REsp 2112002 - DECISAO
Houve violação da jurisprudência do STJ e do STF ao indeferir a matrícula; proviu-se o recurso especial para garantir o acesso da parte à creche da rede municipal, com inversão dos ônus sucumbenciais.
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- Parties
- Recorrente: I A R
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 June 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Provimento Pelo STJ
- Outcome
- Recurso especial provido.
- Legal Topics
- Direito À Educação Infantil, Matrícula Em Creche, Lista De Espera, Honorários Sucumbenciais, Defensoria Pública
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Parties
I A R
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Provimento Pelo STJ
Legal Issues
- 1 Existência de direito subjetivo ao acesso à creche e pré-escola exigível individualmente
- 2 Efeitos da lista de espera sobre a matrícula escolar
- 3 Incidência da Emenda Constitucional 80/2014 sobre o pagamento de honorários sucumbenciais
Ratio Decidendi
Houve violação da jurisprudência do STJ e do STF ao indeferir a matrícula; proviu-se o recurso especial para garantir o acesso da parte à creche da rede municipal, com inversão dos ônus sucumbenciais.
Court Disposition
Recurso especial provido.
Orders
- Garantir que a parte tenha acesso à creche da rede municipal
- Inverter os ônus sucumbenciais
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por I A R, com respaldo na alínea "a" do permissivo constitucional, contra acórdão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO assim ementado (e-STJ fl. 341): RECURSO DE APELAÇÃO COM REEXAME NECESSÁRIO - AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER - MATRÍCULA EM CRECHE - INSUFICIÊNCIA DE VAGAS - EXISTÊNCIA DE LISTA DE ESPERA - OBSERVÂNCIA - HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS EM FAVOR DA DEFENSORIA PÚBLICA - NÃO CABIMENTO - APLICAÇÃO DA E.C 80/2014 - DECISÃO RETIFICADA - RECURSO DESPROVIDO. A Constituição Federal garante o dever do Estado com a educação mediante a garantia de educação infantil em creche e pré-escola. Para tanto, o ente municipal deve adotar as providências necessárias e cabíveis para o acesso a todas as crianças ao ensino. Não é possível a matrícula de criança em creche, com lotação esgotada, quando há lista de espera a aguardar o surgimento de vagas. A Emenda Constitucional n. 80/2014 equipara a Defensoria Pública à Magistratura e ao Ministério Público, portanto, incabível o pagamento de honorários sucumbenciais em seu favor, conforme precedentes deste E. Tribunal. Juízo de retratação não exercido (e-STJ fls. 447/449), em julgamento assim sumariado: APELAÇÃO CÍVEL - JUÍZO DE RETRATAÇÃO - ARTIGOS 1.030, II, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - ACÓRDÃO QUE NEGOU PROVIMENTO A RECURSO DE APELAÇÃO - VAGA EM CRECHE - INSUFICIÊNCIA DE VAGAS - EXISTÊNCIA DE LISTA DE ESPERA - OBSERVÂNCIA - PRECEDENTES DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL - VIOLAÇÃO AO TEMA Nº 548 NÃO OBSERVADO - JUÍZO DE RETRATAÇÃO NEGATIVO - ACÓRDÃO MANTIDO 1. A Constituição Federal garante o dever do Estado com a educação mediante a garantia de educação infantil em creche e pré-escola. Para tanto, o ente municipal deve adotar as providências necessárias e cabíveis para o acesso a todas as crianças ao ensino. 2. Não é possível a matrícula de criança em creche, com lotação esgotada, quando há lista de espera a aguardar o surgimento de vagas. Em suas razões, a parte recorrente aponta violação dos arts. 29 e 30, I e II, da Lei n. 9.394/1996 e dos arts. 53, V e 54, IV, da Lei n. 8.069/1990, argumentando, em suma, que "a matrícula de crianças de zero a cinco anos em creche é um DIREITO FUNDAMENTAL BÁSICO, garantido e protegido pela Lei Maior em nosso ordenamento jurídico, devendo ser prontamente concretizado, não podendo, de tal modo, ficar suscetível a critérios de conveniência e oportunidade dos gestores públicos" (e-STJ fl. 362). Sem contrarrazões. Juízo positivo de admissibilidade pelo Tribunal de origem às e-STJ fls. 464/467. O parecer ministerial, às e-STJ fls. 486/490, opina pelo provimento do recurso especial. Passo a decidir. No caso concreto, o Tribunal de origem decidiu em desconformidade com a jurisprudência do STJ e do STF, que reconhecem a existência do direito subjetivo público e universal de acesso à creche e pré-escola. O STF, no julgamento do RE 1.008.166/SC, Tema 548 de Repercussão Geral, fixou as seguintes teses: 1. A educação básica em todas as suas fases - educação infantil, ensino fundamental e ensino médio - constitui direito fundamental de todas as crianças e jovens, assegurado por normas constitucionais de eficácia plena e aplicabilidade direta e imediata. 2. A educação infantil compreende creche (de zero a 3 anos) e a pré-escola (de 4 a 5 anos). Sua oferta pelo Poder Público pode ser exigida individualmente, como no caso examinado neste processo. 3. O Poder Público tem o dever jurídico de dar efetividade integral às normas constitucionais sobre acesso à educação básica. Nesse mesmo sentido: CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. ART. 127 DA CF/88. ART. 7º DA LEI 8.069/90. DIREITO AO ENSINO FUNDAMENTAL AOS MENORES DE SEIS ANOS "INCOMPLETOS". PRECEITO CONSTITUCIONAL REPRODUZIDO NO ART. 54 DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. NORMA DEFINIDORA DE DIREITOS NÃO PROGRAMÁTICA. EXIGIBILIDADE EM JUÍZO. INTERESSE TRANSINDIVIDUAL ATINENTE ÀS CRIANÇAS SITUADAS NESSA FAIXA ETÁRIA. 1. O direito à educação, insculpido na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, é indisponível, em função do bem comum, derivado da própria força impositiva dos preceitos de ordem pública que regulam a matéria. 2. Menores de seis anos incompletos têm direito, com base em norma constitucional reproduzida no art. 54 do ECA (Lei 8.069/90), ao ensino fundamental. 3. Consagrado, por um ângulo, o dever do Estado; revela-se, por outro, o direito subjetivo da criança. Consectariamente, em função do princípio da inafastabilidade da jurisdição, a todo direito corresponde uma ação que o assegura, sendo certo que todas as crianças nas condições estipuladas pela lei enquadram-se na esfera desse direito e podem exigi-lo em juízo. A homogeneidade e transindividualidade do direito em foco enseja a propositura da Ação Civil Pública. 4. Descabida a tese da discricionariedade, a única dúvida que se poderia suscitar resvalaria na natureza da norma ora sob enfoque, se programática ou definidora de direitos. Muito embora a matéria seja, somente nesse particular, constitucional, sem importância se mostra essa categorização. Tendo em vista a explicitude do ECA, é inequívoca a normatividade suficiente à promessa constitucional, a ensejar a acionabilidade do direito à educação. 5. Ressoa evidente que toda imposição jurisdicional à Fazenda Pública implica dispêndio, sem que isso infrinja a harmonia dos poderes porquanto, no regime democrático e no estado de direito, o Estado soberano submete-se à própria Justiça que instituiu. Afastada, assim, a ingerência entre os poderes, o Judiciário, alegado o malferimento da lei, nada mais fez que cumpri-la ao determinar a realização prática da promessa da legislação. 6. Recurso Especial provido. (REsp 1189082/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, DJe 04/02/2011). Em precedentes mais recentes, vale conferir: REsp 2.111.997/MT, Rel. Min. Sérgio Kukina, DJe de 22/08/2024; REsp 2.111.998/MT, Rel. Min. Herman Benjamin, Dje de 27/02/2024; REsp 2.075.694/RS, Rel. Ministra Assusete Magalhães, DJe de 04/08/2023. Ante o exposto, com base no art. 255, § 4º, III, do RISTJ, DOU PROVIMENTO ao recurso especial, para garantir que a parte tenha acesso à creche da rede municipal. Ficam invertidos os ônus sucumbenciais. Publique-se. Intimem-se. EMENTA