EREsp 2022554 - DECISAO
Os embargos de divergência foram liminarmente indeferidos por não demonstrarem a necessária similitude fático-jurídica entre o acórdão embargado (que considerou a aplicação do art. 321 do CPC/2015 em ação de indenização individual contra Norte Energia) e os arestos paradigmas (que examinaram a vedação à emenda da...
Source-derived case information.
- Parties
- Embargante: Norte Energia S.A.
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 21 February 2024
- Procedural Posture
- Embargos De Divergência Em Recurso Especial / Decisão Liminar De Indeferimento
- Outcome
- Embargos de divergência indeferidos liminarmente
- Legal Topics
- Emenda Da Petição Inicial, Similitude Fático Jurídica, Prequestionamento Ficto, Competência (ristj), Litisconsórcio Necessário, Interpretação Dos Arts. 264 E 284 Do Cpc/1973 E Art. 321 E Art. 329 Do Cpc/2015
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
Norte Energia S.A.
Embargante
Procedural Posture
Embargos De Divergência Em Recurso Especial / Decisão Liminar De Indeferimento
Legal Issues
- 1 possibilidade de emenda da inicial após apresentação de contestação e saneamento quando haja alteração do pedido ou da causa de pedir
- 2 requisitos de admissibilidade dos embargos de divergência: identidade ou similitude fático-jurídica entre acórdão embargado e paradigmas
- 3 competência da Segunda Seção para demandas individuais contra empresas responsáveis pela construção da UHE de Belo Monte
Ratio Decidendi
Os embargos de divergência foram liminarmente indeferidos por não demonstrarem a necessária similitude fático-jurídica entre o acórdão embargado (que considerou a aplicação do art. 321 do CPC/2015 em ação de indenização individual contra Norte Energia) e os arestos paradigmas (que examinaram a vedação à emenda da inicial após contestação sob o CPC/1973, arts. 264/284, ou a exigência de anuência do réu pelo art. 329, II, do CPC/2015); além disso, a matéria está na competência da Segunda Seção e incidem enunciados e precedentes que impedem o conhecimento dos embargos, justificando a negativa liminar com base no art. 266-C do RISTJ.
Court Disposition
Embargos de divergência indeferidos liminarmente
Orders
- Indefiro liminarmente os embargos de divergência com fulcro no art. 266-C do RISTJ.
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de embargos de divergência opostos por Norte Energia S.A. contra acórdão da Terceira Turma deste Superior Tribunal de Justiça assim ementado: AGRAVO INTERNO. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. APELAÇÃO. NÃO CONHECIMENTO. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA DIALETICIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. PRECEDENTES. PREQUESTIONAMENTO FICTO. ART. 1.025 DO CPC. ADMISSIBILIDADE. NECESSIDADE DE PRÉVIA OPORTUNIDADE DE EMENDA À INICIAL. ART. 284 CPC/1973. ATUAL ART. 321 CPC/2015. PRECEDENTES. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO.1. A orientação desta Corte Superior é no sentido de que a repetição de argumentos anteriores nas razões de apelação não ofende o princípio da dialeticidade quando puderem ser extraídas do recurso as razões e a intenção de reforma da sentença. Precedentes.2. "O indeferimento da petição inicial, quer por força do não-preenchimento dos requisitos exigidos nos arts. 319 e 320 do CPC, quer pela verificação de defeitos e irregularidades capazes de dificultar o julgamento de mérito, reclama a concessão de prévia oportunidade de emenda pelo autor, noS termos do art. 321 do CPC" (REsp n. 2.013.351/PA, relatora Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 14/9/2022, DJe de 19/9/2022).3. Conforme decidido pela Segunda Seção desta Corte Superior, no julgamento do REsp n. 2.013.351/PA, que tratou dos mesmos fatos e discussão jurídica dos presentes autos, detectada a existência de irregularidades capazes de dificultar o julgamento de mérito, o magistrado deve intimar a parte para emendar a inicial indicando com precisão o que deve ser corrigido ou completado, na forma do art. 321 do Código de Processo Civil.4. Agravo interno a que se nega provimento. Alega a embargante, em síntese, que o acórdão embargado diverge do seguinte julgado da Segunda Turma desta Corte: PROCESSUAL CIVIL. EMENDA À INICIAL. MODIFICAÇÃO DA CAUSA DE PEDIR E DO PEDIDO, APÓS OFERECIDA A CONTESTAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. DETERMINAÇÃO, EX OFFICIO, DE QUE O AUTOR PROMOVA A CITAÇÃO DO LITISCONSORTE PASSIVO NECESSÁRIO. POSSIBILIDADE. ART. 47 DO CPC/1973. NORMA DE CARÁTER DE ORDEM PÚBLICA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. Nos termos da jurisprudência do STJ não se admite a emenda da inicial após o oferecimento da contestação quando tal diligência ensejar a modificação do pedido ou da causa de pedir. Isso porque a regra prevista no art. 284 do CPC/1973 deve ser compatibilizada com o disposto no art. 264 do CPC/1973, que impede ao autor, após a citação, modificar o pedido ou a causa de pedir, sem o consentimento do réu; e, em nenhuma hipótese, permite a alteração do pedido ou da causa de pedir após o saneamento do processo. 2. In casu, a emenda da inicial para possibilitar a inclusão no polo passivo da demanda de litisconsorte necessário não enseja modificação do pedido ou da causa de pedir. 3. Ademais, é assente o entendimento do STJ de que o litisconsórcio necessário é regido por norma de ordem pública, cabendo ao juiz determinar, de ofício ou a requerimento de qualquer das partes, a integração à lide do litisconsorte passivo. 4. Nos termos do art. 47 do Código de Processo Civil de 1973 há o litisconsórcio necessário quando, por disposição de lei ou pela natureza da relação jurídica, o juiz tiver de decidir a lide de modo uniforme para todas as partes. 5. O litisconsórcio necessário, à exceção das hipóteses de imposição legal, encontra sua razão de ser na natureza da relação jurídica de direito material deduzida em juízo, que implica produção dos efeitos da decisão de mérito de forma direta na esfera jurídica de todos os integrantes dessa relação. 6. Agravo Interno não provido. (AgInt no REsp 1.593.819/SP, Relator Ministro Herman Benjamin, SEGUNDA TURMA, DJe de 8/11/2016) Argumenta, para tanto, o seguinte: Com a estabilização da demanda, é inaplicável o art. 264 do CPC/73 ou art. 321 do CPC/2015, ao passo que deve ser resguardado o direito ao contraditório e ampla defesa, impedindo manobras dilatória se preservando a boa-fé processual e a lealdade entre as partes, exigindo que apresentem, de uma só vez, todos os argumentos que possam deduzir. Bem como, visa garantir a razoável duração do processo, alinhando-se ao princípio da preclusão, permitindo eu o processo percorra fases bem delimitadas, previsíveis e ordenadas no sentido de se obter uma sentença justa. No caso em tela, a divergência jurisprudencial reside quanto à possibilidade de emendar a petição após a apresentação de contestação, isto é, após todo o saneamento do processo na origem, com a consequente modificação dos pedidos e da causa de pedir. O acórdão recorrido não está de acordo com o entendimento do STJ, conforme extrai-se dos acórdãos paradigmas da Primeira Turma (AgInt no REsp 1295463/SC)e da Segunda Turma (REsp 1.593.819/SP), dentre outros. Portanto, é evidente a divergência jurisprudencial entre o v. acórdão combatido e o entendimento do c. STJ, traduzido nos paradigmas pontuados adiante, o que comporta a interposição do presente recurso e a uniformização da jurisprudência pela c. Corte Especial. Ao final, sustenta e requer o seguinte: Demonstrada, pois, a divergência entre o v. aresto embargado e o r. julgado paradigma, requer que sejam acolhidos os presentes embargos, de modo a fazer prevalecer o escólio trazido a confronto, sendo reformado o v. acórdão ora embargado, em ordem para reconhecer a impossibilidade de se proceder com a emenda da petição inicial na origem, após a contestação e saneamento dos autos, ao passo que, notoriamente, haverá a alteração das causas de pedir e pedidos. Consequentemente, requer a reforma do acórdão enfrentado para negar provimento ao Recurso Especial interposto pela parte ora embargada. É o relatório. Decido. Como cediço, a finalidade do embargos de divergência no âmbito do Superior Tribunal de Justiça é dirimir eventual entendimento jurisprudencial conflitante sobre teses de mérito adotado por julgados desta Corte Superior em recurso especial. Entretanto, para o conhecimento dos embargos é indispensável a demonstração da identidade ou da similitude fática e jurídica entre o acórdão embargado e os arestos indicados como paradigma, cabendo ao embargante comprovar que houve interpretação divergente acerca de situações semelhantes por meio de cotejo analítico entre os julgados confrontados. Com efeito, na hipótese dos autos, o acórdão embargado versa sobre ação de indenização contra Norte Energia S/A, em virtude de alegado dano a pescador, por também alegada diminuição de peixes decorrente da construção da UHE de Belo Monte, concluindo-se pela necessidade de que o magistrado oportunize a emenda da inicial, nos termos do art. 321 do CPC/2015. Os acórdãos indicados como paradigma, por outro lado, analisaram a possibilidade de emenda à inicial, na interpretação aos arts. 264 e 284 do CPC/1973, concluindo ser inviável a emenda à inicial, por iniciativa da parte autora, após o recebimento da contestação, com alteração do pedido ou causa de pedir. O acórdão embargo, por outro lado, limitou-se à análise do artigo 321 CPC/15, sem, contudo, fazer qualquer exame acerca da possibilidade (ou não) de emenda à inicial quando haja alteração do pedido ou da causa de pedir, o que demandaria a interpretação da norma prevista no art. 329, inciso II, do CPC/15, que não foi analisado no julgado ora impugnado. Sendo assim, nota-se que o acórdão embargado não partilha identidade fática e jurídica com os acórdãos paradigmas, de modo que os presentes embargos de divergência não cumprem o requisito da similitude entre os casos confrontados. A respeito do tema, cita-se, ilustrativamente, o seguinte julgado: PROCESSO CIVIL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. Diferentemente das instâncias ordinárias, em que o trabalho do juiz consiste em identificar no litígio os fatos que o distinguem dos demais, para que tanto quanto possível a lei seja aplicada sob um viés circunstanciado, na instância especial o julgamento é inspirado pela uniformização. Os embargos de divergência no Superior Tribunal de Justiça constituem a última etapa da uniformização jurisprudencial, e pressupõem casos idênticos ou assemelhados tais como dimensionados no acórdão embargado e no acórdão indicado como paradigma. Em função disso, o conhecimento dos embargos de divergência está sujeito a duas regras: (a) a de que o acórdão impugnado e aquele indicado como paradigma discrepem a respeito do desate da mesma questão de direito, sendo indispensável para esse efeito a identificação do que neles foi a razão de decidir; (b) a de que esse exame se dê a partir da comparação de um e de outro acórdão, nada importando os erros ou acertos dos julgamentos anteriores (inclusive, portanto, os do julgamento do recurso especial), porque os embargos de divergência não constituem uma instância de releitura do processo. No âmbito dos embargos de divergência, portanto, não se rejulga o recurso especial. O respectivo acórdão é simplesmente confrontado com um ou mais julgados com a finalidade de harmonizar a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Espécie em que os alegados vícios no julgado foram objeto de embargos de declaração, que deixaram de ser conhecidos porque opostos por advogado sem procuração nos autos, não servindo os embargos de divergência ao propósito de renovar as teses neles articuladas. Agravo regimental desprovido." (AgRg nos EREsp 1096478/MG, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe 18/02/2014). Ademais, não se desincumbiu a parte embargante de evidenciar que as circunstâncias processuais entre os casos confrontados exigiriam soluções idênticas, requisito este indispensável para o conhecimento do recurso uniformizador, conforme previsto nos arts. 1.043, § 4º, do CPC c/c o art. 266, § 4º, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça. Nota-se que os arestos confrontados não apresentam similitude fática, pois partem de premissas distintas para a solução dos casos. Assim, ausente a indispensável similitude fática entre os arestos comparados, é firme a jurisprudência da Corte Especial deste Superior Tribunal de Justiça no sentido de que que não podem ser conhecidos os embargos de divergência. Nesse sentido: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DISSÍDIO NÃO DEMONSTRADO. REGRA TÉCNICA DE CONHECIMENTO. REVISÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA N. 315 DO STJ. SIMILITUDE FÁTICA NÃO DEMONSTRADA. 1. Revela-se inviável rever - em embargos de divergência - o conhecimento do recurso, uma vez que o agravo em recurso especial foi improvido em decorrência dos óbices das Súmulas n. 5 e 7/STJ. 2. Não cabe, em embargos de divergência, a análise de possível acerto ou desacerto do acórdão embargado, mas tão somente a de eventual dissídio de teses jurídicas, a fim de uniformizar a interpretação do direito infraconstitucional no âmbito do Superior Tribunal de Justiça. Agravo interno improvido. (AgInt nos EAREsp n. 1.880.896/RJ, relator Ministro Humberto Martins, Corte Especial, julgado em 7/2/2023, DJe de 10/2/2023.) PROCESSUAL CIVIL E DIREITO ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA NO RECURSO ESPECIAL. DIVERGÊNCIA NÃO COMPROVADA. INEXISTÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA ENTRE OS ACÓRDÃOS CONFRONTADOS. 1. Tendo o recurso sido interposto contra decisão publicada na vigência do Código de Processo Civil de 1973, devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele previsto, conforme Enunciado Administrativo n. 2/2016/STJ. 2. O acórdão embargado entendeu, conforme remansosa jurisprudência desta Corte e em razão do disposto nos artigos 475-P, II, e 575, II, do CPC, que a execução do julgado deve ser efetuada no mesmo juízo que processou a causa principal, de forma que, tendo havido trânsito em julgado da decisão que definiu a competência da justiça estadual para o julgamento da ação de conhecimento (RESp 183.800/PE), não há como o feito ser deslocado, em sede de execução, para a Justiça Federal, como pretende a recorrente. 3. Sob a alegação de divergência com o que fora adotado em outros precedentes desta Corte, a embargante defende, em suma, ser da Justiça Federal a competência para julgar a causa em que haja manifesto interesse jurídico e econômico da União, não havendo o que se falar em preclusão da matéria alegada, por ser de ordem pública. Defende, também, a aplicação imediata da Lei n. 9.469/1997. 4. O alegado dissídio jurisprudencial não foi devidamente comprovado nos moldes estabelecidos nos artigos 541, parágrafo único, do CPC/1973 e 255, § 1º, do RISTJ, haja vista que não foi realizado o devido cotejo analítico, além de que não se vislumbra similitude fática entre o acórdão embargado e os paradigmas, que examinaram a questão sob outro enfoque fático e jurídico e sem alcançar a peculiaridade existente no presente caso, relativa a ocorrência de trânsito em julgado da questão acerca da competência da Justiça Estadual. 5. Além disso, o acórdão embargado sequer discutiu a tese jurídica relativa à aplicação imediata da Lei n. 9.469/1997, utilizada pela embargante como fundamento para atrair a competência para a Justiça Federal. 6. Agravo interno não provido. (AgInt nos EREsp n. 1.366.295/PE, relator Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Seção, julgado em 13/12/2022, DJe de 16/12/2022.) Em complemento, a pretensa divergência estaria ancorada em decisões proferidas pelas Turmas da Primeira Seção anteriores ao entendimento firmado no julgamento da Questão de Ordem julgada no REsp 2.013.351/PA, na qual se declarou a competência das Turmas da Segunda Seção para julgamento de demandas envolvendo ação de particular contra as empresas responsáveis pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte - UHE/BM, objetivando a obtenção de indenização por danos materiais e morais sofridos. A propósito, confira-se o seguinte excerto da aludida Questão de Ordem, in verbis: Ação: de indenização por danos morais e materiais, ajuizada contra Norte Energia S/A e Consórcio Construtor Belo Monte, extinta sem resolução do mérito, com esteio no art. 267, VI, do CPC. Sentença: extinguiu o processo sem resolução do mérito, nos termos do art. 267, VI, do CPC, sob o fundamento de que a requerente não juntou à inicial (i) carteira de pescador emitida pelo Ministério da Pesca e Agricultura dentro do prazo de validade e (ii) o relatório geral da atividade pesqueira em anos pretéritos (documento emitido pelo referido Ministério), a fim de que os supostos danos fossem individualizados. (..) Questão de ordem: A Terceira Turma, em sessão realizada no dia 16/08/2022, acolheu questão de ordem por mim suscitada e submeteu o exame do presente recurso à Segunda Seção, nos termos dos arts. 14, II e 34, IV e XII, ambos do RISTJ. Decisão de admissibilidade: a Corte de origem admitiu o recurso especial, determinando a remessa dos autos ao STJ. Petição: Norte Energia S/A, em petição protocolada no dia 12/09/2022, requer a redistribuição do recurso a uma das Turmas integrantes da Primeira Seção desta Corte, sob o argumento de que esse órgão fracionário do STJ tem competência absoluta para julgar a matéria veiculada no presente processo. A requerente alega, em suma, que os Ministros Marco Buzzi e Raul Araújo, em processos semelhantes ao ora examinado, decidiram, respectivamente, nos autos do REsp n. 2.014.423 e do REsp n. 2.014.935, pela remessa dos autos a uma das Turmas de Direito Público desta Corte. (..) I - PROCESSO CIVIL - COMPETÊNCIA - NATUREZA DA RELAÇÃO JURÍDICA - CAUSA DE PEDIR - ART. 9º, § 2º, III, DO RISTJ. 1. No que tange à petição protocolada pela empresa Norte Energia S/A, consigno que a competência em razão da matéria é determinada pela natureza da relação jurídica controvertida, sendo a causa de pedir o dado a ser levado em conta para identificação do juízo competente. 2. No caso dos autos, tem-se ação de indenização ajuizada contra pessoas jurídicas de direito privado, na qual a causa de pedir guarda relação com suposto dano material causado individualmente à autora (pescadora artesanal), em virtude da possível diminuição de peixes na região após a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. 3. Não se discute neste especial (e em nenhum dos outros 26 (vinte e seis) recursos já distribuídos ao Gabinete) qualquer responsabilidade civil decorrente de acidente ou dano ao macrobem ambiental provocado pela construção da mencionada usina, o que evidenciaria a natureza publicista da demanda e atrairia a competência da Primeira Seção, nos termos do art. 9º, § 1º, XIV, do RISTJ. 4. A própria fundamentação adotada por uma das decisões apontadas pela requerente (REsp 2.014.935) respalda a conclusão em torno da competência da Segunda Seção para julgar a matéria, já que, conforme decidido na QO no REsp 1.711.009 (Corte Especial, DJe 23/03/2018): "(..) as reparações de dano ao macrobem terão sempre uma preponderância de direito público enquanto aquelas atinentes ao dano microbem ambiental serão eminentemente de direito privado. 2.1 A atribuição da Segunda Seção fica limitada às demandas nas quais o pleito reparatório esteja vinculado ao microbem ambiental, ou seja, à salvaguarda dos direitos individualmente considerados (de natureza eminentemente privada), sem a responsabilização do Estado ou nos quais a restauração do meio ambiente de forma global não seja o ponto principal da pretensão." 5. Verifica-se, ainda, que, com exceção das 02 (duas) decisões apontadas pela peticionante, recursos que tratam de matéria idêntica ao especial ora examinado têm sido objeto de decisões por parte de Ministros que compõem a Segunda Seção. Confira-se: REsp 2.015.106, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, DJe 02/09/2022; REsp 2.013.923, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, DJe 02/09/2022; REsp 2.016.998, Rel. Min. Marco Aurélio Bellize, DJe 23/08/2022; REsp 2.013.571, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, DJe 17/08/2022; REsp 2.013.649, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, DJe 16/08/2022. 6. Forte nessas razões, com esteio no art. 9º, § 2º, III, do RISTJ, INDEFIRO o pedido formulado pela requerente e, com base no princípio Kompetenzkompetenz, concluo pela competência da Segunda Seção para julgar o feito. Tal circunstância seria, por si só, suficiente para desenganar os presentes embargos de divergência, consoante o disposto no enunciado da Súmula n. 158/STJ, segundo a qual, mutatis mutandis, "não se presta a justificar embargos de divergência o dissídio com acórdão de Turma ou Seção que não tenha mais competência para a matéria neles versada". Ademais, no julgamento do RESP n. 2.013.351/PA, a Segunda Seção desta Corte, competente, portanto, para análise do tema, decidiu no seguinte sentido: PROCESSO CIVIL. COMPETÊNCIA DA SEGUNDA SEÇÃO. PRINCÍPIOS DA SEGURANÇA JURÍDICA E DA DURAÇÃO RAZOÁVEL DO PROCESSO. ARTS. 14, II E 34, IV E XII, AMBOS DO RISTJ. PREQUESTIONAMENTO FICTO PREVISTO NO ART. 1.025 DO CPC. ADMISSIBILIDADE. NECESSIDADE DE SE APONTAR VIOLAÇÃO AO ART. 1.022 DO CPC. ART. 321 DO CPC. EMENDA À INICIAL. PRECEDENTES. 1. Recurso especial submetido a julgamento por parte da Segunda Seção, nos termos dos arts. 14, II e 34, IV e XII, ambos do RISTJ. Observância dos princípios da segurança jurídica e da duração razoável do processo. 2. A admissão de prequestionamento ficto (art. 1.025 do CPC), em recurso especial, exige que no mesmo recurso seja indicada violação ao art. 1.022 do CPC, para que se possibilite ao órgão julgador verificar a existência do vício inquinado ao acórdão, que, uma vez constatado, poderá dar ensejo à supressão de grau facultada pelo dispositivo legal. 3. O indeferimento da petição inicial, quer por força do não-preenchimento dos requisitos exigidos nos arts. 319 e 320 do CPC, quer pela verificação de defeitos e irregularidades capazes de dificultar o julgamento de mérito, reclama a concessão de prévia oportunidade de emenda pelo autor, nos termos do art. 321 do CPC. Precedentes. 4. Provimento jurisdicional deve ser emitido de forma fundamentada, sob pena de ofensa ao art. 11 do CPC e ao art. 93, IX, da CRFB (REsp n. 2.013.351/PA, relatora Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 14/9/2022, DJe de 19/9/2022.) Nesse contexto, incide, ainda, na espécie, o enunciado da Súmula n. 168/STJ, segundo a qual "não cabem embargos de divergência quando a jurisprudência do Tribunal se firmou no mesmo sentido do acórdão embargado". Por fim, são incontáveis os julgados em casos rigorosamente idênticos ao presente em que a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça manteve decisão de indeferimento liminar dos embargos de divergência. Ilustrativamente: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA E SOLUÇÃO JURÍDICA DIVERSA. DIVERGÊNCIA NÃO DEMONSTRADA. DECISÃO MANTIDA. 1. É firme o entendimento de que a divergência entre as turmas do STJ só se configura quando demonstrada a similitude das circunstâncias fáticas em face das quais se deu o julgamento, com soluções jurídicas diversas. 1.1. "O que interessa para ensejar o cabimento dos embargos de divergência em matéria processual é que a mesma questão processual, em conjuntura semelhante, tenha recebido tratamento divergente" (EREsp 1.080.694/RJ, Relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Segunda Seção, julgado em 8/5/2013, DJe 27/6/2013). 2. No caso concreto, o acórdão embargado somente reconheceu o direito de a parte autora da demanda corrigir eventual falha da petição inicial, na forma prevista pelo art. 321 do CPC/2015 e conforme entendimento firmado pela Segunda Seção do STJ, sem que a Turma Julgadora tenha afirmado a possibilidade de modificar a causa de pedir ou do pedido independentemente da anuência do réu. 2.1. Os acórdãos paradigmas, por sua vez, prestigiam o comando do art. 329, II, do CPC/2015, que exige o consentimento do réu para o aditamento ou a alteração do pedido e da causa de pedir, inexistindo, pois, similitude fática e solução jurídica diversa entre os julgados. 3. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt nos EREsp n. 2.013.599/PA, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Corte Especial, julgado em 12/9/2023, DJe de 26/9/2023.) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. DISSENSO INTERPRETATIVO NÃO CARACTERIZADO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICO-JURÍDICA. INTERPRETAÇÃO DE DISPOSITIVOS LEGAIS DISTINTOS. ARTS. 264 E 284 DO CPC/73, E ART. 321 DO CPC/2015. INVIABILIDADE DOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. 1. A configuração do dissenso interpretativo pressupõe a demonstração da similitude fática e da identidade jurídica entre os arestos confrontados. 2. Não há falar em tese jurídica divergente quando os arestos confrontados têm como fundamento de decidir dispositivos legais diversos. 3. Ainda que os textos legais pertencentes a arcabouços normativos distintos guardem semelhança redacional, tal circunstância não implica, necessariamente, atendimento da similitude fático-jurídica entre os casos confrontados, em razão da sistematização legal própria de cada Código, que envolve a aplicação de artigos, exceções e princípios específicos (AgInt nos EREsp n. 1.642.331/SP, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Segunda Seção, DJe de 09.12.2020). 4. Agravo interno desprovido. (AgInt nos EREsp n. 2.022.557/PA, relator Ministro João Otávio de Noronha, Corte Especial, julgado em 12/9/2023, DJe de 15/9/2023.) AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA NO RECURSO ESPECIAL. ATUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE DOS PARADIGMAS. INEXISTÊNCIA. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA ENTRE OS ARESTOS CONFRONTADOS. REJULGAMENTO DO RECURSO ESPECIAL. IMPOSSIBILIDADE. 1. De acordo com a jurisprudência pacífica desta Corte deve a parte embargante apontar julgados contemporâneos ao acórdão embargado ou então supervenientes a este. Precedentes: AgInt nos EAREsp n. 1.725.259/RS, relatora Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, DJe de 30/9/2021; AgInt nos EREsp n. 1.892.676/PR, relatora Ministra Assusete Magalhães, Primeira Seção, DJe de 17/2/2023; AgInt nos EAREsp n. 1.638.767/GO, relatora Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, DJe de 3/12/2021. 2. A ausência de similitude fático-jurídica entre os acórdãos confrontados impede o conhecimento dos embargos de divergência. 3. Não cabe, em embargos de divergência, a análise de possível acerto ou desacerto do acórdão embargado, mas tão somente a de eventual dissídio de teses jurídicas, a fim de uniformizar a interpretação do direito infraconstitucional no âmbito do Superior Tribunal de Justiça. Agravo interno improvido. (AgInt nos EREsp n. 2.017.003/PA, relator Ministro Humberto Martins, Corte Especial, julgado em 8/8/2023, DJe de 14/8/2023.) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA NO RECURSO ESPECIAL. INDEFERIMENTO DA PETIÇÃO INICIAL SEM POSSIBILIDADE DE EMENDA. IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. DIVERGÊNCIA NÃO DEMONSTRADA. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1. O cabimento dos embargos de divergência pressupõe a existência de similitude entre os acórdãos postos em cotejo, a ser verificada com base nos fatos processuais neles contidos. 2. A anulação da sentença que indeferiu a petição inicial sem permitir a emenda decorreu de uma série de fatos processuais, mais amplos e diversos do que os registrados nos paradigmas. 3. Não foi demonstrada a adoção de soluções jurídicas diversas em casos cujos parâmetros fáticos sejam efetivamente semelhantes. 4. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt nos EREsp n. 2.028.386/PA, relator Ministro Og Fernandes, Corte Especial, julgado em 8/8/2023, DJe de 14/8/2023.) Ante o exposto, com fulcro no artigo 266-C do RISTJ, indefiro liminarmente os embargos de divergência. Publique-se. Intimem-se. EMENTA PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA NO RECURSO ESPECIAL. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICO-JURÍDICA. ACÓRDÃOS EMBARGADO E PARADIGMAS QUE PARTEM DE CIRCUNSTÂNCIAS FÁTICAS DISTINTAS E ANALISAM QUESTÕES JURÍDICAS DIVERSAS. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA INDEFERIDOS LIMINARMENTE.