CC 204225 - DECISAO
Conheci do conflito e declarei competente o Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP (juízo universal/falimentar) para decidir acerca da desconsideração da personalidade jurídica das falidas e em relação aos atos de constrição de bens ou valores dos seus sócios, porquanto a Lei nº 14.112/2020, ao...
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- Parties
- Suscitante: Thiago Luis Bertolo; Suscitante: Marina Bertolo Vergílio; Suscitante: Mariele Bertolo; Suscitado: Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP; Suscitado: Juízo da Vara do Trabalho de Bebedouro/SP
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 August 2024
- Procedural Posture
- Conflito De Competência / Decisão Sobre Conflito De Competência
- Outcome
- Conheço do conflito e declaro competente o Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP para decidir acerca da desconsideração da personalidade jurídica das falidas, bem como em relação aos atos de constrição de bens ou valores dos seus sócios.
- Legal Topics
- Desconsideração Da Personalidade Jurídica, Competência, Recuperação Judicial, Falência, Suspensão De Ações, Incidente De Desconsideração
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Parties
Thiago Luis Bertolo
Suscitante
Marina Bertolo Vergílio
Suscitante
Mariele Bertolo
Suscitante
Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP
Suscitado
Juízo da Vara do Trabalho de Bebedouro/SP
Suscitado
Procedural Posture
Conflito De Competência / Decisão Sobre Conflito De Competência
Legal Issues
- 1 Se a instauração do incidente de desconsideração da personalidade jurídica e atos de constrição em face de sócios de empresa falida competem ao juízo falimentar ou à Justiça do Trabalho após as alterações da Lei nº 11.101/05 pela Lei nº 14.112/2020
- 2 Se decisões proferidas pelo juízo trabalhista após a vigência da Lei nº 14.112/2020 que determinam o redirecionamento de atos de execução aos sócios caracterizam conflito de competência
Ratio Decidendi
Conheci do conflito e declarei competente o Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP (juízo universal/falimentar) para decidir acerca da desconsideração da personalidade jurídica das falidas e em relação aos atos de constrição de bens ou valores dos seus sócios, porquanto a Lei nº 14.112/2020, ao inserir o art. 82-A na Lei nº 11.101/2005, estabeleceu competência exclusiva do juízo falimentar para decretar a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade falida, e as decisões do juízo trabalhista que determinaram o redirecionamento foram proferidas após a vigência dessas alterações.
Court Disposition
Conheço do conflito e declaro competente o Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP para decidir acerca da desconsideração da personalidade jurídica das falidas, bem como em relação aos atos de constrição de bens ou valores dos seus sócios.
Orders
- Liminar deferida às fls. 477/479
- Intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de conflito de competência suscitado por Thiago Luis Bertolo, Marina Bertolo Vergílio e Mariele Bertolo, com pedido de liminar, em face do Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP e do Juízo da Vara do Trabalho de Bebedouro/SP. Afirmam que a recuperação judicial do Grupo Bertolo, do qual são sócios, foi convertida em falência pelo Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP, momento em que determinou-se a suspensão, nos termos do artigo 99, V, da LRF, de todas as ações ou execuções contra as falidas, ressalvadas as hipóteses previstas nos §§ 1º e 2º do art. 6º da mesma Lei, ficando suspensa, também, a prescrição. Aduzem que, não obstante, "no âmbito das reclamatórias trabalhistas de nº 0000634-91.2011.5.15.0058; 0001044-81.2013.5.15.0058; 0001065-57.2013.5.15.0058; 0001097-62.2013.5.15.0058; 0001098-47.2013.5.15.0058; 0001183-33.2013.5.15.0058; 0001184-18.2013.5.15.0058; 0001185-03.2013.5.15.0058; 0001276-93.2013.5.15.0058; 0001277-78.2013.5.15.0058, todas em trâmite perante a Vara do Trabalho de Bebedouro/SP, foi deferida a instauração de incidente de desconsideração da personalidade jurídica da empresa falida/devedora principal", com o redirecionamento dos atos de execução em face dos sócios da empresa. Sustentam que, assim, uma vez deferida a falência, a competência da justiça do trabalho limita-se à individualização e quantificação do crédito trabalhista, que deverá ser habilitado perante o juízo falimentar. Liminar deferida às fls. 477/479, informações do Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP às fls. 486/530, e do Juízo da Vara do Trabalho de Bebedouro/SP às fls. 626/628. Manifestação do Ministério Público Federal às fls. 619/623 opinando pelo conhecimento do conflito, declarando-se competente o Juízo universal. Manifestação dos interessados às fls. 532/614, aduzindo, em síntese, que, "conforme jurisprudência firmada no âmbito do c. TST, decretada a falência ou a recuperação judicial de um dos devedores, não há óbice para o prosseguimento da execução em face dos demais devedores, incluindo-se aí os casos de desconsideração da personalidade jurídica, pois se leva em conta que os bens dos sócios não foram arrecadados no juízo falimentar. Isso porque a pessoa jurídica da sociedade comercial tem personalidade e patrimônios próprios, distintos dos das pessoas físicas dos seus sócios. (Arts. 1º, 44, 45 e 997, III do CC/2002)". Eis os fundamentos pelos quais deferi a liminar: A jurisprudência desta Corte já havia se firmado no sentido de que "Não caracteriza conflito de competência a determinação feita pelo Juízo do Trabalho de instauração de incidente de desconsideração da personalidade jurídica da empresa em recuperação judicial ou falida, direcionando os atos de execução provisória para os sócios da suscitante. Isso porque, em princípio, salvo decisão do Juízo universal em sentido contrário, os bens dos sócios ou de outras sociedades do mesmo grupo econômico da devedora não estão sujeitos à recuperação judicial ou à falência" (AgInt nos EDcl no CC 172.193/MT, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 30/3/2021, DJe 14/4/2021). Ocorre, contudo, que a Lei n. 14.112/2020 introduziu diversas alterações na Lei n. 11.101/05, entre elas as do artigo 82-A, que dispõem que: Art. 82-A. É vedada a extensão da falência ou de seus efeitos, no todo ou em parte, aos sócios de responsabilidade limitada, aos controladores e aos administradores da sociedade falida, admitida, contudo, a desconsideração da personalidade jurídica. (Incluído pela Lei nº 14.112, de 2020) (Vigência) Parágrafo único. A desconsideração da personalidade jurídica da sociedade falida, para fins de responsabilização de terceiros, grupo, sócio ou administrador por obrigação desta, somente pode ser decretada pelo juízo falimentar com a observância do art. 50 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil) e dos arts. 133, 134, 135, 136 e 137 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil), não aplicada a suspensão de que trata o § 3º do art. 134 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil). (Incluído pela Lei nº 14.112, de 2020) Desse modo, passou para a competência exclusiva do Juízo da Falência a instauração do incidente de desconsideração da personalidade jurídica da falida. Entendo, contudo, que, para a configuração de conflito de competência, é necessário que a decisão do Juízo Trabalhista sobre a desconsideração da personalidade jurídica da falida, com o redirecionamento dos atos de constrição em face dos sócios ou coobrigados, tenha sido proferida após a entrada em vigor das referidas alterações na Lei n. 11.110/05, dado que antes, conforme já afirmado, tal providência não lhe era vedada. No caso dos autos, foram proferidas decisões, pelo Juízo da Vara do Trabalho de Bebedouro/SP julgando procedente o incidente de desconsideração da personalidade jurídica da empresa, com o redirecionamento da execução em face dos sócios da falida, ora suscitantes, em decisões proferidas entre agosto de 2023 e fevereiro de 2024 (fls. 102/150), após a entrada em vigor das alterações promovidas pela Lei n. 14.112/2020, na Lei n. 11.101.05, ocorrida em 23.1.2021, configurando, assim, o fumus boni iuris da pretensão. Assim, entendo ser prudente a concessão da liminar, a fim obstar atos de constrição em face dos suscitantes, até que os Juízos suscitados se manifestem. O Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP manifestou-se afirmando que, "por consequência do decreto falimentar, foi determinada a suspensão de todas as ações e execuções somente contra as Falidas Floralco Açúcar e Álcool Ltda., Agro Bertolo Ltda., Floralco Energética Geração de Energia Ltda., Bertolo Agroindustrial Ltda. e Bertolo Importadora e Exportadora Ltda., ressalvadas as hipóteses previstas nos art. 6º, § 1º e 2º da Lei nº 11.101/05, bem como proibida a prática de qualquer ato de disposição ou oneração de bens dos devedores, sem expressa autorização do Juízo Universal", informando, ainda, que, até o presente momento, não houve a comunicação de adoção de medidas que visam à extensão da falência e seus efeitos aos antigos sócios do Grupo Bertolo. Por sua vez, o Juízo da Vara do Trabalho de Bebedouro/SP prestou informações afirmando que, "o presente feito trata-se de reclamação trabalhista ajuizada em face da reclamada, BERTOLO AGROINDUSTRIAL LTDA, a qual foi condenada ao pagamento de verbas trabalhistas, na forma da sentença proferida. Após, homologação dos cálculos, houve a intimação do administrador judicial da ré, para apresentação de embargos à execução, tendo transcorrido "in albis" o prazo. O autor requereu a instauração do incidente de desconsideração da personalidade jurídica, o que foi deferido por este Juízo em 0/02 /2024, com a devida intimação dos sócios. Houve impugnação dos sócios incluídos, a qual foi rejeitada, mantendo-se a decisão anterior, inclusive Informo, por fim, que não houve a prática de nenhum ato expropriatório em face dos sócios e que os autos ficaram no aguardo da solução do conflito de competência. Desse modo, conforme constou da decisão que deferiu a liminar, em vista das modificações que a Lei n. 14.112/2020 introduziu na Lei n. 11.101/05, a desconsideração da personalidade jurídica de empresa falida, que é o caso dos autos, passou a ser da competência exclusiva do Juízo universal, estando, assim, caracterizado o conflito de competência no presente caso. Nesse sentido também é o entendimento do Ministério Público Federal, em seu parecer, no qual consignou que, in verbis: 1. O Superior Tribunal de Justiça consolidou entendimento de que a justiça trabalhista é competente para aplicar a teoria da desconsideração da personalidade jurídica e, eventualmente, determinar medidas constritivas que afetem os bens de sócio da sociedade empresária falida quando seu acervo patrimonial não está sujeito ao processo falimentar. Inteligência do enunciado nº 480 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça, aplicado por analogia. 2. Entretanto, pelas recentes alterações trazidas pela Lei 14.112/20 à Lei nº 11.101/05, especialmente em relação ao art. 82-A, a competência para decretação da desconsideração da personalidade jurídica para fins de responsabilização de terceiros passou a ser exclusiva do juízo falimentar. Em face do exposto, conheço do conflito a fim de declarar competente para decidir acerca da desconsideração da personalidade jurídica das falidas, bem como em relação aos atos de constrição de bens ou valores dos seus sócios, o Juízo de Direito da Vara Única de Flórida Paulista/SP. Intimem-se. EMENTA