CC 179752 - DECISAO
A competência se define ratione personae conforme art.109,I da CF; não havendo hipótese constitucional que atraia a competência federal e não existindo litisconsórcio passivo necessário que imponha a inclusão da União, aplica-se a Súmula 150/STJ para afirmar que a decisão sobre a presença da União no polo passivo...
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- Parties
- Suscitante: JUÍZO FEDERAL DA 1ª VARA DE TUBARÃO; Suscitado: TURMA RECURSAL DO JUIZADO ESPECIAL DO ESTADO DE SANTA CATARINA; Autora: Marilene Baschirotto Meurer; Réu: Estado de Santa Catarina
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 14 June 2021
- Procedural Posture
- Conflito Negativo De Competência / Conhecimento E Declaração De Competência
- Outcome
- Conheço do conflito e declaro a competência da TURMA RECURSAL DO JUIZADO ESPECIAL DO ESTADO DE SANTA CATARINA.
- Legal Topics
- Competência Jurisdicional, Fornecimento De Medicamentos Pelo SUS, Litisconsórcio Facultativo, Súmula 150/stj, Tema 793/stf
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Parties
JUÍZO FEDERAL DA 1ª VARA DE TUBARÃO
Suscitante
TURMA RECURSAL DO JUIZADO ESPECIAL DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Suscitado
Marilene Baschirotto Meurer
Autora
Estado de Santa Catarina
Réu
Procedural Posture
Conflito Negativo De Competência / Conhecimento E Declaração De Competência
Legal Issues
- 1 Se a Justiça Federal ou Estadual é competente para processar ação de fornecimento de medicamento não padronizado pelo SUS
- 2 Se a inclusão da União no polo passivo é obrigatória ou facultativa
- 3 Aplicabilidade da Súmula 150/STJ e alcance do Tema 793/STF
Ratio Decidendi
A competência se define ratione personae conforme art.109,I da CF; não havendo hipótese constitucional que atraia a competência federal e não existindo litisconsórcio passivo necessário que imponha a inclusão da União, aplica-se a Súmula 150/STJ para afirmar que a decisão sobre a presença da União no polo passivo cabe à Justiça Federal; no caso concreto, por não existir fundamento que imponha competência federal, manteve-se a competência da Justiça Estadual, observando-se que o Tema 793/STF não altera a interpretação da Súmula 150 por tratar de cumprimento de sentença e regras de ressarcimento.
Court Disposition
Conheço do conflito e declaro a competência da TURMA RECURSAL DO JUIZADO ESPECIAL DO ESTADO DE SANTA CATARINA.
Orders
- Remetam-se os autos à Primeira Turma Recursal do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina para exame do recurso inominado interposto pelo réu.
- Comunique-se a decisão aos juízos em conflito.
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de conflito negativo de competência instaurado entre o JUÍZO FEDERAL DA 1ªVARA DE TUBARÃO, o suscitante, e a TURMA RECURSAL DO JUIZADO ESPECIAL DO ESTADO DE SANTA CATARINA, o suscitado. Extrai-se dos autos que Marilene Baschirotto Meurerajuizou ação ordinária contra o Estado de Santa Catarina, em que pretende receber medicação não padronizada pelo Sistema Único de Saúde - SUS, para o tratamento da enfermidade que lhe acomete. OJuízo de Direito da 1ª Vara Cível de Braço do Norte/SCjulgou o pedido parcialmente procedente, o que ensejou a interposição de recursoinominado pelo Estado de Santa Catarina. A Primeira Turma Recursal do Juizado Especial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, amparando-se no julgamento proferido pelo STF no RE 855.178 (Tema 793), entendeu que a União deve compor o polo passivo da demanda, determinando a emenda da inicial para a sua inclusão na lide e, após, declinou da competência e remeteu os autos à Justiça Federal. O magistrado federal, sob o argumento de que a responsabilidade entre os entes federativos em matéria de saúde pública é solidária e, por tratar-se de medicamento registrado na ANVISA e não patronizado no SUS, entendeu que o caso é de litisconsórcio passivo facultativo,suscitando o presente conflito. O Ministério Público Federal manifestou-se no sentido de que seja conhecida a competência do Juízo suscitado. Passo a decidir. Nos termos do art. 955, parágrafo único, incisos I e II, do CPC/2015, o relator poderá julgar de plano o conflito de competência quando sua decisão fundar-se em súmula do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça ou em tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em incidente de assunção de competência. Por sua vez, o art. 34, XXII, do RISTJ dispõe que "são atribuições do relator: decidir o conflito de competência quando for inadmissível, prejudicado ou quando se conformar com tese fixada em julgamento de recurso repetitivo ou de repercussão geral, a entendimento firmado em incidente de assunção de competência, a súmula do Superior Tribunal de Justiça ou do Supremo Tribunal Federal, a jurisprudência dominante acerca do tema ou as confrontar". Dito isso, entendo que a competência da Justiça Federal é definida em razão das pessoas que figuram nos polos da demanda (ratione personae), à luz do art.109, I, da Carta Magna, que dispõe, in verbis: "Aos juízes federais competem processar e julgar: I - as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho." Assim, ressalvadas as exceções estabelecidas no texto constitucional, é irrelevante a natureza da controvérsia sob o enfoque do direito material ou do pedido formulado na demanda. De notar que compete à Justiça Federal decidir sobre a existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou empresas públicas (Súmula 150 do STJ), não cabendo à Justiça estadual reexaminar a decisão, manifestando-se contrariamente (Súmula 254 do STJ). Ademais, é sabido que compete ao autor a faculdade de eleger contra quem pretende demandar, assumindo inclusive os riscos inerentes a essa opção. A jurisprudência desta Corte de Justiça é pacífica no sentido de que as ações relativas à assistência à saúde pelo SUS - fornecimento de medicamentos ou de tratamento médico - podem ser propostas em desfavor de qualquer dos entes da Federação Brasileira (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), individualmente ou em conjunto, visto que a solidariedade obrigacional entre os entes federados não enseja a formação litisconsorcial passiva necessária. A parte autora escolheu litigar contra o Estado de Santa Catarina.Contudo, a Primeira Turma Recursal do Juizado Especial daquela Estado determinou a remessa dos autos à Justiça federal, por entender que a União deve figurar no polo passivo da demanda, sem que haja nenhuma situação de fato ou de direito que imponha a formação de litisconsórcio passivo necessário. Nesse contexto, não se vislumbra nenhuma das hipóteses do art.109, I, da CF/88 e, considerando que compete à Justiça Federal decidir sobre a inclusão do ente federal na relação processual, a ação em comento deve ser processada e julgada no Juízo estadual. A propósito: PROCESSO CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTOS. JUSTIÇA ESTADUAL E JUSTIÇA FEDERAL.APLICAÇÃO DA SÚMULA 150 DO STJ. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. 1. Hipótese em que o Juízo Federal afastou a União do polo passivo da lide, uma vez que sua inclusão não foi uma escolha da parte, mas decorreu do atendimento de uma decisão judicial. 2. De acordo com a decisão proferida pelo Juízo Federal, não há litisconsórcio necessário nas ações que buscam o fornecimento de medicamentos, não sendo possível ao magistrado estadual determinar a emenda da inicial para a inclusão da União no litígio. 3. Dessa forma, tendo o Juízo Federal reconhecido a ilegitimidade da União para figurar no polo passivo do litigio, é de rigor a aplicação da Súmula 150 do STJ: "Compete à Justiça Federal decidir sobre a existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou empresas públicas." 4. Afastada a legitimidade da União para figurar no polo passivo da demanda pela Justiça Federal, deve-se reconhecer a competência da Justiça Estadual para o deslinde da controvérsia. 5. Consigne-se que a tese firmada no julgamento do Tema 793 pelo Supremo Tribunal Federal, quando estabelece a necessidade de se identificar o ente responsável a partir dos critérios constitucionais de descentralização e hierarquização do SUS, relaciona-se ao cumprimento de sentença e às regras de ressarcimento aplicáveis a quem suportou o ônus financeiro decorrente do provimento jurisdicional que assegurou o direito à saúde. 6. Portanto, o julgamento do Tema 793 não modifica a interpretação da Súmula 150/STJ, mormente no presente caso, haja vista que o Juízo Federal não afastou a solidariedade entre os entes federativos, mas apenas reconheceu a existência do litisconsórcio facultativo, tendo considerado inadequada a decisão exarada pela Justiça Estadual que determinou a emenda da petição inicial para que fosse incluída a União no polo passivo da demanda. 7. Registre-se, ainda, que, no âmbito do Conflito de Competência, não se discute o mérito da ação, cumpre apenas a análise do juízo competente para o exame do litígio. 8. Agravo Interno não provido. (AgInt no CC 166.929/RS, Relator Ministro HERMAN BENJAMIN, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe 23/06/2020). PROCESSO CIVIL. AGRAVO INTERNO NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTOS. JUSTIÇA ESTADUAL QUE DETERMINA A EMENDA DA INICIAL PARA INCLUSÃO DA UNIÃO. JUSTIÇA FEDERAL. RECONHECIMENTO DO LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO. AFASTAMENTO DA UNIÃO DO POLO PASSIVO. SÚMULA 150/STJ. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. 1. Afastada a legitimidade da União para figurar no polo passivo da demanda pela Justiça Federal, deve-se reconhecer a competência da Justiça Estadual para o deslinde da controvérsia, na linha da Súmula 150/STJ e dos inúmeros precedentes desta Corte Superior. 2. No caso, a Justiça Federal excluiu a União da lide, pois a Justiça Estadual não poderia ter determinado a emenda da inicial para que houvesse a inclusão do referido ente público federal no litígio, haja vista que se está diante de um litisconsórcio facultativo. 3. A tese firmada no julgamento do Tema 793 pelo Supremo Tribunal Federal, quando estabelece a necessidade de se identificar o ente responsável a partir dos critérios constitucionais de descentralização e hierarquização do SUS, relaciona-se ao cumprimento de sentença e às regras de ressarcimento aplicáveis ao ente público que suportou o ônus financeiro decorrente do provimento jurisdicional que assegurou o direito à saúde. Logo, a referida orientação jurisprudencial não modifica a interpretação da Súmula 150/STJ, mormente porque o Juízo Federal, na situação em apreço, não afastou a solidariedade entre os entes federativos, mas apenas reconheceu a existência do litisconsórcio facultativo. 4. Ademais, no âmbito do conflito de competência, não se discute o mérito da ação, tampouco qual seria o rol de responsabilidades atribuído a cada ente federativo em relação ao Sistema Único de Saúde. Cumpre apenas a análise do juízo competente para o exame do litígio, nos termos em que apresentados o pedido e a causa de pedir. 5. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no CC 166.964/RS, Relator Ministro OG FERNANDES, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe 19/11/2019). Assim, permanecendo rígida a sentença proferida peloJuízo de Direito da 1ª Vara Cível de Braço do Norte/SC, os autos devem ser remetidos à PrimeiraTurma Recursal do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, a fim de que examine orecursoinominadointerposto pelo réu. Ante o exposto, com base no art. 34, XXII, do RISTJ, CONHEÇO do conflito para DECLARAR a competência da TURMA RECURSAL DO JUIZADO ESPECIAL DO ESTADO DE SANTA CATARINA. Comunique-se a decisão aos juízos em conflito.