HC 960547 - DECISAO
Reconheceu-se, à luz da jurisprudência deste Tribunal, que a confissão parcial/qualificada do paciente enseja a atenuante do art.65, III, d, do CP, devendo ela ser compensada parcialmente com a agravante da reincidência, aplicando‑se a fração de 1/12 conforme art.67 do CP e precedentes, o que justificou o...
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- Parties
- Paciente: ALEF ALVES BARBOSA MOREIRA DOS SANTOS; Órgão Julgador: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS; Interveniente: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 31 January 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Ordem concedida para redimensionar a pena
- Legal Topics
- Confissão Espontânea, Dosimetria Da Pena, Reincidência, Furto/roubo, Regime Prisional
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Parties
ALEF ALVES BARBOSA MOREIRA DOS SANTOS
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Órgão Julgador
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Interveniente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Incidência da atenuante da confissão espontânea (art.65, III, d, CP) no caso de confissão parcial/qualificada
- 2 Possibilidade de compensação parcial da atenuante da confissão com a agravante da reincidência (art.67 CP)
- 3 Redimensionamento da pena em sede de habeas corpus substitutivo de recurso especial
Ratio Decidendi
Reconheceu-se, à luz da jurisprudência deste Tribunal, que a confissão parcial/qualificada do paciente enseja a atenuante do art.65, III, d, do CP, devendo ela ser compensada parcialmente com a agravante da reincidência, aplicando‑se a fração de 1/12 conforme art.67 do CP e precedentes, o que justificou o redimensionamento da pena para 4 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão e 11 dias‑multa.
Court Disposition
Ordem concedida para redimensionar a pena
Orders
- Não conheço do presente habeas corpus, mas concedo a ordem, de ofício, para redimensionar a pena imposta ao paciente.
- Redimensionar a pena para 4 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão e 11 dias-multa; manter, na primeira fase, a pena-base em 4 anos e 6 meses de reclusão e 11 dias-multa.
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado em benefício de ALEF ALVES BARBOSA MOREIRA DOS SANTOS contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS no julgamento da Apelação Criminal n. 1.0000.24.310182-1/001. Extrai-se dos autos que o paciente foi condenado à pena de 5 anos e 3 meses de reclusão, no regime prisional fechado, além do pagamento de 12 dias-multa, pela prática do crime tipificado no art. 157, caput, do Código Penal. O Tribunal de origem negou provimento ao apelo defensivo. Confira-se a ementa do julgado (e-STJ fl. 7): " .. APELAÇÃO CRIMINAL. ROUBO. DESCLASSIFICAÇÃO PARA FURTO. VIOLÊNCIA CONFIGURADA. DOSIMETRIA. RECONHECIMENTO DA CONFISSÃO. DESCABIMENTO. REGIME FECHADO. ACERTO. 1. Configurado emprego de violência para assegurar a impunidade e a detenção da res, inviável a desclassificação para o delito de furto. 2. Não há que se falar em reconhecimento da atenuante da confissão espontânea quando o agente não colabora para a elucidação do crime, visando minimizar sua responsabilidade sob alegação de prática de delito mais brando. 3. Imposta pena superior a 4 anos a agente multirreincidente, inviável o abrandamento do regime prisional" No presente writ, a defesa sustenta que a confissão ainda que parcial ou qualificada, tal qual a consistente em negar a elementar do emprego de violência e da não efetiva consumação da subtração, enseja a incidência da atenuante prevista no art. 65, inciso III, alínea d, do Código Penal. Requer a concessão da ordem para que a pena seja reduzida ao reconhecimento da confissão espontânea e sua compensação com a reincidência na segunda fase da dosimetria. O Ministério Público Federal opinou pela concessão da ordem (e-STJ fls. 456/459). É o relatório. Decido. Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso especial ou revisão criminal, a impetração sequer deveria ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal e do próprio Superior Tribunal de Justiça. Todavia, considerando as alegações expostas na inicial, razoável verificar a existência de eventual constrangimento ilegal que justifique a concessão da ordem de ofício. Ao prolatar a sentença, o Juízo ponderou na segunda fase da dosimetria que "não se pode admitir que o réu tenha confessado, tendo em vista que negou a grave ameaça/violência exercida" (e-STJ fl. 25). O acórdão de apelação trouxe estes fundamentos no que envolveu o tema (e-STJ fl. 11): "Quanto à pretensão ventilada nas razões - reconhecimento da confissão espontânea, falece razão ao apelante. Embora ele admita ter puxado a correntinha, afirmou que não puxou o relógio e que aquela ficou presa ao pescoço da vítima, que apenas veio a cair ao solo devido ao susto sofrido. Logo, ele não apenas negou ter empregado violência, como também nem sequer admitiu a subtração que lhe foi atribuída, pelo que se afigura inviável o reconhecimento da pretendida atenuante." Para a incidência da atenuante prevista no art. 65, III, d, do Código Penal, "este STJ entende que a confissão parcial ou qualificada também dá direito à atenuação da pena, sendo desnecessário perquirir quão influente ela foi para a formação do convencimento dos julgadores. Por isso, mesmo que a confissão seja extrajudicial ou que o réu tenha dela se retratado, e ainda que o juiz nem sequer a mencione na motivação da sentença, o acusado faz jus à atenuante respectiva" (AgRg no AREsp n. 2.716.470/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 27/11/2024, DJe de 6/12/2024). Nesse sentido (grifos não originais): "DIREITO PENAL. HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO. REINCIDÊNCIA. CONFISSÃO ESPONTÂNEA. POSTERIOR RETRATAÇÃO. COMPENSAÇÃO PARCIAL. REDIMENSIONAMENTO DA PENA. ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA. I. CASO EM EXAME 1. Habeas corpus impetrado em favor de David Pereira de Novaes, condenado à pena de 14 anos de reclusão e 2.100 dias-multa pela prática dos crimes de tráfico de drogas (art. 33, caput, da Lei 11.343/2006) e associação para o tráfico (art. 35 da Lei 11.343/2006). A defesa pleiteia a compensação da agravante da reincidência com a atenuante da confissão espontânea. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em determinar se é possível a compensação entre a agravante da reincidência e a atenuante da confissão espontânea, com consequente revisão da dosimetria da pena. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. A revisão da dosimetria da pena em sede de habeas corpus é possível em casos de manifesta ilegalidade ou abuso de poder reconhecíveis de plano. 4. A atenuante da confissão espontânea deve ser aplicada, ainda que a confissão tenha sido parcial, qualificada ou retratada, nos termos da jurisprudência do STJ. 5. No presente caso, restou comprovado que o paciente confessou a prática delitiva em fase policial, sendo de rigor a compensação parcial da agravante da reincidência com a atenuante da confissão espontânea, ajustando-se as penas em frações proporcionais. IV. ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA." (HC n. 866.795/SP, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 12/11/2024, DJe de 19/11/2024) "PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DOS FUNDAMENTOS DA DECISÃO AGRAVADA. SÚMULA N. 182/STJ. CONCESSÃO DA ORDEM DE HABEAS CORPUS. INCIDÊNCIA DA ATENUANTE DA CONFISSÃO ESPONTÂNEA EM RELAÇÃO A RÉU QUE SUSTENTOU A TESE DE LEGÍTIMA DEFESA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. A decisão agravada não conheceu do agravo em recurso especial com fundamento na Súmula n. 182/STJ, porquanto não impugnada especificamente a incidência dos óbices apontados pela Corte a quo como razões de decidir para a inadmissão do recurso especial (e-STJ fls. 2979/2980). Nas razões do regimental (e-STJ fls. 2984/2990), por sua vez, os agravantes deixaram de infirmar especificamente o referido entrave, limitando-se a alegar, de maneira genérica, que todos os fundamentos apontados pelo Tribunal de origem para inadmitir o recurso especial foram devidamente impugnados nas razões do agravo e a asseverar que o decisum agravado não está devidamente fundamentado, por não ter se manifestado sobre todos os argumentos ventilados no agravo (e-STJ fl. 2987). 2. A falta de impugnação específica dos fundamentos utilizados na decisão agravada (decisão de não conhecimento do agravo em recurso especial) atrai a incidência da Súmula n. 182 desta Corte Superior. 3. A falta de exame da matéria de fundo, na hipótese de recurso inapto ao conhecimento, como no caso concreto, configura mera decorrência do exercício do devido juízo de admissibilidade recursal. Precedentes. 4. Verificada, de ofício, a ocorrência de ilegalidade quanto ao não reconhecimento da atenuante genérica da confissão espontânea, na segunda fase da dosimetria da pena do delito de homicídio qualificado, em relação a réu que sustentou a tese de legítima defesa, revela-se de rigor a concessão de habeas corpus quanto a esse aspecto. 5. A jurisprudência desta Corte Superior se consolidou no sentido de que, nos casos em que a confissão do acusado servir como um dos fundamentos para a condenação, a aplicação da atenuante em questão é de rigor, "pouco importando se a confissão foi espontânea ou não, se foi total ou parcial, ou mesmo se foi realizada só na fase policial com posterior retração em juízo" (AgRg no REsp 1412043/MG, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 10/3/2015, DJE 19/3/2015). A matéria encontra-se sumulada, consoante o enunciado n. 545 desta Corte Superior. 6. A Quinta Turma deste Superior Tribunal, na apreciação do REsp n. 1.972.098/SC, de relatoria do Ministro Ribeiro Dantas, julgado em 14/6/2022, DJe 20/6/2022, firmou o entendimento de que o réu fará jus à atenuante da confissão espontânea nas hipóteses em que houver confessado a autoria do crime perante a autoridade, ainda que a confissão não tenha sido utilizada pelo julgador como um dos fundamentos da condenação, e mesmo que seja ela parcial, qualificada, extrajudicial ou retratada. Precedentes. 7. Na hipótese vertente, considerando a existência de confissão qualificada, conforme se extrai do acórdão recorrido e da ata da sessão de julgamento do Tribunal do Júri, segundo a qual a defesa de um dos réus sustentou a tese de legítima defesa (e-STJ fls. 2464 e 2800), se mostra de rigor o reconhecimento, em favor desse, da incidência da atenuante da confissão espontânea, em relação ao delito de homicídio qualificado. 8. É firme a jurisprudência deste Superior Tribunal no sentido de que, nas hipóteses de confissão parcial ou qualificada, como na espécie, se admite a incidência da benesse em patamar inferior a 1/6. Precedentes. 9. Agravo regimental não conhecido e concedida, de ofício, a ordem de habeas corpus para reconhecer a incidência da atenuante do art. 65, inciso III, alínea "d", do Código Penal e sua aplicação na fração de 1/12, em relação ao réu que sustentou a tese de legítima defesa, culminando no redimensionamento da respectiva reprimenda." (AgRg no AREsp n. 2.685.703/MG, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 27/8/2024, DJe de 3/9/2024) Desse modo, havendo explicitação pelas instâncias antecedentes que a confissão não foi valorada porque o paciente a fez em caráter parcial, cabível a concessão da ordem para que a hipótese dos autos fique ajustada à jurisprudência dominante nesta Corte Superior sobre o tema. Destaca-se, contudo, que em se tratando de confissão de natureza parcial, aplicar-se-á a compensação em parte com a agravante da reincidência, com o agravamento da pena na fração de 1/12, por inteligência ao disposto no art.67 do CP e conforme arestos a seguir (grifos não originais): "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PENAL. FURTO QUALIFICADO. DOSIMETRIA. SEGUNDA FASE. ATENUANTE DA CONFISSÃO QUALIFICADA. FRAÇÃO DE UM DOZE AVOS. PRINCÍPIO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA E PROPORCIONALIDADE. LEGALIDADE. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Em respeito aos princípios da individualização da pena e da proporcionalidade, é adequada a incidência da fração de 1/12 (um doze avos) para a atenuante da confissão espontânea parcial e/ou qualificada. Precedentes. 2. Agravo regimental não provido." (AgRg no HC n. 882.377/SC, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do Tjsp), Sexta Turma, julgado em 17/6/2024, DJe de 21/6/2024.) "DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. DOSIMETRIA DA PENA. CONFISSÃO QUALIFICADA. REINCIDÊNCIA. COMPENSAÇÃO PARCIAL. RECURSO PROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais contra decisão que reconheceu a atenuante da confissão qualificada em favor do réu na segunda fase da dosimetria da pena para compensar com a agravante da reincidência. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão consiste em determinar se foi adequada a compensação integral da atenuante da confissão qualificada com a agravante da reincidência. III. Razões de decidir 3. A confissão qualificada não deve ter o mesmo valor que a confissão espontânea plena, em respeito aos princípios da proporcionalidade e da individualização da pena, motivo pelo qual devida é a compensação parcial da confissão qualificada com a agravante da reincidência, aplicando-se a fração de 1/12 para agravar a pena. IV. Dispositivo e tese 4. Recurso provido. Tese de julgamento: 1. A confissão qualificada não possui o mesmo peso que a confissão plena na segunda fase da dosimetria da pena. 2. A compensação parcial da atenuante da confissão qualificada com a agravante da reincidência é devida, aplicando-se a fração de 1/12 para agravar a pena. Dispositivos relevantes citados: CP, art. 65, III, "d". Jurisprudência relevante citada: AgRg no HC n. 937.025/SP, Min. Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 10/9/2024; AgRg no HC n. 882.377/SC, Min. Otávio de Almeida Toledo, Sexta Turma, julgado em 17/6/2024; AgRg no REsp n. 2.125.440/SP, Min. Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 17/6/2024; AgRg no HC n. 838.286/SC, Min. Teodoro Silva Santos, Sexta Turma, julgado em 4/3/2024. " (AgRg no REsp n. 2.095.569/MG, de minha relatoria, Quinta Turma, julgado em 30/10/2024, DJe de 5/11/2024) Necessário, portanto, redimensionar a pena. Na primeira fase, persiste a fixação da pena-base em 4 anos e 6 meses de reclusão e 11 dias-multa. Na segunda fase, presentes a agravante da reincidência e a atenuante da confissão espontânea. A compensação, contudo, não há como ser integral com a reincidência, com o agravamento da pena em apenas 1/12, resultando, à vista de inexistência de causas de aumento ou de diminuição de pena, no total de 4 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão e 11 dias-multa. Ante o exposto, com fundamento art. 34 XX, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheço do presente habeas corpus, mas concedo a ordem, de ofício, para redimensionar a pena imposta ao ora paciente, nos termos da fundamentação. Publique-se. Intimem-se. EMENTA