CC 181407 - DECISAO
Verificado nos autos que a autora prestou serviços ao Município sob o regime jurídico estatutário, conforme Lei Municipal 149/2013, e à luz da Emenda Constitucional 45/2004 e da jurisprudência do STF (ADI 3.395/DF), concluiu-se que a relação tem natureza jurídico-administrativa, atraindo a competência da Justiça...
Source-derived case information.
- Parties
- Reclamante: LORRANY SANTOS SOUZA; Reclamado: MUNICÍPIO DE BARRA DO OURO; Suscitante: JUÍZO DA 1ª VARA DO TRABALHO DE ARAGUAÍNA/TO; Suscitado: JUÍZO DE DIREITO DA 1ª ESCRIVANIA CÍVEL DE GOIATINS/TO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 01 December 2021
- Procedural Posture
- Conflito Negativo De Competência / Decisão
- Outcome
- Conheço do Conflito e declaro competente o JUÍZO DE DIREITO DA 1ª ESCRIVANIA CÍVEL DE GOIATINS - TO.
- Legal Topics
- Competência Jurisdicional, Conflito De Competência, Regime Jurídico Estatutário, Contratação Pública, Declinação De Competência
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
LORRANY SANTOS SOUZA
Reclamante
MUNICÍPIO DE BARRA DO OURO
Reclamado
JUÍZO DA 1ª VARA DO TRABALHO DE ARAGUAÍNA/TO
Suscitante
JUÍZO DE DIREITO DA 1ª ESCRIVANIA CÍVEL DE GOIATINS/TO
Suscitado
Procedural Posture
Conflito Negativo De Competência / Decisão
Legal Issues
- 1 Qual é o juízo competente para apreciar reclamação trabalhista de pessoa que prestou serviços a ente público: Justiça do Trabalho ou Justiça Comum?
- 2 Qual o efeito do regime jurídico estatutário (instituído por lei municipal) sobre a competência para julgamento de demandas trabalhistas?
- 3 Qual é o alcance da Emenda Constitucional 45/2004 e da jurisprudência do STF (ADI 3.395/DF) quanto à competência da Justiça do Trabalho em face de servidores públicos?
Ratio Decidendi
Verificado nos autos que a autora prestou serviços ao Município sob o regime jurídico estatutário, conforme Lei Municipal 149/2013, e à luz da Emenda Constitucional 45/2004 e da jurisprudência do STF (ADI 3.395/DF), concluiu-se que a relação tem natureza jurídico-administrativa, atraindo a competência da Justiça Comum Estadual; por isso declarou-se competente o Juízo de Direito da 1ª Escrivania Cível de Goiatins - TO.
Court Disposition
Conheço do Conflito e declaro competente o JUÍZO DE DIREITO DA 1ª ESCRIVANIA CÍVEL DE GOIATINS - TO.
Orders
- Dê-se ciência aos Juízos envolvidos e ao Ministério Público Federal.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de Conflito Negativo de Competência instaurado entre o JUÍZO DA 1ª VARA DO TRABALHO DE ARAGUAÍNA/TO, suscitante, e o JUÍZO DE DIREITO DA 1ª ESCRIVANIA CÍVEL DE GOIATINS/TO, suscitado, nos autos da Ação Trabalhista proposta por LORRANY SANTOS SOUZA, em desfavor do MUNICÍPIO DE BARRA DO OURO, em que requer o pagamento de verbas trabalhistas, que entende devidas, tudo nos termos da petição inicial acostada a fls. 67/75e. A demanda foi originariamente distribuída à Justiça Comum Estadual que declinou da competência por entender que: "Trata-se de Reclamação Trabalhista. Importa ressaltar que "a competência do juízo que tenha por fundamento a matéria é absoluta, em virtude da especialização de cada vara ou juízo" (Vicente Greco Filho, Direito processual Civil, 1º volume, Ed. Saraiva - 15a edição/2000). A incompetência absoluta pode ser apreciada de ofício e declarada a qualquer tempo e grau de jurisdição, conforme artigo 64 do Código de Processo Civil/2015. Assim sendo, considerando que o Município de Barra do Ouro - TO integra a jurisdição da Vara do Trabalho da Comarca de Araguaína - TO, determino a imediata remessa dos autos, com as cautelas de praxe, para a referida Comarca, ante a flagrante incompetência deste Juízo para apreciação da demanda" (fl. 40e). Recebidos os autos, o Juízo do Trabalho, igualmente, reconheceu a incompetência para o feito e suscitou o presente Conflito, pois entende que: "Conforme expõe a petição inicial e indica os contracheques juntados a Reclamante exerceu, de 08/01/2018 a 31/12 /2020, o cargo de Secretária Municipal de Meio Ambiente, de caráter administrativo, razão pela qual refoge a esta Especializada competência para apreciar o pleito. (..) Note-se que o STF já assentou jurisprudência no sentido de que, em nenhuma hipótese, a administração pública contrata trabalhadores sob a égide da legislação privada trabalhista, razão pela qual a competência para o julgamento de ações ajuizadas por trabalhadores (lato sensu) com a administração é sempre da Justiça Comum. (..) Também vale registrar que o Supremo Tribunal Federal - STF, na ADI 2135, suspendeu a eficácia do artigo 39, caput, da Constituição, com a redação da Emenda Constitucional nº 19, de 4 de junho de 1998, que autorizava a administração pública a contratar pessoal pelo regime celetista, permanecendo, portanto, a obrigatoriedade da contratação exclusivamente pelo regime estatutário ou por contrato de natureza jurídico-administrativa, o que afasta a competência da Justiça do Trabalho para processar e julgar a causa. De destacar-se que, assim como os contratos temporários, a relação formalizada para o exercício de cargo em comissão junto ao ente público possui natureza precária e transitória, não perdendo com isso o caráter jurídico- administrativo. Com efeito, por qualquer ângulo que se analise a relação havida entre Reclamante e Reclamado, impõe-se concluir pela incompetência da Justiça do Trabalho" (fls. 81/84e). O Ministério Público Federal manifestou-se pela competência do Juízo de Direito da 1ª Escrivania Cível de Goiatins/TO, suscitado (fls. 141//2142e). De início, conheço do Conflito, porquanto se trata de controvérsia instaurada entre Juízes vinculados a Tribunais distintos, a teor do que preceitua o art. 105, I, d, da Constituição da República. Em face do advento da Emenda Constitucional 45/2004, a competência para conhecer das ações oriundas da relação de trabalho, abrangidos entes de direito público externo e da Administração Pública Direta e Indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, passou a ser da Justiça do Trabalho. O STF, porém, ao analisar a questão nos autos da ADIn 3.395/DF, em 05/04/2006, referendou liminar anteriormente concedida, que suspendera qualquer interpretação do inciso I do art. 114 da CF/88, alterado pela EC 45/2004, que atribuísse à Justiça do Trabalho a competência para apreciar causas instauradas entre o Poder Público e seus servidores, a ele vinculados por típica relação de ordem estatutária ou de caráter jurídico-administrativo. Tem-se, pois, que, se o vínculo estabelecido entre o Poder Público e o servidor for estatutário, a competência para análise das controvérsias trabalhistas será da Justiça Comum Estadual ou Federal, conforme o caso, ao passo que, na hipótese de vínculo trabalhista, regido pela CLT, caberá à Justiça Laboral o julgamento dos litígios daí advindos. Destaque-se que o Supremo Tribunal Federal já decidiu que "ao examinar a Medida Cautelar na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3.395, não excluiu da Justiça Trabalhista a competência para apreciar relação jurídica entre o Poder Público e servidor regida pela Consolidação das Leis do Trabalho" (STF, Rcl 8406 AgR-segundo, Rel. MinistroMARCO AURÉLIO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 13/05/2014, DJe de 29/05/2014). Outrossim, a definição da competência jurisdicional se dá em razão dos elementos identificadores ou constitutivos da demanda, a dizer, as partes, o pedido e a causa de pedir. No caso da Justiça do Trabalho, a causa de pedir é o elemento que atrai sua competência, esta relacionada com a fundamentação jurídica. In casu, a autora foi contratada pela municipalidade, para exercer o cargo de Secretária Municipal de Meio Ambiente, no período de 08/01/2018 a 31/12/2020, conforme se verifica da leitura da petição inicial, bem como dos documentos de fls. 118/134e. Consta dos autos, que o Município de Barra do Ouro - TO adota o regime jurídico estatutário para os servidores, de acordo com a Lei Municipal 149/2013. Nesse contexto, considerando que a pretensão da parte autora refere-se a direitos, na qual a relação jurídica entre as partes é de cunho administrativo, a competência para processamento e julgamento do feito é da Justiça Comum Estadual. A propósito: "EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. CONTROVÉRSIA SOBRE A VALIDADE DE LEI LOCAL, QUE TRANSMUDOU O REGIME CELETISTA PARA O ESTATUTÁRIO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA COMUM ESTADUAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO ACOLHIDOS, COM EFEITOS INFRINGENTES, PARA FIXAR A COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA COMUM ESTADUAL. 1. O STF, no julgamento da ADI 3.395/DF, referendou liminar anteriormente concedida, que suspendera qualquer interpretação do inciso I do art. 114 da CF/1988, alterado pela EC 45/2004, que atribuísse à Justiça do Trabalho a apreciação de causas instauradas entre o Poder Público e seus servidores, a ele vinculados por típica relação de ordem estatutária ou de caráter jurídico-administrativo. 2. A jurisprudência desta Corte, acompanhando o STF, no sentido de que, se o vínculo estabelecido entre o Poder Público e o servidor for estatutário ou de caráter jurídico-administrativo, a competência para análise das controvérsias trabalhistas será da Justiça Comum (Estadual ou Federal). 3. No caso concreto, a reclamante fez constar em sua inicial que passou a prestar serviços ao Município de Cocal/PI na função de Zeladora, por concurso público, a partir de 23/7/2001, na vigência da Lei 281/1993, que instituiu o Regime Jurídico Único, cuja competência para o julgamento da demanda é da Justiça Comum estadual, que é também competente para deliberar acerca da validade da norma local que cria ou modifica regime jurídico de natureza estatutária para os servidores públicos municipais. 4. Ante o exposto, acolho os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes, para declarar competente para processar e julgar a demanda o JUÍZO DE DIREITO DA VARA ÚNICA DE COCAL - PI" (STJ, EDcl no CC 163.441/PI, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 05/06/2020). "PROCESSUAL CIVIL. CONFLITO DE COMPETÊNCIA. JUÍZOS COMUM ESTADUAL E TRABALHISTA. RECLAMAÇÃO TRABALHISTA. CONTRATAÇÃO DE AGENTE PÚBLICO. LEI LOCAL QUE INSTITUI ESTATUTO DOS SERVIDORES. EVENTUAL NULIDADE DA NOMEAÇÃO. EVENTUAL DESNATURAÇÃO DO VÍNCULO JURÍDICO-ADMINISTRATIVO. NÃO OCORRÊNCIA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. A princípio, lei local instituiu o regime jurídico dos servidores públicos como estatutário. 2. Ademais, a contratação de pessoas pela administração pública, ainda que irregular, possui natureza de ato administrativo que atraí a competência da Justiça Comum. 3. Agravo interno não provido" (STJ, AgInt no CC 170.776/SP, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 04/03/2021). No mesmo sentido, os seguintes julgados monocráticos: STJ, CC 180.064/BA, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, DJe de 09/06/2021; CC 176.455/PE, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, DJe de 14/05/2021; CC 178.410/MA, Rel. Ministra REGINA HELENA COSTA, DJe de 06/04/2021; CC 178.379/MA, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, DJe de 06/04/2021; CC 177.061/MA, Rel. Ministro OG FERNANDES, DJe de 04/03/2021. Ante o exposto, conheço do Conflito para, à luz das peculiaridades do caso concreto, declarar competente o JUÍZO DE DIREITO DA 1ª ESCRIVANIA CÍVEL DE GOIATINS - TO, o suscitado. Dê-se ciência aos Juízos envolvidos e ao Ministério Público Federal. I.