HC 990323 - DECISAO
Embora o habeas corpus seja, em regra, inadequado como substituto do agravo em execução, o Relator verificou a necessidade de afastar qualquer risco de flagrante constrangimento ilegal. Assim, não conheceu do writ por inadequação processual, mas, de ofício, concedeu ordem para determinar que o Tribunal a quo examine...
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- Parties
- Paciente: R. A. da S.
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 26 March 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática (não Conhecimento Do Writ E Concessão De Ofício)
- Outcome
- Habeas corpus não conhecido; ordem concedida de ofício para que o Tribunal a quo aprecie a existência de eventual constrangimento ilegal, exceto se já interposto agravo em execução na origem.
- Legal Topics
- Exame Criminológico, Progressão De Regime, Agravo Em Execução, Habeas Corpus Substitutivo, Concessão De Ofício Pelo Relator, Flagrante Ilegalidade
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Parties
R. A. da S.
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática (não Conhecimento Do Writ E Concessão De Ofício)
Legal Issues
- 1 Realização de exame criminológico para apreciação de progressão de regime
- 2 Admissibilidade do habeas corpus como substituto de recurso próprio (agravo em execução)
- 3 Possibilidade de decisão liminar monocrática pelo Relator em casos de jurisprudência consolidada
Ratio Decidendi
Embora o habeas corpus seja, em regra, inadequado como substituto do agravo em execução, o Relator verificou a necessidade de afastar qualquer risco de flagrante constrangimento ilegal. Assim, não conheceu do writ por inadequação processual, mas, de ofício, concedeu ordem para determinar que o Tribunal a quo examine a existência de eventual constrangimento ilegal em face do paciente, salvo se já houver interposto agravo em execução na origem, e comunicou a decisão ao Juízo das Execuções Criminais e ao Tribunal a quo.
Court Disposition
Habeas corpus não conhecido; ordem concedida de ofício para que o Tribunal a quo aprecie a existência de eventual constrangimento ilegal, exceto se já interposto agravo em execução na origem.
Orders
- Determinar que o Tribunal de Justiça de São Paulo examine a existência de eventual constrangimento ilegal perpetrado em desfavor do paciente, exceto se já interposto agravo em execução na origem.
- Comunicar a presente decisão ao Juízo das Execuções Criminais e ao Tribunal a quo, com urgência.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado em benefício de R. A. da S., impugnando acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em julgamento do Habeas Corpus Criminal n. 2041274-36.2025.8.26.0000. Consta dos autos que o Juiz das Execuções Criminais determinou a realização de exame criminológico para apreciação do pedido de progressão ao regime semiaberto, sob o fundamento, em suma, de que o sentenciado praticou atos libidinosos com seu sobrinho, criança com apenas doze anos de idade, valendo-se assim da coabitação com a vítima (e-STJ, fls. 28/29). Contra a decisão, a defesa impetrou habeas corpus perante a Corte de origem, a qual não conheceu da ordem, recebendo o acórdão a seguinte ementa (e-STJ, fl. 10): Habeas Corpus Execução Penal Insurgência contra determinação para realização de exame criminológico, antes da análise de pleito de progressão de regime Inadmissibilidade Descabimento do remédio constitucional como substitutivo do recurso ordinário Os incidentes de execução penal desafiam recurso específico à sua impugnação, o de Agravo em Execução (art. 197, LEP), não se prestando o remédio heroico, por evidente inadequação processual, como sucedâneo dessa via recursal, pelo que exsurge imperioso o seu não conhecimento. Precedentes. Ilegalidade manifesta não evidenciada. Habeas corpus não conhecido. Nesta impetração, a defesa sustenta que, não obstante a alteração legislativa da Lei nº 14.843/24 ter trazido a obrigatoriedade da realização do exame, na época dos fatos não mais se exija, de plano, a realização de exame criminológico, o Juízo da execução penal ou mesmo o Tribunal de Justiça estadual podem, de forma devidamente fundamentada e diante das peculiaridades do caso concreto, determinar a realização do referido exame. Alega que a motivação apresentada para determinar a realização do exame criminológico é ilegal, pois, esse fato já foi valorado no momento da sentença e do acórdão que entenderam ser possível iniciar o cumprimento da pena em regime mais gravoso, considerando as particularidades do fato, ou seja, o crime ter sido praticado em face do seu sobrinho. Diante disso, requer, liminarmente e no mérito, seja realizada nova análise do pedido pelo d. Juiz da Execução, sem a necessidade de realização do exame criminológico. É o relatório. Decido. As disposições previstas nos arts. 64, III, e 202 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça não afastam do Relator a faculdade de decidir liminarmente, em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão que se conforma com súmula ou a jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores, ou a contraria (AgRg no HC n. 513.993/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe 1º/7/2019; AgRg no HC n. 475.293/RS, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 3/12/2018; AgRg no HC n. 499.838/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 11/4/2019, DJe 22/4/2019; AgRg no HC n. 426.703/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe 23/10/2018; e AgRg no RHC n. 37.622/RN, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013). Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n. 45/2004 com status de princípio fundamental (AgRg no HC n. 268.099/SP, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido ( EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC n. 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). No que concerne ao conhecimento da impetração, o Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato ilegal for passível de impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. Esse entendimento objetivou preservar a utilidade e a eficácia do mandamus, que é o instrumento constitucional mais importante de proteção à liberdade individual do cidadão ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a celeridade que o seu julgamento requer. Nesse sentido, confiram-se os seguintes julgados, exemplificativos dessa nova orientação das Cortes Superiores do País: HC n. 320.818/SP, Relator Ministro FELIX FISCHER, Quinta Turma, julgado em 21/5/2015, DJe 27/5/2015; e STF, HC n. 113.890/SC, Relatora Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julg. em 3/12/2013, DJ 28/2/2014. Assim, de início, incabível o presente habeas corpus substitutivo de recurso próprio. Além disso, a Corte de origem não conheceu o writ lá impetrado, deixando de avaliar a existência de eventual ilegalidade perpetrada em desfavor do ora paciente, porque considerou que o habeas corpus não é a via adequada para questões atinentes à execução da pena. Limitou-se a transcrever trecho da decisão primeva, sem explicar, com sua palavras, o motivo pelo qual considerou não haver ilegalidade. Em consulta ao site do Tribunal, processo de execução, no 1º grau de jurisdição, não foi possível verificar se a defesa interpôs o recurso de agravo em execução na origem. Assim, embora tecnicamente correto o voto coator, nos moldes da orientação do STJ e do STF, é indispensável que se afaste por completo a existência de flagrante constrangimento ilegal, ainda que por meio de habeas corpus, sob pena de ofensa ao art. 5º, LXVIII, da CF: conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder. Desse modo, o habeas corpus, por ser uma garantia constitucional de defesa da liberdade, deve abarcar várias situações em que este valor estiver sendo ameaçado, ainda que de forma indireta. Nesse sentido: PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. NÃO CONHECIMENTO DO WRIT. EXECUÇÃO PENAL. PRISÃO DOMICILIAR. NÃO COMPROVAÇÃO DO ESTADO DE SAÚDE E DE AUSÊNCIA DE TRATAMENTO ADEQUADO NO ESTABELECIMENTO PRISIONAL. INEXISTÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. 1. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, acompanhando a orientação da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, firmou-se no sentido de que o habeas corpus não pode ser utilizado como substituto de recurso próprio, sob pena de desvirtuar a finalidade dessa garantia constitucional, insculpida no art. 5º, LXVIII, exceto quando a ilegalidade apontada for flagrante e estiver influenciando na liberdade de locomoção do indivíduo. 2. Tendo a decisão de primeiro grau consignado que não há notícia de que o paciente não estaria recebendo o tratamento adequado no estabelecimento prisional em que se encontra, bem como que não foi comprovado o seu estado de saúde, não resta configurada flagrante ilegalidade a ser corrigida na presente via. 3. Cabe à defesa instruir os autos com documentos necessários à comprovação da impossibilidade de o apenado ser tratado no cárcere - pela suposta falta de estrutura - e do atual estado de saúde do preso, requisitos reconhecidamente idôneos para o deferimento da prisão domiciliar. 4. Habeas corpus não conhecido. (HC 295.993/RS, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, QUINTA TURMA, julgado em 06/11/2014, DJe 14/11/2014) No mais, muitas vezes, embora se tratando de assunto que, em princípio, demanda análise de fatos e provas, há informações suficientes nos autos para que o Tribunal emita seu juízo de valor, ou, se porventura forem insuficientes, pode a autoridade solicitar novas informações. Ainda que o Tribunal tenha verificado a ausência de flagrante ilegalidade, deve justificar, sob pena de ofensa ao princípio da inafastabilidade da jurisdição e da fundamentação das decisões judiciais. Nesse contexto, a solução passa pelo retorno dos autos à origem para que a Corte a quo examine, ainda que sucintamente, se a hipótese é de concessão da ordem de ofício. Veja-se: 2. - De acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a despeito de existir recurso próprio e adequado para questionar as decisões proferidas em tema de Execução Penal, a ação de habeas corpus substitutiva de agravo em execução deve ser analisada pela Corte de origem com o intuito de verificar a existência de flagrante ilegalidade, desde que não seja necessário o reexame de fatos e provas, como na espécie, em que se discute o preenchimento dos requisitos objetivos e subjetivos à progressão de regime. Precedentes. 3. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício para determinar que o Tribunal de Justiça de São Paulo examine o mérito do Habeas Corpus n. 0160802-21.2013.8.26.0000 como entender de direito (HC 282.251/SP, Rel. Min. MARCO AURÉLIO BELLIZZE, DJe 19/3/2014) Ante o exposto, não conheço do presente habeas corpus. Todavia, concedo a ordem de ofício, apenas para para determinar que o Tribunal a quo aprecie a existência de eventual constrangimento ilegal perpetrado em desfavor do paciente, exceto se já interposto agravo em execução na origem. Comunique-se a presente decisão ao Juízo das Execuções Criminais e ao Tribunal a quo, com urgência. Intimem-se. EMENTA