CR 21331 - DECISAO
Concedeu-se o exequatur e determinou-se o cumprimento da diligência e a devolução dos autos à Justiça rogante porque a carta rogatória estava suficientemente instruída para compreensão da controvérsia, a atuação do STJ limita-se ao juízo de delibação não abrangendo o mérito da ação estrangeira, e a notificação por...
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- Parties
- Justiça Rogante: Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa; Parte Interessada/notificado: Lourival Lebre Pereira Filho; Promotora: Procuradoria da República; Justiça Destinatária/para Cumprimento: Justiça Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 26 May 2025
- Procedural Posture
- Carta Rogatória Exequatur / Decisão Sobre Exequatur E Devolução Dos Autos À Justiça Rogante
- Outcome
- Exequatur concedido; determinada a devolução dos autos à Justiça rogante por intermédio da autoridade central competente, após o cumprimento da comissão.
- Legal Topics
- Carta Rogatória, Exequatur, Cooperação Internacional, Notificação, Ampla Defesa, Contraditório, Devido Processo Legal
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Parties
Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa
Justiça Rogante
Lourival Lebre Pereira Filho
Parte Interessada/notificado
Procuradoria da República
Promotora
Justiça Federal
Justiça Destinatária/para Cumprimento
Procedural Posture
Carta Rogatória Exequatur / Decisão Sobre Exequatur E Devolução Dos Autos À Justiça Rogante
Legal Issues
- 1 suficiência da instrução da carta rogatória para compreensão da controvérsia
- 2 possibilidade de conversão da pena de multa em prisão à luz do direito brasileiro
- 3 ofensa aos princípios constitucionais do devido processo legal, ampla defesa e contraditório
Ratio Decidendi
Concedeu-se o exequatur e determinou-se o cumprimento da diligência e a devolução dos autos à Justiça rogante porque a carta rogatória estava suficientemente instruída para compreensão da controvérsia, a atuação do STJ limita-se ao juízo de delibação não abrangendo o mérito da ação estrangeira, e a notificação por carta rogatória constitui mero ato de comunicação processual que não viola a ordem pública, a soberania nacional nem os princípios constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório.
Court Disposition
Exequatur concedido; determinada a devolução dos autos à Justiça rogante por intermédio da autoridade central competente, após o cumprimento da comissão.
Orders
- Concessão do exequatur para a carta rogatória relativa ao Processo n. 1274/17.3SKLSB e cumprimento da diligência de notificação.
- Devolução dos autos à Justiça rogante por intermédio da autoridade central competente (art. 216-X do RISTJ).
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de Carta Rogatória por meio da qual a Justiça portuguesa (Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa) solicita que se proceda à notificação pessoal de Lourival Lebre Pereira Filho dos termos de sentença que o condenou, pela prática do crime de detenção de arma proibida, ao pagamento da pena de multa no valor de 300 euros, nos autos do Processo n. 1274/17.3SKLSB. Concedido o exequatur, os autos foram encaminhados à Justiça Federal para seu cumprimento. A parte interessada, representada por advogado, apresentou impugnação às fls. 59-67, na qual alega, em síntese: a) a ausência de documentos essenciais que possibilitem a ciência inequívoca da ordem judicial; b) a impossibilidade de conversão de pena de multa em prisão à luz do direito brasileiro, nos termos do art. 5º, LXVII, da CF. Por fim, requer seja denegado o exequatur em razão da ofensa aos princípios constitucionais da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal (art. 5º, LV, da CF). É o relatório. Decido. Anoto, de início, que a competência do Superior Tribunal de Justiça está adstrita à emissão de mero juízo de delibação acerca da concessão do exequatur, não sendo cabível nenhuma argumentação que envolva o mérito dos direitos objeto de apreciação nas ações em curso na Justiça rogante. Nessa perspectiva, observo que as questões indicadas pelo interessado envolvem a apreciação do mérito de aspectos suscitados no bojo da ação ajuizada na Justiça rogante, devendo, portanto, ser ali enfrentadas pela autoridade judiciária competente. Não se verifica nenhum óbice à materialização do pedido de cooperação, o qual encerra mera ciência do ajuizamento de ação estrangeira com intimação para participar da ação. Aliás, nessas circunstâncias, a efetiva ciência da demanda estrangeira abre caminho para que a parte interessada, pelos canais próprios e adequados, possa concretizar os direitos que tocam o exercício da ampla defesa, impugnando as questões de fato e de direito que considerar pertinentes. Tendo em vista que os argumentos ali expostos têm natureza de mérito, estão, portanto, fora dos estreitos limites da competência desta Corte, conforme se extrai do art. 216-Q, § 2º, do RISTJ. Não se vê nenhuma vulneração ao princípio do contraditório ou da ampla defesa. Com efeito, o pedido de diligência cooperatória envolve comunicação de ato processual, o que não contraria os princípios constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório. Afinal, o objeto da comissão destina-se apenas a dar ciência à parte interessada dos termos da Ação n. 1274/17.3SKLSB. A solicitação de cumprimento de sentença estrangeira não pode ser confundida com Carta Rogatória, que é o caso dos autos. A simples citação do interessado para responder à ação proposta no tribunal estrangeiro, por si só, não caracteriza situação de afronta à ordem pública ou à soberania nacional. Segundo entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal, "o mero procedimento citatório não produz qualquer efeito atentatório à soberania nacional ou à ordem pública, apenas possibilita o conhecimento da ação que tramita perante a Justiça alienígena e faculta a apresentação de defesa" (AgRg na CR n. 10.849-7, relator Ministro Maurício Corrêa, DJ de 21.5.2004). Confiram-se precedentes do STJ: CARTA ROGATÓRIA. AGRAVO REGIMENTAL. OFENSA À ORDEM PÚBLICA E À SOBERANIA NACIONAL. INOCORRÊNCIA. - Não se exige, tanto na legislação brasileira quanto na americana, que o ato citatório venha acompanhado de todos os documentos mencionados na petição inicial. Não há falar, desse modo, em violação dos princípios constitucionais do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa. - A prática de ato de comunicação processual é plenamente admissível em carta rogatória. A simples citação, por si só, não apresenta qualquer situação de afronta à ordem pública ou à soberania nacional, destinando-se, apenas, a dar conhecimento da ação em curso para permitir a defesa da interessada. Agravo regimental improvido. (AgRg na CR n. 535/EX, relator Ministro Barros Monteiro, DJ de 11.12.2006.) AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NA CARTA ROGATÓRIA. TRAMITAÇÃO VIA AUTORIDADE CENTRAL. TRADUÇÃO OFICIAL. DISPENSA DE TRADUÇÃO JURAMENTADA. DOCUMENTAÇÃO SUFICIENTE À COMPREENSÃO DA CONTROVÉRSIA. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO PARA O EXERCÍCIO DO DIREITO DE DEFESA. PRAZO CONTADO DA JUNTADA DA CARTA ROGATÓRIA AO PROCESSO ORIGINÁRIO. TRAMITAÇÃO DE CARTA ROGATÓRIA POR INTERMÉDIO DA AUTORIDADE CENTRAL. INEXISTÊNCIA DE COBRANÇA DE CUSTAS. DILIGÊNCIA DE SIMPLES CITAÇÃO. AUSÊNCIA DE OFENSA À ORDEM PÚBLICA OU À SOBERANIA NACIONAL. 1. A tramitação oficial de carta rogatória - por intermédio da via diplomática - pressupõe a autenticidade dos documentos anexados e dispensa a tradução por profissional juramentado no Brasil. 2. Inexiste prejuízo para a defesa da parte interessada quando é possível compreender o pedido e as informações contidas no documento traduzido em carta rogatória. 3. O prazo fixado pelo Juízo rogante inicia-se na data da juntada da carta rogatória ao processo originário. 4. Em regra, não há cobrança de custas para tramitação de cartas rogatórias por intermédio da autoridade central. 5. A simples citação da parte interessada acerca de ação que tramita na Justiça rogante não constitui, por si só, ofensa à ordem pública ou à soberania nacional, pois é mero ato de comunicação processual. 6. Agravo interno desprovido. (AgInt nos EDcl na CR n. 14.434/EX, relator Ministro João Otávio de Noronha, DJe de 25.10.2019.) A alegação de que a Carta Rogatória foi deficientemente instruída também não procede. O pedido de diligência contém todas as informações necessárias à compreensão da controvérsia e à providência requerida pela Justiça rogante. Portanto, é desnecessária a juntada de elementos informativos aos autos, conforme demonstra o seguinte precedente da Corte Especial: AGRAVO INTERNO NA CARTA ROGATÓRIA. TESE DE DEFICIÊNCIA NA INSTRUÇÃO. DOCUMENTAÇÃO SUFICIENTE PARA COMPREENSÃO DA CONTROVÉRSIA. A CONCESSÃO DE EXEQUATUR À CARTA ROGATÓRIA NÃO IMPORTA EM VIOLAÇÃO DA GARANTIA CONTRA A AUTOINCRIMINAÇÃO. DIREITO DE O AGRAVANTE NÃO PRODUZIR PROVA CONTRA SI PRESERVADO. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. A carta rogatória para a concessão do exequatur não precisa estar acompanhada de todos os documentos existentes na petição inicial e de detalhes do processo em curso, mas de peças suficientes para a compreensão da controvérsia. .. 3. Agravo interno desprovido. (AgInt na CR n. 11.000/EX, relatora Ministra Laurita Vaz, DJe de 6.12.2016.) Por fim, a diligência pretendida pela Justiça rogante não envolve o cumprimento de nenhuma ordem de prisão nem mesmo de execução da pena privativa substitutiva da pena pecuniária. Na realidade, cuida-se de Carta Rogatória puramente notificatória, nos termos da promoção da Procuradoria da República, que requereu a conversão da pena de multa. Nessa perspectiva, é crucial que a parte interessada tome ciência dos termos e atos do processo para que possa exercer a garantia da ampla defesa e, se for o caso, impugnar o mérito do requerimento formulado na Justiça rogante. Ante o exposto, devidamente cumprida a comissão, determino a devolução dos autos à Justiça rogante (art. 216-X do RISTJ) por intermédio da autoridade central competente. Publique-se. EMENTA