HC 986618 - ACORDAO
Não há flagrante ilegalidade apta a autorizar o trancamento do inquérito via habeas corpus: existem indícios mínimos de autoria e materialidade que sustentam a continuidade da persecução; os investigados estão soltos e o prazo do inquérito é impróprio; a complexidade do caso e os deslocamentos de competência...
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- Parties
- Agravante: ODENILDO PEREIRA DA ROCHA; Agravante: ABYSUA SILVA SOARES DA ROCHA; Órgão Recorrido: TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 15 September 2025
- Procedural Posture
- Agravo Regimental No Habeas Corpus / Julgado Pela Sexta Turma (decisão Definitiva)
- Outcome
- Nego provimento ao agravo regimental
- Legal Topics
- Excesso De Prazo No Inquérito Policial, Trancamento De Inquérito, Complexidade Das Investigações, Prerrogativa De Foro, Acesso Da Defesa E Sigilo (súmula Vinculante N. 14), Habeas Corpus Não Substitutivo De Recurso
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Parties
ODENILDO PEREIRA DA ROCHA
Agravante
ABYSUA SILVA SOARES DA ROCHA
Agravante
TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO
Órgão Recorrido
Procedural Posture
Agravo Regimental No Habeas Corpus / Julgado Pela Sexta Turma (decisão Definitiva)
Legal Issues
- 1 excesso de prazo para conclusão do inquérito policial
- 2 possibilidade de trancamento do inquérito por habeas corpus
- 3 limites ao acesso da defesa a documentos sigilosos nos termos da Súmula Vinculante n. 14
Ratio Decidendi
Não há flagrante ilegalidade apta a autorizar o trancamento do inquérito via habeas corpus: existem indícios mínimos de autoria e materialidade que sustentam a continuidade da persecução; os investigados estão soltos e o prazo do inquérito é impróprio; a complexidade do caso e os deslocamentos de competência (remessa ao Tribunal por prerrogativa de foro e pedidos de remessa à Justiça Eleitoral) justificam a extensão do prazo; ademais, a análise de mérito e a reavaliação probatória são incabíveis na via do habeas corpus. Dessa forma, o agravo regimental deve ser improvido, com recomendação de celeridade no trâmite do processo.
Court Disposition
Nego provimento ao agravo regimental
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental
- Recomendar celeridade no trâmite do Processo n. 5017993-55.2019.4.04.0000/RS
Full Case Text
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2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 04/09/2025 a 10/09/2025, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz e Antonio Saldanha Palheiro votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Sebastião Reis Júnior. Não participou do julgamento o Sr. Ministro Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do TJSP). EMENTA DIREITO PENAL. DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. INQUÉRITO POLICIAL. ALEGADO EXCESSO DE PRAZO. COMPLEXIDADE DAS INVESTIGAÇÕES. ACUSADOS SOLTOS. PRAZO IMPRÓPRIO. DESLOCAMENTOS DE COMPETÊNCIA. AGRAVO IMPROVIDO. 1. O Superior Tribunal de Justiça firmou compreensão de que o habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração quando assim manejado. 2. A existência de indícios mínimos de autoria e materialidade delitiva sustenta a continuidade da persecução penal, não havendo flagrante ilegalidade que justifique o trancamento do inquérito. 3. A complexidade do caso, que foi iniciado no primeiro grau da Justiça Federal, tendo sido posteriormente remetido ao Tribunal regional em razão da existência de indícios de participação de autoridade detentora de prerrogativa de foro e em duas ocasiões distintas, teve requerida remessa dos autos para a Justiça eleitoral, justifica a delonga na conclusão do inquérito policial e afasta a alegação de excesso de prazo injustificado. 4. A análise de mérito e a valoração de provas são incabíveis na via do habeas corpus. 5. Agravo regimental improvido, com recomendação de celeridade no trâmite processual.
RELATÓRIO Trata-se de agravo regimental interposto por ODENILDO PEREIRA DA ROCHA e ABYSUA SILVA SOARES DA ROCHA contra a decisão que não conheceu do habeas corpus impetrado contra acórdão prolatado pelo TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO. Depreende-se dos autos que os agravantes estão sendo investigados há mais de 6 anos, sem conclusão definitiva a respeito da formação da culpa, no Inquérito Policial n. 5017993-55.2019.4.04.0000, referente à Operação Autoclave, que investiga a possível prática de crimes na aplicação de recursos destinados à Unidade de Pronto Atendimento da Scharlau, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. No respectivo writ impetrado nesta Corte Superior, a defesa requereu a concessão da ordem para que fosse determinado o trancamento do inquérito policial. Diante do não conhecimento do habeas corpus, interpôs-se o presente agravo. Nas razões do agravo, a defesa repisa os fundamentos expendidos na petição inicial, sustentando a ocorrência de excesso de prazo para a conclusão das investigações. Alega que o inquérito ainda não foi concluído, a despeito da apresentação do relatório final da investigação, por estarem ainda pendentes diligências que nem sequer teriam sido apreciadas pela Corte de origem. Afirma que a demora na conclusão das investigações implicaria violação do princípio constitucional da razoabilidade. Cita julgados do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça nos quais o excesso de prazo teria sido reconhecido. Requer, ao final, a reconsideração da decisão ou a submissão do pleito ao colegiado, para a concessão da ordem. O Ministério Público Federal, que pugnou pelo não conhecimento do writ, manifestou ciência da decisão agravada à fl. 879. É o relatório. EMENTA DIREITO PENAL. DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. INQUÉRITO POLICIAL. ALEGADO EXCESSO DE PRAZO. COMPLEXIDADE DAS INVESTIGAÇÕES. ACUSADOS SOLTOS. PRAZO IMPRÓPRIO. DESLOCAMENTOS DE COMPETÊNCIA. AGRAVO IMPROVIDO. 1. O Superior Tribunal de Justiça firmou compreensão de que o habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração quando assim manejado. 2. A existência de indícios mínimos de autoria e materialidade delitiva sustenta a continuidade da persecução penal, não havendo flagrante ilegalidade que justifique o trancamento do inquérito. 3. A complexidade do caso, que foi iniciado no primeiro grau da Justiça Federal, tendo sido posteriormente remetido ao Tribunal regional em razão da existência de indícios de participação de autoridade detentora de prerrogativa de foro e em duas ocasiões distintas, teve requerida remessa dos autos para a Justiça eleitoral, justifica a delonga na conclusão do inquérito policial e afasta a alegação de excesso de prazo injustificado. 4. A análise de mérito e a valoração de provas são incabíveis na via do habeas corpus. 5. Agravo regimental improvido, com recomendação de celeridade no trâmite processual. VOTO Conforme consignado na decisão ora agravada, o Superior Tribunal de Justiça firmou compreensão de que o habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração quando assim manejado. Observam-se, a respeito: AgRg no HC n. 943.146/MG, Quinta Turma, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 22/10/2024; AgRg no HC n. 874.713/SP, Quinta Turma, relator Ministro Ribeiro Dantas, DJe de 20/8/2024; AgRg no HC n. 749.702/SP, Sexta Turma, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, DJe de 29/2/2024; AgRg no HC n. 912.662/SP, Sexta Turma, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, DJe de 27/6/2024. No caso em exame, considerando o disposto no art. 647-A do CPP, não se verifica a ocorrência de ilegalidade flagrante apta a superar esse entendimento. No que concerne ao pedido de trancamento da ação penal, destaca-se que a providência que se busca somente é possível, na via estreita do habeas corpus, em caráter excepcional, quando se comprovar, de plano, a inépcia da denúncia, a atipicidade da conduta, a incidência de causa de extinção da punibilidade, a ausência de indícios de materialidade ou de autoria delitiva. A propósito: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. VIAS DE FATO EM CONTEXTO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL POR AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. NÃO CABIMENTO. ANÁLISE SOBRE OS INDÍCIOS MÍNIMOS DE AUTORIA DELITIVA E MATERIALIDADE PARA A DENÚNCIA QUE NÃO PODE SER FEITA NA VIA ELEITA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A jurisprudência desta Corte é no sentido de que o trancamento do inquérito policial e da ação penal é inviável na via do habeas corpus, visto demandar revolvimento de fatos e provas, principalmente quando as instâncias ordinárias, com suporte no conjunto fático-probatório dos autos, indicam lastro probatório mínimo de autoria e materialidade. 2. No caso, o Tribunal de origem destacou no acórdão impugnado a existência de justa causa para a ação penal, pois a denúncia descreveu claramente as condutas imputadas ao acusado, revelando lastro probatório mínimo e suficiente acerca dos indícios de autoria e materialidade para autorizar a deflagração do processo penal, o que impede o acolhimento do pleito de trancamento do processo-crime. 3. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 888.873/MG, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo - Desembargador convocado do TJSP, Sexta Turma, julgado em 19/8/2024, DJe de 23/8/2024.) AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EM HABEAS CORPUS. SONEGAÇÃO FISCAL E LAVAGEM DE DINHEIRO. INQUÉRITO POLICIAL. BIS IN IDEM. NÃO OCORRÊNCIA. TRANCAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1. De acordo com o entendimento desta Corte, não há óbice a que o Ministério Público, reunidos elementos suficientes para tanto, ofereça a denúncia contra um acusado e prossiga na apuração do envolvimento de terceiros para, depois, eventualmente, aditar a peça acusatória ou apresentar nova denúncia contra essas pessoas, o que, em casos complexos, pode contribuir com a razoável duração do processo. 2. Ademais, segundo a jurisprudência consolidada do STJ, "somente é cabível o trancamento da persecução penal por meio do habeas corpus quando houver comprovação, de plano, da ausência de justa causa, seja em razão da atipicidade da conduta praticada pelo acusado, seja pela ausência de indícios de autoria e materialidade delitiva, ou, ainda, pela incidência de causa de extinção da punibilidade" (AgRg no RHC n. 157.728/PR, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª T., DJe 15/2/2022). 3. No caso, conforme destacou o Tribunal de origem, "a prova pré-constituída que acompanha esta impetração demonstra que a denúncia oferecida nos autos n. 0007380-72.2015.4.03.6000 abarcou apenas as condutas em tese praticadas pelo paciente no comando de grupo econômico composto por empresas do mesmo ramo de atividade, instaladas na mesma planta frigorífica no município de Terenos/MS", ao passo que, o "IPL nº 2019.0011162 se destina a colher elementos probatórios em face de outras pessoas supostamente envolvidas nos delitos de sonegação fiscal". 4. Assim, não há falar em bis in idem na instauração do segundo inquérito, uma vez que, embora os fatos nele investigados sejam relacionados aos que se apuravam no IP n. 217/2013, a denúncia oferecida se limitou às condutas praticadas pelo recorrente, enquanto o novo inquérito teve por objetivo prosseguir na apuração do envolvimento de terceiros, sobretudo os familiares dele, na empreitada criminosa. 5. Agravo regimental não provido. (AgRg no RHC n. 151.885/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 1º/7/2024, DJe de 3/7/2024.) Quanto à alegação de excesso de prazo para a conclusão do inquérito policial que teria se iniciado em 2018, a decisão agravada consignou que os agravantes estão soltos e que o prazo para a conclusão do inquérito é impróprio, sendo possível a prorrogação, a depender da complexidade dos fatos apurados e das circunstâncias do caso concreto. Nesse sentido: PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. EXCESSO DE PRAZO NO INQUÉRITO POLICIAL. EXISTÊNCIA. COMPLEXIDADE DAS INVESTIGAÇÕES QUE LEGITIMAM A CONTINUIDADE DAS PRORROGAÇÕES. PRAZO DE CONCLUSÃO QUE SE MOSTRA IMPRÓPRIO. OBSERVÂNCIA AO PRINCÍOIO DA RAZOABILIDADE; FIXAÇÃO DE PRAZO PARA A CONCLUSÃO. POSSIBILIDADE. AGRAVO PARCIALMENTE PROVIDO. I - Nos termos da jurisprudência consolidada nesta Corte, cumpre ao agravante impugnar especificamente os fundamentos estabelecidos na decisão agravada. II - Cediço que, conforme a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, o prazo do inquérito, quando envolver investigado solto, é impróprio e, portanto, a depender da complexidade do caso, pode ser prorrogado, de acordo com um juízo da razoabilidade, o que se verifica no presente caso, em que há uma grande quantidade de agentes e delitos, tais como arts. 4º, 8º e/ou 11, todos da Lei n. 7492/1986, art. 288, art. 317 e art. 333, todos do CP, arts. 90 e 91, ambos da Lei nº 8666/93 e, ainda, art. 1º da Lei nº 9613/19 98, tudo na forma do art. 69 do CP. sendo investigados mediante diligências investigativas complexas. Precedentes. III - Não obstante, em que pese a grande complexidade da investigação, não se mostra compatível com o princípio da razoabilidade a continuidade por período indeterminado de investigação, sendo possível a fixação de prazo para que o inquérito policial seja concluído, conforme iterativa jurisprudência deste Sodalício. Precedentes, Agravo regimental parcialmente provido, para determinar que o inquérito policial n. 0000052-42.2015.405.8100 seja concluído no prazo de até 90 (noventa) dias corridos a partir da comunicação desta decisão ao Tribunal a quo. (AgRg no RHC n. 169.438/CE, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 14/2/2023, DJe de 22/2/2023.) No caso concreto, trata-se de investigação complexa, que envolve vários episódios criminosos e participação de diversas pessoas. A investigação foi iniciada no primeiro grau da Justiça Federal da 4ª Região, na Subseção de Novo Hamburgo/RS, tendo sido posteriormente remetida ao Tribunal regional em razão da existência de indícios de participação de autoridade detentora de prerrogativa de foro. Após, em duas ocasiões distintas, foi requerida a remessa dos autos para a Justiça eleitoral sob a alegação de sua competência para a apreciação da causa, o que impõe, necessariamente, dificuldades para a conclusão do inquérito policial, e distingue o caso dos autos dos precedentes apresentados pelos agravantes, nos quais o excesso de prazo foi reconhecido. Dessa forma, não se verifica a ocorrência de desídia ou de mora estatal no exercício da atividade persecutória, razão pela qual não há falar em ilegalidade por excesso de prazo. Nesse sentido: DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. TRANCAMENTO DE INQUÉRITO POLICIAL. AUSÊNCIA DE FLAGRANTE ILEGALIDADE. AGRAVO NÃO PROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto contra decisão que negou provimento ao recurso ordinário em habeas corpus, visando ao trancamento de inquérito policial por falta de provas da autoria e/ou por excesso de prazo. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão consiste em saber se há justa causa para a continuidade do inquérito policial, considerando a existência de indícios de autoria e materialidade delitiva, e se há excesso de prazo na investigação que justifique o trancamento do inquérito. III. Razões de decidir 3. A existência de indícios mínimos de autoria e materialidade delitiva sustenta a continuidade da persecução penal, não havendo flagrante ilegalidade que justifique o trancamento do inquérito. 4. A complexidade do caso justifica a delonga na conclusão do inquérito policial, não caracterizando excesso de prazo injustificado. 5. A análise de mérito e valoração de provas é incabível em sede de habeas corpus. 6. A jurisprudência da Corte Superior estabelece que a aferição do excesso de prazo deve observar a garantia da duração razoável do processo, não se realizando de forma puramente matemática, mas sim por um juízo de razoabilidade. IV. Dispositivo e tese 7. Agravo não provido. Tese de julgamento: "1. A complexidade do caso pode justificar a delonga na conclusão do inquérito policial, não caracterizando excesso de prazo injustificado. 2. A análise de mérito e valoração de provas é incabível em sede de habeas corpus". Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 5º, LXXVIII; Código Penal, art. 121.Jurisprudência relevante citada: STJ, HC n. 541.104/SP, Sexta Turma, Rel. Min. Antônio Saldanha Palheiro, DJe de 27/2/2020; STJ, AgRg no HC n. 810.052/SP, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe de 30/8/2023; STJ, AgRg no HC n. 817.562/RS, Quinta Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 30/6/2023. (AgRg no RHC n. 213.628/RJ, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 30/4/2025, DJEN de 13/5/2025.) DIREITO PROCESSUAL PENAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. EXCESSO DE PRAZO EM INQUÉRITO POLICIAL. COMPLEXIDADE DO CASO. RECURSO DESPROVIDO. I. Caso em exame 1. Recurso ordinário interposto contra acórdão do Tribunal de Justiça de Roraima, que negou pedido de trancamento de inquérito policial por suposto excesso de prazo na conclusão das investigações. 2. Fato relevante. O inquérito investiga crimes de estelionato contra idoso, associação criminosa e apropriação indébita, envolvendo dois investigados. Foram necessárias diversas diligências, como busca e apreensão de bens, quebra de sigilo fiscal e bancário, e análise de dados em HDs e aparelhos telefônicos. 3. As decisões anteriores. O Tribunal de origem considerou justificável o atraso nas investigações devido à complexidade do caso e à necessidade de medidas para elucidar os fatos, não configurando constrangimento ilegal. II. Questão em discussão 4. A questão em discussão consiste em saber se o prolongamento do prazo para a conclusão do inquérito policial, em razão da complexidade do caso e das diligências necessárias, configura constrangimento ilegal. III. Razões de decidir 5. A jurisprudência estabelece que os prazos para a conclusão do inquérito policial são impróprios e devem ser avaliados conforme a complexidade do caso e o volume de diligências necessárias. 6. O prolongamento das investigações é inerente à dinâmica de casos complexos, não configurando constrangimento ilegal quando não há inércia injustificada ou atuação abusiva das autoridades. 7. Os recorrentes estão em liberdade, sem medidas que comprometam o direito de ir e vir de ambos, não havendo constrangimento ilegal a ser reparado. IV. Dispositivo e tese 8. Recurso desprovido. Tese de julgamento: "1. Os prazos para a conclusão do inquérito policial são impróprios e devem ser avaliados conforme a complexidade do caso. 2. O prolongamento das investigações não configura constrangimento ilegal quando não há inércia injustificada ou atuação abusiva das autoridades". Dispositivos relevantes citados: Não há dispositivos legais específicos citados. Jurisprudência relevante citada: STJ, AgRg no RHC 193.353/PR, Min. Og Fernandes, Sexta Turma, julgado em 13/11/2024, DJe 18/11/2024 ; STJ, AgRg no HC 937.237/GO, Min. Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 4/11/2024, DJe 6/11/2024. (RHC n. 203.054/RR, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 6/5/2025, DJEN de 9/5/2025.) Ademais, extrai-se das informações prestadas pela autoridade coatora que o Relatório Final da investigação já foi apresentado. Confiram-se os seguintes excertos (fls. 846-848): Em 11 de setembro de 2024, evento 568, REL_FINAL_IPL1, a autoridade policial encartou aos autos do IPL o Relatório Final da investigação, promovendo o indiciamento de 12 (doze) investigados pela prática, em tese, de condutas que se amoldariam aos tipos penais de falsidade ideológica, peculato apropriação, corrupção passiva, corrupção ativa, organização criminosa e lavagem de dinheiro. .. Em 22 de outubro, processo 5017993-55.2019.4.04.0000/TRF4, evento 604, DESPADEC1, proferi despacho determinando a autuação em apartado do pedido sigiloso da PF e mantido o sigilo na peça do IPL até que a diligência seja realizada, na forma do Súmula Vinculante n. 14, nos seguintes termos: Nas petições evento 571, PET1 e evento 592, PET1, a defesa de JOSE ERI OSORIO DE MEDEIROS requereu acesso imediato à integralidade dos documentos acostados pela autoridade policial no evento 568. Nas petições evento 406, PET1 e evento 581, PET1, reiteradas pela petição evento 592, PET1 , a defesa de JOSE ERI OSORIO DE MEDEIROS pleiteou a inclusão em pauta, com urgência, do julgamento do pedido de trancamento do Inquérito Policial por excesso de prazo. A Lei n. 8.906/1994, o Estatuto da Advocacia, dispõe no seu art. 7º, inciso XIV e § 11, conforme modificações operadas pela Lei n. 13.245/2016, que é direito de advogados e advogadas examinar, em qualquer instituição responsável por conduzir investigação, mesmo sem procuração, autos de flagrante e de investigações de qualquer natureza, findos ou em andamento, ainda que conclusos à autoridade, podendo copiar peças e tomar apontamentos, em meio físico ou digital. Nesse caso, a autoridade competente poderá delimitar o acesso do advogado aos elementos de prova relacionados a diligências em andamento e ainda não documentados nos autos, quando houver risco de comprometimento da eficiência, da eficácia ou da finalidade das diligências. Por meio da Súmula Vinculante n. 14, no ano de 2009, o Supremo Tribunal Federal já assentara que é direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa. Conforme o leading case que deu origem à referida súmula vinculante, deve ser garantida a prerrogativa profissional mediante amplo acesso às provas produzidas, sem prejuízo de que seja resguardada, pela autoridade responsável, a eficácia das investigações em curso ou por fazer, nos termos da ementa: ADVOGADO. Investigação sigilosa do Ministério Público Federal. Sigilo inoponível ao patrono do suspeito ou investigado. Intervenção nos autos. Elementos documentados. Acesso amplo. Assistência técnica ao cliente ou constituinte. Prerrogativa profissional garantida. Resguardo da eficácia das investigações em curso ou por fazer. Desnecessidade de constarem dos autos do procedimento investigatório. HC concedido. Inteligência do art. 5º, LXIII, da CF, art. 20 do CPP, art. 7º, XIV, da Lei nº 8.906/94, art. 16 do CPPM, e art. 26 da Lei nº 6.368/76 Precedentes. É direito do advogado, suscetível de ser garantido por habeas corpus, o de, em tutela ou no interesse do cliente envolvido nas investigações, ter acesso amplo aos elementos que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária ou por órgão do Ministério Público, digam respeito ao constituinte.(HC 88190, Relator(a): CEZAR PELUSO, Segunda Turma, julgado em 29-08-2006, DJ 06-10-2006 PP-00067 EMENT VOL-02250-03 PP-00643 RTJ VOL-00201-03 PP- 01078 LEXSTF v. 28, n. 336, 2006, p. 444-455) No caso, o Delegado de Polícia Federal juntou relatório da investigação, no evento 568, contendo justificativas pela extensão de tempo de duração do procedimento investigatório e representações finais para apreciação judicial. As medidas requeridas necessitam de sigilo para sua eficácia, motivo pelo qual o documento foi juntado com nível de sigilo mais elevado do que a permissão de acesso no momento disponível às defesas. Constata-se que o documento contém diligências ainda não realizadas e documentadas, de forma que a falta de acesso momentânea não configura cerceamento de defesa ou violação às prerrogativas da advocacia, tudo de acordo com o entendimento firmado no precedente aludido. Tal representação policial será apreciada em procedimento apartado, a ser autuado pela Secretaria do Tribunal; após deliberação e, caso deferida, após conclusão da diligência, o relatório do evento 568 deverá ter seu sigilo reduzido para acesso às defesas das pessoas investigadas. Considerando que as investigações estão praticamente finalizadas pela autoridade policial e que o referido relatório apresenta as justificativas para a duração do procedimento investigatório, a alegação de excesso de prazo poderá ser apreciada tão logo a representação policial seja analisada e o relatório da autoridade policial tenha seu nível de sigilo reduzido. Intimem-se. À Secretaria para autuar em apartado o documento REL_FINAL_IPL1. Após, voltem conclusos. Nesta data, evento 643, PET1, a Autoridade Policial junta aos autos nova cópia do relatório final do ev. 568, e o Parecer do Ministério Público de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Ou seja, conforme consignado pela origem, o inquérito já foi concluído, o que afasta eventual alegação de constrangimento por excesso de prazo. Ademais, a alegação de que, apesar da apresentação do relatório final, a autoridade policial continuaria a investigar os agravantes sobre o mesmo fato demanda amplo revolvimento de matéria fático-probatória, o que não se compatibiliza com a estreita via cognitiva do habeas corpus. No ponto: RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. ESTELIONATO E FALSIDADE IDEOLÓGICA. PLEITO DE TRANCAMENTO DO INQUÉRITO POLICIAL. IMPOSSIBILIDADE. ACÓRDÃO IMPUGNADO QUE NÃO ANALISOU O MÉRITO DO WRIT ORIGINÁRIO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. INVESTIGAÇÃO EM ANDAMENTO. PROCEDIMENTO APENSADO A OUTRO INQUÉRITO ANTERIOR QUE INVESTIGA OS MESMOS DELITOS (MAS EM MAIOR NÚMERO) ENVOLVENDO A RECORRENTE E OUTROS POSSÍVEIS COAUTORES. DECADÊNCIA E ILEGITIMIDADE DA PARTE AFASTADAS PELO JUÍZO DE PRIMEIRO GRAU. REVISÃO DAS CONCLUSÕES. REEXAME DE PROVAS. PROVIDÊNCIA INCOMPATÍVEL COM A VIA ELEITA. INEVIDÊNCIA DE ILEGALIDADE. PARECER MINISTERIAL ACOLHIDO. 1. No caso, o acórdão ora impugnado não analisou as questões lá suscitadas por demandarem exame probatório e envolverem a análise do mérito de provável ação penal, tratando-se, portanto, de supressão de instância. 2. O entendimento jurisprudencial desta Corte é no sentido de que o trancamento de ação penal ou do inquérito policial por meio de habeas corpus é medida excepcional, cabível apenas quando evidente, sem a necessidade de análise fático-probatória, a atipicidade da conduta, a ausência de indícios de autoria ou materialidade, ou a ocorrência de causa extintiva da punibilidade. 3. Das informações prestadas pelo Juízo primevo (fls. 567/569), consta que a médica que teve a sua assinatura falsificada nos recibos utilizados para pleitear reembolso perante a operadora Amil e a própria empresa Amil representaram criminalmente, o que afasta as alegações de decadência do direito de representação e de ilegitimidade da parte. 4. A investigação encontra-se em pleno andamento e o inquérito policial em questão, com a anuência do MP estadual, foi anexado a outro inquérito anterior, no qual há maior número de infrações sendo apuradas, pois são investigados os recibos que teriam sido firmados falsamente em nome de outros médicos e profissionais de saúde, com a finalidade de obtenção de reembolso em face da empresa Amil, bem como é verificada a existência de outros eventuais coautores, o que torna precipitada qualquer intervenção no sentido de trancar o procedimento, administrativo, inquisitório e preparatório, que visa esclarecer aspectos referentes à autoria e materialidade de possíveis infrações penais. 5. Não há constrangimento ilegal a ser reparado, pois o Juízo singular afastou as ilegalidades apo ntadas, a decadência e a ilegitimidade da parte , e ressaltou que, no momento, o Ministério Público ainda está formando a sua opinio delicti, não havendo sequer delimitado a tipificação delitiva. Para revisar tais conclusões seria imprescindível o revolvimento probatório dos autos, providência incompatível com a via eleita. 6. Recurso improvido. (RHC n. 196.937/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 14/5/2025, DJEN de 21/5/2025.) Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental, com recomendação de celeridade no trâmite do Processo n. 5017993-55.2019.4.04.0000/RS . É como voto.