REsp 2197076 - DECISAO
Negou-se provimento ao recurso especial porque o recorrente não confessou a autoria da conduta de conduzir veículo sob efeito de álcool; admitiu somente a ingestão de bebida alcoólica, fato atípico em si, de modo que não se configurou confissão parcial ou qualificada apta a ensejar a atenuante do art. 65, III, 'd',...
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- Parties
- Recorrente: EDILSON DOS SANTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 26 March 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento
- Outcome
- Nego provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Embriaguez Ao Volante, Atenuante Da Confissão, Dosimetria Da Pena, Súmula 545/stj
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Parties
EDILSON DOS SANTOS
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento
Legal Issues
- 1 Incidência da atenuante do art. 65, III, 'd', do CP quando a confissão não é utilizada como fundamento da sentença
- 2 Se a admissão de ingestão de bebida alcoólica, sem reconhecimento da condução do veículo, configura confissão parcial/qualificada apta a ensejar a atenuante
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao recurso especial porque o recorrente não confessou a autoria da conduta de conduzir veículo sob efeito de álcool; admitiu somente a ingestão de bebida alcoólica, fato atípico em si, de modo que não se configurou confissão parcial ou qualificada apta a ensejar a atenuante do art. 65, III, 'd', do CP.
Court Disposition
Nego provimento ao recurso especial.
Orders
- Nego provimento ao recurso especial.
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por EDILSON DOS SANTOS, com fundamento na alínea "a" do permissivo constitucional, no qual se insurge contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE ALAGOAS, assim ementado (fls. 252-257): "DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. EMBRIAGUEZ AO VOLANTE. ART. 306 DO CTB. CONDENAÇÃO. RECURSO DE APELAÇÃO. INSURGÊNCIA QUANTO À NÃO VALORAÇÃO DA ATENUANTE DA CONFISSÃO ESPONTÂNEA. NÃO ACOLHIMENTO. CONFISSÃO QUALIFICADA DO ACUSADO, ARGUMENTANDO QUE NÃO ESTARIA NA CONDUÇÃO DO VEÍCULO AUTOMOTOR, DE MODO A AFASTAR A TIPICIDADE DA CONDUTA. CONFISSÃO QUE NÃO SERVIU À FORMAÇÃO DO CONVENCIMENTO DO JULGADOR. CONSONÂNCIAS COM AS DEMAIS PROVAS COLIGIDAS AOS AUTOS, EM ESPECIAL O DEPOIMENTO DOS POLICIAIS CONDUTORES, COLHIDOS NO INQUÉRITO E CONFORMADOS EM JUÍZO. SÚMULA 545 DO STJ. SENTENÇA MANTIDA RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO. À UNANIMIDADE". Em suas razões recursais, a parte recorrente aponta violação do art. 65, III, "d", do CP. Aduz para tanto, em síntese, que incidiria ao caso a atenuante da confissão, pois o réu admitiu a autoria da conduta, mesmo que o juízo não tenha utilizado a confissão para condená-lo. Com contrarrazões (fls. 278-280), o recurso especial foi admitido na origem (fls. 286-287). Remetidos os autos a esta Corte Superior, o MPF manifestou-se pelo não conhecimento do recurso (fls. 302-305). É o relatório. Decido. A insurgência é improcedente. No que diz respeito à atenuante do art. 65, III, "d", do CP, este STJ entende que a confissão parcial ou qualificada também dá direito à atenuação da pena, sendo desnecessário perquirir quão influente ela foi para a formação do convencimento dos julgadores. Por isso, mesmo que a confissão seja extrajudicial ou que o réu tenha dela se retratado, e ainda que o juiz nem sequer a mencione na motivação da sentença, o acusado faz jus à atenuante respectiva. Com essa orientação, destaco os seguintes julgados: "PROCESSO PENAL E PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO E EVASÃO DO LOCAL DO ACIDENTE (ART. 305 DA LEI N. 9.503/97). AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA DA DECISÃO QUE NEGOU SEGUIMENTO AO RECURSO ESPECIAL. SÚMULA N. 182/STJ. AGRAVO REGIMENTAL EM QUE INCIDE O MESMO ÓBICE. INVIABILIDADE DE EXAME DO RECURSO. DOSIMETRIA. SEGUNDA FASE. ATENUANTE. CONFISSÃO PARCIAL. RECONHECIMENTO. NECESSIDADE. HABEAS CORPUS DE OFÍCIO. 1. O recorrente não atacou especificamente todos os fundamentos do provimento jurisdicional que negou seguimento ao recurso especial, o que atrai o óbice da Súmula n. 182/STJ. 2. No agravo regimental, as razões recursais incidem no mesmo vício, porquanto não impugnam especificamente todos os fundamentos da decisão monocrática proferida nesta Corte Superior, atraindo, outra vez, o óbice da referida Súmula n. 182/STJ. 3. No caso, há flagrante ilegalidade na dosimetria, uma vez que o entendimento desta Corte é o de que o réu faz jus à atenuante da confissão espontânea quando houver admitido a autoria do crime perante a autoridade, independentemente de a confissão ser utilizada pelo juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória, e mesmo que seja ela parcial, qualificada, extrajudicial ou retratada. 4. Agravo regimental não conhecido. Concessão de habeas corpus, de ofício, para reconhecer a atenuante da confissão espontânea e, assim, redimensionar as reprimendas para 7 anos, 1 mês e 10 dias de reclusão, em regime inicial semiaberto, e 7 meses e 3 dias de detenção, em regime inicial aberto, além de 11 dias-multa". (AgRg no AREsp n. 2.346.627/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 30/11/2023, DJe de 5/12/2023.) "PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO ESPECIAL. ROUBO. INTERPRETAÇÃO DA SÚMULA 545/STJ. PRETENDIDO AFASTAMENTO DA ATENUANTE DA CONFISSÃO, QUANDO NÃO UTILIZADA PARA FUNDAMENTAR A SENTENÇA CONDENATÓRIA. DESCABIMENTO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE, ISONOMIA E INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA. INTERPRETAÇÃO DO ART. 65, III, "D", DO CP. PROTEÇÃO DA CONFIANÇA (VERTRAUENSSCHUTZ) QUE O RÉU, DE BOA-FÉ, DEPOSITA NO SISTEMA JURÍDICO AO OPTAR PELA CONFISSÃO. PROPOSTA DE ALTERAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. 1. O Ministério Público, neste recurso especial, sugere uma interpretação a contrario sensu da Súmula 545/STJ para concluir que, quando a confissão não for utilizada como um dos fundamentos da sentença condenatória, o réu, mesmo tendo confessado, não fará jus à atenuante respectiva. 2. Tal compreensão, embora esteja presente em alguns julgados recentes desta Corte Superior, não encontra amparo em nenhum dos precedentes geradores da Súmula 545/STJ. Estes precedentes instituíram para o réu a garantia de que a atenuante incide mesmo nos casos de confissão qualificada, parcial, extrajudicial, retratada, etc. Nenhum deles, porém, ordenou a exclusão da atenuante quando a confissão não for empregada na motivação da sentença, até porque esse tema não foi apreciado quando da formação do enunciado sumular. 3. O art. 65, III, "d", do CP não exige, para sua incidência, que a confissão do réu tenha sido empregada na sentença como uma das razões da condenação. Com efeito, o direito subjetivo à atenuação da pena surge quando o réu confessa (momento constitutivo), e não quando o juiz cita sua confissão na fundamentação da sentença condenatória (momento meramente declaratório). 4. Viola o princípio da legalidade condicionar a atenuação da pena à citação expressa da confissão na sentença como razão decisória, mormente porque o direito subjetivo e preexistente do réu não pode ficar disponível ao arbítrio do julgador. 5. Essa restrição ofende também os princípios da isonomia e da individualização da pena, por permitir que réus em situações processuais idênticas recebam respostas divergentes do Judiciário, caso a sentença condenatória de um deles elenque a confissão como um dos pilares da condenação e a outra não o faça. 6. Ao contrário da colaboração e da delação premiadas, a atenuante da confissão não se fundamenta nos efeitos ou facilidades que a admissão dos fatos pelo réu eventualmente traga para a apuração do crime (dimensão prática), mas sim no senso de responsabilidade pessoal do acusado, que é característica de sua personalidade, na forma do art. 67 do CP (dimensão psíquico-moral). 7. Consequentemente, a existência de outras provas da culpabilidade do acusado, e mesmo eventual prisão em flagrante, não autorizam o julgador a recusar a atenuação da pena, em especial porque a confissão, enquanto espécie sui generis de prova, corrobora objetivamente as demais. 8. O sistema jurídico precisa proteger a confiança depositada de boa-fé pelo acusado na legislação penal, tutelando sua expectativa legítima e induzida pela própria lei quanto à atenuação da pena. A decisão pela confissão, afinal, é ponderada pelo réu considerando o trade-off entre a diminuição de suas chances de absolvição e a expectativa de redução da reprimenda. 9. É contraditória e viola a boa-fé objetiva a postura do Estado em garantir a atenuação da pena pela confissão, na via legislativa, a fim de estimular que acusados confessem; para depois desconsiderá-la no processo judicial, valendo-se de requisitos não previstos em lei. 10. Por tudo isso, o réu fará jus à atenuante do art. 65, III, "d", do CP quando houver confessado a autoria do crime perante a autoridade, independentemente de a confissão ser utilizada pelo juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória. 11. Recurso especial desprovido, com a adoção da seguinte tese: o réu fará jus à atenuante do art. 65, III, "d", do CP quando houver admitido a autoria do crime perante a autoridade, independentemente de a confissão ser utilizada pelo juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória, e mesmo que seja ela parcial, qualificada, extrajudicial ou retratada". (REsp n. 1.972.098/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 14/6/2022, DJe de 20/6/2022.) O problema é que, no caso dos autos, o réu afirmou apenas que ingeriu bebida alcoólica, mas em nenhum momento admitiu que dirigiu o veículo. Nem se trata, portanto, de confissão parcial ou qualificada, pois a própria existência da conduta e de sua autoria foi negada pelo acusado, como se colhe do acórdão recorrido (fl. 255): "08. Compulsando os autos, verifico que, durante o interrogatório, o acusado sustentou a tese de que teria ingerido bebida alcoólica, especificando a quantidade de duas cervejas, mas que não estaria na condução do veículo, visto que o mesmo estaria estacionado (fls. 170). 09. Quando da dosimetria da pena, o magistrado sentenciante fundamentou de forma sucinta que, tratando-se de confissão qualificada - visto que o acusado pretendia a atipicidade do crime ao afirmar que não estava na condução do veículo, não se prestaria a atenuar a pena". Ao contrário do que diz a defesa, o acusado não admitiu, então, a autoria da conduta de dirigir o veículo sob efeito de álcool, pois negou até mesmo que tenha ocorrido a direção. Simplesmente afirmar que ingeriu bebida alcoólica (conduta atípica, aliás) não é uma confissão parcial ou qualificada, porque a própria ação elementar do tipo penal do art. 306 do CTB ("conduzir veículo") foi negada pelo acusado . Inviável, assim, a aplicação da atenuante. Ante o exposto, com fundamento no art. 255, § 4º, II, do Regimento Interno do STJ, nego provimento ao recurso especial. Publique-se. Intimem-se. EMENTA