HC 952823 - ACORDAO
Rejeitaram‑se os embargos de declaração porque o acórdão embargado contém fundamentação suficiente e não padece de omissão, contradição ou obscuridade nos termos do art. 619 do CPP, e porque a matéria de abolitio criminis não foi objeto de debate nas instâncias de origem, sendo vedado ao STJ apreciá‑la para evitar...
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- Parties
- Embargante: CARLOS EDUARDO CREMONEZ
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 December 2024
- Procedural Posture
- Embargos De Declaração No Agravo Regimental No Habeas Corpus / Julgamento Dos Embargos De Declaração (decisão Colegiada De Rejeição)
- Outcome
- Embargos de declaração rejeitados
- Legal Topics
- Embargos De Declaração, Supressão De Instância, Abolitio Criminis, Duplo Grau De Jurisdição, Art. 619 Do CPP
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Parties
CARLOS EDUARDO CREMONEZ
Embargante
Procedural Posture
Embargos De Declaração No Agravo Regimental No Habeas Corpus / Julgamento Dos Embargos De Declaração (decisão Colegiada De Rejeição)
Legal Issues
- 1 Cabimento dos embargos de declaração diante de suposta omissão, contradição ou obscuridade
- 2 Possibilidade de apreciação, em sede de habeas corpus, de tese de abolitio criminis não suscitada na origem
- 3 Proibição de supressão de instância e respeito ao duplo grau de jurisdição
Ratio Decidendi
Rejeitaram‑se os embargos de declaração porque o acórdão embargado contém fundamentação suficiente e não padece de omissão, contradição ou obscuridade nos termos do art. 619 do CPP, e porque a matéria de abolitio criminis não foi objeto de debate nas instâncias de origem, sendo vedado ao STJ apreciá‑la para evitar supressão de instância e violação do duplo grau de jurisdição.
Court Disposition
Embargos de declaração rejeitados
Orders
- Rejeitam‑se os embargos de declaração.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Turma, por unanimidade, rejeitar os embargos. Os Srs. Ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik, Messod Azulay Neto e Daniela Teixeira votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Messod Azulay Neto. EMENTA EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. AUSÊNCIA DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE NO ACÓRDÃO EMBARGADO. MOTIVAÇÃO SATISFATÓRIA E SUFICIENTE AO DESLINDE DA CONTROVÉRSIA. MATÉRIA NÃO EXAMINADA NA ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. TENTATIVA DE OBTER NOVO JULGAMENTO DA CAUSA. EMBARGOS DECLARATÓRIOS REJEITADOS. 1. Os embargos de declaração possuem fundamentação vinculada e apenas são cabíveis quando presente ambiguidade, contradição, obscuridade ou omissão no julgado, consoante dispõe o art. 619 do Código de Processo Penal, ou, então, função de retificar erro material, quando constatado. 2. Na hipótese, a matéria foi decidida com a devida e clara fundamentação, inexistindo quaisquer dos vícios que permitam o manejo dos aclaratórios, ressaltando-se que não é omisso o julgado que deixa de analisar matéria não examinada na origem, pois até mesmo o habeas corpus, que demanda prova constituída, requer a análise da matéria pelas instâncias antecedentes, ainda que se trate de nulidade absoluta. 3. É manifesta, assim, a impossibilidade de acolhimento dos presentes aclaratórios, haja vista não ser possível proceder à rediscussão das questões já decididas e devidamente delineadas pelo órgão julgador, principalmente, quando não demonstrados quaisquer dos vícios listados no art. 619 do CPP. 4. Portanto, a mera irresignação com o entendimento apresentado no acórdão embargado, visando a reversão do julgado, não viabiliza a oposição dos aclaratórios. 5. Embargos de declaração rejeitados.
RELATÓRIO Trata-se de embargos de declaração opostos por CARLOS EDUARDO CREMONEZ contra acórdão da Quinta Turma desta Corte Superior, que, à unanimidade de votos, negou provimento ao agravo regimental em habeas corpus, que recebeu a seguinte ementa (e-STJ fl. 2.322 ): AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. WRIT INDEFERIDO LIMINARMENTE. CRIMES DE USURA E EXTORSÃO MAJORADA. ABOLITIO CRIMINIS. TESE NÃO APRECIADA NA ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. A tese de abolitio criminis decorrente da edição da Lei n. 14.905/2024, que supostamente tornou atípica a conduta do paciente, sequer foi debatida pela Corte local, tampouco pelo Juízo sentenciante, sendo aventada originariamente nesta instância superior, motivo pelo qual esta Corte Superior fica impedida de se antecipar à matéria, sob pena de incorrer em indevida supressão de instância e violação dos princípios do duplo grau de jurisdição e devido processo legal. 2. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no HC n. 952.823/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 5/12/2024, DJe de 9/12/2024). Em suas razões (e-STJ fls. 2.333/2.339), a defesa insiste na tese contida na inicial do mandamus, consistente no reconhecimento de abolitio criminis dos crimes de usura e extorsão ante a edição da Lei n. 14.905/2024, ainda que a matéria não tenha sido examinada pela Corte de origem. Ao final, pugna pelo acolhimento dos embargos de declaração, "reconhecendo que no caso em preço a conduta descrita na denúncia adotada/acolhida pela sentença e pelos acórdãos coatores, tornou-se absolutamente atípica aos delitos descritos nos 4º da Lei 1.521/1951 e 158, § 1º do Código Penal, reformando os acórdãos (fls. 2167/2181 e 83/86)" (e-STJ fl. 2.339). É o relatório. EMENTA EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. AUSÊNCIA DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE NO ACÓRDÃO EMBARGADO. MOTIVAÇÃO SATISFATÓRIA E SUFICIENTE AO DESLINDE DA CONTROVÉRSIA. MATÉRIA NÃO EXAMINADA NA ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. TENTATIVA DE OBTER NOVO JULGAMENTO DA CAUSA. EMBARGOS DECLARATÓRIOS REJEITADOS. 1. Os embargos de declaração possuem fundamentação vinculada e apenas são cabíveis quando presente ambiguidade, contradição, obscuridade ou omissão no julgado, consoante dispõe o art. 619 do Código de Processo Penal, ou, então, função de retificar erro material, quando constatado. 2. Na hipótese, a matéria foi decidida com a devida e clara fundamentação, inexistindo quaisquer dos vícios que permitam o manejo dos aclaratórios, ressaltando-se que não é omisso o julgado que deixa de analisar matéria não examinada na origem, pois até mesmo o habeas corpus, que demanda prova constituída, requer a análise da matéria pelas instâncias antecedentes, ainda que se trate de nulidade absoluta. 3. É manifesta, assim, a impossibilidade de acolhimento dos presentes aclaratórios, haja vista não ser possível proceder à rediscussão das questões já decididas e devidamente delineadas pelo órgão julgador, principalmente, quando não demonstrados quaisquer dos vícios listados no art. 619 do CPP. 4. Portanto, a mera irresignação com o entendimento apresentado no acórdão embargado, visando a reversão do julgado, não viabiliza a oposição dos aclaratórios. 5. Embargos de declaração rejeitados. VOTO Os embargos de declaração são recurso com fundamentação vinculada, sendo imprescindível a demonstração de que a decisão embargada se mostrou ambígua, obscura, contraditória ou omissa, conforme disciplina o art. 619 do Código de Processo Penal. Podem ser admitidos, ainda, para correção de eventual erro material e, excepcionalmente, para alteração ou modificação do decisum embargado. É insuficiente, todavia, a mera irresignação com o entendimento apresentado na decisão, assim como inviável seu uso como mero meio de reanálise das alegações. No julgamento do acórdão ora embargado, foi consignado, expressamente, que (e-STJ fls. 2.326/2.327): .. Conforme anteriormente destacado por esta relatoria, verifica-se que a tese de abolitio criminis com relação aos crimes pelos quais o paciente (ora agravante) fora condenado sequer foi debatida pela Corte local, tampouco pelo Juízo sentenciante, sendo aventada originariamente nesta instância superior, motivo pelo qual esta Corte Superior fica impedida de se antecipar à matéria, sob pena de incorrer em indevida supressão de instância e violação dos princípios do duplo grau de jurisdição e devido processo legal. Com efeito, consoante jurisprudência desta Corte Superior, até mesmo matéria de ordem pública pressupõe seu prévio exame, na origem, para que possa ser analisada por esta Corte (AgRg no HC n. 643.018/ES, Relatora Ministra LAURITA VAZ, Sexta Turma, julgado em 14/6/2022, DJe de 21/6/2022). Em semelhante hipótese, destaco o seguinte julgado do STJ: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. DELITO DO ART. 89 DAS LEI N. 8.666/1993. ATIPICIDADE. ABOLITIO CRIMINIS. TESE NÃO APRECIADA PELA CORTE A QUO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1. Conforme destacado na decisão combatida, a tese de de atipicidade da conduta imputada em razão da abolitio criminis, decorrente da revogação do art. 89 da Lei n. 8.666/1993 pela pela Lei n. 14.133/2021, não foi analisada pelo Tribunal de origem. 2. A matéria deveria ter sido suscitada no momento oportuno e perante o Juízo competente, até para possibilitar à instância recursal um pronunciamento seguro sobre a questão, sendo, por isso mesmo, vedada a inauguração, em habeas corpus, de tese defensiva não aventada e não debatida na via ordinária. 3. Não há manifesto constrangimento ilegal, pois esta Corte Superior já se pronunciou no sentido de que "Não há se falar em abolitio criminis com relação aos crimes da Lei n. 8.666/1993, porquanto houve a continuidade típico-normativa, por meio da inserção do Capítulo II-B no Código Penal, intitulado "Dos Crimes em Licitações e Contratos Administrativos"" (AgRg no AREsp n. 2.073.726/PA, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª T., DJe 27/6/2022). 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 707.181/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 23/8/2022, DJe de 31/8/2022.) - Negritei. Por fim, cumpre ressaltar que o acórdão dos embargos de declaração na apelação n. 1500293-46.2020.8.26.0081/50000 (e-STJ fls. 2.308/2.310) fora proferido no mesmo dia da decisão desta relatoria que indeferiu liminarmente o habeas corpus (16/10/2024) e, ainda assim, ao examinar o inteiro teor do voto condutor, constata-se que a tese de abolitio criminis não foi examinada pela Corte local, depreendendo-se do relatório que o tema sequer constou nas razões recursais da defesa, que se limitou a aduzir: "omissão e contradição, repisando teses (preliminares e absolvição, por atipicidade ou insuficiência probatória)" (e-STJ fl. 2.309). Por conseguinte, mantenho o entendimento contido da decisão agravada. Ante o exposto, nego provimento ao presente agravo regimental. É como voto. Como se vê, conforme foi dito no julgamento do acórdão embargado, a matéria trazida pelo impetrante não foi efetivamente discutida pelo Tribunal estadual, motivo pelo qual não se verifica quaisquer dos vícios que permitam o manejo dos aclaratórios, ressaltando-se que não é omisso o julgado que deixa de analisar matéria não examinada na origem, pois até mesmo o habeas corpus, que demanda prova constituída, requer a análise da matéria pelas instâncias antecedentes, ainda que se trate de nulidade absoluta. Nesse sentido: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. REDISCUSSÃO DE MATÉRIA SUFICIENTEMENTE DECIDIDA. DESCABIMENTO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS. 1. Nos termos do art. 619 do Código de Processo Penal, os embargos de declaração destinam-se a sanar ambiguidade, suprir omissão, afastar obscuridade ou eliminar contradição eventualmente existentes no julgado, o que não ocorreu na hipótese. 2. O Embargante não demonstrou, em suas argumentações, a ocorrência de quaisquer das hipóteses legais ensejadoras dos embargos declaratórios, já que não é omisso o julgado que deixa de apreciar as teses suscitadas na ação constitucional de habeas corpus em razão da existência de evidente supressão de instância. 3. A pretensão de rediscutir matéria devidamente abordada e decidida no acórdão embargado, consubstanciada na mera insatisfação com o resultado da demanda, é incabível na via dos embargos de declaração. 4. Embargos de declaração rejeitados. (EDcl no AgRg no HC n. 565.733/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 19/4/2022, DJe de 25/4/2022.) - negritei. Nesse panorama, constata-se que a defesa do embargante pretende, na realidade, rediscutir matéria já decidida e que foi contrária à sua pretensão, sem demonstrar, todavia, ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão, nos termos do art. 619 do CPP. Manifesta, portanto, a impossibilidade de acolhimento dos presentes aclaratórios, porquanto não demonstrada a ocorrência de nenhuma das hipóteses do art. 619 do Código de Processo Penal, não se verificando ambiguidade, omissão, contradição ou obscuridade, mas mera irresignação do embargante com a solução apresentada por esta Corte Superior, fica inviabilizada a utilização dos embargos de declaração. Diante do exposto, rejeito os presentes embargos de declaração. É como voto.