AREsp 1890758 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e negou-se provimento ao recurso especial, por entender que o acórdão recorrido está em consonância com o entendimento do STJ e do STF no sentido de que os entes federativos respondem solidariamente pelas demandas prestacionais de saúde, podendo o paciente optar contra qualquer ente federado,...
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- Parties
- Autor: L. H. da S. F.; Representante: C. C. da S. F.; Réu: Município de Muriaé/MG
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 November 2021
- Procedural Posture
- Ação Cominatória / Agravo Contra Não Admissão De Recurso Especial; Agravo Conhecido E Negado Provimento, Recurso Especial Não Provido
- Legal Topics
- Fornecimento De Tratamento Médico, Responsabilidade Solidária Dos Entes Federativos, Legitimidade Passiva, Tutela De Urgência, Obrigação De Fazer, Multas Cominatórias
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Parties
L. H. da S. F.
Autor
C. C. da S. F.
Representante
Município de Muriaé/MG
Réu
Procedural Posture
Ação Cominatória / Agravo Contra Não Admissão De Recurso Especial; Agravo Conhecido E Negado Provimento, Recurso Especial Não Provido
Legal Issues
- 1 violação do art. 485, IV, CPC/2015 alegada pelo Município
- 2 aplicabilidade dos arts. 7º, IX e XIII, 8º, 9º, 16, 17 e 18 da Lei n. 8.080/1990
- 3 responsabilidade solidária entre União, Estados e Municípios nas ações de fornecimento de tratamento de saúde
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e negou-se provimento ao recurso especial, por entender que o acórdão recorrido está em consonância com o entendimento do STJ e do STF no sentido de que os entes federativos respondem solidariamente pelas demandas prestacionais de saúde, podendo o paciente optar contra qualquer ente federado, salvo nas hipóteses de medicamentos sem registro na ANVISA, caso em que a ação deve incluir a União.
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DECISÃO L. H. da S. F., menor impúbere, representado por sua genitora C. C. da S. F., ajuizou ação cominatória, com pedido liminar de tutela de urgência, contra o Município de Muriaé/MGobjetivando seja o ente federado réu compelido a lhe custear, em caráter de urgência, o procedimento cirúrgico denominado "implante de anel intraestromal no olho direito", tendo em vista ser portador de Ceratocone (CID H 18.6), apresentando evolução acelerada da patologia, não possuindo condições financeiras próprias de arcar com o custo da intervenção cirúrgica. Na primeira instânciaa ação foi julgada procedente (fls. 73-76). O Tribunal de Justiça Estadual, em reexame necessário, manteve inalterada a decisão monocrática, julgando prejudicado o recurso de apelação da municipalidade, nos termos da seguinte ementa (fl. 122): APELAÇÃO CÍVEL. REEXAME NECESSÁRIO. DIREITO CONSTITUCIONAL. DIREITO À SAÚDE. PRELIMINAR DE ILEGITIMIDADE PASSIVA REJEITADA. IMPRESCINDIBILIDADE DO TRATAMENTO CIRURGICO PRESCRITO. SUFICIENTE EVIDÊNCIA TÉCNICA. LEGÍTIMA INTERVENÇÃO DO JUDICIÁRIO. OBRIGAÇÃO DO MUNICÍPIO. AMPARO LEGAL. MULTA. APLICABILIDADE. - No que tange à promoção do direito à saúde, a União, os Estados e os Municípios são solidariamente responsáveis pela disponibilização do tratamento médico adequado ao paciente, incluindo a sua internação, os procedimentos cirúrgicos e o fornecimento de medicamentos. - O direito a receber atendimento digno e adequado de saúde é direito social, cabendo ao ente público assegurar o efetivo tratamento médico ao cidadão, nos termos dos arts. 6º, 23 inciso II e 196, todos da Constituição Federal. - Demonstrada a enfermidade, bem como a imprescindibilidade do tratamento prescrito, não há como desobrigar o ente público do seu dever constitucional de fornecê-lo e custeá-lo. - E cabível a aplicação de multa pecuniária, em desfavor da Fazenda Pública, com o intuito de compeli-la ao cumprimento de obrigação de fazer judicialmente estabelecida, podendo o seu valor ser revisto a qualquer tempo, para adequação aos parâmetros da proporcionalidade e da razoabilidade. Opostos embargos de declaração, foram eles rejeitados (fls. 173-179). Município de Muriaé/MG interpôs recurso especial, fundamentado no artigo 105, inciso III, alínea a, da Constituição da República, no qual aponta a violação do art. 485, IV, do CPC de 2015, e dos arts. 7º, IX e XIII, 8º, 9º, 16, 17 e 18 da Lei n. 8.080 de 1990, porquanto, em apertada síntese, da ilegitimidade da municipalidade recorrente para figurar no polo passivo da lide, uma vez que, tratando-se a hipótese dos autos de fornecimento de tratamento de alta complexidade não previsto nas diretrizes do Sistema Único de Saúde - SUS, o pleito deveria ter sido dirigido ao Estado de Minas Gerais, autêntico responsável pela prestação e gestão de tratamentos excepcionais à saúde. Acrescenta que os medicamentos, tratamentos, procedimentos e exames não incluídos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais - RENAME, cuja incorporação ao SUS não houve pronunciamento da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS - CONITEC, assim como os excepcionais previstos no Componente Especializado de Atenção Farmacêutica - CEAF, não seriam passíveis de atendimento em nível primário, senão aos Estados Membros e à União, sob pena de onerar indevidamente o gestor municipal. Esclarece, por fim, da indisponibilidade financeira o Município de Muriaé/RJ para arcar com o tratamento pleiteado pelo recorrido, ante a ausência de repasses de recursos do percentual obrigatório ao Fundo Estadual de Saúde, perpetrado pelo Estado de Minas Gerais. Ofertadas contrarrazões às fls. 214-221, o recurso especial não foi admitido pelo Tribunal a quo (fls. 223-238), tendo sido interposto o presente agravo. É o relatório. Decido. Considerando que a municipalidade agravante impugnou a fundamentação apresentada na decisão agravada, e atendidos os demais pressupostos de admissibilidade do agravo, passo ao exame do recurso especial. A respeito da alegação de violação do art. 485, IV, do CPC/2015, e dos arts. 7º, IX e XIII, 8º, 9º, 16, 17 e 18 da Lei n. 8.080/1990, sem razão a municipalidade recorrente a esse respeito, encontrando-se o aresto recorrido em consonância com entendimento firmado nesta Corte Superior e no Supremo Tribunal Federal, no sentido de que os entes da federação, em decorrência da competência comum, são solidariamente responsáveis nas demandas prestacionais na área de saúde, podendo o jurisdicionado optar pela unidade federativa contra quem vai direcionar sua demanda, ainda que o medicamento/tratamento não esteja disponibilizado pelo Sistema Unificado de Saúde, à exceção daqueles ainda não registrados na ANVISA. A esse respeito, os seguintes julgados: CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. DIREITO ADMINISTRATIVO. AÇÃO COMINATÓRIA. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTOS REGISTRADOS NA ANVISA. AUSÊNCIA DE PREVISÃO NAS LISTAGENS OFICIAIS DO SUS/RENAME. SOLIDARIEDADE PASSIVA FACULTATIVA DOS ENTES FEDERADOS. OBRIGATORIEDADE DE AJUIZAMENTO DA AÇÃO EM FACE DA UNIÃO APENAS QUANDO INEXISTIR REGISTRO DO medicamento na AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. AÇÃO ORIGINÁRIA AJUIZADA APENAS CONTRA OS ENTES ESTADUAL E MUNICIPAL, AFASTADA A COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. SÚMULA N. 150/STJ. PRECEDENTE. COMPETÊNCIA DO JUÍZOESTADUAL. I - Trata-se de conflito negativo de competência instaurado entre o Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública, Acidentes do Trabalho e Registros de Jaraguá do Sul/SC e o Juízo Federal da 1ª Vara de Jaraguá do Sul - SJ/SC, nos autos da ação ajuizada por Shirley Aparecida da Costa contra o Estado de Santa Catarina e o Município de Jaraguá do Sul, com o objetivo de obter fornecimento dos medicamentos para tratamento de transtorno afetivo bipolar, não possuindo a autora os recursos financeiros para tanto. II - Distribuído o feito ao Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública, Acidentes do Trabalho e Registros de Jaraguá do Sul/SC, este declinou da competência em favor da Justiça Federal, por entender que, tratando-se de medicamento não constante na RENAME/SUS, seria de rigor a inclusão da União no polo passivo da ação. III - O Juízo Federal da 1ª Vara de Jaraguá do Sul - SJ/SC, afastando o entendimento supracitado, sob o fundamento de que apenas as ações que demandam fornecimento de medicamentos sem registro na ANVISA é que deverão ser propostas necessariamente em face da União, o que não ocorre in casu, determinou o retorno dos autos ao Juízo Estadual, o qual suscitou o presente conflito. IV - Analisando os autos, verifica-se que a ação originária, proposta apenas contra os entes estadual e municipal, objetiva o fornecimento de medicamentos registrados na ANVISA, mas não incorporados em atos normativos do SUS/RENAME. V - O entendimento exposto no julgamento do RE n. 657718/MG diz respeito, apenas, à medicamentos sem registro na ANVISA, para o qual a Corte Suprema estabelece a obrigatoriedade de ajuizamento da ação em face da União. VI - Tratando-se de responsabilidade solidária dos entes federados, conforme entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE n. 855178/SE, apreciado sob o regime de repercussão geral e vinculado ao Tema n. 793/STF, e não ajuizada a demanda em face da União, afastada a competência da Justiça Federal. VII - Ademais, o interesse jurídico da União foi explicitamente afastado pelo Juízo Federal, a quem compete decidir sobre o interesse do aludido ente no feito, nos termos da Súmula n. 150 desta Corte: "Compete à Justiça Federal decidir sobre a existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou empresas públicas." Precedente. VIII - Conflito conhecido para declarar a competência do Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública, Acidentes do Trabalho e Registros de Jaraguá do Sul/SC, o suscitante. (CC 173.415/SC, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 14/10/2020, DJe 20/10/2020). PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. APLICABILIDADE. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA ENTRE ENTES FEDERATIVOS. LEGITIMIDADE PARA COMPOR O PÓLO PASSIVO EM CONJUNTO OU ISOLADAMENTE. APLICAÇÃO DA SÚMULA N. 568/STJ. FORNECIMENTO DE FÁRMACO. IMPRESCINDIBILIDADE DA MEDICAÇÃO NÃO INCORPORADA AO SUS. REVISÃO. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A DECISÃO ATACADA. (..) II - É pacífico o entendimento no Superior Tribunal de Justiça segundo o qual o funcionamento do Sistema Único de Saúde é de responsabilidade solidária da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, sendo qualquer deles, em conjunto ou isoladamente, parte legítima para figurar no polo passivo de demanda que objetive a garantia de acesso a medicamentos adequado para tratamento de saúde. III - A decisão recorrida está de acordo com a jurisprudência desta Corte Superior, firme no sentido de que é possível o fornecimento de medicamentos não incorporados ao SUS mediante Protocolos Clínicos, quando verificada a necessidade do tratamento prescrito. IV - A Agravante não apresenta, no agravo, argumentos suficientes para desconstituir a decisão recorrida. V - Agravo Interno improvido (AgInt no REsp. 1.629.196/CE, Rel. Min. REGINA HELENA COSTA, DJe 29.3.2017). Desse modo, ainda que existam regras de repartição de competências no âmbito do SUS, no tocante ao fornecimento de medicamento/tratamento médico, pelo que competiria ao ente estadual o atendimento de demandas de alta complexidade, o reconhecimento da existência de solidariedade nas ações sanitárias, entre os entes federados, teve como objetivo afastar do cidadão (entenda-se o enfermo) o entrave de divisão administrativa de responsabilidades, o que não impede a quem suportou o ônus financeiro do custo do medicamento/tratamento venha a buscar, administrativamente, o ressarcimento junto ao legítimo responsável pelo atendimento da demanda. Ante o exposto, com fundamento no art. 253, parágrafo único, II, b, do RISTJ, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. Publique-se. Intimem-se.