CC 214435 - DECISAO
Concluiu-se que, havendo pedido de medicamento padronizado/incorporado (insulina constante do Grupo 1-A do CEAF/RENAME) cuja responsabilidade de custeio é da União, a demanda deve ser processada integralmente perante a Justiça Federal nos termos do item 6 do Tema 1.234/STF; o enfoque do Juízo federal no critério de...
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- Parties
- Autor(a): Julia Yukari Hirano Minei; Réu (inicial): Estado de São Paulo; Réu (inicial): Município de Suzano; Réu (incluída): União
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 05 August 2025
- Procedural Posture
- Conflito Negativo De Competência / Conhecimento E Declaração De Competência
- Outcome
- Conheço do conflito para declarar a competência do Juízo federal suscitante.
- Legal Topics
- Competência Jurisdicional, Fornecimento De Medicamentos E Dispositivos Médicos, Tema 1.234/stf, Ressarcimento Interfederativo, Incorporação Pela Conitec
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Parties
Julia Yukari Hirano Minei
Autor(a)
Estado de São Paulo
Réu (inicial)
Município de Suzano
Réu (inicial)
União
Réu (incluída)
Procedural Posture
Conflito Negativo De Competência / Conhecimento E Declaração De Competência
Legal Issues
- 1 competência para ações que demandam fornecimento de medicamentos incorporados ao SUS
- 2 aplicabilidade do Tema 1.234/STF
- 3 distinção entre medicamentos e produtos não medicamentosos (órteses, próteses e equipamentos médicos)
Ratio Decidendi
Concluiu-se que, havendo pedido de medicamento padronizado/incorporado (insulina constante do Grupo 1-A do CEAF/RENAME) cuja responsabilidade de custeio é da União, a demanda deve ser processada integralmente perante a Justiça Federal nos termos do item 6 do Tema 1.234/STF; o enfoque do Juízo federal no critério de 210 salários mínimos (aplicável a medicamentos não incorporados) foi inaplicável, e a bomba de insulina, por não ser medicamento, não se sujeita àquela regra, razão pela qual se declarou a competência do Juízo federal suscitante.
Court Disposition
Conheço do conflito para declarar a competência do Juízo federal suscitante.
Orders
- Publique-se.
- Preclusa esta decisão, dê-se baixa e arquivem-se os autos.
Full Case Text
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DECISÃO Cuida-se de conflito negativo de competência estabelecido entre a 5ª Vara Cível de Suzano - São Paulo, e Juizado Especial Federal de Mogi das Cruzes - SJ/SP, no âmbito de ação movia por Julia Yukari Hirano Minei postulando o fornecimento de "bomba de insulina Minimed 780G, além dos insumos indispensáveis, incluindo sensores de monitoramento contínuo de glicose e insulina de ação ultra-rápida" (fls. 18). A ação foi movida, inicialmente, contra o Estado de São Paulo e o Município de Suzano. Em grau de recurso de agravo de instrumento, às fls. 170-182, o TJSP deferiu a tutela de urgência e entendeu que o caso requer a inclusão da União no polo passivo, nos termos do Tema 1.234/STF. A parte autora cumpriu a determinação de emenda, passando a demandar a União, do que resultou a remessa do processo para a Justiça Federal (fls. 192). Ao receber os autos, o Juízo federal suscitou o presente incidente sob o fundamento de que "o produto requerido (bomba de infusão de insulina), apesar de possuir registro ativo na ANVISA, encontra-se pendente de incorporação na política pública do SUS", acrescentando que para ais casos de produtos "não incorporados", a União só deveria ser incluída no polo passivo quando o "custeio do tratamento" for de "valor igual ou superior a 210 salários mínimos ao ano", o que não se daria no caso em apreço (fls. 193-195). É O RELATÓRIO. SEGUE A FUNDAMENTAÇÃO. Em julgamento de agravo de instrumento, a competência da Justiça Federal foi reconhecida por se tratar de medicamento (insulina rápida - asparte) incorporado ao SUS, isto é, padronizado, integrante do grupo cujo custeio é de responsabilidade da União (Grupo 1A, conforme tabela do RENAME transcrita no corpo da própria decisão) (fls. 179-182). Foi nessa linha a compreensão que a parte autora foi intimada a incluir a União no polo passivo com a posterior remessa do feito á Justiça Federal. Portanto, o pleito não é limitado ao fornecimento de bomba de insulina, mas também do medicamento que é aplicado pela via de tal apetrecho, sendo que o fármaco em si é padronizado com o custeio e aquisição de responsabilidade da União, segundo as regras administrativas de divisão de atribuições no âmbito do SUS. Consoante decidido no Tema 1.234/STF, para medicamentos padronizados ou incorporados, como é o caso, a competência jurisdicional segue as balizadas definidas no item 6 da respectiva Tese: I - Competência. 1) Para fins de fixação de competência, as demandas relativas a medicamentos não incorporados na política pública do SUS e medicamentos oncológicos, ambos com registro na ANVISA, tramitarão perante a Justiça Federal, nos termos do art. 109, I, da Constituição Federal, quando o valor do tratamento anual específico do fármaco ou do princípio ativo, com base no Preço Máximo de Venda do Governo (PMVG - situado na alíquota zero), divulgado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED - Lei 10.742/2003), for igual ou superior ao valor de 210 salários mínimos, na forma do art. 292 do CPC. 1.1) Existindo mais de um medicamento do mesmo princípio ativo e não sendo solicitado um fármaco específico, considera-se, para efeito de competência, aquele listado no menor valor na lista CMED (PMVG, situado na alíquota zero). 1.2) No caso de inexistir valor fixado na lista CMED, considera-se o valor do tratamento anual do medicamento solicitado na demanda, podendo o magistrado, em caso de impugnação pela parte requerida, solicitar auxílio à CMED, na forma do art. 7º da Lei 10.742/2003. 1.3) Caso inexista resposta em tempo hábil da CMED, o juiz analisará de acordo com o orçamento trazido pela parte autora. 1.4) No caso de cumulação de pedidos, para fins de competência, será considerado apenas o valor do(s) medicamento(s) não incorporado(s) que deverá(ão) ser somado(s), independentemente da existência de cumulação alternativa de outros pedidos envolvendo obrigação de fazer, pagar ou de entregar coisa certa. II - Definição de Medicamentos Não Incorporados. 2.1) Consideram-se medicamentos não incorporados aqueles que não constam na política pública do SUS; medicamentos previstos nos PCDTs para outras finalidades; medicamentos sem registro na ANVISA; e medicamentos off label sem PCDT ou que não integrem listas do componente básico. 2.1.1) Conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal na tese fixada no tema 500 da sistemática da repercussão geral, é mantida a competência da Justiça Federal em relação às ações que demandem fornecimento de medicamentos sem registro na Anvisa, as quais deverão necessariamente ser propostas em face da União, observadas as especificidades já definidas no aludido tema. III - Custeio. 3) As ações de fornecimento de medicamentos incorporados ou não incorporados, que se inserirem na competência da Justiça Federal, serão custeadas integralmente pela União, cabendo, em caso de haver condenação supletiva dos Estados e do Distrito Federal, o ressarcimento integral pela União, via repasses Fundo a Fundo (FNS ao FES), na situação de ocorrer redirecionamento pela impossibilidade de cumprimento por aquela, a ser implementado mediante ato do Ministério da Saúde, previamente pactuado em instância tripartite, no prazo de até 90 dias. 3.1) Figurando somente a União no polo passivo, cabe ao magistrado, se necessário, promover a inclusão do Estado ou Município para possibilitar o cumprimento efetivo da decisão, o que não importará em responsabilidade financeira nem em ônus de sucumbência, devendo ser realizado o ressarcimento pela via acima indicada em caso de eventual custo financeiro ser arcado pelos referidos entes. 3.2) Na determinação judicial de fornecimento do medicamento, o magistrado deverá estabelecer que o valor de venda do medicamento seja limitado ao preço com desconto, proposto no processo de incorporação na Conitec (se for o caso, considerando o venire contra factum proprium/tu quoque e observado o índice de reajuste anual de preço de medicamentos definido pela CMED), ou valor já praticado pelo ente em compra pública, aquele que seja identificado como menor valor, tal como previsto na parte final do art. 9º na Recomendação 146, de 28.11.2023, do CNJ. Sob nenhuma hipótese, poderá haver pagamento judicial às pessoas físicas/jurídicas acima descritas em valor superior ao teto do PMVG, devendo ser operacionalizado pela serventia judicial junto ao fabricante ou distribuidor. 3.3) As ações que permanecerem na Justiça Estadual e cuidarem de medicamentos não incorporados, as quais impuserem condenações aos Estados e Municípios, serão ressarcidas pela União, via repasses Fundo a Fundo (FNS ao FES ou ao FMS). Figurando somente um dos entes no polo passivo, cabe ao magistrado, se necessário, promover a inclusão do outro para possibilitar o cumprimento efetivo da decisão. 3.3.1) O ressarcimento descrito no item 3.3 ocorrerá no percentual de 65% (sessenta e cinco por cento) dos desembolsos decorrentes de condenações oriundas de ações cujo valor da causa seja superior a 7 (sete) e inferior a 210 (duzentos e dez) salários mínimos, a ser implementado mediante ato do Ministério da Saúde, previamente pactuado em instância tripartite, no prazo de até 90 dias. 3.4) Para fins de ressarcimento interfederativo, quanto aos medicamentos para tratamento oncológico, as ações ajuizadas previamente a 10 de junho de 2024 serão ressarcidas pela União na proporção de 80% (oitenta por cento) do valor total pago por Estados e por Municípios, independentemente do trânsito em julgado da decisão, a ser implementado mediante ato do Ministério da Saúde, previamente pactuado em instância tripartite, no prazo de até 90 dias. O ressarcimento para os casos posteriores a 10 de junho de 2024 deverá ser pactuado na CIT, no mesmo prazo. IV - Análise judicial do ato administrativo de indeferimento de medicamento pelo SUS. 4) Sob pena de nulidade do ato jurisdicional (art. 489, § 1º, V e VI, c/c art. 927, III, § 1º, ambos do CPC), o Poder Judiciário, ao apreciar pedido de concessão de medicamentos não incorporados, deverá obrigatoriamente analisar o ato administrativo comissivo ou omissivo da não incorporação pela Conitec e da negativa de fornecimento na via administrativa, tal como acordado entre os Entes Federativos em autocomposição no Supremo Tribunal Federal. 4.1) No exercício do controle de legalidade, o Poder Judiciário não pode substituir a vontade do administrador, mas tão somente verificar se o ato administrativo específico daquele caso concreto está em conformidade com as balizas presentes na Constituição Federal, na legislação de regência e na política pública no SUS. 4.2) A análise jurisdicional do ato administrativo que indefere o fornecimento de medicamento não incorporado restringe-se ao exame da regularidade do procedimento e da legalidade do ato de não incorporação e do ato administrativo questionado, à luz do controle de legalidade e da teoria dos motivos determinantes, não sendo possível incursão no mérito administrativo, ressalvada a cognição do ato administrativo discricionário, o qual se vincula à existência, à veracidade e à legitimidade dos motivos apontados como fundamentos para a sua adoção, a sujeitar o ente público aos seus termos. 4.3) Tratando-se de medicamento não incorporado, é do autor da ação o ônus de demonstrar, com fundamento na Medicina Baseada em Evidências, a segurança e a eficácia do fármaco, bem como a inexistência de substituto terapêutico incorporado pelo SUS. 4.4) Conforme decisão da STA 175-AgR, não basta a simples alegação de necessidade do medicamento, mesmo que acompanhada de relatório médico, sendo necessária a demonstração de que a opinião do profissional encontra respaldo em evidências científicas de alto nível, ou seja, unicamente ensaios clínicos randomizados, revisão sistemática ou meta-análise. V - Plataforma Nacional. 5) Os Entes Federativos, em governança colaborativa com o Poder Judiciário, implementarão uma plataforma nacional que centralize todas as informações relativas às demandas administrativas e judiciais de acesso a fármaco, de fácil consulta e informação ao cidadão, na qual constarão dados básicos para possibilitar a análise e eventual resolução administrativa, além de posterior controle judicial. 5.1) A porta de ingresso à plataforma será via prescrições eletrônicas, devidamente certificadas, possibilitando o controle ético da prescrição, a posteriori, mediante ofício do Ente Federativo ao respectivo conselho profissional. 5.2) A plataforma nacional visa a orientar todos os atores ligados ao sistema público de saúde, possibilitando a eficiência da análise pelo Poder Público e compartilhamento de informações com o Poder Judiciário, mediante a criação de fluxos de atendimento diferenciado, a depender de a solicitação estar ou não incluída na política pública de assistência farmacêutica do SUS e de acordo com os fluxos administrativos aprovados pelos próprios Entes Federativos em autocomposição. 5.3) A plataforma, entre outras medidas, deverá identificar quem é o responsável pelo custeio e fornecimento administrativo entre os Entes Federativos, com base nas responsabilidades e fluxos definidos em autocomposição entre todos os Entes Federativos, além de possibilitar o monitoramento dos pacientes beneficiários de decisões judiciais, com permissão de consulta virtual dos dados centralizados nacionalmente, pela simples consulta pelo CPF, nome de medicamento, CID, entre outros, com a observância da Lei Geral de Proteção da Dados e demais legislações quanto ao tratamento de dados pessoais sensíveis. 5.4) O serviço de saúde cujo profissional prescrever medicamento não incorporado ao SUS deverá assumir a responsabilidade contínua pelo acompanhamento clínico do paciente, apresentando, periodicamente, relatório atualizado do estado clínico do paciente, com informações detalhadas sobre o progresso do tratamento, incluindo melhorias, estabilizações ou deteriorações no estado de saúde do paciente, assim como qualquer mudança relevante no plano terapêutico. VI - Medicamentos incorporados. 6) Em relação aos medicamentos incorporados, conforme conceituação estabelecida no âmbito da Comissão Especial e constante do Anexo I, os Entes concordam em seguir o fluxo administrativo e judicial detalhado no Anexo I, inclusive em relação à competência judicial para apreciação das demandas e forma de ressarcimento entre os Entes, quando devido. 6.1) A(o) magistrada(o) deverá determinar o fornecimento em face de qual ente público deve prestá-lo (União, estado, Distrito Federal ou Município), nas hipóteses previstas no próprio fluxo acordado pelos Entes Federativos, anexados ao presente acórdão. Esse aspecto não foi notado pelo Juízo federal ao suscitar o conflito, pois concentrou-se no critério do item 1 da Tese, acima transcrito, segundo regramento inaplicável ao caso em apreço, pois a bomba de insulina em si, por não ser medicamento, não segue aqueles parâmetros fixados no Tema 1.234/STF. Quanto ao ponto, decidiu-se no aludido precedente de maneira expressa que "no que diz respeito aos produtos de interesse para saúde que não sejam caracterizados como medicamentos, tais como órteses, próteses e equipamentos médicos, bem como aos procedimentos terapêuticos, em regime domiciliar, ambulatorial e hospitalar, insta esclarecer que não foram debatidos na Comissão Especial e, portanto, não são contemplados neste tema". Ademais, os medicamentos padronizados ou incorporados, como visto acima, não exigem o valor de 210 salários mínimos para justificar a competência da Justiça Federal, seguindo o critério do item 6 da tese vinculante. Com isso, havendo pedido de medicamento contemplado no Grupo 1-A do CEAF, de responsabilidade da União, nos termos do acordo homologado na aludida tese da repercussão geral, a demanda, como um todo, deve ser processada perante a Justiça Federal, ainda que também contenha o pedido de fornecimento de outros produtos de atenção à saúde. ANTE O EXPOSTO, nos termos do art. 34, XXII do RISTJ, conheço do conflito para declarar a competência do Juízo federal suscitante . Publique-se. Preclusa esta decisão, dê-se baixa e arquivem-se os autos. Caberá ao Juízo federal avaliar se mantém ou não as decisões anteriores, proferidas pela Justiça estadual. EMENTA