CR 20923 - DECISAO
O Superior Tribunal de Justiça, atuando dentro dos limites do juízo de delibação, concluiu que a carta rogatória estava devidamente instruída, que a providência de comunicação processual (citação) não viola a ordem pública nem as garantias constitucionais, e que a diligência foi cumprida com o comparecimento e...
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- Parties
- Interessada: Andrea Jacinto; Manifestante: Ministério Público Federal; Justiça Rogante: Tribunal da 11ª Vara Judicial do Condado de Miami - Dade; Parte Relacionada: Hertz
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 05 May 2025
- Procedural Posture
- Carta Rogatória (pedido De Exequatur) / Decisão De Concessão De Exequatur E Devolução Dos Autos À Justiça Rogante
- Outcome
- Exequatur concedido; autos devolvidos à Justiça rogante por intermédio da autoridade central competente.
- Legal Topics
- Citação, Exequatur, Carta Rogatória, Ordem Pública, Ampla Defesa, Contraditório, Instrução Da Rogatória, Devolução Dos Autos
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Parties
Andrea Jacinto
Interessada
Ministério Público Federal
Manifestante
Tribunal da 11ª Vara Judicial do Condado de Miami - Dade
Justiça Rogante
Hertz
Parte Relacionada
Procedural Posture
Carta Rogatória (pedido De Exequatur) / Decisão De Concessão De Exequatur E Devolução Dos Autos À Justiça Rogante
Legal Issues
- 1 Se o pedido de citação via carta rogatória viola a ordem pública ou princípios do devido processo legal no Brasil
- 2 Se a carta rogatória estava suficientemente instruída para compreensão da controvérsia
- 3 Se o Superior Tribunal de Justiça possui competência para analisar o mérito da causa estrangeira no exame de exequatur
Ratio Decidendi
O Superior Tribunal de Justiça, atuando dentro dos limites do juízo de delibação, concluiu que a carta rogatória estava devidamente instruída, que a providência de comunicação processual (citação) não viola a ordem pública nem as garantias constitucionais, e que a diligência foi cumprida com o comparecimento e impugnação da parte; por esses motivos concedeu-se o exequatur e determinou-se a devolução dos autos à Justiça rogante, cabendo à autoridade estrangeira e ao juízo rogante o exame das alegações de mérito.
Court Disposition
Exequatur concedido; autos devolvidos à Justiça rogante por intermédio da autoridade central competente.
Orders
- Conceder o exequatur nos termos dos arts. 216-O e 216-P do RISTJ.
- Determinar a devolução dos autos à Justiça rogante por intermédio da autoridade central competente (art. 216-X do RISTJ).
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de Carta Rogatória por meio do qual a Justiça americana (Tribunal da 11ª Vara Judicial do Condado de Miami - Dade) solicita que se proceda à notificação de Andrea Jacinto para tomar conhecimento da Ação Civil relativa ao Processo n. 2023- 007688-CA-0I, a fim de que, querendo, ofereça contestação no prazo de 20 dias. A parte interessada, representada por advogado constituído, habilitou-se no presente feito e apresentou impugnação (fls. 64-76). Alega, em síntese, que: a) a exigência de prazo de 20 dias corridos, sem observância das peculiaridades processuais brasileiras, deve ser considerada incompatível com os princípios que norteiam o devido processo legal no Brasil, b) incompatibilidades entre o ordenamento jurídico americano e o brasileiro, c) os termos e as condições do julgamento não são suficientemente claros, especialmente no que se refere aos prazos processuais e aos procedimentos adotados, d) falta conhecimento prévio do processo aliado à imposição de um prazo de 20 dias corridos, sem considerar as garantias processuais aplicáveis no Brasil, cria um cenário de impossibilidade de defesa efetiva e técnica, e) a documentação enviada não permite à parte requerida entender plenamente o conteúdo da demanda e f) o exequatur deve ser indeferido, uma vez que todas as obrigações e responsabilidades decorrentes do incidente foram devidamente cumpridas pela Hertz nos Estados Unidos. O Ministério Público Federal manifestou-se pela concessão do exequatur e pela devolução dos autos à origem, haja vista o comparecimento espontâneo da interessada (fls. 87-91). É o relatório. Decido. Anoto, de início, que a competência do Superior Tribunal de Justiça está adstrita à emissão de mero juízo de delibação acerca da concessão do exequatur, não sendo cabível nenhuma argumentação que envolva o mérito dos direitos que são objeto de apreciação nas ações em curso na Justiça rogante. Nessa perspectiva, observo que as questões indicadas pela interessada envolvem a apreciação do mérito de aspectos suscitados no bojo da ação ajuizada na Justiça rogante e que, portanto, devem ser ali enfrentadas pela autoridade judiciária competente. Não se vê óbice algum à materialização do pedido de cooperação que, diga-se, encerra mera ciência sobre o ajuizamento de ação estrangeira com intimação para participação do processo. Aliás, em tais circunstâncias, a efetiva ciência da demanda estrangeira abre caminho para que a parte interessada, pelos canais próprios e adequados, possa concretizar os direitos que tocam o exercício da ampla defesa, impugnando as questões de fato e de direito que considerar pertinentes. Tendo em vista que os argumentos ali expostos têm natureza de mérito, estão, portanto, fora dos estreitos limites da competência desta Corte, conforme se extrai da leitura do art. 216-Q, § 2º, do RISTJ. Confira-se: CARTA ROGATÓRIA. AGRAVO REGIMENTAL. CITAÇÃO. AÇÃO POR INADIMPLÊNCIA DE CONTRATO DE EMPRÉSTIMO. CONCESSÃO DE EXEQUATUR. VIOLAÇÃO DA ORDEM PÚBLICA. NÃO OCORRÊNCIA. QUESTÕES DE MÉRITO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ROGANTE. PRAZO PARA CONTESTAÇÃO. COMPARECIMENTO ESPONTÂNEO DA PARTE INTERESSADA. DEVOLUÇÃO DOS AUTOS À JUSTIÇA ROGANTE ANTE O CUMPRIMENTO DA DILIGÊNCIA. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. A citação da parte interessada acerca de ação em curso na Justiça rogante não constitui ofensa à ordem pública, pois é ato de comunicação processual. 2. Os documentos que instruem a rogatória enviada pela via diplomática são considerados autênticos, sendo dispensadas a chancela consular e a tradução por profissional juramentado no Brasil. 3. Cabe ao Superior Tribunal de Justiça emitir juízo meramente de delibação acerca da concessão do exequatur nas cartas rogatórias, sendo competência da Justiça rogante a análise de alegações relacionadas ao mérito da causa. 4. O prazo para contestação, em regra, começa a fluir da juntada do mandado citatório devidamente cumprido aos autos em curso na Justiça rogante, o que, por si só, dá aos interessados prazo suficiente para constituição de advogado para representar seus interesses na Justiça rogante. 5. A manifestação espontânea da parte interessada consuma o objeto da comissão, caso em que os autos são devolvidos à Justiça rogante por intermédio da autoridade central competente, sendo desnecessária a remessa à Justiça Federal. 6. Agravo regimental desprovido. (AgInt na CR n. 14.431, relator Ministro João Otávio de Noronha, julgado em 22.10.2019.) Tampouco procede a alegação de que a Carta Rogatória foi deficientemente instruída. O pedido de diligência contém todas as informações necessárias à compreensão da controvérsia e à providência requerida pela Justiça rogante. Portanto, é desnecessária a juntada de elementos informativos aos autos, como demonstra o seguinte precedente da Corte Especial: AGRAVO INTERNO NA CARTA ROGATÓRIA. TESE DE DEFICIÊNCIA NA INSTRUÇÃO. DOCUMENTAÇÃO SUFICIENTE PARA COMPREENSÃO DA CONTROVÉRSIA. A CONCESSÃO DE EXEQUATUR À CARTA ROGATÓRIA NÃO IMPORTA EM VIOLAÇÃO DA GARANTIA CONTRA A AUTOINCRIMINAÇÃO. DIREITO DE O AGRAVANTE NÃO PRODUZIR PROVA CONTRA SI PRESERVADO. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. A carta rogatória para a concessão do exequatur não precisa estar acompanhada de todos os documentos existentes na petição inicial e de detalhes do processo em curso, mas de peças suficientes para a compreensão da controvérsia. .. 3. Agravo interno desprovido. (AgInt na CR n. 11.000/EX, relatora Ministra Laurita Vaz, DJe de 6.12.2016.) Além disso, a diligência trata de comunicação de ato processual, o que não contraria os princípios constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório. A solicitação de cumprimento de sentença estrangeira não pode ser confundida com Carta Rogatória, que é a situação dos autos. Assim, "o mero procedimento citatório não produz qualquer efeito atentatório à soberania nacional ou à ordem pública, apenas possibilita o conhecimento da ação que tramita perante a justiça alienígena e faculta a apresentação de defesa" (AgRg na CR n. 10.849-7, relator Ministro Maurício Corrêa, DJ de 21.5.2004). A propósito: CARTA ROGATÓRIA. AGRAVO REGIMENTAL. OFENSA À ORDEM PÚBLICA E À SOBERANIA NACIONAL. INOCORRÊNCIA. - Não se exige, tanto na legislação brasileira quanto na americana, que o ato citatório venha acompanhado de todos os documentos mencionados na petição inicial. Não há falar, desse modo, em violação dos princípios constitucionais do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa. - A prática de ato de comunicação processual é plenamente admissível em carta rogatória. A simples citação, por si só, não apresenta qualquer situação de afronta à ordem pública ou à soberania nacional, destinando-se, apenas, a dar conhecimento da ação em curso para permitir a defesa da interessada. Agravo regimental improvido. (AgRg na CR n. 535/EX, relator Ministro Barros Monteiro, DJ de 11.12.2006.) Desse modo, o objeto desta Carta Rogatória não atenta contra a soberania nacional, a dignidade da pessoa humana e/ou a ordem pública, motivo pelo qual concedo o exequatur, nos termos dos arts. 216-O e 216-P do RISTJ. Nesse contexto, destaco que o pedido de notificação, que aqui assume a forma da citação, materializou-se com o comparecimento da parte e o oferecimento da impugnação. Nesse contexto, foi cumprida a diligência (AgInt na CR n. 11.209/EX e AgInt na CR n. 10.434/EX, ambos da relatoria da Ministra Laurita Vaz, DJe de 27/9/2017 e de 15/12/2016, respectivamente). Nessa linha: CARTA ROGATÓRIA. AGRAVO REGIMENTAL. INTIMAÇÃO PRÉVIA FEITA VIA POSTAL COM AVISO DE RECEBIMENTO ASSINADO PELO PRÓPRIO INTERESSADO. DEVOLUÇÃO DOS AUTOS À JUSTIÇA ROGANTE ANTE O CUMPRIMENTO DA DILIGÊNCIA. I - Na fase de intimação prévia, é enviada ao interessado cópia integral da comissão rogatória. II - No caso, o Aviso de Recebimento foi assinado pelo próprio interessado, o que leva à conclusão de que ele tomou conhecimento de todos os termos da rogatória em questão. III - Assim, tendo o interessado tomado conhecimento do processo em trâmite no juízo rogante, foi consumado o objeto da diligência, não havendo, portanto, necessidade de envio dos autos à Justiça Federal. Agravo regimental desprovido. (AgRg na CR n. 9.599/EX, relator Ministro Francisco Falcão, DJe de 12/6/2015.) Ante o exposto, determino a devolução dos autos à Justiça rogante (art. 216-X do RISTJ) por intermédio da autoridade central competente, com a observação de que o prazo para comparecimento perante a autoridade estrangeira será contado da juntada da Carta Rogatória aos autos do processo estrangeiro. Publique-se. EMENTA