HC 769635 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus por ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, mas, de ofício, reconheço flagrante ilegalidade na não aplicação da atenuante da confissão espontânea (mesmo que parcial) e concedo a ordem para compensar a agravante da reincidência com a atenuante da confissão, procedendo ao...
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- Parties
- Paciente: LEANDRO LIMA DA SILVA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (Apelação Criminal nº 0044870-87.2017.8.26.0050)
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 May 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; porém, de ofício, concedo a ordem para compensar a agravante da reincidência com a atenuante da confissão espontânea e para redimensionar a pena do paciente.
- Legal Topics
- Confissão Espontânea, Dosimetria Da Pena, Reincidência, Habeas Corpus, Compensação De Agravante E Atenuante
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Parties
LEANDRO LIMA DA SILVA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (Apelação Criminal nº 0044870-87.2017.8.26.0050)
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Reconhecimento da atenuante da confissão espontânea quando parcial
- 2 Possibilidade de compensação integral entre a atenuante da confissão e a agravante da reincidência
- 3 Admissibilidade do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus por ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, mas, de ofício, reconheço flagrante ilegalidade na não aplicação da atenuante da confissão espontânea (mesmo que parcial) e concedo a ordem para compensar a agravante da reincidência com a atenuante da confissão, procedendo ao redimensionamento da pena do paciente nos termos dos precedentes do STJ (especialmente REsp 1.972.098/SC).
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; porém, de ofício, concedo a ordem para compensar a agravante da reincidência com a atenuante da confissão espontânea e para redimensionar a pena do paciente.
Orders
- Não conhecer do habeas corpus por utilização como sucedâneo de recurso próprio
- De ofício, conceder a ordem para reconhecer a atenuante da confissão espontânea (mesmo que parcial) e compensá-la com a agravante da reincidência
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de habeas corpus com pedido de liminar , impetrado em favor de LEANDRO LIMA DA SILVA, em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (Apelação Criminal nº 0044870-87.2017.8.26.0050). O MM. Juiz da 21ª Vara Criminal do Foro Central Barra Funda, da comarca de São Paulo, quando da dosimetria da pena, deixou de reconhecer a atenuante da confissão espontânea, ao fundamento de que os agentes confessaram de forma parcial a autoria do delito, negando a coautoria e os delitos remanescentes (e-STJ 18/26). O Tribunal de origem negou provimento ao recurso interposto pela defesa, consignando para tanto que (e-STJ 54/75): .. Na segunda etapa, não há como acolher o pleito defensivo dos apelantes para o reconhecimento da atenuante da confissão espontânea, na medida em que os recorrentes buscaram alterar a verdade dos fatos, com o nítido objetivo de afastar as majorantes referentes ao emprego de arma e concurso de agentes, com reflexo no cálculo das penas. Dessa forma, resta inviabilizada a aplicação da atenuante ora em comento, em consonância com o entendimento já manifestado por esta Egrégia Corte, no sentido de que "a confissão, quando feita pela metade, visando alterar a verdade dos fatos, não pode atenuar a pena" (Apelação nº 0009463-37.2008.8.26.0114, 6ª Câmara Criminal, Rel. Ruy Alberto Leme Cavalheiro, j. em 04.06.2009). .. No presente writ, o impetrante sustenta que as decisões citadas encontram-se em desacordo com a jurisprudência desta Corte de Justiça, que admite a confissão parcial e consideram igualmente preponderantes a agravante da reincidência com a atenuante da confissão espontânea admitindo, portanto, a compensação, de forma que patente o constrangimento ilegal. Requer a concessão da ordem para que seja reconhecida a atenuante da confissão espontânea e compensada com a agravante da reincidência (e-STJ 03/17). O pedido de liminar foi indeferido pelo Ministro Jorge Mussi - e-STJ 78/79. Informações prestadas (e-STJ 83/86 e 89/155). Parecer do Ministério Público Federal pelo não conhecimento do habeas corpus (e-STJ 157/165). Considerando o tempo decorrido desde a autuação do presente feito e as alterações de relatoria, determinei a intimação da impetrante para que se manifestasse a respeito da manutenção do interesse no julgamento do feito (e-STJ 170). Sem a manifestação, vieram-me os autos conclusos. É o relatório. Decido. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do col. Pretório Excelso, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio, situação que implica o não conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que configurada flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal, sendo possível a concessão da ordem de ofício. "Diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, o Superior Tribunal de Justiça passou a acompanhar a orientação do Supremo Tribunal Federal, no sentido de ser inadmissível o emprego do writ como sucedâneo de recurso ou revisão criminal, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade" (HC n. 602.425/SC, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção, julgado em 10/3/2021, DJe de 6/4/2021.) O entendimento é de elevada importância, porquanto deve-se utilizá-lo para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. Inviável, portanto, o conhecimento do writ em análise, porquanto manejado como substitutivo de revisão criminal. No entanto, cabe conceder a ordem de ofício em na hipótese de flagrante ilegalidade do ato impugnado, o que verifico no caso em exame. No caso, o paciente foi condenado como incurso no artigo 157, § 2º, I e II, por duas vezes, na forma do artigo 70, caput, do Código Penal, às penas de 07 anos, 05 meses e 25 dias de reclusão, e ao pagamento de 17 dias-multa (e-STJ 18/26). A partir dos excertos transcritos, observa-se que as instâncias ordinárias deixaram de reconhecer a confissão espontânea por considerarem ter sido ela parcial. De se ressaltar que o entendimento do Tribunal de origem confronta orientação desta Corte superior firmada no REsp 1.972.098/SC, de acordo com a qual, feita a confissão, o réu terá direito à atenuante correspondente, independentemente de sua influência no convencimento do julgador e de ser parcial, qualificada, extrajudicial ou retratada: PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO ESPECIAL. ROUBO. INTERPRETAÇÃO DA SÚMULA 545/STJ. PRETENDIDO AFASTAMENTO DA ATENUANTE DA CONFISSÃO, QUANDO NÃO UTILIZADA PARA FUNDAMENTAR A SENTENÇA CONDENATÓRIA. DESCABIMENTO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE, ISONOMIA E INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA. INTERPRETAÇÃO DO ART. 65, III, "D", DO CP. PROTEÇÃO DA CONFIANÇA (VERTRAUENSSCHUTZ) QUE O RÉU, DE BOA-FÉ, DEPOSITA NO SISTEMA JURÍDICO AO OPTAR PELA CONFISSÃO. PROPOSTA DE ALTERAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. 1. O Ministério Público, neste recurso especial, sugere uma interpretação a contrario sensu da Súmula 545/STJ para concluir que, quando a confissão não for utilizada como um dos fundamentos da sentença condenatória, o réu, mesmo tendo confessado, não fará jus à atenuante respectiva. 2. Tal compreensão, embora esteja presente em alguns julgados recentes desta Corte Superior, não encontra amparo em nenhum dos precedentes geradores da Súmula 545/STJ. Estes precedentes instituíram para o réu a garantia de que a atenuante incide mesmo nos casos de confissão qualificada, parcial, extrajudicial, retratada, etc. Nenhum deles, porém, ordenou a exclusão da atenuante quando a confissão não for empregada na motivação da sentença, até porque esse tema não foi apreciado quando da formação do enunciado sumular. 3. O art. 65, III, "d", do CP não exige, para sua incidência, que a confissão do réu tenha sido empregada na sentença como uma das razões da condenação. Com efeito, o direito subjetivo à atenuação da pena surge quando o réu confessa (momento constitutivo), e não quando o juiz cita sua confissão na fundamentação da sentença condenatória (momento meramente declaratório). 4. Viola o princípio da legalidade condicionar a atenuação da pena à citação expressa da confissão na sentença como razão decisória, mormente porque o direito subjetivo e preexistente do réu não pode ficar disponível ao arbítrio do julgador. 5. Essa restrição ofende também os princípios da isonomia e da individualização da pena, por permitir que réus em situações processuais idênticas recebam respostas divergentes do Judiciário, caso a sentença condenatória de um deles elenque a confissão como um dos pilares da condenação e a outra não o faça. 6. Ao contrário da colaboração e da delação premiadas, a atenuante da confissão não se fundamenta nos efeitos ou facilidades que a admissão dos fatos pelo réu eventualmente traga para a apuração do crime (dimensão prática), mas sim no senso de responsabilidade pessoal do acusado, que é característica de sua personalidade, na forma do art. 67 do CP (dimensão psíquico-moral). 7. Consequentemente, a existência de outras provas da culpabilidade do acusado, e mesmo eventual prisão em flagrante, não autorizam o julgador a recusar a atenuação da pena, em especial porque a confissão, enquanto espécie sui generis de prova, corrobora objetivamente as demais. 8. O sistema jurídico precisa proteger a confiança depositada de boa-fé pelo acusado na legislação penal, tutelando sua expectativa legítima e induzida pela própria lei quanto à atenuação da pena. A decisão pela confissão, afinal, é ponderada pelo réu considerando o trade-off entre a diminuição de suas chances de absolvição e a expectativa de redução da reprimenda. 9. É contraditória e viola a boa-fé objetiva a postura do Estado em garantir a atenuação da pena pela confissão, na via legislativa, a fim de estimular que acusados confessem; para depois desconsiderá-la no processo judicial, valendo-se de requisitos não previstos em lei. 10. Por tudo isso, o réu fará jus à atenuante do art. 65, III, "d", do CP quando houver confessado a autoria do crime perante a autoridade, independentemente de a confissão ser utilizada pelo juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória. 11. Recurso especial desprovido, com a adoção da seguinte tese: "o réu fará jus à atenuante do art. 65, III, "d", do CP quando houver admitido a autoria do crime perante a autoridade, independentemente de a confissão ser utilizada pelo juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória, e mesmo que seja ela parcial, qualificada, extrajudicial ou retratada".(REsp n. 1.972.098/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 14/6/2022, DJe de 20/6/2022.) (Grifos acrescidos). AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. PENAL. ROUBO. DOSIMETRIA. CONFISSÃO ESPONTÂNEA PARCIAL. ATENUAÇÃO OBRIGATÓRIA. TESE DE IMPOSSIBILIDADE DE COMPENSAÇÃO INTEGRAL COM A REINCIDÊNCIA. HIPÓTESE ONDE O AGRAVADO NÃO É MULTIRREINCIDENTE. 1. Somente na hipótese de multirreincidência, há que se falar em preponderância da agravante sobre a atenuante. Sendo disposta somente uma anotação apta a configurar a reincidência, impõe-se a compensação integral com a confissão, ainda que parcial ou qualificada. 2. A confissão do paciente, embora utilizada para lastrear a convicção do julgador acerca da procedência da acusação, não foi compensada com a reincidência, pois as instâncias ordinárias entenderam pela preponderância dessa última. Entretanto, a jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de que a incidência da atenuante prevista no art. 65, III, d, do Código Penal, independe se a confissão foi integral ou parcial, quando utilizada para fundamentar a condenação (HC n. 337.662/RJ, Relator Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, DJe 01/08/2016). .. Ordem concedida, de ofício, para compensar a agravante da reincidência com a atenuante da confissão parcial e redimensionar as penas do paciente na terceira etapa da dosimetria. (HC n. 435.676/SP, Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 1/8/2018). 3. Agravo regimental improvido.(AgRg no REsp n. 1.998.754/MG, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 12/6/2023, DJe de 16/6/2023.) Ante o exposto, NÃO CONHEÇO DO HABEAS CORPUS, PORÉM, DE OFÍCIO, CONCEDO A ORDEM oportunidade em que passo a efetuar os ajustes necessários na pena do paciente: Na primeira fase de dosimetria, a pena foi fixada em 04 (quatro) anos de reclusão e 10 (dez) dias multa. Na segunda fase, procedo a compensação da agravante da reincidência (artigo 61, I do Código Penal) com a atenuante da confissão espontânea (artigo 65, III, d do Código Penal), oportunidade em que fixo, provisoriamente, a pena em 04 (quatro) anos de reclusão e 10 (dez) dias multa. Na terceira fase, presente a majorante do emprego de arma de fogo e concurso de agentes e, por fim o concurso formal, mantidas as frações eleitas pela origem, concretizo a pena do paciente em 06 (seis) anos e 05 (cinco) meses de reclusão, no regime fechado (Súmula 269/STJ), bem como ao pagamento de 16 (dezesseis) dias-multa. Comunique-se o Tribunal de origem e o Juízo da execução. EMENTA