CC 214632 - DECISAO
Por se tratar de pedido relativo a procedimento cirúrgico (implante de estimulador de nervo vago) e não ao fornecimento de medicamento, o Tema 1.234/STF não é aplicável à alteração de competência neste caso; diante da exclusão da União pelo Juízo Federal e da determinação de inclusão do Estado de Goiás pelo Tribunal...
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- Parties
- Impetrante: José Antônio dos Santos Lucas; Impetrado: Secretário Municipal de Saúde de Anápolis; Apelante: Município de Anápolis; Entidade Incluída No Polo Passivo (discussão Sobre Legitimidade): União; Entidade Incluída No Polo Passivo: Estado de Goiás; Suscitante (juízo Federal): Juízo Federal da 2ª Vara de Anápolis - SJ/GO; Suscitado (juízo Estadual): Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública de Anápolis-GO; Interveniente (parecer): Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 11 September 2025
- Procedural Posture
- Conflito Negativo De Competência / Decisão
- Outcome
- Conheço do conflito negativo de competência e declaro competente o Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública Estadual (Juízo suscitado).
- Legal Topics
- Competência Jurisdicional, Tema 1.234/stf, Tema 793/stf, Súmulas 150, 224 E 254 Do STJ, Mandado De Segurança, Fornecimento De Procedimento Cirúrgico (vns)
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Parties
José Antônio dos Santos Lucas
Impetrante
Secretário Municipal de Saúde de Anápolis
Impetrado
Município de Anápolis
Apelante
União
Entidade Incluída No Polo Passivo (discussão Sobre Legitimidade)
Estado de Goiás
Entidade Incluída No Polo Passivo
Juízo Federal da 2ª Vara de Anápolis - SJ/GO
Suscitante (juízo Federal)
Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública de Anápolis-GO
Suscitado (juízo Estadual)
Ministério Público Federal
Interveniente (parecer)
Procedural Posture
Conflito Negativo De Competência / Decisão
Legal Issues
- 1 qual o juízo competente para demandas que pleiteiam tratamento/procedimento de saúde não caracterizado como medicamento
- 2 aplicabilidade do Tema 1.234/STF a procedimentos cirúrgicos e a materiais não padronizados pelo SUS
- 3 inclusão da União no polo passivo e legitimidade passiva da União
Ratio Decidendi
Por se tratar de pedido relativo a procedimento cirúrgico (implante de estimulador de nervo vago) e não ao fornecimento de medicamento, o Tema 1.234/STF não é aplicável à alteração de competência neste caso; diante da exclusão da União pelo Juízo Federal e da determinação de inclusão do Estado de Goiás pelo Tribunal local, aplica-se a responsabilidade solidária dos entes (Tema 793/STF) e as Súmulas 150, 224 e 254 do STJ, concluindo-se pela competência do Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública Estadual para o prosseguimento da demanda.
Court Disposition
Conheço do conflito negativo de competência e declaro competente o Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública Estadual (Juízo suscitado).
Orders
- Declaro competente o Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública Estadual.
- Publique-se.
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de conflito negativo de competência instaurado entre o Juízo Federal da 2ª Vara de Anápolis - SJ/GO, suscitante, e o Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública de Anápolis-GO, suscitado, nos autos de ação em que se postula a realização de procedimento cirúrgico denominado Estimulador de Nervo Vago (VNS) para tratamento de epilepsia (CID G 40 e G 40.2). Extrai-se dos autos que José Antônio dos Santos Lucas impetrou mandado de segurança perante o Juízo da Vara da Fazenda Pública Municipal de Anápolis, contra ato atribuído ao Secretário Municipal de Saúde de Anápolis. Alegou ser portador de epilepsia (CID G40 e G40.2) e transtorno de humor persistente com distimia (CID F34.1), necessitando com urgência de procedimento cirúrgico de implante de estimulador de nervo vago (VNS), prescrito por seus médicos. Sustentou, ainda, a ausência de condições financeiras para custear o tratamento e omissão administrativa da Secretaria Municipal de Saúde de Anápolis, que não providenciou o procedimento. Assim, pugnou pela realização do procedimento cirúrgico, em sede liminar e, no mérito, a confirmação da segurança para compelir o fornecimento do procedimento. O Juízo da Vara da Fazenda Pública Municipal proferiu decisão deferindo a tutela provisória de urgência, determinando ao Secretário Municipal de Saúde de Anápolis que promovesse, em prazo razoável, o fornecimento do procedimento cirúrgico requerido, o qual foi realizado em 14/03/2023. Após o regular trâmite da ação mandamental, sobreveio sentença concedendo em definitivo a segurança para garantir ao impetrante o direito ao procedimento cirúrgico de implante de VNS. Interposto recurso de apelação pelo Município de Anápolis, a sentença foi cassada, por meio de decisão monocrática, determinando a inclusão da União e do Estado de Goiás no polo passivo da lide, com fundamento no Tema 1.234 do Supremo Tribunal Federal. Apesar de a União ter interposto agravo interno contra tal decisão, o recurso foi desprovido e o Tribunal manteve a decisão monocrática por seus próprios fundamentos. Com o retorno dos autos, o Juízo da Vara da Fazenda Pública Municipal de Anápolis declarou-se incompetente e determinou a remessa dos autos à Justiça Federal. O feito foi redistribuído ao Juízo da 2ª Vara Federal Cível e Criminal da SSJ de Anápolis/GO, que reconheceu a ilegitimidade passiva da União, declarou a incompetência daquele juízo para processar e julgar o writ e determinou a devolução dos autos dos autos ao Juízo de origem. (fls. 6-8) Ato contínuo, considerando que o Estado de Goiás se encontra no polo passivo, o Juízo da Vara da Fazenda Pública Municipal de Anápolis determinou a remessa dos autos ao Juízo da Vara da Fazenda Pública Estadual, o qual, afastando a aplicação da Súmula 224 do STJ ao caso, determinou o retorno dos autos ao Juízo Federal, a fim de que suscitasse o conflito de competência. (fls. 9-11) O Juízo Federal, ao receber novamente os autos, suscitou o presente conflito de competência. Informações prestadas pelo Juízo estadual às fls. 31-39. Parecer do Ministério Público Federal opinando pela competência do Juízo da Vara da Fazenda Pública de Anápolis. (fls. 43-45) É o relatório. Decido. Preliminarmente, mister se faz um pequeno resumo de todo o arcabouço jurisdicional que se formou a respeito da temática. Com efeito, após a deliberação a respeito do que foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal nos Temas n. 500 e 793/STF, esta Corte passou a consignar acerca da inexistência de obrigatoriedade de inclusão de todos os entes federados no polo passivo das ações que pleiteiam o fornecimento de medicamentos que não constem da Rename/SUS, mas que já sejam registrados na Anvisa. No sentido, os seguintes precedentes: AgInt nos EDcl no CC n. 182.610/SC, relator Ministro Francisco Falcão, Primeira Seção, DJe de 1º/7/2002, AgInt no CC n. 177.314/SC, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Seção, DJe 22/3/2022. No entanto, considerando a grande repercussão social e relevante questão de direito da matéria ora debatida, notadamente a aplicação das Súmulas n. 150, 224 e 254 do Superior Tribunal de Justiça, foi realizada a proposta de instauração de incidente de assunção de competência nos autos dos CCs n. 187.276/RS, 187.533/SC e 188.0002/SC, a fim de definir o Juízo competente e, se for o caso, evitar a declinação de competência para a Justiça Federal nas hipóteses em que essa medida não se mostrar cabível - IAC n. 14, da relatoria do Ministro Gurgel de Faria. A referida proposta foi acolhida à unanimidade na sessão de julgamento virtual publicada em 13/6/2022, conforme voto do relator, em acórdão assim ementado: PROCESSUAL CIVIL. INCIDENTE DE ASSUNÇÃO DE COMPETÊNCIA. DIREITO À SAÚDE. MEDICAMENTO NÃO INCORPORADO AO SUS E REGISTRADO NA ANVISA. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUÍZOS FEDERAL E ESTADUAL. PROPOSTA. ACOLHIMENTO. 1. Trata-se de proposta de incidente de assunção de competência, nos termos do art. 947 do Código de Processo Civil/2015, em conflito negativo de competência instaurado nos autos de ação ordinária que versa sobre o fornecimento de medicação não padronizada pelo Sistema Único de Saúde - SUS. 2. A instauração do presente incidente visa unicamente decidir o juízo competente para o julgamento de demanda relativa à dispensação de tratamento médico não incluído nas políticas públicas, sendo o conflito de competência o processo adequado para dirimir a questão de direito processual controvertida, sem que haja necessidade de adentrar no mérito da causa (onde suscitado o conflito) - ainda que a discussão se refira a preliminar, como, no caso, a legitimidade ad causam - nem em eventual nulidade da decisão do Juízo Federal, matérias que devem ser analisadas no bojo da ação ordinária. 3. Delimitação da tese controvertida: Tratando-se de medicamento não incluído nas políticas públicas, mas devidamente registrado na ANVISA, analisar se compete ao autor a faculdade de eleger contra quem pretende demandar, em face da responsabilidade solidária dos entes federados na prestação de saúde, e, em consequência, examinar se é indevida a inclusão da União no polo passivo da demanda, seja por ato de ofício, seja por intimação da parte para emendar a inicial, sem prévia consulta à Justiça Federal. 4. Proposta de julgamento do tema mediante a sistemática do incidente de assunção de competência acolhida. (IAC no CC n. 187.276/RS, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Seção, julgado em 31/5/2022, DJe de 13/6/2022.) Na ocasião, foram estabelecidas como necessárias as seguintes medidas: .. c) manutenção do curso das ações que versem sobre a dispensação de tratamento/medicamento não incluído nas políticas públicas, visto que a suspensão dos feitos poderia causar dano de difícil reparação àqueles que necessitam da tutela do direito à saúde; d) havendo conflito de competência, fica, nos termos do art. 955 do CPC/2015, designado o Juízo estadual para decidir, em caráter provisório, as medidas urgentes referentes aos processos em comento; .. Na sequência, em atenção ao princípio da segurança jurídica e tendo em vista que, mesmo após a afetação do IAC, os declínios mútuos de competência entre as Justiças Estaduais e Federais persistiram, resultando na instauração e consequente distribuição de conflitos ao Superior Tribunal de Justiça, consignou-se em questão de ordem que: .. até o julgamento definitivo do incidente de assunção de competência (IAC), o Juiz estadual deverá abster-se de praticar qualquer ato judicial de declinação de competência nas ações que versem sobre tema idêntico ao destes autos, de modo que o processo deve prosseguir na jurisdição estadual. O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, considerando o atual quadro de instabilidade processual, em decisão proferida em 11/4/2023, nos autos do RE n. 1.366.243/SC, que discutia, à luz dos arts. 23, II, 109, I, 196, 197 e 198, I, da Constituição Federal, a obrigatoriedade de a União constar do polo passivo de lide que verse sobre a obtenção de tratamento ou medicamento não incorporado nas políticas públicas do SUS, embora registrado pela Anvisa, reconheceu a repercussão geral da matéria, descrita no Tema n. 1.234. Na ocasião, determinou-se a suspensão nacional do processamento dos recursos especiais e extraordinários que tratam da questão controvertida no aludido Tema n. 1.234, inclusive, dos processos em que se discute a aplicação do Tema n. 793 da Repercussão Geral, até o julgamento definitivo do recurso extraordinário, ressalvado o deferimento ou ajuste de medidas cautelares. A Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, em sessão realizada em 12/4/2023, ao ponderar que o comando exarado pela Suprema Corte, nos autos da Repercussão Geral n. 1.366.243 (Tema n. 1.234) não abrangeria o julgamento do IAC n. 14, visto que instaurado no conflito de competência, procedeu ao julgamento de mérito do referido incidente, e, por unanimidade, firmou a seguinte tese: a. Nas hipóteses de ações relativas à saúde intentadas com o objetivo de compelir o Poder Público ao cumprimento de obrigação de fazer consistente na dispensação de medicamentos não inseridos na lista do SUS, mas registrado na ANVISA, deverá prevalecer a competência do juízo de acordo com os entes contra os quais a parte autora elegeu demandar; b. as regras de repartição de competência administrativas do SUS não devem ser invocadas pelos magistrados para fins de alteração ou ampliação do polo passivo delineado pela parte no momento da propositura da ação, mas tão somente para fins de redirecionar o cumprimento da sentença ou determinar o ressarcimento da entidade federada que suportou o ônus financeiro no lugar do ente público competente, não sendo o conflito de competência a via adequada para discutir a legitimidade ad causam, à luz da Lei n. 8.080/1990, ou a nulidade das decisões proferidas pelo Juízo estadual ou federal, questões que devem ser analisada no bojo da ação principal. c. a competência da Justiça Federal, nos termos do art. 109, I, da CF/88, é determinada por critério objetivo, em regra, em razão das pessoas que figuram no polo passivo da demanda (competência ratione personae), competindo ao Juízo federal decidir sobre o interesse da União no processo (Súmula 150 do STJ), não cabendo ao Juízo estadual, ao receber os autos que lhe foram restituídos em vista da exclusão do ente federal do feito, suscitar conflito de competência (Súmula 254 do STJ). (CC n. 187.276/RS, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Seção, DJe 18/4/2023.) Por conseguinte, em atenção ao referido pronunciamento desta Corte, o pretório excelso concedeu tutela provisória incidental no RE n. 1.366.243/SC, para estabelecer que, até o julgamento definitivo do Tema n. 1.234 da Repercussão Geral, fossem observados os seguintes parâmetros: 5.1. nas demandas judiciais envolvendo medicamentos ou tratamentos padronizados: a composição do polo passivo deve observar a repartição de responsabilidades estruturada no Sistema Único de Saúde, ainda que isso implique deslocamento de competência, cabendo ao magistrado verificar a correta formação da relação processual; 5.2. nas demandas judiciais relativas a medicamentos não incorporados: devem ser processadas e julgadas pelo Juízo, estadual ou federal, ao qual foram direcionadas pelo cidadão, sendo vedada, até o julgamento definitivo do Tema 1234 da Repercussão Geral, a declinação da competência ou determinação de inclusão da União no polo passivo; 5.3. diante da necessidade de evitar cenário de insegurança jurídica, esses parâmetros devem ser observados pelos processos sem sentença prolatada; diferentemente, os processos com sentença prolatada até a data desta decisão (17 de abril de 2023) devem permanecer no ramo da Justiça do magistrado sentenciante até o trânsito em julgado e respectiva execução (adotei essa regra de julgamento em: RE 960429 ED-segundos Tema 992, de minha relatoria, DJe de 5.2.2021); 5.4. ficam mantidas as demais determinações contidas na decisão de suspensão nacional de processos na fase de recursos especial e extraordinário. (TPI no RE 1.366.243/SC, Rel. Ministro Gilmar Mendes, DJE 17/04/2023.) Recentemente, em 16/09/2024, o Supremo Tribunal Federal julgou o mérito do Tema 1.234/STF, ressalvando, no item VIII da ementa, que somente haverá alteração, quanto à competência, no que diz respeito aos feitos que forem ajuizados após a publicação do resultado do julgamento de mérito no Diário de Justiça Eletrônico, afastando, assim, a sua incidência sobre os processos em tramitação até o referido marco, sem possibilidade de suscitação de conflito negativo de competência a respeito dos processos anteriores ao aludido período. A propósito, segue transcrição, na parte que interessa, do referido acórdão: 5) Modulação dos efeitos quanto à competência do órgão jurisdicional O art. 926, § 3º, do Código de Processo Civil preconiza que: "Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente. .. § 3º. Na hipótese de alteração de jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal e dos tribunais superiores ou daquela oriunda de julgamento de casos repetitivos, pode haver modulação dos efeitos da alteração no interesse social e no da segurança jurídica". Apesar de não estar ocorrendo propriamente alteração de jurisprudência dominante do STF sobre a competência, considero que o acordo sinalizou uma modificação da situação jurídico-processual de vários processos, atualmente em tramitação, em todos os graus de jurisdição, os quais teriam que ser remetidos para a Justiça Federal, naquilo que divergir de parcela dos termos do acordo firmado nesta Corte. Quanto a estes processos e unicamente quanto à competência jurisdicional, para que não haja qualquer prejuízo às partes, mais notadamente os milhares de cidadãos brasileiros que ajuizaram ações em foros competentes, de acordo com a cautelar firmada por mim e ratificada pelo Plenário do STF, tenho que, diante das dramáticas situações de saúde e de vida presentes em cada demanda e, considerando os posicionamentos recentes do STF sobre a consequência do julgamento pelo STF em controle difuso ou concentrado de constitucionalidade, tenho que os efeitos dos acordos, unicamente quanto à modificação de competência (item 1, caput, da tese a seguir proposto), somente incidirão sobre os processos ajuizados após a publicação da ata deste julgamento. Dito de outro modo: serão atingidos, unicamente quanto ao deslocamento de competência (item 1 do acordo firmado na Comissão Especial no STF), pelo resultado do julgamento de mérito deste recurso extraordinário, submetido à sistemática da repercussão geral, apenas os processos ajuizados posteriormente à publicação da ata de julgamento. Consequentemente, os feitos ajuizados até tal marco deverão atender os efeitos da cautelar deferida nestes autos e homologada pelo Plenário do STF, mantendo-se onde estiverem tramitando sem deslocamento de competência (sendo vedado suscitar conflito negativo de competência entre órgãos jurisdicionais de competência federal e estadual, reciprocamente), todavia, aplicando-se imediatamente todos os demais itens dos acordos. Diante desse cenário, apesar de homologar, em parte, os exatos termos dos acordos - e apenas para que não pairem dúvidas de que se trata de modulação unicamente quanto ao deslocamento de competência (item 1) -, proponho que esta somente se aplique aos feitos que forem ajuizados após a publicação da ata do julgamento de mérito no Diário de Justiça Eletrônico, de sorte a afastar sua incidência quanto aos processos em tramitação até o referido marco. Por fim, apenas a fim de inteirar o cenário jurisprudencial acerca da matéria, a Primeira Seção desta Corte, em sessão de julgamento realizada no dia 27/11/2024, por unanimidade, em juízo de retratação, revogou as teses em abstrato firmadas no IAC 14, por contrariar o entendimento firmado em repercussão geral (Tema 1.234), destacando, contudo, a ausência de efeito retroativo. Na espécie, trata-se de ação ajuizada no ano de 2022, na qual se postula o fornecimento de procedimento cirúrgico de implante de estimulador de nervo vago (VNS). Com efeito, nos casos em que não se trata de pleito referente a fornecimento de medicamento, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao concluir o julgamento do mérito do Recurso Extraordinário nº 1.366.243/SC (Tema 1.234) com repercussão geral, expressamente, estabeleceu que: "No que diz respeito aos produtos de interesse para saúde que não sejam caracterizados como medicamentos, tais como órteses, próteses e equipamentos médicos, bem como aos procedimentos terapêuticos, em regime domiciliar, ambulatorial e hospitalar, esclareceu que não foram debatidos na Comissão Especial e, portanto, não são contemplados neste tema 1.234". Assim, o procedimento objeto da ação da qual o presente conflito deriva não foi examinado quando da fixação da tese relativa ao Tema 1.234/STF. Desse modo, no caso, deve se observar a jurisprudência consolidada deste Superior Tribunal de Justiça sobre a matéria, que se firmou no sentido da responsabilidade solidária dos entes federativos nas ações em que se busca prestações relativas à assistência à saúde no âmbito do SUS, nos termos do Tema n. 793/STF (RE n. 855.178-SE), e que o polo passivo da ação respectiva pode ser composto por qualquer um deles, isolada ou conjuntamente. A decisão do Juízo Federal expressamente consignou a ausência de responsabilidade da União para o tratamento médico, nos seguintes termos (fl. 7): Devo iniciar a súmula n. 150/STJ que disciplina que "Compete à Justiça Federal decidir sobre a existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou empresas públicas". No caso dos autos, não há razão que justifique a inclusão da União no polo passivo, devendo os autos retornarem ao juízo estadual, pelas razões que passo a expor adiante. Em primeiro lugar, há que se ponderar que o procedimento cirúrgico objeto do mandado de segurança fora realizado pelo impetrante às expensas do Município. Nesse ponto, privilegia-se o tema 793/STF que, em razão da solidariedade entre os entes, o autor pode escolher contra quem demandar, tendo sido demandado o Secretario de Saúde do Município de Anápolis. Dessa forma, realizado o procedimento, não há raciocínio que leve a inclusão da União após sentença de concessão da segurança, uma vez que, nesse ponto a discussão está voltada ao custeio do procedimento já realizado. Além disso, o Tema 1.234/STF ao fixar suas teses acerca das regras de competência tratou do fornecimento de medicamentos, não se encaixando, portanto, no caso ora em análise que diz respeito a procedimento cirúrgico de estimulação de nervo vago (VNS). Em que pese ter sido referendada pelo STF, em 18 de abril de 2023, a decisão antecipatória, no sentido de conceder parcialmente o pedido formulado em tutela provisória incidental, para estabelecer que, até o julgamento definitivo do Tema 1234 da Repercussão Geral, a atuação do Poder Judiciário fosse regida pelos parâmetros lá determinados, sendo, um deles, o de que "(i) nas demandas judiciais envolvendo medicamentos ou tratamentos padronizados: a composição do polo passivo deve observar a repartição de responsabilidades estruturada no Sistema Único de Saúde, ainda que isso implique deslocamento de competência, cabendo ao magistrado verificar a correta formação da relação processual, sem prejuízo da concessão de provimento de natureza cautelar ainda que antes do deslocamento de competência, se o caso assim exigir", não se pode afirmar que o tratamento realizado pelo impetrante se encaixe em "tratamento padronizado", contido na decisão. O tratamento realizado pelo impetrante tratou de procedimento já padronizado no SUS, no entanto, envolveu materiais tais como "kit de estimulador de nervo vago; gerador; tunelizador; conexões e imãs" não cobertos pela tabela SIGTAP. Nesse ponto, portanto, merece acolhimento o argumento da União (id 2170856698 - Pág. 74), em sede de Agravo Interno, de que "o procedimento padronizado objeto dos autos é de execução exclusiva do Estado e do Município impetrante, não havendo, assim, que se falar em inclusão da União na demanda". .. . No caso concreto, deve ser aplicado, à espécie, o entendimento consolidado nas Súmulas n. 150, 224 e 254 do STJ, porquanto afastada, pela Justiça Federal, a legitimidade passiva da União para a causa. A propósito: AGRAVO INTERNO NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA. TRATAMENTO CIRÚRGICO PELO SUS. TEMA 793/STF. SOLIDARIEDADE ENTRE ENTES FEDERADOS QUE NÃO IMPORTA EM LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO. INAPLICABILIDADE DO TEMA 1.234/STF. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 150 E 254/STJ. MANUTENÇÃO DA DECISÃO. 1. O Tema 1.234/STF, mencionado pelo Juízo estadual ao suscitar conflito, não se aplica às demandas que discutem a realização de cirurgia no âmbito do SUS. Demanda proposta, originariamente, contra o Estado do Rio Grande do Sul. Determinação de inclusão da União no polo passivo pelo Juízo estadual, de ofício. 2. No Tema 793/STF, foi definido que os entes federativos são solidariamente responsáveis pelas ações de saúde, competindo ao Juízo direcionar a quem incumbirá o cumprimento da obrigação, sem que isso implique litisconsórcio necessário entre União, estados e municípios. 3. A previsão de ressarcimento entre os entes federados ou o custeio, pela União, como é o caso, não impõe a sua inclusão no polo passivo da demanda nem desloca a competência para a Justiça Federal, mesmo para as cirurgias de alta complexidade. 4. As Súmulas 150 e 254/STJ permanecem aplicáveis às hipóteses de fornecimento de tratamentos de saúde no âmbito do SUS, mantendo-se a competência da Justiça estadual quando a União é afastada do feito. Precedentes: CC 187.276/RS, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Seção, DJe de 18/4/2023; CC 210.758, Ministra Maria Thereza de Assis Moura, DJEN de 23/4/2025; CC 212.477, desta relatoria, DJEN de 22/4/2025; CC 207.356, Ministro Paulo Sérgio Domingues, DJEN de 20/3/2025; CC 207.005, Ministro Teodoro Silva Santos, DJEN de 6/3/2025; CC 210.772, Ministro Paulo Sérgio Domingues, DJEN de 11/2/2025; CC 207.539, Ministro Benedito Gonçalves, DJEN de 11/2/2025 e CC 207.710, Ministra Maria Thereza de Assis Moura, DJEN de 6/2/2025. 5. Agravo interno desprovido. (AgInt no CC n. 207.494/RS, relator Ministro Sérgio Kukina, Primeira Seção, julgado em 20/5/2025, DJEN de 26/5/2025.) Nesse mesmo sentido, em casos análogos: CC n. 210.863, Ministro Paulo Sérgio Domingues, DJEN de 09/05/2025; CC n. 209.304, Ministro Benedito Gonçalves, DJEN de 25/02/2025; CC n. 211.382, Ministra Maria Thereza de Assis Moura, DJEN de 19/02/2025; CC n. 209.338, Ministro Teodoro Silva Santos, DJEN de 18/02/2025. Tendo em vista que o Juízo federal afastou a legitimidade passiva da União para a causa, bem como que o Tribunal de Justiça local havia determinado a inclusão do Estado de Goiás no polo passivo da demanda, a competência para o prosseguimento do feito é do Juízo da Vara da Fazenda Pública Estadual. Desta feita, conheço do presente conflito negativo de competência, para declarar competente o Juízo suscitado, qual seja, o Juízo d e Direito da Vara da Fazenda Pública Estadual. Publique-se. Intimem-se. EMENTA