HC 951479 - DECISAO
Não havendo elementos concretos que comprovem a participação ou qualquer ato material praticado pelo paciente, não se pode imputar-lhe falta disciplinar por ato de terceiro; aplica-se o princípio da intranscendência penal, motivo pelo qual, embora a impetração não seja conhecida, a ordem é concedida de ofício para...
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- Parties
- Paciente: PATRICK DE TOLEDO APARECIDO DA CRUZ; Órgão Julgador: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 16 October 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Decisão Monocrática Concessiva
- Outcome
- Não conheço da impetração. Contudo, concedo a ordem, de ofício, para afastar a falta disciplinar imputada ao paciente.
- Legal Topics
- Falta Disciplinar De Natureza Grave, Autoria Mediata, Princípio Da Intranscendência Penal, Responsabilidade Objetiva, Admissibilidade Do Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio
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Parties
PATRICK DE TOLEDO APARECIDO DA CRUZ
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Órgão Julgador
Procedural Posture
Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Decisão Monocrática Concessiva
Legal Issues
- 1 Pode-se imputar falta grave ao apenado por ato praticado por terceiro sem prova de sua participação?
- 2 É admissível habeas corpus substitutivo de recurso próprio nesta hipótese?
- 3 Aplicação do princípio da intranscendência penal na execução penal
Ratio Decidendi
Não havendo elementos concretos que comprovem a participação ou qualquer ato material praticado pelo paciente, não se pode imputar-lhe falta disciplinar por ato de terceiro; aplica-se o princípio da intranscendência penal, motivo pelo qual, embora a impetração não seja conhecida, a ordem é concedida de ofício para afastar a falta disciplinar imputada.
Court Disposition
Não conheço da impetração. Contudo, concedo a ordem, de ofício, para afastar a falta disciplinar imputada ao paciente.
Orders
- Não conheço da impetração.
- Concedo a ordem, de ofício, para afastar a falta disciplinar imputada ao paciente.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, impetrado em benefício de PATRICK DE TOLEDO APARECIDO DA CRUZ, contra acórdão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO proferido no julgamento do Agravo em Execução n. 0007214-95.2022.8.26.0996. Consta dos autos que o Juízo da Execução reconheceu a falta grave praticada pelo paciente, em virtude da irmã do paciente tentar entrar no presídio com 35 gramas de maconha. O agravo da defesa foi desprovido, nos termos de aresto assim ementado: "AGRAVO EM EXECUÇÃO PENAL - FALTA DISCIPLINAR DE NATUREZA GRAVE - Configuração - Infração disciplinar devidamente comprovada - Irmã do reeducando, devidamente cadastrada como visitante, que trazia drogas para o interior do estabelecimento prisional - Detecção via scanner corporal - Palavra dos agentes penitenciários - Credibilidade - Precedentes - Infração disciplinar devidamente comprovada - Inviável a absolvição ou, ainda, a desclassificação da conduta - Decisão de anotação judicial acertada e mantida - Perda de dias remidos e interrupção da contagem do prazo para a concessão de progressão de regime - Adequadas à espécie - AGRAVO NÃO PROVIDO." (fl. 12). No presente writ, a defesa aduz que o paciente sofre constrangimento ilegal em sua liberdade de locomoção, visto que está sendo punido por conduta de terceiro, sem nenhuma prova de sua participação. Requer o afastamento da falta grave do histórico prisional do paciente, juntamente com a revogação das punições decorrentes da medida disciplinar. O Ministério Público Federal opinou pela não conhecimento do mandamus, em parecer de fls. 114/117. É o relatório. Decido. Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração sequer deveria ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal e do próprio Superior Tribunal de Justiça. Contudo, considerando as alegações expostas na inicial, razoável verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. O Tribunal de origem reconheceu a prática da falta grave pelo apenado, sob os seguintes fundamentos: "No que concerne ao pleito de exculpação por atipicidade em decorrência de fato perpetrado por terceiro, a visitante Iriani, flagrada tentando ingressar com narcóticos intramuros, era cadastrada, na Unidade Prisional, como irmã do sentenciado (fls. 26). Desse modo, dúvida não há que, por ordem do agravante, sua irmã tencionou ingressar com entorpecentes na ocasião da visitação. Trata-se, pois, de autoria mediata a qual, segundo conceito atribuído a Stübel (1828), ocorre nas hipóteses em que o autor domina a vontade alheia e, desse modo, se serve de outra pessoa que atua como instrumento. Não é minimamente crível que a irmã, sponte propria, ingressasse com drogas sem o prévio conhecimento do agravante. Demais disso, ainda que não tenhas os narcóticos chegado às mãos do reeducando por circunstâncias alheias à sua vontade, determina o artigo 49, parágrafo único, da Lei de Execução Penal que "Pune-se a tentativa com a sanção correspondente à falta consumada". Destarte, no presente caso, a conduta do sentenciado constitui falta disciplinar de natureza grave, conforme descrição do artigo 52 da Lei de Execução Penal c/c. o artigo 33, caput, da Lei nº 11.343/06 (vide laudo de exame químico toxicológico de fls. 32/34). Não há se cogitar, pois, em absolvição ou, ainda, eventual desclassificação da conduta." (fls. 18/19). Embora possam existir suspeitas de que o paciente tenha solicitado à sua irmã que lhe entregasse drogas no presídio, da atenta leitura dos autos não se verifica qualquer referência a elementos de provas que permitam tal conclusão, sobretudo porque o paciente sequer chegou a ter a posse dos entorpecentes. Assim, sendo vedada a aplicação de sanção com base em responsabilidade objetiva, não há fundamentação idônea que permita o reconhecimento da falta grave pelo paciente. Nesse sentido, confiram-se os seguintes julgados: PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. CONCESSÃO DA ORDEM SEM OPORTUNIDADE DE MANIFESTAÇÃO PRÉVIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. INOCORRÊNCIA DE NULIDADE PROCESSUAL. HOMENAGEM AO PRINCÍPIO DA CELERIDADE E À GARANTIA DA EFETIVIDADE DAS DECISÕES JUDICIAIS. FALTA DISCIPLINAR DE NATUREZA GRAVE IMPUTADA AO REEDUCANDO POR ATO DE TERCEIRO. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INTRANSCENDÊNCIA PENAL. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE QUE O PACIENTE TERIA CONCORRIDO PARA A CONDUTA. ORDEM CONCEDIDA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Malgrado seja necessário, em regra, abrir prazo para a manifestação do Parquet antes do julgamento do writ, as disposições estabelecidas no art. 64, III, e 202, do Regimento Interno desta Corte, e no art. 1º do Decreto-lei n. 522/1969, não afastam do relator o poder de decidir monocraticamente o habeas corpus. 2. "O dispositivo regimental que prevê abertura de vista ao Ministério Público Federal antes do julgamento de mérito do habeas corpus impetrado nesta Corte (arts. 64, III, e 202, RISTJ) não retira do relator do feito a faculdade de decidir liminarmente a pretensão que se conforma com súmula ou jurisprudência dominante no Superior Tribunal de Justiça ou a confronta" (AgRg no HC 530.261/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 24/9/2019, DJe 7/10/2019). 3. Para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica. Precedentes. 4. Com efeito, a jurisprudência deste Tribunal Superior firmou-se no sentido de que, em razão do princípio da intranscendência penal, a imposição de falta grave ao executado, por transgressão realizada por terceiro, deve ser afastada quando não comprovada sua autoria, através de elementos concretos. 5. In casu, à míngua de elementos concretos, não ficou provada a prática de nenhum ato material pelo paciente. O fato de ser sua companheira a portadora dos componentes de celular e a simples suspeita de que ele teria sido o solicitante de tais peças não são suficientes para afirmar a prática da falta grave. É de se considerar, ainda, que os objetos sequer adentraram a unidade prisional e não estiveram na posse do reeducando. 6. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 752.202/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 6/9/2022, DJe de 13/9/2022.) AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. CONHECIMENTO. FLAGRANTE ILEGALIDADE VERIFICADA DE PLANO SEM A NECESSIDADE DE REEXAME DE FATOS E PROVAS. EXECUÇÃO PENAL. FALTA GRAVE RECONHECIDA PELO TRIBUNAL A QUO. AUSÊNCIA DE ELEMENTOS CONCRETOS DE PARTICIPAÇÃO DO REEDUCANDO NO FATO ILÍCITO. ATO DE TERCEIRO. PRINCÍPIO DA INTRANSCENDÊNCIA PENAL. PRECEDENTES DESTA CORTE SUPERIOR. CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 808.705/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 22/5/2023, DJe de 26/5/2023.) EXECUÇÃO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. ENVIO, VIA SEDEX, DE UM APARELHO CELULAR ACONDICIONADO EM UMA BARRA DE SABONETE. REVISTA PRÉVIA NO ESTABELECIMENTO PRISIONAL. DESCOBERTA. NÃO COMPROVAÇÃO DE ATO MATERIAL DO REEDUCANDO. FALTA DISCIPLINAR. INOCORRÊNCIA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. O Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato ilegal for passível de impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. Esse entendimento objetivou preservar a utilidade e a eficácia do mandamus, que é o instrumento constitucional mais importante de proteção à liberdade individual do cidadão ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a celeridade que o seu julgamento requer. 2. Esta Corte Superior de Justiça firmou entendimento no sentido de que, em decorrência do princípio da intranscendência penal, a imposição de falta grave ao executado, por transgressão realizada por terceiro, deve ser afastada quando não comprovada a autoria do reeducando, através de elementos concretos. O mencionado princípio é explicado como a vedação de se pretender a aplicação da sanção penal a quem não seja o autor do fato, corolário impositivo do princípio constitucional da personalidade da pena, insculpido no art. 5º, inciso XLV, da Carta Magna. 3. In casu, não há como concluir que o paciente praticou falta grave. Com efeito, depreende-se dos autos que o apenado sequer manteve contato com o material que supostamente lhe fora destinado mediante SEDEX, porquanto o objeto proibido (aparelho celular), acondicionados no interior de um sabonete, não ingressou na unidade prisional, em virtude do diligente trabalho dos agentes penitenciários. 4. Ademais, não ficou comprovada a prática de nenhum ato material pelo paciente, não podendo, assim, a suposta conduta ilícita ser imputada ao reeducando. 5. Habeas corpus não conhecido. No entanto, ordem concedida de ofício para cassar o acórdão proferido pela Corte de origem, e, em consequência, absolver o paciente do cometimento da falta grave que lhe fora imputada. (HC 651.712/MG, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, DJe 29/03/2021.) De rigor, portanto, o reconhecimento do constrangimento ilegal. Ante o exposto, com fundamento no art. 34, XX, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheço da impetração. Contudo, concedo a ordem, de ofício, para afastar a falta disciplinar imputada ao paciente. Publique-se. Intimem-se. EMENTA