REsp 2195929 - DECISAO
Nego provimento ao recurso especial porque não foram preenchidos cumulativamente os requisitos necessários à fixação de valor mínimo por dano moral coletivo (pedido expresso na denúncia, indicação/quantificação do valor pretendido e realização de instrução processual específica que assegure o contraditório e a ampla...
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- Parties
- Apelante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS; Recorrido: recorrido; Manifestante: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 22 August 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão Sobre Recurso Especial (negado Provimento)
- Outcome
- Negado provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Dano Moral Coletivo, Tráfico De Drogas, Fixação De Indenização Na Sentença, Art. 387, IV, CPP, Instrução Probatória Específica
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Apelante
recorrido
Recorrido
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Manifestante
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão Sobre Recurso Especial (negado Provimento)
Legal Issues
- 1 possibilidade de condenação por dano moral coletivo sem instrução específica
- 2 exigência de pedido expresso e indicação/quantificação do valor para indenização
- 3 interpretação e aplicação do art. 387, IV, do Código de Processo Penal
Ratio Decidendi
Nego provimento ao recurso especial porque não foram preenchidos cumulativamente os requisitos necessários à fixação de valor mínimo por dano moral coletivo (pedido expresso na denúncia, indicação/quantificação do valor pretendido e realização de instrução processual específica que assegure o contraditório e a ampla defesa), de modo que não se pode condenar automaticamente o acusado ao pagamento de indenização por dano moral coletivo.
Court Disposition
Negado provimento ao recurso especial.
Orders
- Nego provimento ao recurso especial.
- Publique-se e intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS interpõe recurso especial, com fundamento no art. 105, III, "a", da Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça daquele estado (Apelação Criminal n. 1.0000.23.349592-8/001). Consta dos autos que o recorrido foi condenado pela prática do crime de tráfico de drogas. Nas razões do recurso especial, o Ministério Público aponta violação dos arts. 63, caput e parágrafo único, 387, IV, do Código de Processo Penal e 91, I, do Código Penal. Afirma, em síntese, que os réus devem ser condenados por dano moral coletivo. Requer, assim, o provimento do recurso, "para que seja restabelecida a vigência dos artigos infraconstitucionais violados, condenando o recorrido ao pagamento de indenização a título de dano moral coletivo" (fl. 808). O Ministério Público Federal manifestou-se pelo não provimento do recurso especial. Decido. No que tange à pretendida condenação do réu por danos morais coletivos, em razão de terem sido condenados pela prática do crime de tráfico de drogas, faço o registro de que a Corte Especial deste Superior Tribunal, por ocasião do julgamento dos EREsp n. 1.342.846/RS (Rel. Ministro Raul Araújo, DJe 3/8/2021), firmou o entendimento de que: CONSUMIDOR E PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. EXPLORAÇÃO DE JOGO DE BINGO. VIOLAÇÃO À INTEGRIDADE MORAL DOS CONSUMIDORES. DANOS MORAIS COLETIVOS. CARACTERIZAÇÃO IN RE IPSA. SÚMULA 168/STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL NÃO CONFIGURADA. EMBARGOS NÃO CONHECIDOS. 1. É remansosa a jurisprudência deste Tribunal Superior no sentido de que o dano moral coletivo é aferível in re ipsa, dispensando a demonstração de prejuízos concretos e de aspectos de ordem subjetiva. O referido dano será decorrente do próprio fato apontado como violador dos direitos coletivos e difusos, por essência, de natureza extrapatrimonial, sendo o fato, por si mesmo, passível de avaliação objetiva quanto a ter ou não aptidão para caracterizar o prejuízo moral coletivo, este sim nitidamente subjetivo e insindicável. 2. O dano moral coletivo somente se configurará se houver grave ofensa à moralidade pública, objetivamente considerada, causando lesão a valores fundamentais da sociedade e transbordando da tolerabilidade. A violação aos interesses transindividuais deve ocorrer de maneira inescusável e injusta, percebida dentro de uma apreciação predominantemente objetiva, de modo a não trivializar, banalizar a configuração do aludido dano moral coletivo. 3. A tese jurídica, trazida no acórdão ora embargado, de que o dano moral coletivo se configura in re ipsa, está em conformidade com a jurisprudência dominante do Superior Tribunal de Justiça, o que leva à incidência da Súmula 168/STJ. 4. Os arestos cotejados, analisando hipóteses fáticas distintas, adotaram o mesmo raciocínio jurídico, ora reconhecendo, ora afastando o dano moral coletivo, entendendo ser este aferível in re ipsa, e independer de prova do efetivo prejuízo concreto ou abalo moral. O paradigma adota a mesma inteligência do aresto ora hostilizado, exigindo uma violação qualificada ao ordenamento jurídico, de maneira que o evento danoso deve ser reprovável, intolerável e extravasar os limites do individualismo, atingindo valores coletivos e difusos primordiais. Assim, não há dissenso pretoriano entre ambos os arestos. 5. Embargos de divergência não conhecidos. Assim, segundo o entendimento desta Corte, não há óbice a que o Magistrado, ao proferir uma sentença condenatória, fixe determinado valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração penal cometida, considerando os prejuízos sofridos pela vítima, a teor do enunciado no art. 387, IV, do CPP. No entanto, "quando se trata de dano moral coletivo, essa possibilidade deve ser verificada no caso concreto, com instrução processual específica que demonstre a relevância do dano causado à sociedade e a razoabilidade do valor fixado, porquanto o dano moral coletivo somente se configurará se houver grave ofensa à moralidade pública, objetivamente considerada, causando lesão a valores fundamentais da sociedade e transbordando da tolerabilidade" (AgRg no REsp n. 2.055.996/MG, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, 6ª T., DJe 22/5/2024). Ou seja, o simples pedido de fixação de um valor indenizatório, com a indicação de um montante, não resulta na condenação automática do acusado por tráfico de drogas à reparação por danos morais coletivos. É imprescindível que haja uma instrução probatória específica sobre esse tema no processo. Nesse sentido, menciono, dentre muitos, o seguinte julgado: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL E PROCESSO PENAL. JULGAMENTO MONOCRÁTICO. OFENSA AO PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. TRÁFICO DE DROGAS. DANO MORAL COLETIVO. FIXAÇÃO. REQUISITOS. PEDIDO EXPRESSO. INDICAÇÃO DE VALOR E INSTRUÇÃO ESPECÍFICA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Não viola o princípio da colegialidade a decisão monocrática, exarada pelo relator, quando não cognoscível o objetivado recurso, seja por incidência de óbice processual ou, ainda, quando alinhado o aresto recorrido à jurisprudência dominante desta Corte Uniformizadora, ex vi dos arts. 557 e 932, III, ambos do CPC, c/c o art. 3º do CPP. Tal faculdade, ressalve-se, encontra-se encampada, ainda, pela dicção sistêmica da Súmula n. 568/STJ, do art. 38 da Lei n. 8.038/1990 e, notadamente, do art. 34, XVIII e XX, do RISTJ. 2. A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp n. 1.986.672/SC, Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe 21/11/2023, fixou o entendimento de que a reparação de danos morais individuais, quando possuírem caráter in re ipsa, não exige instrução específica. Dessa maneira, ressalvada a hipótese do Tema Repetitivo 983/STJ - que estabelece contornos específicos para os casos de violência doméstica - a aplicação do art. 387, inciso IV, do Código de Processo Penal, quando a conduta delitiva envolve sujeito passivo determinado, impõe o atendimento de dois requisitos mínimos: (i) o pedido expresso de indenização para reparação mínima dos danos causados pelo fato delituoso e (ii) a indicação clara do valor pretendido a esse título, sob pena de violação ao princípio do contraditório e ao próprio sistema acusatório. 3. A situação, contudo, é totalmente diversa quando se está a divisar a reparação de danos morais coletivos, relativos a infração penal cujo sujeito passivo é indeterminado, como é o caso dos autos, em que se imputa a prática do crime de tráfico de droga. Nessas situações é necessário se socorrer do conceito de direitos e interesses transindividuais difusos e coletivos, impondo-se uma interpretação sistemática do ordenamento jurídico. 4. A reparabilidade decorrente da violação desses direitos ou interesses transindividuais, pela própria natureza da verba indenizatória que se pretende auferir, i. é, danos morais coletivos, para além da comprovação da prática da conduta típica, exige-se que a instrução demonstre ter havido concreto e efetivo abalo à esfera moral coletiva. Nessa situação, a possibilidade de reparação do dano moral, cujo credor é a coletividade, deve ser verificada no caso concreto, com instrução processual específica que demonstre a relevância do dano causado à sociedade e a razoabilidade do valor fixado, porquanto, conforme orienta a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, o dano moral coletivo somente se configurará se houver grave ofensa à moralidade pública, objetivamente considerada, causando lesão a valores fundamentais da sociedade e transbordando da tolerabilidade. 5. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp n. 2.146.421/MG, Rel. Ministro Otávio de Almeida Toledo (Desembargador convocado do TJSP), 6ª T., DJe 23/12/2024). Na hipótese, a Corte estadual salientou que (fl. 707, grifei): No caso em tela, embora o Ministério Público tenha formulado pedido expresso, não foram observados os princípios do contraditório e da ampla defesa, uma vez que, durante a instrução criminal, nada foi produzido quanto à eventual dano moral sofrido. É certo que se deve permitir às partes interessadas o direito de realizar provas que possam influenciar o sentenciante quando da fixação do valor mínimo para reparação dos danos causados, o que não ocorreu no caso em questão. Portanto, uma vez que não foram preenchidos, cumulativamente, todos os requisitos necessários para a fixação de valor mínimo a título de reparação por danos morais coletivos - quais sejam: (a) pedido expresso na denúncia; (b) indicação/quantificação do valor pretendido; (c) realização de instrução processual específica para garantir o contraditório e a ampla defesa -, não há como se acolher o pedido formulado pelo recorrente. A propósito, veja-se a manifestação do Subprocurador-Geral da República, José Elaeres Marques Teixeira, no sentido de que, "embora seja cabível a fixação do montante mínimo para indenizar danos morais na forma do art. 387, IV, do CPP, de acordo com a jurisprudência do STJ, é necessária, além do pedido expresso na denúncia, a quantificação do valor pretendido pela acusação e a instrução a seu respeito, de modo a permitir o amplo exercício do contraditório" (fl. 886). À vista do exposto, nego provimento ao recurso especial. Publique-se e intimem-se. EMENTA