CC 180974 - DECISAO
Por se tratar do cumprimento de carta precatória, não há delegação de competência jurisdicional ao juízo estadual; este atua no exercício de sua competência própria para praticar o ato processual deprecado, de modo que a competência recursal sobre decisão proferida pelo juízo deprecado é do tribunal estadual. Assim,...
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- Parties
- Suscitante: Tribunal Regional Federal da 4ª Região; Suscitado: Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina; Exequente: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA; Executado: Eniovan José de Oliveira
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 09 September 2021
- Procedural Posture
- Conflito Negativo De Competência / Conhecimento Do Incidente
- Outcome
- Conheço do conflito e declaro a competência do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina.
- Legal Topics
- Carta Precatória, Delegação De Competência, Conflito De Competência, Súmula 55/stj
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Parties
Tribunal Regional Federal da 4ª Região
Suscitante
Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina
Suscitado
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA
Exequente
Eniovan José de Oliveira
Executado
Procedural Posture
Conflito Negativo De Competência / Conhecimento Do Incidente
Legal Issues
- 1 Se a atuação do juízo estadual ao cumprir carta precatória configura delegação de competência federal
- 2 Qual tribunal é competente para julgar recurso contra decisão proferida pelo juízo deprecado no cumprimento de carta precatória
Ratio Decidendi
Por se tratar do cumprimento de carta precatória, não há delegação de competência jurisdicional ao juízo estadual; este atua no exercício de sua competência própria para praticar o ato processual deprecado, de modo que a competência recursal sobre decisão proferida pelo juízo deprecado é do tribunal estadual. Assim, deve ser declarada a competência do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina.
Court Disposition
Conheço do conflito e declaro a competência do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina.
Orders
- Publique-se.
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Vistos, etc. Trata-se de conflito negativo de competência instaurado entre o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, suscitante, e o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, suscitado, nos autos deexecução fiscal proposta pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA contra Eniovan José de Oliveira. O Juízo Federal expediu carta precatória ao Juízo Estadual para que realizasse a penhora de bens. Houve impugnação à penhora, tendo o Juízo deprecado proferido decisão na qual desconstituiu a penhora por envolver suposto bem de família. Contra a decisão proferida pelo Juízo Estadual, o IBAMA interpôs recurso de agravo de instrumento perante o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. O Tribunal de Justiça, por sua vez, declinou da competência, ao fundamento de que o juízo deprecado, ao indeferir a penhora, estaria no exercício da competência federal delegada, de modo que o recurso deveria ser apreciado pelo Tribunal Regional Federal. O TRF da 4ª Região, por sua vez, suscitou o presente conflito, explicitando que a decisão proferida pelo Juízo Estadual, na situação em exame, não decorre da competência federal delegada e sim do cumprimento de carta precatória direcionada à constrição de bem imóvel. O Ministério Público Federal opinou pela competência da Justiça Estadual (e-STJfls. 310-314). Decido. Tratando-se de conflito de competência envolvendotribunais, conheço do presente incidente, nos termos do art. 105, I, "d", da CF/88. A expedição de carta precatória para o cumprimento de atos processuais não se confunde com a delegação de competência conferida aos juízes estaduais para atuarem investidos de jurisdição federal, consoante previsto no mencionado dispositivo da Constituição. Utiliza-se da carta precatória quando o juízo pede auxílio a outro de mesmo grau jurisdicional, a fim de que adote as providências necessárias ao cumprimento de determinado ato processual a ser realizado no local em que o juízo deprecado tem competência territorial. Confira-se a redação do art. 237, III, do CPC/2015: Art. 237. Será expedida carta: .. III - precatória, para que órgão jurisdicional brasileiro pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência territorial, de ato relativo a pedido de cooperação judiciária formulado por órgão jurisdicional de competência territorial diversa; .. . Como se observa, tratando-se do cumprimento de carta precatória, não há delegação da competência jurisdicional para o julgamento da causa, como ocorre nos casos previstos no art. 109, § 3º, da CF, mas simples pedido de cooperação realizado por um juízo a outro, o qual atua nos estreitos limites do ato processual deprecado e no exercício de competência própria relacionada ao cumprimento da respectiva carta. Em tais casos, não existe ascendência jurisdicional do respectivo Tribunal Regional Federal sobre o juízo estadual deprecado. Sobre a impossibilidade de confundir-se o exercício de competência federal delegada pelo juízo estadual com a atuação deste no cumprimento de cartas precatórias, destaco julgados, há muito, proferidos pelo STJ: CONFLITO DE COMPETÊNCIA. EXECUÇÃO POR PRECATÓRIA. CAIXA ECONOMICA FEDERAL. EMBARGOS DO DEVEDOR. 1. A competência para julgar os embargos de devedor opostos à execução promovida pela CEF, contra penhora efetivada através de carta precatória, é do juízo federal deprecante. 2. O Juízo estadual deprecado não exerce função jurisdicional federal delegada; por isso, se eventualmente proferir sentença, julgando os embargos, a competência recursal de seu ato é do tribunal estadual. Conflito positivo conhecido e declarada a competência do Tribunal Estadual. (CC 10.391/PR, Rel. Min. RUY ROSADO DE AGUIAR, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 8/3/1995, DJ 27/3/1995, p. 7116). Conflito negativo de competência. Execução. Carta precatória. Embargos de terceiro. 1. O pedido de retenção por benfeitorias contém discussão ampla, envolvendo a própria ordem, do Juízo deprecante, de apreensão do bem, ao final, adjudicado. Embora o Juízo deprecado tenha praticado atos decisórios, a determinação quanto à constrição do bem, sobre o qual se pretende a retenção por benfeitorias, partiu do Juízo deprecante, suscitante. Nessa tese, a análise de questões relativas à retenção de benfeitorias no imóvel adjudicado compete ao Juízo deprecante, mormente porque o Juiz Estadual, ao cumprir carta precatória expedida por Juiz Federal, não age investido de jurisdição federal. 2. Conflito conhecido para declarar competente o Juízo Federal da 1ª Vara de Criciúma - SJ/SC. (CC 54.682/SC, Rel. Min. CARLOS ALBERTO MENEZES DIREITO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 22/11/2006, DJ 1º/2/2007, p. 390). A doutrina também reconhece essa distinção, segundo se nota dos ensinamentos de Daniel Amorim Assumpção Neves: Existe outra possibilidade de atuação de vara estadual em ação de competência Justiça Federal, mas nesse caso não haverá propriamente a delegação de competência conforme analisado. De acordo com o art. 237, parágrafo único, do Novo CPC, nas comarcas em que não houver vara federal, a carta precatória poderá ser cumprida por vara estadual, em norma confirmada pela jurisprudência tranquila do Superior Tribunal de Justiça. .. A carta precatória se presta a juízo de primeiro grau pedir o auxílio de outro juízo do mesmo grau jurisdicional para a prática de ato a ser praticado no local sobre o qual o juízo deprecado tem competência. Entendo que a carta precatória não é exceção ao princípio da indelegabilidade, porque nesses casos o juiz deprecante não tem competência para a prática do ato, de forma que ao pedir a colaboração de outro juízo nada estará delegando, afinal não se pode delegar poder que não se tenha originariamente. A carta precatória é, na realidade, a confirmação do princípio da indelegabilidade, determinando que o juízo competente pratique os atos processuais para os quais tenha competência, independentemente de onde tramita o processo (Manual de Direito Processual Civil. Volume único. 9.ed. Salvador: Ed. Jus Podivm, 2017, pp. 241- 457). Aplica-se, portanto, a orientação firmada na Súmula 55/STJ, a saber: "Tribunal Regional Federal não é competente para julgar recurso de decisão proferida por juiz estadual não investido de jurisdição federal.". Nesse sentido, destaco o seguinte precedente: PROCESSUAL CIVIL. CONFLITO DE COMPETÊNCIA. EXECUÇÃO. EMBARGOS À ARREMATAÇÃO. EMPRESA PÚBLICA FEDERAL. CONAB. CARTA PRECATÓRIA.SENTENÇA PROFERIDA PELO JUÍZO ESTADUAL. RECURSO. SÚMULA Nº 55 DO STJ. COMPETÊNCIA DO JUÍZO ESTADUAL. 1. Considerando que na hipótese em análise o recurso de apelação se voltou contra a sentença que pôs fim aos embargos à arrematação, proferida por Juízo estadual que não se encontrava investido na jurisdição federal, em razão da falta da justiça especializada na respectiva comarca, nos termos do § 3º do art. 109 da CF/88, fica clara a competência do Tribunal de Justiça gaúcho para apreciação do recurso de apelação, nos termos da Súmula nº 55 do STJ: Tribunal Regional Federal não é competente para julgar recurso de decisão proferida por juiz estadual não investido de jurisdição federal. 2. Conflito de competência conhecido para declarar competente o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. (CC 144.784/RS, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 09/03/2016, DJe 14/03/2016). Destaco, ainda, as bem lançadas ponderações contidas no parecer ofertado pelo Exmo. Subprocurador-Geral da República Dr. Nicolao Dino (e-STJfl. 313): Nos termos da carta precatória remetida ao Juízo deprecado, foi requerido auxílio para que esse adotasse providências necessárias à execução da penhora de bens do executado (fls. 29/30). Não se verifica, da análise dos autos, a existência de delegação jurisdicional. Houve, apenas, a solicitação de cooperação, nos termos e limites possibilitados pelo instrumento processual em comento. Dessarte, inexiste, aqui, função jurisdicional delegada. Assim, a competência recursal para examinar o agravo de instrumento interposto pela autarquia federal contra decisão proferida pelo Juízo deprecado é do tribunal estadual. Deverá, portanto, o TJ-SC julgar o mérito do recurso apresentado no âmbito da carta precatória, a fim de manter ou não a decisão proferida por juiz não investido de jurisdição federal. Esse entendimento coaduna-se com precedentes dessa Corte Superior. Ante o exposto, conheço do conflito para declarar a competência do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. Publique-se. Intimem-se.