CC 213803 - DECISAO
O STJ conheceu do conflito negativo de competência e declarou competente o Juizado Regional da Infância e Juventude de Osório/RS porque a matéria dos autos refere-se a atendimento domiciliar de saúde (home care), hipótese não abrangida pelo Tema 1.234/STF (que trata de medicamentos), devendo ser observada a regra...
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- Parties
- Autor: menor, representado por sua genitora; Réu: Estado do Rio Grande do Sul; Réu: Município de Osório; Réu (incluída Pela Instância Estadual E Excluída Pela Instância Federal): União
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 06 August 2025
- Procedural Posture
- Conflito Negativo De Competência / Decisão Conhecimento Do Conflito E Declaração De Competência Do Juízo Suscitado
- Outcome
- conhecido o conflito negativo de competência e declarada competente o Juizado Regional da Infância e Juventude de Osório/RS (suscitado)
- Legal Topics
- Competência Jurisdicional, Legitimidade Passiva Da União, Judicialização Da Saúde, Fornecimento De Tratamento Domiciliar (home Care), Acordos Interfederativos, Ressarcimento Entre Entes Federativos
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Parties
menor, representado por sua genitora
Autor
Estado do Rio Grande do Sul
Réu
Município de Osório
Réu
União
Réu (incluída Pela Instância Estadual E Excluída Pela Instância Federal)
Procedural Posture
Conflito Negativo De Competência / Decisão Conhecimento Do Conflito E Declaração De Competência Do Juízo Suscitado
Legal Issues
- 1 se a União possui legitimidade passiva para figurar no polo passivo em ação que busca atendimento domiciliar de saúde
- 2 qual é a competência (Justiça Federal ou Justiça Estadual) para processar e julgar a demanda
Ratio Decidendi
O STJ conheceu do conflito negativo de competência e declarou competente o Juizado Regional da Infância e Juventude de Osório/RS porque a matéria dos autos refere-se a atendimento domiciliar de saúde (home care), hipótese não abrangida pelo Tema 1.234/STF (que trata de medicamentos), devendo ser observada a regra fixada no Tema 793/STF sobre responsabilidade solidária dos entes federativos e direcionamento do cumprimento entre estados e municípios. Além disso, o Juízo Federal havia excluído a União do polo passivo por entender ausente legitimidade ativa desta no caso concreto, circunstância que reforçou a declaração de competência da Justiça Estadual.
Court Disposition
conhecido o conflito negativo de competência e declarada competente o Juizado Regional da Infância e Juventude de Osório/RS (suscitado)
Orders
- Conhecer do conflito negativo de competência.
- Declarar competente o Juizado Regional da Infância e Juventude de Osório/RS (suscitado).
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DECISÃO Trata-se de conflito negativo de competência estabelecido entre o Juízo Federal do 2º Núcleo de Justiça 4.0 de Porto Alegre/RS (suscitante) e o Juizado Regional da Infância e Juventude de Osório/RS (suscitado), nos autos da ação de obrigação de fazer ajuizada contra o Estado do Rio Grande do Sul e o Município de Osório, para que seja disponibilizado atendimento domiciliar de saúde (home care) à parte autora (e-STJ, fls. 3-11). O Juízo estadual, onde o processo foi distribuído, reconheceu a necessidade de incluir a União no polo passivo, devido à responsabilidade solidária dos entes federativos na prestação de serviços de saúde. Após, declinou da competência para a Justiça Federal, com fundamento no art. 109, I, da CF (e-STJ, fls. 1502-1504). Ao receber os autos, o Juízo Federal não verificou legitimidade passiva da União para figurar como ré no processo, destacando que a responsabilidade pela prestação de serviços de saúde ao usuário do SUS cabe aos estados e municípios, conforme a Portaria GM/MS n. 3.005/2024 e o entendimento firmado pelo STF no tema 1.234. A decisão enfatiza que a competência para ações de saúde deve observar quem é responsável pela execução dos atos materiais de política pública, e não o custeio. Por isso, excluiu a União do polo passivo e suscitou o conflito de competência (e-STJ, fls. 1554-1561). O Ministério Público apresentou parecer favorável à competência da Justiça Estadual (e-STJ, fls. 1573-1576). Brevemente relatado, decido. O incidente tem origem em ação proposta por menor, representada por sua genitora, contra o Município de Osório e o Estado do Rio Grande do Sul, buscando atendimento domiciliar de saúde devido as suas necessidades de saúde. O Supremo Tribunal Federal finalizou o julgamento virtual decidindo o mérito do RE 1.366.243 (Tema 1.234), no qual foram homologados, em parte, três acordos interfederativos, em governança colaborativa. O acórdão ficou assim resumido, no que interessa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPERCUSSÃO GERAL. TEMA 1.234. LEGITIMIDADE PASSIVA DA UNIÃO E COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL NAS DEMANDAS QUE VERSAM SOBRE FORNECIMENTO DE MEDICAMENTOS REGISTRADOS NA ANVISA, MAS NÃO INCORPORADOS NO SUS. NECESSIDADE DE AMPLIAÇÃO DO DIÁLOGO, DADA A COMPLEXIDADE DO TEMA, DESDE O CUSTEIO ATÉ A COMPENSAÇÃO FINANCEIRA ENTRE OS ENTES FEDERATIVOS. DESIGNAÇÃO DE COMISSÃO ESPECIAL COMO MÉTODO AUTOCOMPOSITIVO DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS. INSTAURAÇÃO DE UMA INSTÂNCIA DE DIÁLOGO INTERFEDERATIVA. Questão em discussão: Análise administrativa e judicial quanto aos medicamentos incorporados e não incorporados, no âmbito do SUS. Acordos interfederativos: Análise conjunta com Tema 6. Em 2022, foi reconhecida a repercussão geral da questão relativa à legitimidade passiva da União e à competência da Justiça Federal nas demandas sobre fornecimento de medicamentos não incorporados ao SUS (tema 1234). Para solução consensual desse tema, foi criada Comissão Especial, composta por entes federativos e entidades envolvidas. Os debates resultaram em acordos sobre competência, custeio e ressarcimento em demandas que envolvam medicamentos não incorporados, entre outros temas. A análise conjunta do presente tema 1234 e do tema 6 é, assim, fundamental para evitar soluções divergentes sobre matérias correlatas. Homologação parcial dos acordos, com observações e condicionantes. I. COMPETÊNCIA 1) Para fins de fixação de competência, as demandas relativas a medicamentos não incorporados na política pública do SUS, mas com registro na ANVISA, tramitarão perante a Justiça Federal, nos termos do art. 109, I, da Constituição Federal, quando o valor do tratamento anual específico do fármaco ou do princípio ativo, com base no Preço Máximo de Venda do Governo (PMVG - situado na alíquota zero), divulgado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED - Lei 10.742/2003), for igual ou superior ao valor de 210 salários mínimos, na forma do art. 292 do CPC. 1.1) Existindo mais de um medicamento do mesmo princípio ativo e não sendo solicitado um fármaco específico, considera-se, para efeito de competência, aquele listado no menor valor na lista CMED (PMVG, situado na alíquota zero) . 1.2) No caso de inexistir valor fixado na lista CMED, considera-se o valor do tratamento anual do medicamento solicitado na demanda, podendo o magistrado, em caso de impugnação pela parte requerida, solicitar auxílio à CMED, na forma do art. 7º da Lei 10.742/2003. 1.3) No caso de cumulação de pedidos, para fins de competência, será considerado apenas o valor do(s) medicamento(s) não incorporado(s) que deverá(ão) ser somado(s), independentemente da existência de cumulação alternativa de outros pedidos envolvendo obrigação de fazer, pagar ou de entregar coisa certa. II. DEFINIÇÃO DE MEDICAMENTOS NÃO INCORPORADOS 2.1) Consideram-se medicamentos não incorporados aqueles que não constam na política pública do SUS; medicamentos previstos nos PCDTs para outras finalidades; medicamentos sem registro na ANVISA; e medicamentos off label sem PCDT ou que não integrem listas do componente básico. 2.1.1) Conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal na tese fixada no tema 500 da sistemática da repercussão geral, é mantida a competência da Justiça Federal em relação às ações que demandem fornecimento de medicamentos sem registro na Anvisa, as quais deverão necessariamente ser propostas em face da União, observadas as especificidades já definidas no aludido tema. III. CUSTEIO (..) IV. ANÁLISE JUDICIAL DO ATO ADMINISTRATIVO DE INDEFERIMENTO DE MEDICAMENTO PELO SUS (..) V. PLATAFORMA NACIONAL (..) VI. MEDICAMENTOS INCORPORADOS 6) Em relação aos medicamentos incorporados, conforme conceituação estabelecida no âmbito da Comissão Especial e constante do Anexo I, os Entes concordam em seguir o fluxo administrativo e judicial detalhado no Anexo I, inclusive em relação à competência judicial para apreciação das demandas e forma de ressarcimento entre os Entes, quando devido. 6.1) A(o) magistrada(o) deverá determinar o fornecimento em face de qual ente público deve prestá-lo (União, Estado, Distrito Federal ou Município), nas hipóteses previstas no próprio fluxo acordado pelos Entes Federativos, integrantes do presente acórdão. Em seguida: (.. .) iii) determinou que as teses acima descritas, neste tópico, sejam transformadas em enunciado sintetizado de súmula vinculante, na forma do art. 103-A da Constituição Federal, com a seguinte redação: "O pedido e a análise administrativos de fármacos na rede pública de saúde, a judicialização do caso, bem ainda seus desdobramentos (administrativos e jurisdicionais), devem observar os termos dos 3 (três) acordos interfederativos (e seus fluxos) homologados pelo Supremo Tribunal Federal, em governança judicial colaborativa, no tema 1.234 da sistemática da repercussão geral (RE 1.366.243)". Ademais, para que não ocorram dúvidas quanto ao precedente a ser seguido e diante da continência entre dois paradigmas de repercussão geral, por reputar explicitado de forma mais clara nestes acordos interfederativos, que dispõem sobre medicamentos incorporados e não incorporados no âmbito do SUS, de forma exaustiva, esclareceu que está excluída a presente matéria do tema 793 desta Corte. No que diz respeito aos produtos de interesse para saúde que não sejam caracterizados como medicamentos, tais como órteses, próteses e equipamentos médicos, bem como aos procedimentos terapêuticos, em regime domiciliar, ambulatorial e hospitalar, esclareceu que não foram debatidos na Comissão Especial e, portanto, não são contemplados neste tema 1.234. (..) VII. OUTRAS DETERMINAÇÕES (..) VIII. MODULAÇÃO DE EFEITOS TÃO SOMENTE QUANTO À COMPETÊNCIA: somente haverá alteração aos feitos que forem ajuizados após a publicação do resultado do julgamento de mérito no Diário de Justiça Eletrônico, afastando sua incidência sobre os processos em tramitação até o referido marco, sem possibilidade de suscitação de conflito negativo de competência a respeito dos processos anteriores ao referido marco. IX. PROPOSTA DE SÚMULA VINCULANTE: "O pedido e a análise administrativos de fármacos na rede pública de saúde, a judicialização do caso, bem ainda seus desdobramentos (administrativos e jurisdicionais), devem observar os termos dos 3 (três) acordos interfederativos (e seus fluxos) homologados pelo Supremo Tribunal Federal, em governança judicial colaborativa, no tema 1.234 da sistemática da repercussão geral (RE 1.366.243)". Por sua vez, a Primeira Seção do STJ, na sessão realizada em 27/11/2024, exerceu juízo de retratação para revogar as teses em abstrato firmadas no IAC 14 do STJ, que também tratava do mesmo assunto, destacando, contudo, a ausência de efeito retroativo. Não obstante toda essa evolução jurisprudencial, foi expressamente esclarecido pelo Supremo Tribunal Federal que "produtos de interesse para saúde que não sejam caracterizados como medicamentos, tais como órteses, próteses e equipamentos médicos, bem como nos procedimentos terapêuticos, em regime domiciliar, ambulatorial e hospitalar" não foram contemplados pelo Tema 1.234. Diante disso, não se aplica à hipótese dos autos o entendimento vinculante acima delineado, devendo ser observar o Tema n. 793 do STF, firmado no julgamento do RE n. 855.178/SE, o qual fixou a seguinte tese: Os entes da federação, em decorrência da competência comum, são solidariamente responsáveis nas demandas prestacionais na área da saúde, e diante dos critérios constitucionais de descentralização e hierarquização, compete à autoridade judicial direcionar o cumprimento conforme as regras de repartição de competências e determinar o ressarcimento a quem suportou o ônus financeiro. No caso dos autos, o Juízo federal, aplicando o Tema n. 793/STF, concluiu que a União não possui legitimidade passiva para figurar como ré no presente feito, pois a responsabilidade pela prestação material de saúde ao usuário do SUS cabe aos estados e municípios, conforme a organização do SUS e a Portaria GM/MS n. 3.005/2024. Nessa toada, importante destacar os Enunciados n. 150 e 254 da Súmula de jurisprudência desta Corte, respectivamente: Compete à Justiça Federal decidir sobre a existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou empresas públicas. A decisão do Juízo Federal que exclui da relação processual ente federal não pode ser reexaminada no Juízo Estadual. No mesmo sentido, confiram-se: CC n. 209.744, Ministro Paulo Sérgio Domingues, DJEN 23/12/2024; CC n. 209.404, Ministro Gurgel de Faria, DJEN 23/12/2024; CC n. 210.159, Ministro Francisco Falcão, DJEN 13/12/2024. De rigor, pois, seja declarada a competência da justiça estadual. Ante o exposto, nos termos do art. 34, XXII, do RISTJ, conheço do conflito negativo de competência para declarar competente o Juizado Regional da Infância e Juventude de Osório/RS (suscitado). Publique-se. EMENTA CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. FORNECIMENTO DE TRATAMENTO MÉDICO. ENTENDIMENTO FIRMADO NO TEMA N. 1.234/STF. INAPLICABILIDADE. OBSERVÂNCIA DO TEMA 793/STF. CONFLITO CONHECIDO PARA DECLARAR COMPETENTE O JUÍZO SUSCITADO.