HC 1031321 - DECISAO
O acórdão coator utilizou fundamentos abstratos (gravidade dos crimes e tempo de pena a cumprir) que não se relacionam com fatos ocorridos durante a execução penal e, portanto, não são idôneos para justificar a exigência do exame criminológico; como o art.112 LEP não exige o exame para progressão e a Súmula 439...
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- Parties
- Paciente: MARCUS CARDOSO DA SILVA GIL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 08 September 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática (concessão De Ordem De Ofício)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus. No mérito, concedo a ordem de ofício, casso o acórdão coator e determino que o Juízo das Execuções Criminais dispense o exame criminológico e aprecie o pedido de progressão de regime.
- Legal Topics
- Exame Criminológico, Progressão De Regime, Habeas Corpus, Súmula 439 (stj), Súmula Vinculante 26 (stf), Art. 112 Lei De Execução Penal, Art. 5º, LXXVIII, CF
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Parties
MARCUS CARDOSO DA SILVA GIL
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática (concessão De Ordem De Ofício)
Legal Issues
- 1 Legalidade da determinação de exame criminológico para progressão de regime
- 2 Conteúdo probatório exigido para formar convicção sobre o requisito subjetivo da progressão (fatos ocorridos na execução penal)
- 3 Interpretação do art. 112 da Lei de Execução Penal após as alterações pelas Leis n.10.792/2003 e n.13.964/2019
Ratio Decidendi
O acórdão coator utilizou fundamentos abstratos (gravidade dos crimes e tempo de pena a cumprir) que não se relacionam com fatos ocorridos durante a execução penal e, portanto, não são idôneos para justificar a exigência do exame criminológico; como o art.112 LEP não exige o exame para progressão e a Súmula 439 permite o exame apenas mediante decisão motivada por fatos da execução, configurou-se flagrante ilegalidade, justificando a cassação do acórdão e a determinação para que o Juízo das Execuções dispense o exame e aprecie o pedido de progressão de regime desde logo.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus. No mérito, concedo a ordem de ofício, casso o acórdão coator e determino que o Juízo das Execuções Criminais dispense o exame criminológico e aprecie o pedido de progressão de regime.
Orders
- Não conhecer do habeas corpus
- Conceder a ordem de ofício
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, interposto em benefício de MARCUS CARDOSO DA SILVA GIL , impetrado acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em julgamento do HC n. 2233593-31.2025.8.26.0000. Consta dos autos que o Juiz das Execuções Criminais determinou a realização de exame criminológico para apreciação do pedido de progressão de regime (e-STJ, fls. 19/21). Contra a decisão, a defesa impetrou habeas corpus, perante a Corte de origem, que denegou a ordem. O acórdão recebeu a seguinte ementa (e-STJ, fl. 15): Habeas corpus Insurgência contra a determinação de realização de exame criminológico Possibilidade de, ante o caso concreto, ser determinado sua realização Precedentes Sentenciado cumprindo pena em regime semiaberto, por crimes de roubo circunstanciado pelo concurso de agentes, restrição da liberdade e emprego de arma de fogo e associação criminosa armada e com considerável tempo de pena a cumprir Cautela na comprovação do requisito subjetivo justificada Possibilidade de determinação do exame criminológico - Súmula Vinculante 26 do STF e da Súmula 439 do STJ Ordem denegada. Nesta impetração, a defesa sustenta que a exigência de exame criminológico no caso concreto se mostra ilegal, desproporcional e carente de fundamentação idônea, devendo ser afastada para que o juízo de origem reanalise o pedido de progressão, com base nos elementos já constantes dos autos. Diante disso, requer, liminarmente e no mérito, seja afastada a exigência prévia de realização de exame criminológico, dando o Juízo da Execução prosseguimento à apreciação do pedido de Regime Aberto. É o relatório. Decido. As disposições previstas nos arts. 64, III, e 202 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça não afastam do Relator a faculdade de decidir liminarmente, em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão que se conforma com súmula ou a jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores, ou a contraria (AgRg no HC n. 513.993/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe 1º/7/2019; AgRg no HC n. 475.293/RS, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 3/12/2018; AgRg no HC n. 499.838/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 11/4/2019, DJe 22/4/2019; AgRg no HC n. 426.703/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe 23/10/2018; e AgRg no RHC n. 37.622/RN, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013). Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n. 45/2004 com status de princípio fundamental (AgRg no HC n. 268.099/SP, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido ( EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC n. 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). No que concerne ao conhecimento da impetração, o Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato ilegal for passível de impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. Esse entendimento objetivou preservar a utilidade e a eficácia do mandamus, que é o instrumento constitucional mais importante de proteção à liberdade individual do cidadão ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a celeridade que o seu julgamento requer. Nesse sentido, confiram-se os seguintes julgados, exemplificativos dessa nova orientação das Cortes Superiores do País: HC n. 320.818/SP, Relator Ministro FELIX FISCHER, Quinta Turma, julgado em 21/5/2015, DJe 27/5/2015; e STF, HC n. 113.890/SC, Relatora Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julg. em 3/12/2013, DJ 28/2/2014. Assim, de início, incabível o presente habeas corpus substitutivo de recurso próprio. Todavia, em homenagem ao princípio da ampla defesa, passa-se ao exame da insurgência para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal passível de ser sanado pela concessão da ordem, de ofício. Exame criminológico para apreciação do pedido de progressão ao regime aberto O Tribunal manteve o entendimento da decisão de origem, nos seguintes termos - e-STJ, fls. 16/17: .. .. inexiste ilegalidade na determinação de realização de exame criminológico para apreciação de eventual preenchimento do requisito subjetivo exigido por lei para a progressão de regime, questão, aliás, já pacificada pelo Supremo Tribunal Federal, por meio da Súmula Vinculante 26, e pelo Superior Tribunal de Justiça, pela Súmula 439, de modo que somente isso já recomendaria a denegação da presente ordem. De mais a mais, no caso presente, de todo conveniente seja o Paciente submetido ao exame criminológico, isso porque ele cumpre pena no regime semiaberto, por pena aplicada pela prática de crimes graves (artigo 157, §2º, incisos II e V, artigo 157, §2ºA, inciso I e artigo 288, parágrafo único, todos do Código Penal) e possui tempo expressivo de pena a cumprir (até 26/10/2029 fls. 19/21), de forma que toda cautela é necessária para sua reinserção na sociedade. .. Ante do exposto, pelo meu voto, DENEGA-SE A ORDEM IMPETRADA. O respeitável voto está divergente do entendimento desta Corte. O Superior Tribunal de Justiça possui entendimento pacífico no sentido de que o art. 112 da Lei de Execução Penal, após a alteração trazida pela Lei n. 10.792/2003, e ainda pela Lei mais recente n. 13.964/2019, não mais exige a submissão do apenado ao exame criminológico para a concessão de benefícios: Art. 112 .. § 1º Em todos os casos, o apenado só terá direito à progressão de regime se ostentar boa conduta carcerária, comprovada pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão (Redação dada pela Lei n. 13.964, de 2019). Todavia, o Juiz da Execução, ou mesmo o Tribunal de Justiça, de forma fundamentada, pode determinar, diante das peculiaridades do caso, a realização do aludido exame para a formação do seu convencimento, nos termos do enunciado 439 da Súmula desta Corte, in verbis: Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada. Como se pode ver da decisão acima, não obstante o zelo da autoridade coatora, não foram utilizados fundamentos concretos, relacionados ao cumprimento da pena corporal, para justificar a realização do exame criminológico. Destacou elementos abstratos, ao mencionar os crimes perpetrados pelo executado e a previsão do término da pena, elementos que não podem ser mais avaliados na fase de execução, porquanto já sopesados pelo legislador, ao tipificar o crime e sua pena, e pelo julgador, ao fixar o quantum da reprimenda. No boletim informativo de pena não há registro de faltas disciplinares nem observações negativas - STJ, fls. 29/33. Esta Corte Superior de Justiça pacificou entendimento no sentido de que fatores relacionados ao crime praticado são determinantes da pena aplicada, mas não justificam diferenciado tratamento para a progressão de regime ou livramento condicional, de modo que o exame criminológico somente poderá fundar-se em fatos ocorridos no curso da própria execução penal. Confiram-se: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. LIVRAMENTO CONDICIONAL. REQUISITO SUBJETIVO. LONGA PENA POR CUMPRIR. GRAVIDADE DOS DELITOS PRATICADOS. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. RECURSO NÃO PROVIDO. 1. A gravidade dos delitos pelos quais restou condenado o paciente, bem como a sua longa pena ainda por cumprir não são fundamentos idôneos para recusar os benefícios da execução penal. Precedentes. .. (HC n. 429.176/RJ, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 6/3/2018, DJe 14/3/2018). 2. No caso, o Tribunal coator determinou a realização de exame criminológico, para análise do pedido de livramento condicional, utilizando fundamentos abstratos - gravidade dos crimes e tempo de pena ainda a cumprir -, deixando de mencionar aspectos concretos da execução da pena, como eventuais faltas disciplinares. 3. Com efeito, a simples leitura do acórdão coator permite concluir pela existência de constrangimento ilegal, tendo em vista a ausência de fundamentos concretos, não havendo que falar, desse modo, em via eleita (habeas corpus) inadequada. 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 700.232/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 26/10/2021, DJe de 3/11/2021.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. DETERMINAÇÃO DE REALIZAÇÃO DE EXAME CRIMINOLÓGICO. FUNDAMENTOS IDÔNEOS. ART. 112 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL. INCIDÊNCIA DO ENUNCIADO N. 439 DA SÚMULA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Nos termos da jurisprudência desta Corte Superior, fundamentos abstratos e genéricos não justificam a exigência de exame criminológico, bem como a análise do preenchimento do requisito subjetivo somente poderá fundar-se em fatos praticados durante a execução penal. 2. Na hipótese, o Tribunal a quo entendeu pela necessidade de realização de exame criminológico em razão de 4 (quatro) faltas disciplinares graves, circunstâncias ocorridas, portanto, durante o cumprimento da pena, conforme o entendimento sedimentado na Súmula n. 439 desta Corte. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 633.686/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 2/3/2021, DJe de 11/3/2021.) AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO DE REGIME. DEFERIMENTO PELO JUÍZO DAS EXECUÇÕES. CASSAÇÃO PELA CORTE DE ORIGEM. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO IDÔNEA. PRECEDENTES. 1. Na hipótese, o Tribunal a quo entendeu pela necessidade de realização de exame criminológico, em razão da reincidência do apenado, da gravidade abstrata do delito (roubo) e da longa pena a cumprir. Todavia, nos termos da jurisprudência desta Corte Superior, fundamentos abstratos e genéricos, como os apresentados pela Corte de origem, não justificam a exigência de exame criminológico, bem como a análise do preenchimento do requisito subjetivo somente poderá fundar-se em fatos praticados durante a execução penal. 2. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 590.322/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 18/8/2020, DJe de 24/8/2020.) Configurada, portanto, na espécie, flagrante ilegalidade, a justificar a concessão do writ de ofício. Ante o exposto, não conheço do presente habeas corpus. No entanto, concedo a ordem de ofício, a fim de cassar o acórdão coator e determinar que o Juízo das Execuções Criminais dispense o exame criminológico e aprecie, desde logo, o pedido de progressão de regime. Comunique-se a presente decisão, com urgência, ao Juízo singular das execuções e ao Tribunal coator. Intimem-se. EMENTA