REsp 1737819 - DECISAO
O Tribunal concluiu que, em contrato de adesão caracterizado como relação de consumo, o ajuizamento de ação pelo consumidor demonstra sua discordância em submeter a lide à arbitragem, de modo que a cláusula compromissória não pode prevalecer sem a efetiva concordância do consumidor no momento do litígio; por isso...
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- Parties
- Agravante: DELZA MARIA VELASCO NEVES; Agravante: OUTRO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 November 2021
- Procedural Posture
- Agravo Interno (com Recurso Especial Subjacente) / Reconsideração De Decisão Monocrática E Análise Do Recurso Especial
- Outcome
- Provimento do agravo interno e do recurso especial; retorno dos autos ao juízo de piso para regular processamento.
- Legal Topics
- Cláusula Compromissória, Contrato De Adesão, Renúncia À Arbitragem, Competência Arbitral, Extinção Do Processo Sem Resolução Do Mérito
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Parties
DELZA MARIA VELASCO NEVES
Agravante
OUTRO
Agravante
Procedural Posture
Agravo Interno (com Recurso Especial Subjacente) / Reconsideração De Decisão Monocrática E Análise Do Recurso Especial
Legal Issues
- 1 validade da cláusula compromissória em contrato de adesão de consumo
- 2 necessidade de concordância do consumidor no momento da instauração do litígio
- 3 efeito do ajuizamento pelo consumidor como manifestação de discordância em submeter-se à arbitragem
Ratio Decidendi
O Tribunal concluiu que, em contrato de adesão caracterizado como relação de consumo, o ajuizamento de ação pelo consumidor demonstra sua discordância em submeter a lide à arbitragem, de modo que a cláusula compromissória não pode prevalecer sem a efetiva concordância do consumidor no momento do litígio; por isso reconsiderou a decisão monocrática, deu provimento ao recurso especial e determinou o retorno dos autos ao juízo de origem para regular processamento.
Court Disposition
Provimento do agravo interno e do recurso especial; retorno dos autos ao juízo de piso para regular processamento.
Orders
- Reconsiderar a decisão de fls. 353/357 (e-STJ).
- Dar provimento ao agravo interno.
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interno, interposto por DELZA MARIA VELASCO NEVES e OUTRO, contra decisão monocrática, de lavra deste signatário, acostada às fls. 353/357 (e-STJ), quenegou provimento ao agravo (art. 1042 do CPC/15). Na origem, cuida-se de ação de rescisão contratualc.c devolução de quantias paga, ajuizada pelos ora agravantes. A sentença, considerando haver válida e "expressa previsão contratual da convenção de arbitragem", julgou "extinto o processo sem resolução de mérito com fulcro no art. 485, inc. VII, do Código de Processo Civil". Consoante se depreende dos autos, o apelo nobre, interposto com fundamento no art. 105, inc. III, alínea "a" e "c", da Constituição Federal, desafia acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso, assim ementado (fl. 241, e-STJ): APELAÇÃO CÍVEL -AÇÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL - JUIZO ARBITRAI, -PACTUAÇÃO EXPRESSA -LIVRE VONTADE DOS CONTRATANTES -RELAÇÃO CONSUMERISTA -VULNERABILIDADE INEXISTENTE -CLÁUSULA COMPROMISSÓRIA -EXTINÇÃO DO PROCESSO - ART. 485. VII, DO CPC/20 15 -RECURSO DESPROVIDO. 1. Cláusula compromissória é o ato por meio do qual as partes contratantes formalizam seu desejo de submeter à arbitragem eventuais divergências ou litígios passíveis de ocorrer ao longo da execução da avença. Efetuado o ajuste, que só pode ocorrer em hipóteses envolvendo direitos disponíveis, ficam os contratantes vinculados à solução extrajudicial da pendência. 2. É "possível a cláusula arbitral em contrato de adesão de consumo quando não se verificar presente a sua imposição pelo fornecedor ou a vulnerabilidade do consumidor, bem como quando a iniciativa da instauração ocorrer pelo consumidor ou, no caso de iniciativa do fornecedor, venha a concordar ou ratificar expressamente com a instituição, afastada qualquer possibilidade de abuso". ( STJ - Quarta Turma - REsp 1189050/SP - Rel. Ministro LUES FELIPE SALOMÃO - Julgado em 01/03/2016 - DJe do dia 14/03/2016. 3. A eleição da cláusula compromissoria é causa de extinção do processo sem julgamento do mérito, nos termos do art. 485, VII, do CPC/2015. Nas razões do recurso especial (fls. 255/288, e-STJ), os recorrentes apontaram ofensa ao artigo 51, VII, do CDC. Sustentaram, em síntese, a nulidade da cláusula de arbitragem, afirmando que tal "não prevalece se no litigio em concreto não houver a confirmação do consumidor da intenção de submeter-se a referida cláusula". Contrarrazões às fls. 335/342 (e-STJ). Após a decisão de admissão do recurso especial (fls. 344/345, e-STJ), os autos ascenderam a esta egrégia Corte de Justiça. Por decisão monocrática (fls. 353/357, e-STJ), foi desprovido o reclamo, sob o fundamento de incidência das Súmulas 7 e 83 do STJ, mantendo-se, por consequência, a higidez do acórdão estadual recorrido. Na presente oportunidade, os agravantes, em suas razões de fls. 361/379 (e-STJ), afirmam, em síntese, a inaplicabilidade das Súmulas 7 e 83/STJ, e repisam os fundamentos do recurso especial. Impugnação às fls. 382/385 (e-STJ). É o relatório. Decido. Procedem as alegações dos agravantes devendo ser reconsiderada a decisão agravada. Passo, de pronto, à análise do recurso especial. A irresignação merece prosperar. 1.Com efeito, "a validade da cláusula compromissória, em contrato de adesão caracterizado por relaçãode consumo, está condicionada à efetiva concordância do consumidor no momento da instauração do litígio entre as partes, consolidando-se o entendimento de que o ajuizamento, por ele,de ação perante o Poder Judiciário caracteriza a sua discordância em submeter-se ao Juízo Arbitral, não podendo prevalecera cláusula que impõe a sua utilização"(AgInt no AREsp 1845956/MT, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 16/08/2021, DJe 16/09/2021). A propósito: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO RESCISÓRIA DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA C/C INDENIZAÇÃO MATERIAL E MORAL. VIOLAÇÃO AO ART. 1.022, II, DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. CLÁUSULA COMPROMISSÓRIA. CONTRATO DE ADESÃO DE CONSUMO. NECESSIDADE DE CONCORDÂNCIA DO CONSUMIDOR. AGRAVO DESPROVIDO. (..) 2. Nos termos da jurisprudência firmada no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, a validade da cláusula compromissória, em contrato de adesão caracterizado por relação de consumo, está condicionada à efetiva concordância do consumidor no momento da instauração do litígio entre as partes, consolidando-se o entendimento de que o ajuizamento, por ele, de ação perante o Poder Judiciário caracteriza a sua discordância em submeter-se ao Juízo Arbitral, não podendo prevalecer a cláusula que impõe a sua utilização. 3. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp 1845956/MT, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 16/08/2021, DJe 16/09/2021) PROCESSUAL CIVIL. CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. RESCISÃO CONTRATUAL. ATRASO NA ENTREGA. APRECIAÇÃO DE TODAS AS QUESTÕES RELEVANTES DA LIDE PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. AUSÊNCIA DE AFRONTA AOS ARTS. 489 E 1.022 DO CPC/2015. AFASTAMENTO DO CDC. REQUISITOS DE RELAÇÃO CONSUMERISTA. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. INADMISSIBILIDADE. SÚMULA N. 7/STJ. INADIMPLEMENTO CONTRATUAL. DESCARACTERIZAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULAS N. 5 E 7 DO STJ. CLÁUSULA ARBITRAL. ABUSIVIDADE. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS N. 282 E 356 DO STF. ACÓRDÃO RECORRIDO EM CONSONÂNCIA COM JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE. SÚMULA N. 83/STJ. INEXISTÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO A FUNDAMENTO DA DECISÃO AGRAVADA. SÚMULA N. 182/STJ. HONORÁRIOS RECURSAIS. REVISÃO DO VALOR. DESCABIMENTO. DECISÃO MANTIDA. (..)8. De acordo com a jurisprudência do STJ, o mero ajuizamento da demanda pelo consumidor "evidencia a sua discordância em submeter-se ao procedimento arbitral, não podendo, pois, nos termos do art. 51, VII, do CDC, prevalecer a cláusula que impõe a sua utilização, visto ter-se dado de forma compulsória" (REsp n. 1.785.783/GO, Relator Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 5/11/2019, DJe 7/11/2019), entendimento aplicado pelo Tribunal a quo. Incidência da Súmula n. 83/STJ. (..) 11. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp 1786252/RJ, Rel. Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, julgado em 17/05/2021, DJe 20/05/2021) AGRAVO INTERNO NO AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE RESOLUÇÃO CONTRATUAL. CONTRATO DE ADESÃO. RELAÇÃO DE CONSUMO. CONVENÇÃO DE ARBITRAGEM. POSSIBILIDADE DE RENÚNCIA POR PARTE DO CONSUMIDOR. SÚMULA N. 83/STJ. AGRAVO INTERNO IMPROVIDO. 1. Tendo o acórdão recorrido decidido em consonância com a jurisprudência desta Corte, incide na hipótese a Súmula n. 83/STJ. Precedentes. 2. Saliente-se que a aplicação do enunciado disposto na Súmula n. 83/STJ deve ser impugnada por meio da clara demonstração de divergência de entendimentos pátrios acerca da matéria discutida, inclusive, com o cotejo de julgados paradigmas mais recentes que os utilizados na decisão de admissibilidade recursal fato não ocorrido na presente hipótese. 3. Agravo interno improvido. (AgInt no AgInt no AREsp 1602729/MT, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 10/08/2020, DJe 17/08/2020) AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL - AÇÃO COMINATÓRIA E INDENIZATÓRIA - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE NEGOU PROVIMENTO AO RECLAMO.IRRESIGNAÇÃO RECURSAL DA PARTE RÉ.(..)3. "Nos termos da jurisprudência firmada no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, a validade da cláusula compromissória, em contrato de adesão caracterizado por relação de consumo, está condicionada à efetiva concordância do consumidor no momento da instauração do litígio entre as partes, consolidando-se o entendimento de que o ajuizamento, por ele, de ação perante o Poder Judiciário caracteriza a sua discordância em submeter-se ao Juízo Arbitral, não podendo prevalecer a cláusula que impõe a sua utilização." (AgInt no AREsp 1192648/GO, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 27/11/2018, DJe 04/12/2018).(..)5. Agravo interno desprovido.(AgInt no REsp 1859707/RJ, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 29/06/2020, DJe 03/08/2020) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CLÁUSULA ARBITRAL. INVALIDADE. COMPETÊNCIA. ESSENCIALIDADE DA QUESTÃO REFERENTE À EXISTÊNCIA DE RELAÇÃO DE CONSUMO. DECISÃO MANTIDA. 1. A questão referente à existência de relação de consumo é essencial na determinação da competência para o conhecimento e a declaração de eventual nulidade da cláusula compromissória. Isso porque, de acordo com a jurisprudência do STJ: (i) na primeira hipótese (existência de relação de consumo), não sendo obrigatória a cláusula arbitral, não há como impedir que o consumidor busque, de plano, solução no Poder Judiciário, não estando obrigado a aguardar prévia manifestação de eventual árbitro, e, (ii) na segunda hipótese (inexistência de relação de consumo), compete ao Juízo Arbitral, com primazia sobre o Poder Judiciário, decidir as questões acerca da existência, da validade e da eficácia da cláusula compromissória. 2. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt nos EDcl no AgInt no AREsp 1181969/MG, Rel. Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, julgado em 14/09/2020, DJe 22/09/2020) AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. CONVENÇÃO DE ARBITRAGEM. LEGALIDADE. PROCESSUAL CIVIL. REVISÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS E DE PROVA. SÚMULAS N. 5 E 7/STJ. 1. A legislação consumerista impede a adoção prévia e compulsória da arbitragem, no momento da celebração do contrato, mas não proíbe que, posteriormente, em face de eventual litígio, havendo consenso entre as partes (em especial a aquiescência do consumidor), seja instaurado o procedimento arbitral. Precedentes. 2. Recurso especial cuja pretensão demanda reexame de cláusulas contratuais e de matéria fática da lide, o que encontra óbice na Súmula 7 do STJ. 3. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp 1152469/GO, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 08/05/2018, DJe 18/05/2018) No caso, a propositura, por parte dos consumidores, ora agravantes, deação ordinária perante o Poder Judiciário implica a renúncia, a discordância em submeter-se ao procedimento arbitral, impondo, portanto, nos termos da jurisprudência desta Corte Superior, oafastamentoda cláusula. Assim,o processo deve retornar ao juízo de piso para o seu regular processamento. 2.Do exposto, dou provimento ao agravo interno para reconsiderar a decisão de fls. 353/357, e-STJ, e, em análise ao recurso subjacente, com fundamento no art. 932 do CPC/15 c/c a súmula 568/STJ, dou provimento ao recurso especial, a fim de determinar o retorno dos autos ao juízo de piso para o seu regular processamento. Publique-se. Intimem-se.