REsp 1899029 - ACORDAO
O agravo regimental foi improvido porque o agravante não desconstituiu os fundamentos da decisão recorrida; o recolhimento domiciliar noturno com monitoração eletrônica compromete o status libertatis e, por isso, deve ser considerado como período a ser detraído da pena nos termos do art. 42 do Código Penal, em...
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- Parties
- Agravante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO PARANÁ
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 20 June 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental Em Recurso Especial / Julgamento Em Sessão Virtual (11/06/2024 a 17/06/2024)
- Outcome
- Agravo regimental improvido; decisão mantida.
- Legal Topics
- Detração, Recolhimento Domiciliar Noturno, Monitoração Eletrônica, Medida Cautelar Diversa Da Prisão, Princípio Da Proporcionalidade, Non Bis in Idem, Excesso De Execução
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO PARANÁ
Agravante
Procedural Posture
Agravo Regimental Em Recurso Especial / Julgamento Em Sessão Virtual (11/06/2024 a 17/06/2024)
Legal Issues
- 1 Possibilidade de detração da pena pelo período de recolhimento domiciliar noturno com monitoração eletrônica
- 2 Se o recolhimento domiciliar com monitoração eletrônica compromete o status libertatis
- 3 Se o monitoramento eletrônico é condição para reconhecimento da detração
Ratio Decidendi
O agravo regimental foi improvido porque o agravante não desconstituiu os fundamentos da decisão recorrida; o recolhimento domiciliar noturno com monitoração eletrônica compromete o status libertatis e, por isso, deve ser considerado como período a ser detraído da pena nos termos do art. 42 do Código Penal, em observância aos princípios da proporcionalidade e do non bis in idem, e na linha da jurisprudência consolidada do STJ.
Court Disposition
Agravo regimental improvido; decisão mantida.
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental.
- Manter a decisão que reconheceu a detração do período de recolhimento domiciliar noturno com monitoração eletrônica para fins de execução penal.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em sessão virtual de 11/06/2024 a 17/06/2024, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Rogerio Schietti Cruz, Antonio Saldanha Palheiro, Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT) e Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do TJSP) votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Sebastião Reis Júnior. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. DECISÃO MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. DETRAÇÃO. MEDIDA CAUTELAR DIVERSA DA PRISÃO. RECOLHIMENTO DOMICILIAR NOTURNO COM MONITORAÇÃO ELETRÔNICA. POSSIBILIDADE. COMPROMETIMENTO DO STATUS LIBERTATIS DO CONDENADO. ATENDIMENTO AOS PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DO NE BIS IN IDEM. 1. Não há como abrigar agravo regimental que não logra desconstituir o fundamento da decisão atacada. 2. Agravo regimental improvido.
RELATÓRIO Trata-se de agravo regimental interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO PARANÁ contra a decisão que negou provimento ao recurso especial, assim resumida (fl. 268): RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. DETRAÇÃO. MEDIDA CAUTELAR DIVERSA DA PRISÃO. RECOLHIMENTO DOMICILIAR NOTURNO COM MONITORAÇÃO ELETRÔNICA. POSSIBILIDADE. COMPROMETIMENTO DO STATUS LIBERTATIS DO CONDENADO. ATENDIMENTO AOS PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DO NE BIS IN IDEM. Recurso especial improvido. Alega o Parquet paranaense não haver dúvidas de que a melhor exegese do art. 42 do Código Penal é aquela que confere maior sentido ao ordenamento jurídico como um todo, de modo a não igualar dois institutos completamente distintos: a prisão preventiva e a liberdade provisória mediante monitoração eletrônica. No ponto, enquanto a primeira priva e destitui, a segunda apenas restringe. Em resumo, a liberdade provisória monitorada também não se equipara à prisão domiciliar, sendo esta última apenas uma modalidade de cumprimento da prisão preventiva, em hipóteses excepcionalíssimas previstas no Código de Processo Penal (fl. 284). Diz que a detração, enquanto abatimento do total da pena a ser cumprida pelo período em que o sentenciado permaneceu recluso provisoriamente, não pode aplicada em relação ao período de tempo em que a ré permaneceu solta, podendo trabalhar extramuros e levar uma vida normal, com determinadas e escassas restrições (fl. 284). É o relatório. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. DECISÃO MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. DETRAÇÃO. MEDIDA CAUTELAR DIVERSA DA PRISÃO. RECOLHIMENTO DOMICILIAR NOTURNO COM MONITORAÇÃO ELETRÔNICA. POSSIBILIDADE. COMPROMETIMENTO DO STATUS LIBERTATIS DO CONDENADO. ATENDIMENTO AOS PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DO NE BIS IN IDEM. 1. Não há como abrigar agravo regimental que não logra desconstituir o fundamento da decisão atacada. 2. Agravo regimental improvido. VOTO A decisão impugnada deve ser mantida pelo que nela se contém, tendo em conta que o agravante não logrou desconstituir seu fundamento, motivo pelo qual o trago ao Colegiado para ser confirmado. Com efeito, de acordo com o afirmado anteriormente, o Tribunal de Justiça paranaense manteve a detração da pena referente ao período de prisão domiciliar com monitoração eletrônica, destacando que, de acordo com a Resolução n. 9/2015 da Corregedoria-Geral de Justiça deste egrégio Tribunal de Justiça, os dias em que a pessoa estiver em prisão domiciliar com monitoração eletrônica serão considerados para fins de detração penal. .. Desse modo, a agravante por permanecer sob monitoração eletrônica sem poder deixar sua residência sem autorização judicial faz jus a detração penal, pois estava provada de sua liberdade. Sendo assim, em razão da privação da liberdade imposta à agravante, esta faz jus a detração da pena em relação ao período em que permaneceu sob monitoração eletrônica nos termos do artigo 42 do Código Penal (fls. 34/37 - grifo nosso). Ao que se observa, o acórdão recorrido vai ao encontro da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no sentido de que, embora inexista previsão legal, o recolhimento domiciliar noturno, por comprometer o status libertatis da pessoa humana, deve ser reconhecido como pena efetivamente cumprida para fins de detração da pena, em homenagem ao princípio da proporcionalidade e em apreço ao princípio do non bis in idem. Precedentes (HC n. 496.049/MG, Ministro Felix Fischer, Quinta Turma, DJe 20/5/2019 - grifo nosso). Ademais, o óbice à detração do tempo de recolhimento noturno e aos finais de semana determinado com fundamento no art. 319 do Código de Processo Penal sujeita o Apenado a excesso de execução, em razão da limitação objetiva à liberdade concretizada pela referida medida diversa do cárcere (HC n. 455.097/PR, Ministra Laurita Vaz, Terceira Seção, DJe 7/6/2021 - grifo nosso). No mesmo sentido: EDcl no AgRg no HC n. 625.295/SC, Ministro João Otávio de Noronha, Quinta Turma, DJe 14/12/2021 e AgRg nos EDcl no AREsp n. 1.674.599/SP, Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe 19/10/2021. Em reforço (Tema repetitivo 1155) : RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. DIREITO PENAL E PROCESSO PENAL. EXECUÇÃO DA PENA. DETRAÇÃO. MEDIDA CAUTELAR. RECOLHIMENTO NOTURNO E NOS DIAS DE FOLGA. POSSIBILIDADE. COMPROMETIMENTO DO STATUS LIBERTATIS DO ACUSADO. INTERPRETAÇÃO DADA AO ART. 42 DO CÓDIGO PENAL - CP. EXTENSIVA E BONAM PARTEM. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE E NON BIS IN IDEM. IN DUBIO PRO REO. DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. DESNECESSIDADE DO MONITORAMENTO ELETRÔNICO ASSOCIADO. MEDIDA POUCO UTILIZADA NO PAÍS. PRECARIEDADE. ALTO CUSTO. DÚVIDAS QUANTO À EFETIVIDADE. PREVALECE NAS FASES DE EXECUÇÃO DA PENA. DUPLA RESTRIÇÃO AO APENADO. IMPOSSIBILIDADE. TRATAMENTO ISONÔMICO. EXCESSO DE EXECUÇÃO. CONTAGEM. HORAS CONVERTIDAS EM DIAS. REMANESCENDO PERÍODO MENOR QUE 24 HORAS, A FRAÇÃO SERÁ DESPREZADA. PROVIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. FIXAÇÃO DAS TESES . .. 4. Delimitadas as teses jurídicas para os fins dos arts. 927, III, 1.039 e seguintes do CPC/2015 : 4.1. O período de recolhimento obrigatório noturno e nos dias de folga, por comprometer o status libertatis do acusado deve ser reconhecido como período a ser detraído da pena privativa de liberdade e da medida de segurança, em homenagem aos princípios da proporcionalidade e do non bis in idem. 4.2. O monitoramento eletrônico associado, atribuição do Estado, não é condição indeclinável para a detração dos períodos de submissão a essas medidas cautelares, não se justificando distinção de tratamento ao investigado ao qual não é determinado e disponibilizado o aparelhamento. 4.3. As horas de recolhimento domiciliar noturno e nos dias de folga devem ser convertidas em dias para contagem da detração da pena. Se no cômputo total remanescer período menor que vinte e quatro horas, essa fração de dia deverá ser desprezada. 5. Recurso especial provido para que o período de recolhimento domiciliar noturno e nos dias de folga obrigatório da recorrente seja detraído da pena que lhe foi imposta, nos moldes delineados. (REsp n. 1.977.135/SC, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Terceira Seção, julgado em 23/11/2022, DJe de 28/11/2022. - grifo nosso). Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental.