AREsp 2649098 - DECISAO
Houve negativa de prestação jurisdicional pelo Tribunal de origem ao não analisar se o crédito foi destinado a capital de giro — questão capaz de afastar ou confirmar a aplicação do CDC — sendo necessário o retorno dos autos à instância ordinária para sanar a omissão e decidir sobre a matéria federal suscitada.
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: BANCO SAFRA S.A.; Agravados: Devedores
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 July 2025
- Procedural Posture
- Agravo De Instrumento / Decisão
- Outcome
- parcial provimento
- Legal Topics
- Eleição De Foro, Competência, Cédula De Crédito Bancário, Aplicação Do CDC, Omissão Judicial, Retorno Dos Autos
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
BANCO SAFRA S.A.
Agravante
Devedores
Agravados
Procedural Posture
Agravo De Instrumento / Decisão
Legal Issues
- 1 validade da cláusula de eleição de foro
- 2 incidência do Código de Defesa do Consumidor em contrato bancário
- 3 interpretação da natureza do crédito (capital de giro) como fator para afastar o CDC
Ratio Decidendi
Houve negativa de prestação jurisdicional pelo Tribunal de origem ao não analisar se o crédito foi destinado a capital de giro — questão capaz de afastar ou confirmar a aplicação do CDC — sendo necessário o retorno dos autos à instância ordinária para sanar a omissão e decidir sobre a matéria federal suscitada.
Court Disposition
parcial provimento
Orders
- Determina o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que analise as questões trazidas nos embargos de declaração.
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por BANCO SAFRA S.A. contra decisão que negou seguimento a recurso especial manejado em face de acórdão assim ementado (fl. 111): Competência Execução de título extrajudicial Contrato bancário Relação de consumo caracterizada Eleição de foro Invalidade perante o consumidor Magistrado que reconheceu de ofício a abusividade de referida cláusula e determinou a remessa dos autos para a comarca de domicílio dos devedores Possibilidade Respeito aos princípios da economia e celeridade processuais Recurso improvido. Embargos de declaração foram opostos contra o acórdão recorrido, sendo rejeitados (fls. 165-166). Nas razões do recurso especial, a parte recorrente alega, em síntese, que o acórdão recorrido violou o art. 63 do Código de Processo Civil/2015 e o art. 2º do Código de Defesa do Consumidor, além da Súmula nº 335 do STF. Quanto à suposta ofensa ao art. 63 do CPC/2015, sustenta que a cláusula de eleição de foro pactuada entre as partes é válida e não poderia ser considerada abusiva, pois a competência é relativa e as partes têm liberdade para eleger o foro. Argumenta, também, que a aplicação do CDC foi indevida, pois a empresa recorrida não se enquadra como consumidora final, já que o crédito foi tomado para fomentar a atividade empresarial. Além disso, teria violado o art. 1.022, II, do CPC/2015, ao não reconhecer a omissão do acórdão recorrido em relação ao fato de que o crédito foi tomado para capital de giro, o que afastaria a aplicação do CDC. Alega que a jurisprudência do STJ é pacífica no sentido de que contratos bancários para fomento empresarial não se enquadram como relação de consumo, o que teria sido demonstrado, no caso, por precedentes do STJ. O recurso especial não foi admitido com base nos fundamentos de que não houve violação aos arts. 63 e 1.022 do CPC/2015, não ficou demonstrada a vulneração ao art. 2º do CDC, e não foi comprovado o dissenso jurisprudencial (fls. 169-171). Nas razões do seu agravo, a parte agravante impugna os fundamentos da decisão de admissibilidade, alegando que o recurso especial preenche os requisitos necessários à sua admissibilidade e que houve erro na aplicação da Súmula 7 do STJ. Assim delimitada a controvérsia, passo a decidir. O recurso merece parcial provimento. Trata-se de agravo de instrumento interposto por BANCO SAFRA S.A. contra decisão que, na ação de execução por quantia certa, declarou a abusividade da cláusula de eleição de foro pactuada entre as partes e determinou a remessa dos autos para a comarca de Niterói/RJ, domicílio dos recorridos. Nas razões do seu agravo de instrumento, o agravante defende a validade da cláusula de eleição de foro e afirma que a relação havida entre as partes não é de consumo. O Tribunal de origem negou provimento ao agravo de instrumento, mantendo a decisão de remessa dos autos, sustentando que: (i) não há dúvidas de que a presente ação encerra relação de consumo, pois tem por base Cédula de Crédito Bancário contratada entre as partes; e (ii) a propositura da ação na Comarca de São Paulo/SP, mesmo em se tratando de processo digital, cria uma dificuldade desnecessária aos agravados para defesa de seus direitos, em afronta ao art. 6º, VIII, do CDC e aos princípios da economia e celeridade processuais. Confira-se: Com efeito, dispõe o artigo 2º da Lei 8078/90: "Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final." O § 2º do artigo 3º reza: "Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista." Dessa forma, é possível concluir que não existe diferença entre a pessoa jurídica que vai ao comércio e adquire um produto ou contrata um serviço, e a pessoa física que do mesmo modo procede. .. E no caso, não há dúvidas de que a presente ação encerra relação de consumo, pois tem por base Cédula de Crédito Bancário contratada entre as partes. Desta feita, a propositura da ação na Comarca de São Paulo/SP, mesmo em se tratando de processo digital, cria uma dificuldade desnecessária aos agravados para defesa de seus direitos, em afronta ao artigo 6º, inciso VIII, do CDC e aos princípios da economia e celeridade processuais .. (fls. 112-115). No presente recurso, a parte agravante alega a violação do art. 1.022, II, do CPC/2015, uma vez que o Tribunal de origem não reconheceu a omissão no acórdão recorrido em relação ao fato de que o crédito foi tomado para capital de giro, o que afastaria a aplicação do CDC. Com razão. Instado a se manifestar sobre a ausência de relação consumerista, uma vez que "o crédito tomado pela empresa embargada se deu com o intuito de fomentar a sua atividade empresarial, circulando o crédito concedido no mercado, ela não poderia ser considerada a destinatária final do produto para fins de aplicação do art. 2º do CDC", o Tribunal de origem apenas rejeitou os embargos de declaração alegando a pretensão de novo julgamento (fls. 164-166). Segundo a orientação jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça, contudo, "não incide o CDC, por ausência da figura do consumidor (art. 2º do CDC), nos casos de financiamento bancário ou de aplicação financeira com o propósito de ampliar capital de giro e atividade profissional" (AgInt no AREsp n. 555.083/SP, Relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe de 1º/7/2019). Assim, recusando-se o Tribunal de origem a se manifestar sobre a questão federal, terminou por negar prestação jurisdicional. É medida de rigor, portanto, o retorno dos autos à instância ordinária para que sane o referido vício, uma vez que não há nos autos informações sobre o tipo de contrato firmado entre as partes, sua natureza jurídica e eventual vulnerabilidade que atraia a incidência do CDC. Fica prejudicada a análise das demais violações apontadas. Em face do exposto, dou parcial provimento ao recurso especial determinando o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que analise as questões trazidas nos embargos de declaração, como entender de direito. Intimem-se. EMENTA