HC 918728 - ACORDAO
Rejeitaram-se os embargos por ausência dos vícios previstos no art. 619 do CPP; o alegado conflito foi decidido no acórdão impugnado, não havendo ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão a ser sanada; a manutenção da prova foi justificada pela existência de provas independentes, pela circunstância de o...
Source-derived case information.
- Parties
- Embargante: MATHEUS MITSUMOTO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 10 September 2024
- Procedural Posture
- Embargos De Declaração No Agravo Regimental No Habeas Corpus / Acórdão De Rejeição Dos Embargos Em Julgamento Colegiado
- Outcome
- Embargos de declaração rejeitados por unanimidade
- Legal Topics
- Embargos De Declaração, Ilegitimidade De Prova Obtida Mediante Devassa De Correspondência, Sigilo De Correspondência, Prova Ilícita, Rediscussão De Matéria, Nulidade Processual
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MATHEUS MITSUMOTO
Embargante
Procedural Posture
Embargos De Declaração No Agravo Regimental No Habeas Corpus / Acórdão De Rejeição Dos Embargos Em Julgamento Colegiado
Legal Issues
- 1 suposta contradição entre reconhecimento jurisprudencial sobre ilicitude de prova obtida mediante devassa de correspondência e manutenção dessa prova no acervo probatório
- 2 cabimento dos embargos de declaração para sanar vício previsto no art. 619 do CPP
- 3 aplicabilidade de exceção prevista na lei dos serviços postais quanto à quebra de sigilo epistolar
Ratio Decidendi
Rejeitaram-se os embargos por ausência dos vícios previstos no art. 619 do CPP; o alegado conflito foi decidido no acórdão impugnado, não havendo ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão a ser sanada; a manutenção da prova foi justificada pela existência de provas independentes, pela circunstância de o envelope ter sido aberto pelos pais do destinatário e pela exceção prevista na lei dos serviços postais, de modo que os embargos configuram mera rediscussão de matéria já julgada.
Court Disposition
Embargos de declaração rejeitados por unanimidade
Orders
- Rejeitam-se os embargos de declaração.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Turma, por unanimidade, rejeitar os embargos. Os Srs. Ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik, Messod Azulay Neto e Daniela Teixeira votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento a Sra. Ministra Daniela Teixeira. EMENTA
RELATÓRIO Trata-se de embargos de declaração opostos por MATHEUS MITSUMOTO contra acórdão da Quinta Turma, assim ementado (e-STJ, fls. 318-319): AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO DE DROGAS. NULIDADE. VIOLAÇÃO DE CORRESPONDÊNCIA. VÍCIO NÃO CONSTATADO. PROVAS INDEPENDENTES. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A questão relativa à ilicitude das provas obtidas mediante devassa de correspondência foi objeto de pronunciamento por parte do Supremo Tribunal Federal, que, no julgamento do RE n. 1.116.949/PR, firmou a tese de que sem autorização judicial ou fora das hipóteses legais, é ilícita a prova obtida mediante abertura de carta, telegrama, pacote ou meio análogo. 2. No entanto, constata-se que o caso sob exame se distancia da tese firmada pela Corte Constitucional. Em primeiro lugar, destaca-se que há elementos probatórios independentes daqueles obtidos mediante o exame da correspondência apontando para a materialidade e a autoria delitiva. Conforme se verifica da leitura dos documentos acostados a estes autos, o agravante e outros corréus já vinham sendo investigados por outros meios. 3. Ademais, deve-se ter em mente que a regra constitucional de proteção ao sigilo das comunicações não é absoluta, pois o interesse público, em situações excepcionais, pode se sobrepor à privacidade, para evitar que os direitos e garantias fundamentais sirvam de manto para resguardar condutas criminosas. 4. Agravo regimental não provido. Em suas razões, o embargante sustenta que a decisão é contraditória, na medida em que reconheceu a existência de entendimento jurisprudencial a respeito da ilicitude da prova obtida mediante violação de correspondência sem prévia autorização judicial, mas deixou de declarar a ilicitude no caso destes autos. Ressalta que o fato de haver prova independente não justifica a manutenção da prova obtida mediante violação de garantia constitucional. Diante disso, requer o acolhimento destes embargos para sanar o vício apontado e excluir a prova obtida mediante devassa da correspondência. É o relatório. EMENTA EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ALEGAÇÃO DE CONTRADIÇÃO NO ACÓRDÃO. VÍCIO NÃO CONSTATADO. TENTATIVA DE REDISCUSSÃO DE MATÉRIAS JÁ JULGADAS. EMBARGOS REJEITADOS. 1. Os embargos de declaração prestam-se, tão somente, a sanar ambiguidade, contradição, obscuridade ou omissão do julgado, consoante dispõe o art. 619 do Código de Processo Penal, ou, então, retificar, quando constatado, erro material. 2. Os alegados vícios indicados pelo embargante foram efetivamente decididos pelo acórdão impugnado. Ao que se tem, a intenção destes aclaratórios é a de rediscutir a matéria já julgada, já que o provimento judicial contrariou os interesses do embargante. Esse, porém, não é o propósito dos aclaratórios. 3. Embargos rejeitados. VOTO Como é cediço, os embargos de declaração possuem fundamentação vinculada. Dessa forma, para seu cabimento, é necessária a demonstração de que o acórdão embargado se mostrou ambíguo, obscuro, contraditório ou omisso, conforme disciplina o art. 619 do Código de Processo Penal. A mera irresignação com o entendimento apresentado no acórdão embargado não viabiliza a oposição dos aclaratórios. De fato, os embargos de declaração têm como objetivo sanar eventual existência de erro material, obscuridade, contradição ou omissão no julgado (CPC/2015, art. 1.022). É inadmissível, em regra, a sua oposição para rediscutir questões tratadas e devidamente fundamentadas na decisão embargada, já que não são cabíveis para provocar novo julgamento da lide. (EDcl nos EAREsp 650.536/RJ, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, Corte Especial, julgado em 26/10/2021, DJe 05/11/2021). O vício apontado pelo embargante consiste na suposta contradição entre o reconhecimento da ilicitude das provas obtidas mediante a devassa da correspondência e sua manutenção no acervo probatório dos autos. Sobre esse tema, o voto condutor do acórdão embargado ressaltou que a regra constitucional de proteção ao sigilo das comunicações não é absoluta, pois o interesse público, em situações excepcionais como a dos autos, pode se sobrepor à privacidade, para evitar a utilização de direitos e garantias fundamentais como manto para acobertar condutas criminosas. Ilustrativamente: HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO. NULIDADE PROCESSUAL. ILICITUDE DE PROVA. VIOLAÇÃO DE SIGILO EPISTOLAR. NÃO OCORRÊNCIA. OBTENÇÃO MEDIANTE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. CONDENAÇÃO BASEADA EM OUTRAS PROVAS, COLHIDAS SOB O CRIVO DO CONTRADITÓRIO. HABEAS CORPUS DENEGADO. 1. O princípio constitucional da inviolabilidade das comunicações não é absoluto. O interesse público, em situações excepcionais, pode se sobrepor à privacidade, para evitar que direitos e garantias fundamentais sejam utilizados para resguardar conduta criminosa. Como já decidiu a Suprema Corte, "a cláusula tutelar da inviolabilidade do sigilo epistolar não pode constituir instrumento de salvaguarda de práticas ilícitas" (HC 70814, 1.ª Turma, Rel. Min. CELSO DE MELLO, DJ de 24/06/1994.) 2. Não viola o sigilo de correspondência da Paciente simples menção, no julgamento plenário, à apreensão de cartas que provam o relacionamento extraconjugal entre a Paciente e o corréu, acusados do homicídio da vítima. A prova foi obtida com autorização judicial, fundada no interesse das investigações, justamente para apurar a motivação do crime. 3. O Juízo condenatório, de todo modo, não está fundado apenas nessa prova, obtida na fase inquisitorial, mas em amplo contexto probatório, colhido nas duas fases do procedimento, sendo descabida a pretensão de anular o julgamento soberano realizado pelo Tribunal do Júri. 4. Habeas corpus denegado. (HC n. 203.371/RJ, relatora Ministra Laurita Vaz, Quinta Turma, julgado em 3/5/2012, DJe de 17/9/2012.) De mais a mais, verifica-se que o envelope foi aberto pelos pais do destinatário, que em momento algum se insurgiu contra esse fato ou questionou a suposta quebra do sigilo de correspondência. Além disso, não há que se falar em violação de sigilo de correspondência, considerando que a própria lei que regulamenta os serviços postais excepciona a garantia constitucional mencionada na hipótese de a correspondência apresentar indícios de conter objeto ou substância de expedição, uso ou entrega proibidos. Desse modo, não há que se falar em contradição nem em qualquer outro vício apto a autorizar a oposição de embargos. Neste caso, tem-se mera irresignação por parte do embargante, considerando que as questões apresentadas no bojo da impetração foram resolvidas e rechaçadas mediante fundamentos satisfatórios. Acaso a parte não se conforme com as razões declinadas ou considere a existência de algum equívoco ou erro de julgamento, não são os embargos, que possuem função processual limitada, a via própria para impugnar o julgado ou rediscutir a causa. A propósito: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NÃO CONHECIDO. SÚMULA N. 182/STJ. CONTRADIÇÃO. INEXISTÊNCIA. REDISCUSSÃO DA MATÉRIA. MERA IRRESIGNAÇÃO. 1. Os embargos de declaração destinam-se a suprir omissão, afastar obscuridade, bem como eliminar contradição ou ambiguidade eventualmente existentes no julgado impugnado, não constituindo meio processual adequado para veicular simples inconformismo e o propósito de rediscussão de matéria decidida. Precedente. 2. A contradição que autoriza a oposição dos embargos de declaração é aquela interna ao julgado, caracterizada por proposições inconciliáveis entre si, situação que não ocorre no acórdão embargado. Precedente. 3. Inexistindo no acórdão embargado quaisquer dos vícios previstos no art. 619 do Código de Processo Penal, que permitem o manejo do recurso integrativo, não há como este ser acolhido. 4. Embargos de declaração rejeitados. (EDcl no AgRg na Rcl 39.139/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 24/06/2020, DJe 04/08/2020). Nessa linha de intelecção, revela-se manifesta, portanto, a impossibilidade de acolhimento dos presentes aclaratórios, porquanto não demonstrada a ocorrência de nenhuma das hipóteses do art. 619 do Código de Processo Penal, o que inviabiliza a utilização dos embargos de declaração. Pelo exposto, rejeito os aclaratórios. É como voto. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA Relator