HC 1016133 - DECISAO
Houve flagrante ilegalidade na determinação do exame criminológico quando esta se fundamentou exclusivamente na gravidade abstrata dos delitos e no tempo de pena a cumprir, fundamentos insuficientes segundo a jurisprudência do STJ (Súmula 439). Assim, embora o writ substitutivo de recurso próprio não devesse ser...
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- Parties
- Paciente: JOSE ROBERTO CORNAGO; Órgão Julgador: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 31 July 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus. Todavia, concedo a ordem, de ofício, para determinar que o Juízo das Execuções reaprecie o pedido de progressão de regime com base em fatos ocorridos no curso da execução da pena do paciente.
- Legal Topics
- Exame Criminológico, Progressão De Regime, Flagrante Ilegalidade, Aplicação Temporal De Lei Penal (novatio Legis in Pejus), Súmula 439/stj, Súmula Vinculante 26
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Parties
JOSE ROBERTO CORNAGO
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Órgão Julgador
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 necessidade de fundamentação concreta para exigir exame criminológico
- 2 inadmissibilidade de fundamentação baseada na gravidade abstrata do delito ou no saldo de pena a cumprir
- 3 possibilidade de concessão de ofício do habeas corpus em caso de flagrante ilegalidade
Ratio Decidendi
Houve flagrante ilegalidade na determinação do exame criminológico quando esta se fundamentou exclusivamente na gravidade abstrata dos delitos e no tempo de pena a cumprir, fundamentos insuficientes segundo a jurisprudência do STJ (Súmula 439). Assim, embora o writ substitutivo de recurso próprio não devesse ser conhecido, a Corte concedeu a ordem de ofício para que o Juízo das Execuções reaprecie o pedido de progressão de regime com base em fatos concretos ocorridos no curso da execução da pena do paciente.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus. Todavia, concedo a ordem, de ofício, para determinar que o Juízo das Execuções reaprecie o pedido de progressão de regime com base em fatos ocorridos no curso da execução da pena do paciente.
Orders
- Não conheço do habeas corpus.
- Concedo a ordem, de ofício, para determinar que o Juízo das Execuções reaprecie o pedido de progressão de regime com base em fatos ocorridos no curso da execução da pena do paciente.
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado em benefício de JOSE ROBERTO CORNAGO contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO no julgamento do Habeas Corpus Criminal n. 2151474-13.2025.8.26.0000. Extrai-se dos autos que o Juízo da Vara de Execução Penal condicionou a análise do benefício da progressão de regime à realização de exame criminológico. Impetrado prévio writ, a ordem foi denegada, em acórdão assim ementado (fls. 35/36): "HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO. Alegação de excesso de prazo na realização de exame criminológico determinado para análise de pedido de progressão. Habeas corpus não se presta à agilização de procedimentos. Não caracterizada desídia do Juízo no andamento do feito. Ordem denegada." Em suas razões, o impetrante alega constrangimento ilegal imposto ao paciente, em face da demora injustificada na realização do exame criminológico. Destaca que o pedido de progressão foi feito em 17/1/2025, a realização da perícia foi determinada em 13/3/2025, mas até o momento não foi realizada. Pondera que a ineficiência do Estado mantém o apenado preso em regime mais gravoso (semiaberto) por tempo superior ao devido. Requer, em liminar e no mérito, a concessão da ordem para determinar a imediata realização do exame criminológico ou autorizar a progressão de regime, independentemente da perícia. Indeferido o pedido liminar (fls. 19/20) e prestadas as informações pela autoridade coatora (fls. 26/34 e 35/42), o Ministério Público Federal opinou pelo não conhecimento do mandamus e, subsidiariamente, pela denegação da ordem, com recomendação (fls. 44/47). É o relatório. Decido. Diante de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração não deveria ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal e do próprio Superior Tribunal de Justiça. Contudo, como a seguir explicitado, tem razão a defesa no apontamento da existência de flagrante ilegalidade a ser sanada, de ofício. O Juízo da Execução determinou a submissão do apenado ao exame criminológico mediante a seguinte fundamentação: "Com relação ao sentenciado José Roberto Cornago. CPF: 194.789.128-60, MTR: 1142540, RG: 22586090, RJI: 182586769-57, recolhido no(a) Penitenciária "Nestor Canoa" - Mirandópolis I, considerando-se que o(s) crime(s) atribuído(s) ao sentenciado é (são) da maior gravidade (art. 1 "caput", II § 4o, II do(a) LEI 9455/1997 c/c art. 61 "caput", II, "e", "f do(a) CP), bem como a quantidade de pena imposta, com término previsto para 26/11/2030, determino a realização da avaliação preconizada pela Resolução SAP - 88, de 28-4-2010, a fim de que o pedido de progressão ao regime aberto possa ser analisado de forma mais criteriosa." (fl. 39). A Corte estadual denegou a ordem, ressaltando que a "necessidade de realização do exame criminológico foi devidamente justificada e, com a juntada do laudo, será dado prosseguimento à análise do pedido de progressão" (fl. 12). As conclusões obtidas nas razões de decidir das instâncias ordinárias são divergentes da jurisprudência deste Sodalício Superior, no sentido de que os elementos concretos decorrentes do cumprimento da pena devem ser utilizados para a determinação da realização do exame criminológico. Ou seja, para esse fim são inidôneos dados como a gravidade abstrata dos crimes pelos quais o sentenciado foi condenado ou o saldo de pena a cumprir. Convém conferir a Súmula Vinculante n. 26: "Para efeito de progressão de regime no cumprimento de pena por crime hediondo, ou equiparado, o juízo da execução observará a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, sem prejuízo de avaliar se o condenado preenche, ou não, os requisitos objetivos e subjetivos do benefício, podendo determinar, para tal fim, de modo fundamentado, a realização de exame criminológico." Ainda sobre o tema, a Súmula n. 439 desta Corte Superior dispõe que: "Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada." Com igual orientação, os seguintes julgados : AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. WRIT SUBSTITUTIVO. REMÉDIO NÃO CONHECIDO. POSSIBILIDADE DE CONCESSÃO DA ORDEM SE CONSTATADA FLAGRANTE ILEGALIDADE. PROGRESSÃO DE REGIME CONCEDIDA EM PRIMEIRO GRAU. TRIBUNAL A QUO CASSOU COM BASE NA GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO. DETERMINAÇÃO DE REALIZAÇÃO DE EXAME CRIMINOLÓGICO. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Embora o habeas corpus não mereça ser conhecido, pois impetrado em substituição ao recurso próprio (cf.: HC 358.398/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, DJe 9/8/2016), esta Corte considera ser possível a concessão da ordem, de ofício, se constatada a existência de manifesta ofensa à liberdade de locomoção do paciente, conforme aconteceu no caso dos autos. 2. Não obstante a alteração legislativa produzida pela Lei n. 10.792/2003, no art. 112 da Lei n. 7.210/84 (LEP), tenha suprimido a referência expressa ao exame criminológico como requisito à progressão, esta Corte consolidou entendimento no sentido de que o Magistrado pode, de forma fundamentada, exigir a sua realização. Nessa esteira, editou-se o enunciado n. 439 da Súmula do STJ, in verbis: "Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada". A fundamentação, contudo, deve estar relacionada a algum elemento concreto da execução da pena, não se admitindo a simples referência à gravidade abstrata do delito ou à longevidade da pena, como no caso concreto. Precedentes. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 817.103/SP, de minha relatoria, QUINTA TURMA, julgado em 5/12/2023, DJe de 12/12/2023.) AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. LIVRAMENTO CONDICIONAL. REALIZAÇÃO DE EXAME CRIMINOLÓGICO COM FULCRO NA GRAVIDADE EM ABSTRATO DOS DELITOS E NA LONGA PENA A CUMPRIR. IMPOSSIBILIDADE. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO REGIMENTAL DES PROVIDO. 1. O Superior Tribunal de Justiça entende que a gravidade abstrata dos crimes pelos quais o sentenciado foi condenado e a longa pena a cumprir não são fundamentos idôneos para submeter benefícios da execução penal à prévia realização de exame criminológico. 2. No caso, o Tribunal de origem cassou o benefício baseado na necessidade de realização do exame criminológico, em razão dos crimes praticados e da longa pena a cumprir. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 811.981/SP, relator Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 12/6/2023, DJe de 15/6/2023.) Destarte, considerada a insuficiência da fundamentação adotada nestes autos, para determinar a realização de exame criminológico, a qual não apontou eventual elemento concreto da execução da pena para determinar a confecção de laudo, forçoso reconhecer a existência de flagrante ilegalidade ensejadora da concessão da ordem, de ofício. A propósito: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO DE REGIME. EXIGÊNCIA DE EXAME CRIMINOLÓGICO. ART. 112, § 1º, DA LEP, NA REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 14.843/2024. NORMA MAIS GRAVOSA. IMPOSSIBILIDADE DE SUA APLICAÇÃO À EXECUÇÃO EM CURSO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 439/STJ. DECISÃO JUDICIAL QUE DETERMINA A REALIZAÇÃO DA PERÍCIA PAUTADA NA GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL VERIFICADO. ORDEM CONCEDIDA. RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DESPROVIDO. 1. Em outras alterações efetuadas na Lei de Execuções Penais, as Cortes Superiores firmaram entendimento no sentido de que as novas disposições deveriam ser aplicadas aos delitos praticados após a sua vigência, por inaugurarem situação mais gravosa aos apenados. 2. Ressalta-se que, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, ao analisar as modificações trazidas pela Lei n. 14.843/2024 no direito às saídas temporárias, o Ministro André Mendonça, relator do HC n. 240.770/MG, entendeu que se trata de novatio legis in pejus, incidente, portanto, aos crimes cometidos após o início de sua vigência. 3. Cabe estender esse raciocínio à nova redação do art. 112, § 1º, da LEP, que passou a exigir exame criminológico para progressão de regime, de modo que deve ser mantido o entendimento firmado na Súmula n. 439/STJ, segundo o qual "admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada." 4. Em se tratando de hipótese na qual foi exigido o exame criminológico mediante decisão fundada exclusivamente na gravidade abstrata do delito, sem análise dos elementos concretos da execução da pena, verifica-se constrangimento ilegal apto a ensejar a concessão da ordem, de ofício. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 929.034/SP, relator Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 30/9/2024, DJe de 4/10/2024.) Ante o exposto, com fundamento no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheço do habeas corpus. Todavia, concedo a ordem, de ofício, para determinar que o Juízo das Execuções reaprecie o pedido de progressão de regime com base em fatos ocorridos no curso da execução da pena do paciente. Publique-se. Intimem-se. EMENTA