REsp 2060835 - DECISAO
Acolheram-se os embargos de declaração com efeitos infringentes porque houve omissão quanto à análise da alegação de que a embargada não reside no imóvel; diante da jurisprudência desta Corte sobre a aplicação do art. 1.831 do CC/2002 (reconhecendo a possibilidade de manutenção do direito real de habitação mesmo...
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- Parties
- Embargante: ODETE DOS SANTOS COSTA; Embargada: parte contrária
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 March 2024
- Procedural Posture
- Embargos De Declaração / Acolhimento Com Efeitos Infringentes
- Outcome
- Embargos de declaração acolhidos com efeitos infringentes.
- Legal Topics
- Direito Real De Habitação, Cônjuge Supérstite, Novo Casamento, Locação Do Imóvel, Interpretação Do Art. 1.831 Do Cc/2002
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Parties
ODETE DOS SANTOS COSTA
Embargante
parte contrária
Embargada
Procedural Posture
Embargos De Declaração / Acolhimento Com Efeitos Infringentes
Legal Issues
- 1 omissão quanto à residencialidade da embargada no imóvel objeto do direito de habitação
- 2 manutenção do direito real de habitação após novo casamento
- 3 aplicação e alcance do art. 1.831 do Código Civil de 2002
Ratio Decidendi
Acolheram-se os embargos de declaração com efeitos infringentes porque houve omissão quanto à análise da alegação de que a embargada não reside no imóvel; diante da jurisprudência desta Corte sobre a aplicação do art. 1.831 do CC/2002 (reconhecendo a possibilidade de manutenção do direito real de habitação mesmo após novo casamento) e da ausência de apreciação de outras teses na origem, decidiu-se cassar o acórdão recorrido e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento à luz do entendimento do STJ.
Court Disposition
Embargos de declaração acolhidos com efeitos infringentes.
Orders
- Dá-se provimento aos embargos de declaração com efeitos infringentes.
- Altera-se o dispositivo para: dá-se provimento ao recurso especial, com cassação do acórdão recorrido e determinação do retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento à luz do entendimento desta Corte.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de embargos de declaração, opostos por ODETE DOS SANTOS COSTA, em face de decisão monocrática da lavra deste signatário (fls. 135-139, e-STJ), deu provimento ao recurso especial interposto pela parte contrária a fim de restabelecer o reconhecimento do direito real de habitação à recorrente. Daí os presentes embargos de declaração (fls. 143-146, e-STJ), no qual a insurgente alega, em síntese, a existência de omissão, sob o argumento de que não teria sido analisado o fato de que a viúva não reside no imóvel ao qual pretende o direito de habitação. Impugnação apresentada às fls. 149-153, e-STJ. É o relatório. Decido. Os aclaratórios merecem acolhimento. 1. Com efeito, nos estreitos lindes do artigo 1022 do CPC, o recurso de embargos de declaração objetiva somente suprir omissão, dissipar obscuridade, afastar contradição ou sanar erro material encontrável em decisão ou acórdão, não podendo ser utilizado como instrumento para a rediscussão do julgado. A embargante pleiteia aplicação de efeito modificativo, com a finalidade de que seja analisado o fato da embargada não residir no imóvel ao qual pretende o direito real de habitação. A tese ora trazida não fora analisada anteriormente, porquanto na origem foi dado provimento ao pedido da ora embargante no sentido de se afastar o direito real de habitação da embargada pelo fato da celebração do novo casamento, tendo sido julgada prejudicada a análise das demais teses, dentre eles a locação do bem (fl. 39, e-STJ). Quando do julgado do apelo nobre por este STJ ficou consignado que o julgamento da Corte estadual estava em dissonância com o entendimento firmado nesta Casa no sentido de que, nos casos em que a sucessão for aberta na vigência do Código Civil de 2002, o caráter vidual (estado de viuvez) previsto na legislação anterior não é mais requisito para a manutenção do direito real de habitação, de modo que este deve ser assegurado ao cônjuge supérstite, mesmo após constituir nova unidade familiar: A propósito: RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL. DIREITO REAL DE HABITAÇÃO. CÔNJUGE SUPÉRSTITE. NOVO CASAMENTO. POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA REGRA DO ART. 1.831 DO CC DE 2002. CARÁTER VITALÍCIO E PERSONALÍSSIMO DO DIREITO REAL. PRESCINDIBILIDADE DA MANUTENÇÃO DO ESTADO VIDUAL DO CÔNJUGE SOBREVIVENTE. NÃO INCIDÊNCIA DO ART. 7º, PARÁGRAFO ÚNICO, DA LEI N. 9.278/1996 AO CASO CONCRETO. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. IMPOSSIBILIDADE DE EQUIPARAÇÃO DO CASAMENTO À UNIÃO ESTÁVEL. DIFERENÇA LEGAL EXISTENTE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. Tendo sido o direito real de habitação constituído na vigência do Código Civil de 2002, a situação concreta deve ser regulada pelo seu art. 1.831, afastada a incidência da regra prevista no art. 1.611, parágrafo único, do CC de 1916. 2. O direito real de habitação tem natureza de direito real, vitalício e personalíssimo, devendo respeitar o princípio da tipicidade, só podendo ser extinto, em termos naturais, com a morte da pessoa viúva e, em termos legais, pelas hipóteses de extinção do usufruto naquilo que não for contrário à sua natureza (art. 1.416 do CC de 2002). 3. O art. 1.831 do CC de 2002 confere ao cônjuge supérstite a utilização do bem para que nele mantenha sua residência, independentemente do regime de bens do casamento e da titularidade do imóvel, afastado, inclusive, o caráter vidual estabelecido na legislação precedente. 4. O estado vidual, embora seja pressuposto para a aquisição do direito real de habitação previsto no art. 1.831 do CC de 2002, deixou de ser requisito para a manutenção e exercício desse direito, que passou a ter como exigência apenas o requisito objetivo atrelado à figura do imóvel, que, nos termos da lei, precisa ser o único daquela natureza - residência familiar - a inventariar. 5. Em decorrência do princípio da especialidade, não incide o disposto no art. 7º, parágrafo único, da Lei n. 9.278/1996, restrita às hipóteses de união estável, nos casos em que o cônjuge supérstite tenha sido casado com o de cujus. 6. Ressalvadas as hipóteses de equiparação quanto ao regime sucessório decididas em repercussão geral pelo STF, permanecem as diferenças legais entre os institutos do casamento e da união estável. 7. O direito real de habitação previsto no art. 1.831 do CC de 2002 é destinado às pessoas formalmente casadas, não podendo seu exercício ser limitado por proibições previstas na legislação especial e restritas aos companheiros que convivam em união estável. 8. Recurso especial provido. (REsp n. 2.035.547/SP, relator Ministro João Otávio de Noronha, Quarta Turma, julgado em 12/9/2023, DJe de 27/9/2023.) grifou-se DIREITO DAS SUCESSÕES E DAS COISAS. RECURSO ESPECIAL. SUCESSÃO. VIGÊNCIA DO CÓDIGO CIVIL DE 2002. COMPANHEIRA SOBREVIVENTE. MANUTENÇÃO DE POSSE. POSSIBILIDADE DE ARGUIÇÃO DO DIREITO REAL DE HABITAÇÃO. ART. 1.831 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002. 1. É entendimento pacífico no âmbito do STJ que a companheira supérstite tem direito real de habitação sobre o imóvel de propriedade do falecido onde residia o casal, mesmo na vigência do atual Código Civil. Precedentes. 2. É possível a arguição do direito real de habitação para fins exclusivamente possessórios, independentemente de seu reconhecimento anterior em ação própria declaratória de união estável. 3. No caso, a sentença apenas veio a declarar a união estável na motivação do decisório, de forma incidental, sem repercussão na parte dispositiva e, por conseguinte, sem alcançar a coisa julgada (CPC, art. 469), mantendo aberta eventual discussão no tocante ao reconhecimento da união estável e seus efeitos decorrentes. 4. Ademais, levando-se em conta a posse, considerada por si mesma, enquanto mero exercício fático dos poderes inerentes ao domínio, há de ser mantida a recorrida no imóvel, até porque é ela quem vem conferindo à posse a sua função social. 5. Recurso especial desprovido. (REsp n. 1.203.144/RS, relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 27/5/2014, DJe de 15/8/2014.) grifou-se RECURSO ESPECIAL - PEDIDO DE RETIFICAÇÃO DA PARTILHA HOMOLOGADA JUDICIALMENTE, PARA CONSTAR DIREITO DA VIÚVA AO USUFRUTO DE 1/4 DOS BENS DEIXADOS PELO AUTOR DA HERANÇA (ART. 1611, §1º, DO CC/1916) - RECONHECIMENTO, PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS, DO DIREITO REAL DE HABITAÇÃO AO CÔNJUGE SUPÉRSTITE, COM FULCRO NO ART. 1.831, CC/02. INSURGÊNCIA DOS HERDEIROS. 1. Hipótese em que o inventariante, ante a impugnação à averbação do formal de partilha exarada pelo Cartório de Registro de Imóveis, requereu a retificação, por omissão, do auto de partilha, para que dele constasse o direito da viúva ao usufruto de 1/4 sobre o imóvel deixado pelo autor da herança, enquanto perdurasse o estado de viuvez, nos termos do artigo 1.611, § 1º do Código Civil de 1916. Indeferimento do requerimento, ante o reconhecimento, pelas instâncias ordinárias, do direito real de habitação do cônjuge sobrevivente, com base no artigo 1.831 do Código Civil de 2002. 2. O direito real de habitação, instituído causa mortis, seja na vigência do Código Civil de 1916 (§ 2º do artigo 1.611), ou sob a égide da atual lei substantiva civil (artigo 1.831), ainda que com contornos bem diversificados, sempre foi compreendido como direito sucessório, a considerar o Livro em que inseridas as correspondentes disposições legais - Do Direito das Sucessões. Sob esse prisma, a sucessão, assim como a legitimação para suceder, é regulada pela lei vigente ao tempo da abertura daquela, ou seja, por ocasião do evento morte do autor da herança, que, no caso dos autos, deu-se em 03 de abril de 2006. Sobressai, assim, clarividente a incidência do atual Código Civil, a reger a presente relação jurídica controvertida, conforme preceitua o artigo 1.787 do Código Civil. 3. A constituição do direito real de habitação do cônjuge supérstite emana exclusivamente da lei, sendo certo que seu reconhecimento de forma alguma repercute na definição de propriedade dos bens partilhados. Em se tratando de direito ex vi lege, seu reconhecimento não precisa necessariamente dar-se por ocasião da partilha dos bens deixados pelo de cujus, inocorrendo, por conseguinte, ofensa à coisa julgada. Nesse quadro, a superveniente declaração do direito real de habitação dispensa prévia rescisão ou anulação da partilha, pois com ela não encerra qualquer oposição. 4. De acordo com os contornos fixados pelo Código Civil de 2002, o direito real de habitação confere ao cônjuge supérstite a utilização do bem, com o fim de que nele seja mantida sua residência, independente do regime de bens do casamento e da titularidade do imóvel, afastado, inclusive, o caráter vidual estabelecido na legislação precedente. Substancia-se, assim, o direito à moradia previsto no art. 6º da Constituição Federal, assegurado ao cônjuge supérstite. 5. Recurso Especial improvido. (REsp n. 1.125.901/RS, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 20/6/2013, DJe de 6/9/2013.) grifou-se Dessa forma, sendo reconhecido por esta Corte Superior que o casamento não afasta o direito real de habitação e não tendo sido analisadas as demais questões na origem, dentre elas a locação do imóvel ora aventada, faz necessário o retorno dos autos para que se proceda uma nova analise do recurso, à luz da jurisprudência dessa Casa. Portanto, devem ser acolhidos com efeitos infringentes os presentes aclaratórios a fim de alterar o dispositivo da decisão objurgada para constar: dá-se provimento ao recurso especial a fim de cassar o acórdão recorrido e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento do recurso à luz do entendimento desta Corte, nos termos da fundamentação supra. 2. Do exposto, acolho os embargos de declaração. Publique-se. Intimem-se. EMENTA