AREsp 2878815 - DECISAO
A conversão da ação de improbidade em ação civil pública, nos termos do art. 17, § 16, da Lei nº 8.429/1992 (Lei nº 14.230/2021), deve ser efetuada pelo juízo de primeiro grau antes da sentença, por implicar alteração da natureza da lide e possível necessidade de aditamento da inicial e nova fase probatória;...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO; Agravado: MUNICÍPIO DE BASTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 30 July 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Conhecimento E Provimento Do Agravo; Determinação De Baixa Dos Autos Ao Primeiro Grau Para Prosseguimento Da Ação De Improbidade Quanto À Pretensão Ressarcitória
- Outcome
- Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial
- Legal Topics
- Conversão Da Ação De Improbidade Em Ação Civil Pública, Ressarcimento Ao Erário, Elemento Subjetivo Doloso, Interpretação Do Art. 17, § 16, Lei Nº 8.429/1992 (lei Nº 14.230/2021), Tema 1.089 Do STJ, Art. 1.022 Do Cpc/2015
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO
Agravante
MUNICÍPIO DE BASTOS
Agravado
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Conhecimento E Provimento Do Agravo; Determinação De Baixa Dos Autos Ao Primeiro Grau Para Prosseguimento Da Ação De Improbidade Quanto À Pretensão Ressarcitória
Legal Issues
- 1 Se a conversão da ação de improbidade em ação civil pública prevista no art. 17, § 16, da Lei nº 8.429/1992 deve ocorrer no primeiro grau antes da sentença
- 2 Se é possível o prosseguimento da ação para buscar ressarcimento ao erário mesmo quando as sanções de improbidade forem afastadas
- 3 Se houve negativa de prestação jurisdicional ou omissão quanto ao art. 1.022 do CPC/2015
Ratio Decidendi
A conversão da ação de improbidade em ação civil pública, nos termos do art. 17, § 16, da Lei nº 8.429/1992 (Lei nº 14.230/2021), deve ser efetuada pelo juízo de primeiro grau antes da sentença, por implicar alteração da natureza da lide e possível necessidade de aditamento da inicial e nova fase probatória; todavia, quando a petição inicial já contém pedido de ressarcimento ao erário, o prosseguimento da demanda para esse fim é possível em qualquer instância (aplicação do Tema 1.089 do STJ). Em face disso, conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial para determinar a remessa dos autos ao primeiro grau para prosseguimento quanto à pretensão ressarcitória.
Court Disposition
Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial
Orders
- Determinar a baixa dos autos ao primeiro grau de jurisdição, para o prosseguimento da ação de improbidade administrativa destinada ao exame da pretensão ressarcitória
- Publique-se. Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo em recurso especial apresentado pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO contra decisão que inadmitiu apelo nobre, interposto com fundamento no permissivo constitucional, o qual desafia acórdão assim ementado (e-STJ fl. 1.648): APELAÇÃO IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA Pretensão do Ministério Público do Estado de São Paulo à condenação dos réus por atos de improbidade administrativa previstos no art. 10 e no art. 11 da Lei nº 8.429/92 Alegação de que o Município de Bastos contratou e pagou irregularmente empresa para a recuperação de verbas indenizatórias recolhidas indevidamente junto à Previdência Social - Ausência de irregularidade na contratação de serviço especializado - Não comprovação de que a atividade poderia ter sido realizada pelo próprio Município - Realização de licitação conforme a Lei nº 8.666/1993 - Alterações legislativas realizadas pela Lei nº 14.230/2021 na Lei de Improbidade Administrativa - Necessidade de dolo para configuração de ato de improbidade Ausência de demonstração concreta da vontade livre e consciente de alcançar o resultado ilícito Ausência de provas de conluio fraudulento ou de vontade de causar prejuízo ao Erário - Lei que não pune a desídia, a negligência ou mesmo a inabilidade profissional Sentença de improced ência mantida. Apelação desprovida. Embargos de declaração rejeitados. O recorrente aponta negativa de vigência do art. 1.022 do CPC/2015 e do art. 17, § 16, da Lei n. 8.429/1992, com a redação da Lei n. 14.230/2021, que autoriza o ressarcimento do dano ao erário, ainda que a improbidade não seja reconhecida. Contrarrazões. Manifestação ministerial pelo provimento do recurso, por violação do art. 1.022 do CPC/2015 (e-STJ fls. 1.830/1.834). Passo a decidir. De logo, observo que o Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de que não há violação do art. 1.022 do CPC/2022, muito menos negativa de prestação jurisdicional, quando o acórdão "adota, para a resolução da causa, fundamentação suficiente, porém diversa da pretendida pela parte recorrente, para decidir de modo integral a controvérsia posta" (AgRg no REsp 1.340.652/SC, rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, Terceira Turma, DJe 13/11/2015). Acerca do tema, conferir ainda: REsp 1.388.789/RJ, r el. Ministro BENEDITO GONÇALVES, Primeira Turma, DJe 04/03/2016; e AgRg no REsp 1.545.862/RJ, rel. Ministro OG FERNANDES, Segunda Turma, DJe 18/11/2015. No caso, no julgado recorrido, o Tribunal a quo decidiu de forma suficientemente fundamentada sobre o tema apontado como olvidado, notadamente a respeito da inexistência do elemento subjetivo doloso na conduta dos recorridos. Quanto à questão de fundo discutida no recurso ministerial, verifico que a matéria merece algumas considerações. De fato, a Lei de Improbidade Administrativa (após o advento da Lei n. 14.230/2021) admite a conversão da ação de improbidade em ação civil pública, nos seguintes termos: Art. 17. A ação para a aplicação das sanções de que trata esta Lei será proposta pelo Ministério Público e seguirá o procedimento comum previsto na Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil), salvo o disposto nesta Lei. (Redação dada pela Lei nº 14.230, de 2021) (Vide ADI 7042) (Vide ADI 7043) .. § 16. A qualquer momento, se o magistrado identificar a existência de ilegalidades ou de irregularidades administrativas a serem sanadas sem que estejam presentes todos os requisitos para a imposição das sanções aos agentes incluídos no polo passivo da demanda, poderá, em decisão motivada, converter a ação de improbidade administrativa em ação civil pública, regulada pela Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985. (Incluído pela Lei nº 14.230, de 2021) § 17. Da decisão que converter a ação de improbidade em ação civil pública caberá agravo de instrumento. (Incluído pela Lei nº 14.230, de 2021). Entendo, contudo, que a interpretação teleológica e sistemática dos artigos acima citados indica que essa conversão deve ocorrer no primeiro grau, antes da sentença. Embora a lei empregue a expressão "a qualquer momento" ao tratar da conversão, ela também utiliza expressamente o termo "magistrado", indicando que a competência para a decisão de conversão pertence ao juízo de primeiro grau. Essa interpretação é reforçada pela previsão contida no § 17 do art. 17 da LIA, que estabelece, como recurso cabível contra a decisão de conversão, o agravo de instrumento. Trata-se de uma estrutura processual vinculada às instâncias inferiores, não sendo aplicável ao âmbito recursal em tribunais de segunda instância ou na instância especial. A conversão implica a redefinição da lide, com eventual mudança na causa de pedir e nos pedidos formulados, o que pode demandar aditamento da petição inicial e abertura de nova fase probatória, pelo que o instituto é apropriado enquanto o processo ainda está no primeiro grau de jurisdição e antes da sentença, em proteção ao contraditório e à ampla defesa, assim como aos princípios da estabilidade da lide e da segurança jurídica. Dito de outra maneira, sou de que a conversão prevista no art. 17, § 16, é mais apropriada para o momento inicial da demanda, quando ainda há margem para ajustes na petição inicial e na abertura de instrução probatória. Realizá-la em instância recursal, com anulação da sentença já proferida e com retorno dos autos ao estágio inicial, vai na contramão da solução da lide e da pacificação que se espera com o julgamento das ações. Nesse ponto, é importante destacar que o Superior Tribunal de Justiça já decidiu, por ocasião do julgamento do Tema 1.089, que o prosseguimento da demanda é possível para pleitear o ressarcimento de danos ao erário, mesmo quando afastadas as sanções previstas no art. 12 da LIA. Penso que tal entendimento aplica-se ao presente caso. É que o prosseguimento da ação, nessas hipóteses (do repetitivo), visa à satisfação de pedidos que já haviam sido cumulados na petição inicial, enquanto a conversão (propriamente dita) é diferente, porque pressupõe a alteração da natureza da lide, com consequente adaptação da causa de pedir e do objeto da demanda, situação que, repito, entendo ser apropriada até a sentença, mas não além desta. Melhor dizendo: nas ações de improbidade nas quais, além das demais sanções, há também alegação de dano e pedido de reparação deste, uma vez afastado o ato ímprobo, nada obsta o prosseguimento da demanda para buscar o ressarcimento ao erário, sendo tal possibilidade passível de reconhecimento em qualquer instância. Por outro lado, se não for para perseguir a reparação (remanescente) do dano, e sim para converter (em si) a ação de improbidade em ação civil pública de caráter geral, tenho que essa conversão deve se operar no primeiro grau e antes de ser proferida a sentença. No caso concreto, houve a indicação do dano ao erário na inicial e o pedido de reparação do suposto prejuízo, a evidenciar a aplicação do Tema 1.089 do STJ à espécie. Ante o exposto, CONHEÇO do agravo para DAR PROVIMENTO ao recurso especial, de modo a determinar a baixa dos autos ao primeiro grau de jurisdição, para o prosseguimento da ação de improbidade administrativa destinada ao exame da pretensão ressarcitória. Publique-se. Intimem-se. EMENTA