REsp 2129274 - DECISAO
Conheci do recurso especial e dei-lhe provimento por entender que a tese revista do Tema 677/STJ aplica-se imediatamente: o depósito judicial em garantia não isenta o devedor do pagamento dos encargos moratórios previstos no título executivo até a efetiva liberação do crédito ao credor, momento em que deve ser...
Source-derived case information.
- Parties
- Exequente/recorrente: ANA PAULA FERRARI
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 08 November 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Conhecido E Provido
- Outcome
- Recurso especial conhecido e provido para reformar o acórdão recorrido.
- Legal Topics
- Depósito Judicial, Tema 677/stj, Cumprimento De Sentença, Encargos Moratórios, Recurso Repetitivo, Trânsito Em Julgado
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
ANA PAULA FERRARI
Exequente/recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Conhecido E Provido
Legal Issues
- 1 Aplicabilidade imediata do Tema 677 do STJ sem aguardar trânsito em julgado
- 2 Efeito do depósito judicial na cessação da mora e na incidência de encargos moratórios previstos no título executivo
- 3 Dedução do saldo da conta judicial e seus acréscimos no momento da efetiva liberação ao credor
Ratio Decidendi
Conheci do recurso especial e dei-lhe provimento por entender que a tese revista do Tema 677/STJ aplica-se imediatamente: o depósito judicial em garantia não isenta o devedor do pagamento dos encargos moratórios previstos no título executivo até a efetiva liberação do crédito ao credor, momento em que deve ser deduzido do montante devido o saldo do depósito judicial e seus acréscimos pagos pela instituição depositária.
Court Disposition
Recurso especial conhecido e provido para reformar o acórdão recorrido.
Orders
- Determinar a incidência dos encargos moratórios previstos no título executivo, a cargo do devedor, até a efetiva liberação do crédito em favor da parte exequente.
- Na ocasião da efetiva liberação, deve ser deduzido do valor devido o saldo do depósito judicial e seus acréscimos, esses últimos pagos pela instituição financeira depositária.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por ANA PAULA FERRARI, com fundamento no art. 105, III, a e c, da Constituição Federal, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo em agravo de instrumento nos autos de cumprimento de sentença (Agravo de Instrumento n. 2226225-39.2023.8.26.0000). O julgado foi assim ementado (fl. 114): AGRAVO DE INSTRUMENTO AÇÃO CIVIL PÚBLICA - EXPURGOS INFLACIONÁRIOS PLANO VERÃO - Atualização do débito até efetivo pagamento e disponibilização Aplicação imediata do Tema nº 677 do STJ Não cabimento Caso em que o acórdão referente à tese firmada no Tema nº 677, do STJ foi contrastado por embargos declaratórios, ensejando-se manifestação do embargado, de acordo com a regra de processamento prevista no § 2º, do art. 1.023, do CPC, para eventual possibilidade infringente, estando ainda aludidos embargos pendentes de análise Aplicação do acórdão paradigma relativo ao Tema 677 que demanda a conclusão do julgamento dos embargos declaratórios interpostos contra a decisão proferida no REsp nº 1820963/SP, não se afigurando possível ao caso concreto. Recurso desprovido. Nas razões do recurso especial, a parte recorrente alega dissídio jurisprudencial e violação dos arts. 467, 468, 473, 474, 926, 927, III, do CPC. Defende, em síntese, a aplicabilidade imediata da orientação vinculante referente ao Tema n. 677 do STJ e a impossibilidade de modulação do entendimento firmado para liberar o devedor do pagamento dos consectários próprios de sua obrigação diante do valor depositado e ainda não disponibilizado ao credor. Requer o provimento do recurso para acolher os pedidos e determinar a incidência dos encargos moratórios previstos no título executivo, a cargo do devedor, até o efetivo pagamento. Contrarrazões pelo não conhecimento ou pelo desprovimento do recurso (fls. 228-233). Admitido o recurso especial (fls. 240-242), os autos ascenderam ao Superior Tribunal de Justiça. É o relatório. Decido. Trata-se, na origem, de agravo de instrumento interposto contra decisão proferida em cumprimento de sentença que, ao tratar da atualização do crédito em execução, afastou a aplicação da nova tese fixada referente ao Tema n. 677, devido à ausência de trânsito em julgado (fl. 52). O Tribunal a quo negou provimento ao recurso (fls. 114-117). Sobreveio recurso especial em que a parte exequente, ora recorrente, defende a aplicabilidade imediata da orientação vinculante referente ao Tema n. 677 do STJ. A questão referente aos efeitos do depósito judicial em garantia do juízo foi definida pelo Superior Tribunal de Justiça sob a sistemática de recursos repetitivos (Tema n. 677 do STJ). No julgamento do REsp n. 1.348.640/RS, em 2014, havia sido firmada a tese repetitiva no sentido de que, "na fase de execução, o depósito judicial do montante (integral ou parcial) da condenação extingue a obrigação do devedor, nos limites da quantia depositada" (REsp n. 1.348.640/RS, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Corte Especial, julgado em 7/5/2014, DJe de 21/5/2014). Posteriormente, no julgamento do REsp n. 1.820.963/SP, a tese referente ao Tema n. 677 foi revista para aclarar entendimento originário sobre o tema. Na ocasião, fixou-se a seguinte tese: "Na execução, o depósito efetuado a título de garantia do juízo ou decorrente da penhora de ativos financeiros não isenta o devedor do pagamento dos consectários de sua mora, conforme previstos no título executivo, devendo-se, quando da efetiva entrega do dinheiro ao credor, deduzir do montante final devido o saldo da conta judicial". A propósito, confira-se a ementa desse julgado: DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. RECURSO ESPECIAL. PROCEDIMENTO DE REVISÃO DO ENTENDIMENTO FIRMADO NO TEMA 677/STJ. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. PENHORA DE ATIVOS FINANCEIROS. DEPÓSITO JUDICIAL. ENCARGOS MORATÓRIOS PREVISTOS NO TÍTULO EXECUTIVO. INCIDÊNCIA ATÉ A EFETIVA DISPONIBILIZAÇÃO DA QUANTIA EM FAVOR DO CREDOR. BIS IN IDEM. INOCORRÊNCIA. NATUREZA E FINALIDADE DISTINTAS DOS JUROS REMUNERATÓRIOS E DOS JUROS MORATÓRIOS. NOVA REDAÇÃO DO ENUNCIADO DO TEMA 677/STJ. 1. Cuida-se, na origem, de ação de indenização, em fase de cumprimento de sentença, no bojo do qual houve a penhora online de ativos financeiros pertencentes ao devedor, posteriormente transferidos a conta bancária vinculada ao juízo da execução. 2. O propósito do recurso especial é dizer se o depósito judicial em garantia do Juízo libera o devedor do pagamento dos encargos moratórios previstos no título executivo, ante o dever da instituição financeira depositária de arcar com correção monetária e juros remuneratórios sobre a quantia depositada. 3. Em questão de ordem, a Corte Especial do STJ acolheu proposta de instauração, nos presentes autos, de procedimento de revisão do entendimento firmado no Tema 677/STJ, haja vista a existência de divergência interna no âmbito do Tribunal quanto à interpretação e alcance da tese, assim redigida: "na fase de execução, o depósito judicial do montante (integral ou parcial) da condenação extingue a obrigação do devedor, nos limites da quantia depositada". 4. Nos termos dos arts. 394 e 395 do Código Civil, considera-se em mora o devedor que não efetuar o pagamento na forma e tempos devidos, hipótese em que deverá responder pelos prejuízos a que sua mora der causa, mais juros e atualização dos valores monetários, além de honorários de advogado. A mora persiste até que seja purgada pelo devedor, mediante o efetivo oferecimento ao credor da prestação devida, acrescida dos respectivos consectários (art. 401, I, do CC/02). 5. A purga da mora, na obrigação de pagar quantia certa, assim como ocorre no adimplemento voluntário desse tipo de prestação, não se consuma com a simples perda da posse do valor pelo devedor; é necessário, deveras, que ocorra a entrega da soma de valor ao credor, ou, ao menos, a entrada da quantia na sua esfera de disponibilidade. 6. No plano processual, o Código de Processo Civil de 2015, ao dispor sobre o cumprimento forçado da obrigação, é expresso no sentido de que a satisfação do crédito se dá pela entrega do dinheiro ao credor, ressalvada a possibilidade de adjudicação dos bens penhorados, nos termos do art. 904, I, do CPC. 7. Ainda, o CPC expressamente vincula a declaração de quitação da quantia paga ao momento do recebimento do mandado de levantamento pela parte exequente, ou, alternativamente, pela transferência eletrônica dos valores (art. 906). 8. Dessa maneira, considerando que o depósito judicial em garantia do Juízo - seja efetuado por iniciativa do devedor, seja decorrente de penhora de ativos financeiros - não implica imediata entrega do dinheiro ao credor, tampouco enseja quitação, não se opera a cessação da mora do devedor. Consequentemente, contra ele continuarão a correr os encargos previstos no título executivo, até que haja efetiva liberação em favor do credor. 9. No momento imediatamente anterior à expedição do mandado ou à transferência eletrônica, o saldo da conta bancária judicial em que depositados os valores, já acrescidos da correção monetária e dos juros remuneratórios a cargo da instituição financeira depositária, deve ser deduzido do montante devido pelo devedor, como forma de evitar o enriquecimento sem causa do credor. 10. Não caracteriza bis in idem o pagamento cumulativo dos juros remuneratórios, por parte do Banco depositário, e dos juros moratórios, a cargo do devedor, haja vista que são diversas a natureza e finalidade dessas duas espécies de juros. 11. O Tema 677/STJ passa a ter a seguinte redação: "na execução, o depósito efetuado a título de garantia do juízo ou decorrente da penhora de ativos financeiros não isenta o devedor do pagamento dos consectários de sua mora, conforme previstos no título executivo, devendo-se, quando da efetiva entrega do dinheiro ao credor, deduzir do montante final devido o saldo da conta judicial". 12. Hipótese concreta dos autos em que o montante devido deve ser calculado com a incidência dos juros de mora previstos na sentença transitada em julgado, até o efetivo pagamento da credora, deduzido o saldo do depósito judicial e seus acréscimos pagos pelo Banco depositário. 13. Recurso especial conhecido e provido. (REsp n. 1.820.963/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, julgado em 19/10/2022, DJe de 16/12/2022) Registre-se que, por ocasião do referido julgamento, foi expressamente afastada a proposta de modulação dos efeitos da nova tese fixada. Ressalte-se ainda que esta Corte , seguindo orientação do Supremo Tribunal Federal, possui o entendimento de ser desnecessário aguardar o trânsito em julgado para a aplicação do precedente firmado em recurso repetitivo ou em repercussão geral (AgInt no REsp n. 1.751.637/SP, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 9/10/2023, DJe de 11/10/2023; AgInt no REsp n. 1.747.227/SP, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 28/8/2023, DJe de 31/8/2023). No caso dos autos, o Tribunal de origem afastou a aplicação da nova tese vinculante fixada por esta Corte na revisão do Tema n. 677, sob o fundamento de ausência de trânsito em julgado. Confira-se (fls. 114-117, destaquei): No que tange ao tema 677, do Superior Tribunal de Justiça, é certo que nos acórdãos paradigma, tanto do Supremo Tribunal Federal (AgR na Recl nº 30.003, 1ª Turma, rel. Min. Roberto Barroso, j. 04/06/2018), como do Superior Tribunal de Justiça (AgInt no REsp nº 1.645.165-PB, 1ª Turma, rel. Min. Gurgel de Faria, j. 25/10/2021), é afirmado que desnecessário o aguardo do trânsito em julgado para a aplicação da tese firmada em sede de recurso repetitivo ou na sistemática da repercussão geral. Todavia, nenhum dos paradigmas apontados enfrentou a situação aqui ocorrente, qual seja, acórdão contrastado por embargos declaratórios com caráter infringente, tanto que no seu processam ento aplicou-se a regra do § 2º, do art. 1.023, do Código de Processo Civil, possibilitando manifestação do embargado, como se pode verificar no Portal do Superior Tribunal de Justiça, na partição de consulta processual, movimentação referente ao REsp nº 1820963/SP (Ministério Público Federal intimado eletronicamente da(o) Vista Ao Embargado Para Impugnação Dos Edcl em 22/02/2023 (300104); e outras aberturas de vista de embargos declaratórios ordenadas aos 08/02/2023, aos 07/02/2023, aos 27/01/2023 e aos 26/02/2023). Sendo assim, não se afigura idêntica hipótese para aplicação de idêntica solução ao caso presente, e, nesse contexto, não é possível a aplicação de comandos eventualmente contidos no específico acórdão porquanto não houve o julgamento dos embargos declaratórios interpostos contra a decisão proferida no REsp nº 1820963/SP. .. Considerado isso, pagamento existente, os ônus da mora, no caso, cessaram com o depósito judicial, e em razão disso não é cabível a incidência dos encargos sobre a quantia que, na sua proporção, extinguiu a dívida excutida. Ressalte-se que o importe depositado, a contar do dia em que confiado ao juízo, passou a ser remunerado e atualizado na forma prevista para que tal aconteça quando se trata de depósitos judiciais, sendo observadas, nesse aspecto, as diretrizes da Corregedoria Geral da Justiça, na forma de seus Comunicados nº 85/86 e nº 1.969/2012, confirmado em seu teor pelo Provimento nº 347/98, do Conselho Superior da Magistratura. Assim, o entendimento adotado na origem - que afastou a aplicação imediata da nova tese fixada referente ao Tema n. 677 - não se coaduna com a orientação vinculante estabelecida pelo STJ. Ante o exposto, conheço do recurso especial e dou-lhe provimento para reformar o acórdão recorrido e determinar a incidência dos encargos moratórios previstos no título executivo, a cargo do devedor, até a efetiva liberação do crédito em favor da parte exequente, oportunidade em que deverá ser deduzido do valor devido o saldo do depósito judicial e seus acréscimos, esses últimos pagos pela instituição financeira depositária. Publique-se. Intimem-se. EMENTA