REsp 2121479 - ACORDAO
Os embargos de declaração foram rejeitados porque não há omissão, obscuridade ou contradição no acórdão: a condenação foi fundamentada em provas documentais e interceptações telefônicas irrepetíveis cuja valoração é lícita nos termos da parte final do art. 155 do CPP; o reexame da suficiência dessas provas...
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- Parties
- Embargante: FABIANO CEZAR NEVES DE OLIVEIRA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 September 2025
- Procedural Posture
- Embargos De Declaração No Agravo Regimental No Recurso Especial / Julgamento De Embargos De Declaração
- Outcome
- Embargos de declaração rejeitados por unanimidade
- Legal Topics
- Corrupção Passiva, Provas Irrepetíveis, Interceptação Telefônica, Dosimetria Da Pena, Circunstâncias Judiciais, Súmula 7 Do STJ, Embargos De Declaração
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Parties
FABIANO CEZAR NEVES DE OLIVEIRA
Embargante
Procedural Posture
Embargos De Declaração No Agravo Regimental No Recurso Especial / Julgamento De Embargos De Declaração
Legal Issues
- 1 cabimento dos embargos de declaração (omissão/obscuridade/contradição)
- 2 valoração de provas colhidas na fase inquisitorial e irrepetíveis
- 3 aplicação da parte final do art. 155 do CPP
Ratio Decidendi
Os embargos de declaração foram rejeitados porque não há omissão, obscuridade ou contradição no acórdão: a condenação foi fundamentada em provas documentais e interceptações telefônicas irrepetíveis cuja valoração é lícita nos termos da parte final do art. 155 do CPP; o reexame da suficiência dessas provas demandaria investigação de fatos e provas, vedada pela Súmula n. 7 do STJ; além disso, a exasperação da pena-base foi adequadamente motivada pela culpabilidade do agente como policial e pela habitualidade de recebimento de valores indevidos.
Court Disposition
Embargos de declaração rejeitados por unanimidade
Orders
- Rejeitam-se os embargos de declaração
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Sexta Turma, por unanimidade, rejeitar os embargos de declaração, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Antonio Saldanha Palheiro, Carlos Pires Brandão, Og Fernandes e Sebastião Reis Júnior votaram com o Sr. Ministro Relator. EMENTA EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CORRUPÇÃO PASSIVA. CONDENAÇÃO BASEADA EM PROVAS IRREPETÍVEIS. POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 155, PARTE FINAL, DO CPP. AUTORIA DELITIVA. REVISÃO. SÚMULA N. 7 DO STJ. PENA-BASE. FUNDAMENTAÇÃO VÁLIDA. OMISSÕES E OBSCURIDADES. NÃO OCORRÊNCIA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS. 1. O recurso integrativo é cabível tão somente nas hipóteses de ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão ocorridas na decisão embargada e é inadmissível quando, a pretexto da necessidade de esclarecimento, aprimoramento ou complemento, objetiva nova avaliação do caso. 2. No caso, o réu foi condenado com base em inúmeros documentos e diálogos interceptados, provas irrefutáveis de seu envolvimento no esquema criminoso, as quais, em conjunto, permitem a condenação, nos termos da ressalva contida no art. 155, parte final, do Código Penal, observado que esses elementos probatórios, ao contrário da prova testemunhal, são irrepetíveis. 3. Verificar se os documentos e as interceptações telefônicas comprovam a autoria delitiva demandaria reexame de fatos e provas, o que encontra óbice na Súmula n. 7 do STJ. 4. Quanto às circunstâncias do crime, a habitualidade com que o agente recebia valores indevidos, nos meses de março, abril, maio, junho e julho de 2011, constitui argumentação não inerente ao tipo penal nem insuficiente para justificar a opção judicial. 5. Não há necessidade de complementação ou de esclarecimento a respeito da decisão recorrida, que é explícita e inequívoca sobre os temas discutidos. Em verdade, o embargante trata como omissões e obscuridades o seu inconformismo com o resultado da solução prévia. 6. Segundo entendimento pacificado do STJ, "o julgador não é obrigado a rebater, um a um, todos os argumentos das partes, bastando que resolva a situação que lhe é apresentada sem se omitir sobre os fatores capazes de influir no resultado do julgamento" (AgRg no AREsp n. 2.583.796/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 24/9/2024, DJe de 1º/10/2024). 7. Embargos de declaração rejeitados.
RELATÓRIO O SENHOR MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ: FABIANO CEZAR NEVES DE OLIVEIRA opõe embargos de declaração ao acórdão de fls. 8.115-8.125, em que não foi provido o agravo regimental interposto. O embargante alega omissões e obscuridades no acórdão embargado. Para tanto, alega e requer o seguinte (fl. 8.137): (i) sobre a individualização dos documentos e a análise do parentesco e do local de apreensão das faturas na inferência acusatória à luz do art. 155 do CPP. (omissão) ii) a integração do acórdão para que a Turma: (a) individualize expressamente as peças diversas das faturas/"chip" que comprovem a extensão temporal para 2008-2010, explicitando seu conteúdo e peso; ou, (b) reconheça a inexistência desse lastro, afastando a menção a "habitualidade em longo período (2008-2011)" e refazendo a dosimetria sem a valoração negativa baseada em período não provado com o consequente afastamento do bis in idem e a redução da pena-base, se cabível. iii) sobre quais pontos são jurídicos e quais seriam fáticos, e, portanto, incidindo a súmula 07 do STJ (obscuridade) (iv) sobre o distinguishing parcelamento habitualidade na valoração da vetorial "circunstâncias do crime", afastando-se o bis in idem. (omissão) Pede a superação das imperfeições acima mencionadas. EMENTA EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CORRUPÇÃO PASSIVA. CONDENAÇÃO BASEADA EM PROVAS IRREPETÍVEIS. POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 155, PARTE FINAL, DO CPP. AUTORIA DELITIVA. REVISÃO. SÚMULA N. 7 DO STJ. PENA-BASE. FUNDAMENTAÇÃO VÁLIDA. OMISSÕES E OBSCURIDADES. NÃO OCORRÊNCIA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS. 1. O recurso integrativo é cabível tão somente nas hipóteses de ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão ocorridas na decisão embargada e é inadmissível quando, a pretexto da necessidade de esclarecimento, aprimoramento ou complemento, objetiva nova avaliação do caso. 2. No caso, o réu foi condenado com base em inúmeros documentos e diálogos interceptados, provas irrefutáveis de seu envolvimento no esquema criminoso, as quais, em conjunto, permitem a condenação, nos termos da ressalva contida no art. 155, parte final, do Código Penal, observado que esses elementos probatórios, ao contrário da prova testemunhal, são irrepetíveis. 3. Verificar se os documentos e as interceptações telefônicas comprovam a autoria delitiva demandaria reexame de fatos e provas, o que encontra óbice na Súmula n. 7 do STJ. 4. Quanto às circunstâncias do crime, a habitualidade com que o agente recebia valores indevidos, nos meses de março, abril, maio, junho e julho de 2011, constitui argumentação não inerente ao tipo penal nem insuficiente para justificar a opção judicial. 5. Não há necessidade de complementação ou de esclarecimento a respeito da decisão recorrida, que é explícita e inequívoca sobre os temas discutidos. Em verdade, o embargante trata como omissões e obscuridades o seu inconformismo com o resultado da solução prévia. 6. Segundo entendimento pacificado do STJ, "o julgador não é obrigado a rebater, um a um, todos os argumentos das partes, bastando que resolva a situação que lhe é apresentada sem se omitir sobre os fatores capazes de influir no resultado do julgamento" (AgRg no AREsp n. 2.583.796/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 24/9/2024, DJe de 1º/10/2024). 7. Embargos de declaração rejeitados. VOTO O SENHOR MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ (Relator): O recurso integrativo é cabível tão somente nas hipóteses de ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão ocorridas na decisão embargada e é inadmissível quando, a pretexto da necessidade de esclarecimento, aprimoramento ou complemento, objetiva nova avaliação do caso. Na espécie, apesar dos esforços do embargante, não identifico razão para o acolhimento dos aclaratório s. No que interessa, eis os fundamentos do ato embargado (fls. 8.121-8.124, grifos no original): I. Violação do art. 155 do CPP - não ocorrência O Tribunal de origem assim resolveu a controvérsia (fls. 7.906-7.907): As faturas telefônicas em nome do apelante encontradas no endereço residencial de Marcelo Artur, acompanhadas dos respectivos comprovantes de pagamento (folhas 3392/3393), referentes aos meses de março, abril, maio, junho e julho de 2011, que coincidem com o período dos fatos, bem como o chip Nextel por ele utilizado, comprado por Marcelo, conforme comprovante aprendido em seu poder, são elementos que configuram o recebimento de vantagem indevida. Uma série de outros outros diálogos interceptados e transcritos na sentença (folhas 101/111), por sua vez, evidenciam o fato de que o apelante se inseriu no esquema criminoso em razão da função pública de policial civil e das facilidades que o cargo lhe propiciava, valendo citar o seguinte trecho: .. Diante do farto conjunto probatório, resta mantida a condenação de Fabiano Cesar Neves de Oliveira pela prática do crime do artigo 317 do Código Penal. No caso, o réu foi condenado com base em inúmeros documentos e diálogos interceptados, provas irrefutáveis de seu envolvimento no esquema criminoso, as quais, em conjunto, permitem a condenação, nos termos da ressalva contida no art. 155, parte final, do Código Penal, observado que esses elementos probatórios, ao contrário da prova testemunhal, são irrepetíveis. Nesse sentido: O Superior Tribunal de Justiça consolidou o entendimento no sentido de que a prova colhida na fase inquisitorial, desde que corroborada por outros elementos probatórios, pode ser utilizada para lastrear o édito condenatório. E, mais, as provas irrepetíveis encontram-se na ressalva da parte final do art. 155 do CPP, sendo lícita sua valoração pela Corte local (AgRg no AREsp n. 1.874.234/MT, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe de 23/8/2021). (AgRg no HC n. 836.704/SC, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 11/3/2024, DJe de 15/3/2024.) É possível que a sentença se baseie em provas irrepetíveis, sem ofensa ao art. 155 do CPP, desde que franqueada à defesa a possibilidade de manifestação sobre tais elementos probatórios (AgRg no RHC n. 175.415/AL, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, julgado em 11/3/2024, DJe de 14/3/2024) A interceptação telefônica ou telemática é prova que não se reproduz em juízo, embora efetuada na fase de investigação, porque a repetição seria absolutamente inócua, razão pela qual ela não entra na regra geral do caput do art. 155, do CPP, mas na exceção da sua parte final (AgRg no HC n. 633.447/GO, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 22/8/2023, DJe de 28/8/2023) Verificar se os documentos e as interceptações telefônicas comprovam a autoria delitiva demandaria reexame de fatos e provas, o que encontra óbice na Súmula n. 7 do STJ. II. Ofensa ao art. 59 do CP - não configuração O aplicador do direito, consoante sua discricionariedade motivada, deve, na primeira etapa do procedimento trifásico, orientar-se pelas circunstâncias relacionadas no caput do art. 59 do Código Penal. Não é imprescindível dar rótulos e designações corretas às vetoriais, mas indicar elementos concretos relacionados às singularidades do caso para atender ao dever de motivação da mais severa individualização da pena. Nesse sentido: AgRg no HC n. 821.464/SC, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 4/12/2023, DJe de 7/12/2023. O Tribunal estadual reformou a pena-base fixada na sentença, nestes termos (fl. 7.907, grifei): Na 1ª fase da dosimetria, foram consideradas desfavoráveis ao apelante a culpabilidade, por se tratar de policial - "de quem se exige um comportamento adequado, ou seja, dentro do que a sociedade considera correto, do ponto de vista ético e moral" -, bem como as circunstâncias do crime, visto que Fabiano recebia valores com habitualidade pelos serviços prestados a Marcelo, o que justifica a fixação da pena-base no dobro do mínimo, em 4 (quatro) anos de reclusão e 80 dias-multa, reduzindo, assim, em 8 (oito) meses e em 24 (vinte e quatro) dias-multa as penas fixadas na sentença, e reduzido seu valor unitário para R$ 100,00 (cem reais), a ser corrigido a partir do julgamento definitivo do recurso. A pena será inicialmente cumprida em regime aberto, e substituída por duas restritivas de direitos, conforme artigo 44, I, do Código Penal. Como se observa, em virtude da culpabilidade e das circunstâncias do crime, a sanção-base foi estabelecida em 4 anos de reclusão e 80 dias-multa. Quanto às circunstâncias do crime, a habitualidade com que o agente recebia valores indevidos - "meses de março, abril, maio, junho e julho de 2011" (fl. 7.906) - constitui argumentação não inerente ao tipo penal nem insuficiente para justificar a opção judicial. A discricionariedade judicial motivada na dosimetria da pena é reconhecida por esta Corte. Não existe direito subjetivo a critério rígido ou puramente matemático para a exasperação da pena-base. Em regra, afasta-se a tese de desproporcionalidade em casos de aplicação de frações de 1/6 sobre a pena mínima ou de 1/8 sobre o intervalo entre os limites mínimo e máximo do tipo, admitido outro critério mais severo, desde que devidamente justificado. Nesse sentido: AgRg no HC n. 844.533/AL, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 13/5/2024, DJe de 16/5/2024. Confira-se ainda o seguinte precedente: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PENAL. ROUBO CIRCUNSTANCIADO E ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA. DOSIMETRIA. EXASPERAÇÃO DA PENA-BASE PELO RECONHECIMENTO DE UMA CIRCUNSTÂNCIA JUDICIAL DESFAVORÁVEL. PATAMAR SUPERIOR A UM SEXTO. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. CIRCUNSTÂNCIAS DO CASO CONCRETO QUE DEMONSTRAM A MAIOR GRAVIDADE DA CONDUTA CRIMINOSA. PRECEDENTES. INEXISTÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. ORDEM DE HABEAS CORPUS DENEGADA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A majoração da pena na primeira fase de dosimetria deve seguir, em regra, a fração de 1/6 (um sexto) para cada circunstância judicial considerada desfavorável. A eleição de patamar superior a esse quantum exige que o Órgão Judiciário decline fundamentos idôneos e concretos capazes de demonstrar que o contexto na hipótese exorbita a gravidade inerente àquela vetorial. Precedentes. 2. Nessa linha de intelecção, é possível, inclusive, "estabelecer a pena-base no patamar máximo com fundamento em apenas uma circunstância judicial desabonadora" (STJ, AgRg no AREsp 1445055/MG, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 16/05/2019, DJe 21/05/2019), caso sejam apontados fundamentos concretos para tanto. 3. No caso em apreço, as instâncias ordinárias motivaram adequadamente a exasperação da reprimenda básica, porquanto ressaltaram que a vítima foi mantida em cativeiro (restrição de liberdade) por longo período (cerca de sete horas), sendo que durante esse lapso temporal sofreu ameaças de morte mediante o uso de arma de fogo. Tais circunstâncias evidenciam que o quantum de 1/3 (um terço) utilizados para a majoração da sanção penal foi proporcional à maior gravidade da conduta. 4. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 711.280/MS, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 29/3/2022, DJe de 4/4/2022, destaquei) A respeito do patamar de aumento, a instância antecedente adotou fração proporcional e adequada para o aumento da pena-base (2 anos), observadas as peculiaridades do caso concreto - crime cometido por policial, em razão de sua função pública, e habitualidade delitiva do agente. Não vejo necessidade de complementação ou de esclarecimento a respeito da decisão recorrida, que é explícita e inequívoca sobre os temas discutidos. Em verdade, o embargante trata como omissões e obscuridades o seu inconformismo com o resultado da solução prévia. Com efeito, "o julgador não é obrigado a re bater, um a um, todos os argumentos das partes, bastando que resolva a situação que lhe é apresentada sem se omitir sobre os fatores capazes de influir no resultado do julgamento" (AgRg no AREsp n. 2.583.796/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 24/9/2024, DJe de 1º/10/2024). À vista do exposto, rejeito os embargos de declaração.