantes citados: CPC/2015, art. 1.022. Jurisprudência relevante citada: STJ, AgInt no AREsp 2.566.896/PR, Min. Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 19.08.2024; STJ, AgInt no REsp 2.033.354/RS, Min. Humberto Martins, Terceira Turma, julgado em 13.11.2023." (AgInt nos EDcl no REsp 2.138.867/SC, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 24/2/2025, DJEN de 28/2/2025, grifou-se) "AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. TAXA DIÁRIA. INFORMAÇÃO DEFICIENTE. ILEGALIDADE. DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA. PRECEDENTES. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. "Insuficiência da informação acerca das taxas efetivas mensal e anual, na hipótese em que pactuada capitalização diária, sendo imprescindível, também, informação acerca da taxa diária de juros, a fim de se garantir ao consumidor a possibilidade de controle "a priori" do alcance dos encargos do contrato" (REsp n. 1.826.463/SC, Relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Segunda Seção, julgado em 14/10/2020, DJe 29/10/2020). 2. No caso, o acórdão recorrido diverge do entendimento firmado nesta Corte Superior no sentido da necessidade de fornecimento, pela instituição financeira, de informações claras ao consumidor acerca da periodicidade da capitalização dos juros adotada no contrato, e das respectivas taxas, sob pena de reputar abusiva a capitalização diária de juros remuneratórios. 3. O reconhecimento da ilegalidade da capitalização dos juros cobrada descaracteriza a mora, pressuposto necessário ao ajuizamento da ação de busca e apreensão. Precedentes. 4. Agravo interno desprovido." (AgInt no REsp 2.024.575/RS, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 17/4/2023, DJe de 19/4/2023, grifou-se) Ante o exposto, conheço do recurso especial e dou-lhe provimento para afastar a mora do devedor. Consequentemente, julgo improcedentes os pedidos da ação de busca e apreensão e inverto os ônus de sucumbência, fixando os honorários advocatícios em 10% (dez por cento) sobre o valor da causa, observado o benefício da justiça gratuita, se for o caso. É o voto.