AREsp 2602683 - DECISAO
Conheço do agravo para não conhecer do recurso especial, porque o acórdão recorrido assentou em fundamentos autônomos não atacados (Súmula 283/STF) e a pretensão recursal demandaria o revolvimento de matéria fático-probatória e reanálise de cláusulas contratuais (Súmulas 5 e 7/STJ), nos termos do art. 21-E, V, do...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: VALDETE PINHEIRO DOS SANTOS; Agravado: Município de Ilhéus
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 29 May 2024
- Procedural Posture
- Agravo Contra Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial / Decisão De Conhecimento Do Agravo E Não Conhecimento Do Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo para não conhecer do recurso especial.
- Legal Topics
- Contrato De Locação, Boa Fé Objetiva, Aforamento/enfiteuse, Anulação De Ato Administrativo, Admissibilidade De Recurso Especial, Súmulas 5 E 7 Do STJ E Súmula 283 Do STF
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
VALDETE PINHEIRO DOS SANTOS
Agravante
Município de Ilhéus
Agravado
Procedural Posture
Agravo Contra Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial / Decisão De Conhecimento Do Agravo E Não Conhecimento Do Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Violação do art. 422 do Código Civil (boa-fé objetiva) alegada pela recorrente
- 2 Se o Município, como proprietário do imóvel, poderia ser obrigado ao pagamento de aluguéis
- 3 Possibilidade de anulação do ato administrativo pela Administração com fundamento no art. 54 da Lei 9.784/99
Ratio Decidendi
Conheço do agravo para não conhecer do recurso especial, porque o acórdão recorrido assentou em fundamentos autônomos não atacados (Súmula 283/STF) e a pretensão recursal demandaria o revolvimento de matéria fático-probatória e reanálise de cláusulas contratuais (Súmulas 5 e 7/STJ), nos termos do art. 21-E, V, do Regimento Interno do STJ.
Court Disposition
Conheço do agravo para não conhecer do recurso especial.
Orders
- Publique-se.
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de agravo apresentado por VALDETE PINHEIRO DOS SANTOS contra a decisão que não admitiu seu recurso especial. O apelo nobre, fundamentado no artigo 105, inciso III, alínea "a", da CF/88, visa reformar acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DA BAHIA, assim resumido: APELAÇÃO. AÇÃO DE COBRANÇA. LOCAÇÃO DE IMÓVEL PELO MUNICÍPIO. AUXLÍLIO-MORADIA. IRREGULARIDADE NA CONTRATAÇÃO. IMÓVEL PERTENCENTE AO MUNICÍPIO. NULIDADE DA CONTRATAÇÃO. POSSIBILIDADE. SENTENÇA REFORMADA. 1 - A sentença recorrida, ao reconhecer o direito da parte Apelada, ressalta que "Não pode o Município se locupletar de verba que deveria ser repassada para programa social ao qual concedeu o benefício. Ainda, a "irregularidade" atacada pelo Município deveria ter sido observada ANTES da celebração do contrato e não depois de ter se beneficiado pelo mesmo." 2 - Considerando que o Município Apelante jamais perdeu a sua condição de proprietário do imóvel, não há se falar que ele estaria se locupletando com a verba destinada ao programa social, inclusive pelo fato de ser inconcebível que o proprietário de um bem pagasse pelo aluguel de um imóvel que já lhe pertence. 3 - No que se refere ao fato de o Município Apelante não ter observado tal irregularidade quando foi firmado o contrato de locação, não podem prevalecer os fundamentos constantes da sentença, pois, considerando-se que, quando do ajuizamento da ação, ainda não tinha decorrido o prazo de cinco anos da data em que o contrato foi firmado, pode e deve a Administração anular o ato administrativo em questão, na forma do quanto disciplina o artigo 54 da Lei nº 9.784/99, analogicamente aplicado ao caso concreto. 4 - RECURSO DE APELAÇÃO PROVIDO. Quanto à controvérsia, a parte recorrente alega violação do art. 422 do Código Civil, no que concerne à necessidade do devido cumprimento do contrato estabelecido entre as partes, sob pena de violação ao princípio da boa-fé objetiva, sendo o Município o próprio responsável pela verificação com relação à propriedade do imóvel objeto do contrato de locação, trazendo a seguinte argumentação: No caso em tela, a Municipalidade firmou acordo com a autora a fim de alugar seu imóvel, e depois não honrou com o pagamento dos aluguéis, sob a alegação de que o imóvel tinha sido fruto de aforamento, e, portanto, seria bem público, não reconhecendo a sua propriedade, e assim se escusando de honrar com o contrato celebrado. Observamos que a municipalidade está adotando um comportamento contraditório, o que é vedado pelo Direito. Com efeito, a partir do momento que o contrato foi firmado, entre o Município de Ilhéus e a recorrente, o ente federativo assumiu a responsabilidade de pagar à mesma quantia relativa ao pagamento de aluguéis. Assim, criou-se uma expectativa diante do contrato. Ao não efetuar o pagamento, o Município de Ilhéus adota um comportamento contraditório, fere-se uma expectativa justamente conformada e, também, fere-se de maneira frontal a boa-fé objetiva. Se o imóvel já pertencia ao ente municipal, caberia a este, no momento de elaboração do contrato, ter feito a devida constatação. Vejamos que há uma disparidade entre as partes: o Município é dotado de corpo técnico e jurídico apto a analisar o contrato em suas minúcias, ao passo que a recorrente é pessoa simples, leiga, não formada na área jurídica e desconhecedora das relações de direito real que recaem sobre o imóvel. Importante ainda destacar, que a autora juntou aos autos a escritura pública relativa à compra e venda e cessão e transferência de direitos de posse e aforamento do bem objeto do contrato de locação. Contudo, mesmo diante dos elementos probatórios, o Emérito Tribunal não reconheceu a condição de enfiteuta da Recorrente. (fls. 180). É, no essencial, o relatório. Decido. Quanto à controvérsia, incide o óbice da Súmula n. 283/STF, uma vez que a parte deixou de atacar fundamentos autônomos e suficientes para manter o julgado, quais sejam : Do exame dos autos, verifica-se que a parte Apelada celebrou contrato de locação com a parte Apelante, alegando ser proprietária do imóvel localizado na Rua E, nº 20, Alto da Conquista, Ilhéus, Bahia (ID"s 36931430 - 36931431). A parte Apelada, ao ajuizar a sua ação, acostou aos autos a escritura pública relativa à compra e venda e cessão e transferência de direitos de posse e aforamento do bem objeto do contrato de locação, onde consta que o referido bem lhe foi cedido pelo Sr. Crispin Pereira dos Santos (ID 36931433). Vale observar que o Sr. Crispin Pereira dos Santos obteve o domínio útil do imóvel através do Termo de Aforamento expedido pelo Município de Ilhéus (ID 36931436). Assim, como bem ressalta a parte Apelante, apesar de o imóvel ter sido aforado ao Sr. Crispin Pereira dos Santos, a propriedade dele continuou a ser do Município de Ilhéus. Lado outro, a parte Apelada não comprovou a sua condição de enfiteuta, inexistindo nos registros do Cartório de Imóvel que foram acostados aos autos qualquer informação acerca da transferência do aforamento. A sentença recorrida, ao reconhecer o direito da parte Apelada, ressalta que "Não pode o Município se locupletar de verba que deveria ser repassada para programa social ao qual concedeu o benefício. Ainda, a "irregularidade" atacada pelo Município deveria ter sido observada ANTES da celebração do contrato e não depois de ter se beneficiado pelo mesmo." Ocorre que, considerando que o Município Apelante jamais perdeu a sua condição de proprietário do imóvel, não há se falar que ele estaria se locupletando com a verba destinada ao programa social, inclusive pelo fato de ser inconcebível que o proprietário de um bem pagasse pelo aluguel de um imóvel que já lhe pertence. No que se refere ao fato de o Município Apelante não ter observado tal irregularidade quando foi firmado o contrato de locação, não podem prevalecer os fundamentos constantes da sentença, pois, considerando-se que, quando do ajuizamento da ação, ainda não tinha decorrido o prazo de cinco anos da data em que o contrato foi firmado, pode e deve a Administração anular o ato administrativo em questão, na forma do quanto disciplina o artigo 54 da Lei nº 9.784/99, analogicamente aplicado ao caso concreto. (fls. 104-105, grifos meus). Nesse sentido: "A subsistência de fundamento inatacado apto a manter a conclusão do aresto impugnado impõe o não-conhecimento da pretensão recursal, a teor do entendimento disposto na Súmula n. 283/STF: "É inadmissível o recurso extraordinário quando a decisão recorrida assenta em mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos eles"". (AgInt nos EDcl no AREsp n. 1.317.285/MG, relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, DJe de19/12/2018.) Confiram-se ainda os seguintes precedentes: AgInt no AREsp 1.572.038/RS, relator Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma, DJe de 13/8/2020; AgInt no AREsp 1.157.074/SP, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, DJe de 5/8/2020; AgInt no REsp 1.389.204/MG, relator Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe de 3/8/2020; AgInt no REsp 1.842.047/RS, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe de 26/6/2020; e AgRg nos EAREsp 447.251/SP, relator Ministro João Otávio de Noronha, Corte Especial, DJe de 20/5/2016. Ademais, da análise do excerto do acórdão supratranscrito, verifica-se que incidem os óbices das Súmulas n. 5 e 7 do STJ, uma vez que a pretensão recursal demanda reexame de cláusulas contratuais e reexame do acervo fático-probatório juntado aos autos. Portanto, "a pretensão de alterar tal entendimento, considerando as circunstâncias do caso concreto, demandaria o revolvimento de matéria fático-probatória e reanálise de cláusulas contratuais, o que é inviável em sede de recurso especial, conforme dispõem as Súmulas 5 e 7, ambas do STJ". (AgInt no AREsp 1.227.134/SP, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, DJe de 9/10/2019.) Confiram-se ainda os seguintes julgados: AgInt no REsp 1.716.876/SP, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, DJe de 3/10/2019; AgInt no AREsp 1.165.518/DF, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, DJe de 4/10/2019; AgInt no AREsp 481.971/DF, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe de 25/9/2019; AgInt no REsp 1.815.585/DF, relator Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe de 23/9/2019; e AgInt no AREsp 1.480.197/MG, relatora Ministra Assusete Magalhães, Segunda Turma, DJe de 25/9/2019. Ante o exposto, com base no art. 21-E, V, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, conheço do agravo para não conhecer do recurso especial. Publique-se. Intimem-se. EMENTA