HC 996042 - DECISAO
Embora o habeas corpus não deva substituir recurso próprio, foi reconhecida ilegalidade flagrante na decisão de origem: o acórdão contrariou a orientação vinculante do Tema n. 1.155 do STJ. Assim, concedeu-se a ordem de ofício determinando que o juízo da execução penal, em nova decisão, considere o período de...
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- Parties
- Paciente: JOÃO ANTÔNIO DE OLIVEIRA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 May 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática (não Conhecimento Do Writ E Concessão De Ordem De Ofício)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para determinar a detração do período de recolhimento domiciliar noturno e nos finais de semana, nos termos do Tema n. 1.155 do STJ.
- Legal Topics
- Detração, Recolhimento Domiciliar Noturno, Habeas Corpus, Tema Repetitivo N. 1.155 Do STJ
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Parties
JOÃO ANTÔNIO DE OLIVEIRA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática (não Conhecimento Do Writ E Concessão De Ordem De Ofício)
Legal Issues
- 1 Cabimento de detração do período de recolhimento domiciliar noturno e nos finais de semana
- 2 Admissibilidade do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio e possibilidade de concessão em caso de ilegalidade flagrante
Ratio Decidendi
Embora o habeas corpus não deva substituir recurso próprio, foi reconhecida ilegalidade flagrante na decisão de origem: o acórdão contrariou a orientação vinculante do Tema n. 1.155 do STJ. Assim, concedeu-se a ordem de ofício determinando que o juízo da execução penal, em nova decisão, considere o período de recolhimento domiciliar noturno e nos finais de semana para fins de detração da pena, nos termos do entendimento consolidado pelo STJ.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para determinar a detração do período de recolhimento domiciliar noturno e nos finais de semana, nos termos do Tema n. 1.155 do STJ.
Orders
- Determinar que o Juízo da execução penal, em nova decisão, considere o período de vigência do recolhimento domiciliar noturno e nos finais de semana para detração, nos termos do Tema n. 1.155 do STJ.
- Comunicar-se, com urgência, o Tribunal de origem e o Juízo singular.
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de JOÃO ANTÔNIO DE OLIVEIRA em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (Agravo de Execução Penal n. 0014818-66.2024.8.26.0502). Consta dos autos que o Juízo da execução penal indeferiu o pedido de detração relativo ao período de recolhimento domiciliar noturno (fls. 43-45). A defesa interpôs agravo em execução perante o Tribunal de origem, o qual negou provimento ao recurso (fls. 11-13). No presente writ, a impetrante sustenta que foi imposta uma restrição injustificada ao direito do paciente, ao não considerar o período de recolhimento domiciliar noturno como passível de detração, contrariando o Tema n. 1.155 do Superior Tribunal de Justiça. Aduz que o recolhimento domiciliar noturno e nos finais de semana deve ser considerado para detração, por representar significativa limitação à liberdade do paciente, assemelhando-se à prisão domiciliar, entendimento esse respaldado por precedentes do Superior Tribunal de Justiça. Alega que a medida cautelar de recolhimento domiciliar noturno impõe restrição severa ao direito de locomoção do paciente, com reflexos diretos em sua vida pessoal e profissional, razão pela qual a detração do período de cumprimento dessa medida se mostra necessária para evitar punição excessiva e desproporcional. Por isso, requer, inclusive liminarmente, a concessão da ordem para que seja deferida a detração do período de recolhimento noturno e nos finais de semana. O pedido liminar foi indeferido (fls. 78-79). Parecer do Ministério Público Federal pela concessão da ordem (fls. 86-87). É o relatório. O Superior Tribunal de Justiça entende ser inadmissível a utilização do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio, previsto na legislação, impondo-se o não conhecimento da impetração. Sobre a questão, confiram-se os seguintes julgados desta Corte Superior: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DO HABEAS CORPUS COMO SUCEDÂNEO DE REVISÃO CRIMINAL. AGRAVO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto por Pablo da Silva contra decisão monocrática que não conheceu de habeas corpus, com base no entendimento de que o habeas corpus foi utilizado em substituição a revisão criminal. O agravante foi condenado a 1 ano de reclusão, com substituição da pena por restritiva de direitos, pela prática de furto (art. 155, caput, CP). A defesa pleiteou a conversão da pena restritiva de direitos em multa, alegando discriminação com base na condição financeira do paciente. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há duas questões em discussão: (i) definir se é cabível o conhecimento do habeas corpus utilizado em substituição à revisão criminal; e (ii) estabelecer se a escolha da pena restritiva de direitos, em vez de multa, configura discriminação por condição financeira. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O habeas corpus não é admitido como substituto de revisão criminal, conforme a jurisprudência consolidada do STJ e do STF, ressalvados casos de flagrante ilegalidade. 4. Não houve demonstração de ilegalidade evidente na escolha da pena restritiva de direitos, sendo esta compatível com a natureza do crime e as condições pessoais do condenado. IV. DISPOSITIVO E TESE 5. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. O habeas corpus não pode ser utilizado como substituto de revisão criminal, salvo em casos de flagrante ilegalidade. 2. A escolha de pena restritiva de direitos, em substituição à privativa de liberdade, não configura discriminação por condição financeira, desde que adequadamente fundamentada. Dispositivos relevantes citados: Código Penal, art. 155; STJ, AgRg no HC 861.867/SC; STF, HC 921.445/MS. (AgRg no HC n. 943.522/SC, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 22/10/2024, DJe de 4/11/2024.) PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. NULIDADE. ABSOLVIÇÃO IMPETRAÇÃO DE HABEAS CORPUS NA FLUÊNCIA DO PRAZO PARA A INTERPOSIÇÃO DE RECURSOS NA ORIGEM. IMPOSSIBILIDADE. 1. "O writ foi manejado antes do dies ad quem para a interposição da via de impugnação própria na causa principal, o recurso especial. Dessa forma, a impetração consubstancia inadequada substituição do recurso cabível ao Superior Tribunal de Justiça, não se podendo excluir a possibilidade de a matéria ser julgada por esta Corte na via de impugnação própria, a ser eventualmente interposta na causa principal" (AgRg no HC n. 895.954/DF, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo - Desembargador Convocado do TJSP, Sexta Turma, julgado em 12/8/2024, DJe de 20/8/2024.) 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 939.599/SE, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 23/10/2024, DJe de 28/10/2024.) Portanto, não se pode conhecer do presente habeas corpus. Por outro lado, o exame dos autos indica a existência de ilegalidade flagrante, apta a autorizar a concessão da ordem de ofício. O Tribunal de origem negou provimento ao agravo em execução interposto pela defesa, consignando, para tanto, que (fl. 13): O agravante aduz que "(..) esteve submetido à medida cautelar de recolhimento domiciliar noturno, no horário das 22h às 06h em dias úteis, e recolhimento integral nos finais de semana e feriados, no período de 04/06/2019 a 29/05/2020, conforme comprovado nos autos. Nessa data então, cumpriu rigorosamente tal medida, perfazendo um total de 360 dias. (..) Deste modo, para efeito de cálculo, considera-se que a Requerente cumpriu 8 horas por dia de recolhimento noturno nos dias úteis e 24 horas diárias nos finais de semana e feriados. Diante do exposto, requer-se a detração do período em que o Agravante cumpriu as medidas cautelares fixadas" (fls. 3/5). Contrariamente ao pretendido, incabível operar-se detração desse período, por falta de amparo legal. Estabelece o CP, art. 42: "computam-se, na pena privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro, o de prisão administrativa e o de internação em qualquer dos estabelecimentos referidos no artigo anterior..". O legislador previu apenas a prisão provisória e administrativa como possibilidade de cômputo para o cumprimento de pena privativa de liberdade. Nesse contexto, verifica-se que o acórdão impugnado contraria a orientação do Superior Tribunal de Justiça emanada no julgamento do Tema Repetitivo n. 1.155, dotado de efeito vinculante, devendo, por isso, ser obrigatoriamente observado pelas instâncias inferiores. A propósito: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. DETRAÇÃO DE TEMPO EM MEDIDA CAUTELAR DE RECOLHIMENTO DOMICILIAR NOTURNO E DIAS DE FOLGA. POSSIBILIDADE. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA DO ART. 42 DO CÓDIGO PENAL. PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E NON BIS IN IDEM. RECURSO PROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Recurso especial interposto visando o reconhecimento do direito à detração do período em que o réu permaneceu sob medida cautelar de recolhimento domiciliar noturno, com a contagem desse período para a redução da pena privativa de liberdade, em consonância com os princípios da proporcionalidade e do non bis in idem. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há questão em discussão: (i) determinar se o período de cumprimento de medida cautelar de recolhimento domiciliar noturno e em dias de folga pode ser considerado para fins de detração penal; III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O art. 42 do Código Penal, ao dispor sobre detração, não prevê expressamente a medida cautelar de recolhimento domiciliar noturno e em dias de folga, mas sua interpretação deve ser feita de forma extensiva e bonam partem, em respeito aos princípios da proporcionalidade e do non bis in idem. 4. O recolhimento domiciliar noturno, embora não constitua prisão, compromete o status libertatis do réu, ao impor restrições significativas à sua liberdade de locomoção, justificando a sua consideração para efeitos de detração. 5. O princípio da dignidade da pessoa humana e o caráter ressocializador da execução penal reforçam a interpretação de que o período de restrição imposta por medidas cautelares deve ser computado como tempo de pena cumprido. 6. A jurisprudência desta Corte já consolidou o entendimento de que a medida de recolhimento domiciliar noturno não necessita de monitoramento eletrônico para ser considerada na detração, pois a exigência de tal monitoramento implicaria tratamento desigual e excesso de execução, o que afrontaria o princípio da isonomia. IV. RECURSO PROVIDO PARA QUE SEJAM RECONHECIDOS, PARA FINS DE DETRAÇÃO DA PENA, O TEMPO DE RECOLHIMENTO NOTURNO E DIAS DE FOLGA. (REsp n. 2.158.159/SP, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 17/12/2024, DJEN de 23/12/2024, grifei.) AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE. FUNDAMENTOS DA DECISÃO QUE INADMITIU O RECURSO NÃO COMBATIDOS. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. DETRAÇÃO. PERÍODO DE RECOLHIMENTO DOMICILIAR NOTURNO. CONCESSÃO DE OFÍCIO. 1. Não há ofensa ao princípio da colegialidade diante da existência de previsão legal e regimental para que o relator julgue, monocraticamente, o agravo em recurso especial quando constatar as situações descritas no art. 932, III, do CPC, c/c o art. 253, parágrafo único, I, do RISTJ, hipótese ocorrida nos autos. 2. É ônus da parte agravante impugnar as causas específicas de inadmissão do recurso especial, sob pena de incidência da Súmula n. 182 do STJ. 3. Na espécie, o insurgente deixou de infirmar a aplicação das Súmulas 284 do STF e 83 do STJ, a impossibilidade de alegação de divergência com paradigmas oriundos de habeas corpus, mandado de segurança ou recurso ordinário e a deficiência de cotejo analítico. 4. A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça firmou a compreensão majoritária de que o período de cumprimento de medida cautelar de recolhimento domiciliar deve ser computado para fins de detração penal por representar limitação à liberdade de locomoção, uma vez que o rol do art. 42 do Código Penal é numerus apertus. 5. Agravo regimental não provido. Habeas corpus concedido de ofício para que se proceda à detração do período de cumprimento da medida cautelar de recolhimento noturno do recorrente. (AgRg no AREsp n. 2.026.411/SC, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 17/5/2022, DJe de 24/5/2022, grifei.) Ante o exposto, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para determinar que o Juízo da execução penal, em nova decisão, considere o período de vigência do cumprimento da medida cautelar de recolhimento domiciliar noturno e nos finais de semana para detração, nos termos do Tema n. 1.155 do STJ. Comunique-se, com urgência, o Tribunal de origem e o Juízo singular. Publique-se. Intimem-se. EMENTA