REsp 2014049 - DECISAO
Incidiu o entendimento consolidado do STJ de que, para créditos tributários inscritos em dívida ativa após a vigência da LC 118/2005, a alienação posterior aos atos de inscrição configura presunção de fraude à execução nos termos do art.185 do CTN; assim, mantendo o acórdão do Tribunal a quo que reconheceu a fraude...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: FRIOMAQ REFRIGERAÇÃO LTDA; Exequente: FAZENDA NACIONAL; Executada: POLIFRIO DO NORDESTE LTDA.
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 05 August 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento De Recurso Especial
- Outcome
- recurso especial conhecido em parte e negado provimento
- Legal Topics
- Fraude À Execução, Execução Fiscal, Intimação Do Terceiro Adquirente, Inscrição Em Dívida Ativa, Súmula 7/stj, Art. 185 Do CTN
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
FRIOMAQ REFRIGERAÇÃO LTDA
Recorrente
FAZENDA NACIONAL
Exequente
POLIFRIO DO NORDESTE LTDA.
Executada
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento De Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Configuração de fraude à execução quando a alienação se dá após a inscrição em dívida ativa
- 2 Necessidade ou não de intimação prévia do terceiro adquirente nos termos do art. 792, §4º do CPC/2015 em execução fiscal
- 3 Incidência da Súmula 7 do STJ quanto à impossibilidade de reexame de matéria fático-probatória no recurso especial
Ratio Decidendi
Incidiu o entendimento consolidado do STJ de que, para créditos tributários inscritos em dívida ativa após a vigência da LC 118/2005, a alienação posterior aos atos de inscrição configura presunção de fraude à execução nos termos do art.185 do CTN; assim, mantendo o acórdão do Tribunal a quo que reconheceu a fraude com base na documentação preexistente, não cabe ao STJ reexaminar o conjunto fático-probatório em recurso especial por aplicação da Súmula 7, razão por que o recurso foi conhecido em parte e negado provimento.
Court Disposition
recurso especial conhecido em parte e negado provimento
Orders
- Conheço em parte do recurso especial e nego-lhe provimento.
- Sem condenação em honorários advocatícios recursais.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Em análise, recurso especial interposto por FRIOMAQ REFRIGERAÇÃO LTDA contra acórdão do TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5ª REGIÃO assim ementado: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO DE INSTRUMENTO. EXECUÇÃO FISCAL. ALIENAÇÃO DO IMÓVEL EFETUADA POSTERIORMENTE À INSCRIÇÃO DO DÉBITO EMDÍVIDA ATIVA. FRAUDE À EXECUÇÃO. ART. 185 DO CTN. CONFIGURAÇÃO. 1. Agravo por instrumento interposto por FRIOMAQ REFRIGERACAO LTDA, nos autos de execução fiscal, contra decisão que anulou a alienação do imóvel de propriedade da parte executada, realizada em seu favor, por considerar ter ocorrido fraude à execução. 2. Sustenta a agravante, em síntese, que: a) execução Fiscal é movida pela Fazenda Nacional contra a empresa POLIFRIO DO NORDESTE LTDA., inscrita no CNPJ nº 09.515.875/0001-09, para cobrança de débitos de contribuições previdenciárias de 2004 a 2010; b) em 23/01/2019, a Fazenda Nacional apresentou petição alegando ocorrência de suposta fraude à execução em razão da venda, pela Polifrio à sua pessoa, do imóvel de endereço na Rua Copacabana, nº 725, bairro de Boa Viagem, Município do Recife, CEP nº 52.030-590, ocorrida em 15/02/2018; c) o Juízo a quo , sem lhe oportunizar a chance de se defender da alegação de fraude à execução, em clara ofensa à disposição contida no art. 792, §4º, do CPC/15, proferiu decisão em que decretou a nulidade da alienação operada entre a empresa executada e a agravante, determinando a expedição de ofício ao 1º RGI para anotação na matrícula do imóvel, o que foi realizado em 27/09/2021; d) só foi intimada da decisão quando já havia sido realizada a anotação na matrícula do seu imóvel. Imóvel este, vale frisar, em que funciona sua sede; e) a intimação do terceiro adquirente deve ocorrer antes da declaração de fraude à execução, sob pena de atropelo ao procedimento estabelecido pelo CPC. 3. Deve-se observar, de início, o disposto na redação atual do art. 185 do CTN, uma vez que a alienação do imóvel ocorreu em data posterior à edição da LC 118/2005, que deu nova redação ao referido dispositivo legal, verbis: "Art. 185. Presume-se fraudulenta a alienação ou oneração de bens ou rendas, ou seu começo, por sujeito passivo em débito para com a Fazenda Pública, por crédito tributário regularmente inscrito como dívida ativa." 4. Por sua vez, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do R Esp 1.141.990/PR, submetido ao rito dos feitos repetitivos, consagrou a tese da inaplicabilidade do enunciado da Súmula 375 às execuções fiscais tributárias, segundo o qual o reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente, assentando, na mesma oportunidade, o entendimento de que: "a) a alienação engendrada até 8.6.2005 exige que tenha havido prévia citação no processo judicial para caracterizar a fraude de execução; se o ato translativo foi praticado a partir de 9.6.2005, data de início da vigência da Lei Complementar 118/2005, basta a efetivação da inscrição em dívida ativa para a configuração da figura da fraude". 5. No caso, de acordo com a escritura pública de compra e venda trazida aos autos (vide Id. 4050000.28600539), a aquisição do imóvel localizado na Rua Copacabana, nº 725, bairro de Boa Viagem, Recife, CEP 52.030-590, ocorreu em 2017, posteriormente, portanto, à inscrição do débito (R$ 2.876.470,46 - dois milhões, oitocentos e setenta e seis mil, quatrocentos e setenta reais e quarenta e seis centavos) em dívida ativa entre os anos de 2008 e 2011, situação fática que caracteriza a ocorrência da fraude à execução, nos termos do art. 185 do CTN. 6. Vê-se, ainda, in casu, ser desnecessária a citação prévia da executada para configurar fraude. 7. Esclareça-se que, para a declaração de fraude a execução ocorrida nas ações executivas fiscais não se exige a demonstração de boa ou má-fé do adquirente do bem para o seu reconhecimento, mas sim apenas a demonstração nos autos de que a inscrição em dívida ativa do crédito tributário ou não tributário tenha ocorrido antes da alienação do bem. (TRF5, 2 T., PJE 0800599-82.2016.4.05.8401, rel. Des. Federal Leonardo Carvalho, julgado em 02/18/2018) 8. Assim sendo, a penhora desse imóvel serve à garantia do Juízo, de modo a oportunizar à executada a oposição de embargos à execução, ação de natureza cognitiva que ensejará amplo espaço para o oferecimento de resistência à pretensão executória. Ademais, o terceiro adquirente também terá a oportunidade de se insurgir contra a decisão agravada, inclusive, caso queira, com a oposição dos respectivos embargos de terceiro. 9. Agravo de instrumento desprovido. Nas razões recursais, a parte recorrente sustenta, em síntese, violação aos arts. 489, § 1º, IV, e V, e 1.022, II, e parágrafo único, II, do CPC/2015, alegando negativa de prestação jurisdicional, bem como afronta ao art. 792, §4º, do CPC/2015, sustentando pela reforma do acórdão recorrido, a fim de que seja reconhecido o direito à manifestação mediante Embargos de Terceiro antes do reconhecimento da fraude à execução. Contrarrazões apresentadas. É o relatório. Passo a decidir. I - Da negativa de prestação jurisdicional Com relação à apontada violação aos arts. 489, § 1º, IV, e V, e 1.022, II, e parágrafo único, II, do CPC/2015, a recorrente alega a existência de vício a ser sanado, sob o fundamento de que, ao não prover os embargos de declaração, o acórdão recorrido se manteve omisso quanto a questões relevantes ao deslinde da controvérsia (fls. 707-720): .. No presente caso, conforme devidamente demonstrado no Agravo de Instrumento e que em breve detalhará novamente a Recorrente, o art. 792, § 4º, do CPC prescreve que não pode o juízo decretar uma fraude à execução e determinar a anulação de uma compra e venda sem ter intimado o terceiro adquirente. Ocorre que, em que pese tal alegação, fundamental ao entendimento e análise do mérito da demanda, o Tribunal a quo não enfrentou todos os argumentos relevantes invocados pela Recorrente, limitando-se a invocar o art. 185 do CTN e o entendimento firmado no julgamento do REsp 1.141.990/PR, submetido ao rito dos feitos repetitivos, sem realizar o devido cotejo analítico entre as normas e a suposta dispensa de intimação prévia do terceiro adquirente. Nesse sentido, o referido acórdão apenas faz menção ao REsp 1.141.990/PR (tema repetitivo 290), decisão em que se discutia a configuração ou não de fraude à execução fiscal diante da boa-fé do terceiro adquirente, sendo firmada a tese de que, se o ato translativo foi praticado a partir de 09.06.2005, data de início da vigência da Lei Complementar n.º 118/2005, bastaria a efetivação da inscrição em dívida ativa para a configuração da figura da fraude. Portanto, verifica-se que o julgamento do recurso repetitivo não tratou especificamente do tema disposto no art. 792, § 4º, do CPC, motivo pelo qual segue vigente a necessidade de intimação do terceiro adquirente, antes de ser declarada a fraude à execução. É certo que não há nulidade por omissão, tampouco negativa de prestação jurisdicional, no acórdão que decide de modo integral e com fundamentação suficiente a controvérsia posta. Da análise dos autos, denota-se que a Corte a quo dirimiu as questões pertinentes ao litígio de forma suficientemente ampla e fundamentada, consignando (fls. 695-698): .. Por sua vez, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp 1.141.990/PR, submetido ao rito dos feitos repetitivos, consagrou a tese da inaplicabilidade do enunciado da Súmula 375 às execuções fiscais tributárias, segundo o qual o reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente, assentando, na mesma oportunidade, o entendimento de que: "a) a alienação engendrada até 8.6.2005 exige que tenha havido prévia citação no processo judicial para caracterizar a fraude de execução; se o ato translativo foi praticado a partir de 9.6.2005, data de início da vigência da Lei Complementar 118/2005, basta a efetivação da inscrição em dívida ativa para a configuração da figura da fraude". No caso, de acordo com a escritura pública de compra e venda trazida aos autos (vide Id 4050000.28600539), a aquisição do imóvel localizado na Rua Copacabana, nº 725, bairro de Boa Viagem, Recife, CEP nº 52.030-590, ocorrida em 2017, posteriormente, portanto, à inscrição do débito (R$ 2.876.470,46 - dois milhões, oitocentos e setenta e seis mil, quatrocentos e setenta reais e quarenta e seis centavos) em dívida ativa entre os anos de 2008 e 2001, situação fática que caracteriza a ocorrência da fraude à execução, nos termos do art. 185 do CTN. Vê-se, ainda, in casu, ser desnecessária a citação prévia da executada para configurar a fraude. Esclareça-se que, para a declaração de fraude a execução ocorrida nas ações executivas fiscais não se exige a demonstração de boa ou má-fé do adquirente do bem para o seu reconhecimento, mas sim apenas a demonstração nos autos de que a inscrição em dívida ativa do crédito tributário ou não tributário tenha ocorrido antes da alienação do bem. (TRF5, 2 Turma, PJE 0800599-82.2016.4.05.8401, relator Des. Federal Leonardo Carvalho, julgado em 02/18/2018). Assim sendo, a penhora desse imóvel serve à garantia do Juízo, de modo a oportunizar à executada a oposição de embargos à execução, ação de natureza cognitiva que ensejará amplo espaço para o oferecimento de resistência à pretensão executória. Ademais, o terceiro adquirente também terá a oportunidade de se insurgir contra a decisão agravada, inclusive, caso queira, com a oposição dos respectivos embargos de terceiro. Como se vê, a negativa de prestação jurisdicional não restou configurada. O mero inconformismo com o julgamento contrário à pretensão da parte não caracteriza falta de prestação jurisdicional, isso porque a fundamentação adotada no acórdão é suficiente para respaldar a conclusão alcançada. Vale lembrar que, mesmo à luz do art. 489 do CPC, o órgão julgador não está obrigado a se pronunciar acerca de todo e qualquer ponto suscitado pela parte, mas apenas sobre aqueles capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo órgão julgador. Assim, inexiste violação aos arts. 489 e 1.022 do CPC/2015. II - Da incidência da Súmula 7 do STJ No ponto, verifica-se que o acórdão recorrido negou provimento ao agravo de instrumento sob o fundamento de que a situação fática apresentada é suficiente à caracterização de fraude à execução, sendo desnecessária a demonstração de boa ou má-fé do adquirente do bem para o seu reconhecimento. Cumpre observar, todavia, que em relação à apontada violação ao art. 792, §4º, do CPC/2015, o Tribunal a quo pautou seu entendimento com base na documentação acostada nos autos, levando em consideração os fatos e circunstâncias relacionados à matéria. Vejamos (fls. 695-698): .. Por sua vez, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp 1.141.990/PR, submetido ao rito dos feitos repetitivos, consagrou a tese da inaplicabilidade do enunciado da Súmula 375 às execuções fiscais tributárias, segundo o qual o reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente, assentando, na mesma oportunidade, o entendimento de que: "a) a alienação engendrada até 8.6.2005 exige que tenha havido prévia citação no processo judicial para caracterizar a fraude de execução; se o ato translativo foi praticado a partir de 9.6.2005, data de início da vigência da Lei Complementar 118/2005, basta a efetivação da inscrição em dívida ativa para a configuração da figura da fraude". No caso, de acordo com a escritura pública de compra e venda trazida aos autos (vide Id 4050000.28600539), a aquisição do imóvel localizado na Rua Copacabana, nº 725, bairro de Boa Viagem, Recife, CEP nº 52.030-590, ocorrida em 2017, posteriormente, portanto, à inscrição do débito (R$ 2.876.470,46 - dois milhões, oitocentos e setenta e seis mil, quatrocentos e setenta reais e quarenta e seis centavos) em dívida ativa entre os anos de 2008 e 2001, situação fática que caracteriza a ocorrência da fraude à execução, nos termos do art. 185 do CTN. Vê-se, ainda, in casu, ser desnecessária a citação prévia da executada para configurar a fraude. É certo que o espectro de cognição do recurso especial não é amplo e ilimitado, como nos recursos comuns, mas, ao invés, é restrito aos lindes da matéria jurídica delineada pelas instâncias ordinárias. Portanto, observa-se que a alteração da conclusão do Tribunal a quo, cuja premissa foi firmada com base em prova pré-constituída, ensejaria o necessário reexame da matéria fático-probatória dos autos, atraindo, por conseguinte, a incidência da Súmula 7 do STJ. A propósito : PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. EMBARGOS DE TERCEIRO. VEÍCULO. PENHORA. IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO. FRAUDE À EXECUÇÃO. OCORRÊNCIA. PRETENSÃO DE REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 7 DO STJ. ACÓRDÃO RECORRIDO ALINHADO COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. APLICAÇÃO DA SÚMULA N. 83 DO STJ. .. V - A Corte de origem bem analisou a controvérsia com base nos seguintes fundamentos: "Assim, consoante restou assentado pelo STJ, a alienação de bem efetivada pelo devedor, antes da entrada em vigor da LC nº 118, de 09/06/2005, presumia-se em fraude à execução se o negócio jurídico sucedesse a citação válida do devedor; posteriormente à referida data, consideram-se fraudulentas as alienações efetuadas pelo devedor fiscal após a inscrição do crédito tributário na dívida ativa, salientando-se, ainda, que o registro da penhora não pode ser exigência à caracterização da fraude no âmbito dos créditos, sendo irrelevante, inclusive, a existência ou não de boa-fé do adquirente. No caso concreto, a União pretende o reconhecimento de fraude à execução em relação à transferência do veículo Ford/Cargo 1119, ano/modelo 2013/2014, prata, Placa FVO-7349, Renavam nº01015238480 , tendo em vista que o autor o adquiriu posteriormente à LC nº 118, de 09/06/2005." VI - A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é firme no sentido de que a Corte de origem analisou a controvérsia dos autos levando em consideração os fatos e provas relacionados à matéria. Assim, para se chegar à conclusão diversa, seria necessário o reexame fático-probatório, o que é vedado pelo enunciado n. 7 da Súmula do STJ, segundo o qual "A pretensão de simples reexame de provas não enseja recurso especial". .. VIII - O Tribunal de origem aplicou o entendimento descrito no julgamento do repetitivo REsp n. 1.141.990/PR, Tema n. 290: "Se o ato translativo foi praticado a partir de 09.06.2005, data de início da vigência da Lei Complementar n. 118/2005, basta a efetivação da inscrição em dívida ativa para a configuração da figura da fraude." IX - O Tribunal de origem decidiu a matéria em conformidade com a jurisprudência desta Corte. Incide o disposto no enunciado n. 83 da Súmula do STJ, segundo o qual: "Não se conhece do recurso especial pela divergência, quando a orientação do Tribunal se firmou no mesmo sentido da decisão recorrida." X - Agravo interno improvido. (AgInt no AREsp n. 2.128.537/SP, relator Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, julgado em 6/3/2023, DJe de 10/3/2023. - grifo nosso) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. OFENSA AOS ARTS. 489 E 1.022 NÃO CONFIGURADA. EMBARGOS DE TERCEIRO. EXECUÇÃO FISCAL. PENHORA DE VEÍCULO AUTOMOTOR. ALIENAÇÃO POSTERIOR À INSCRIÇÃO EM DÍVIDA ATIVA. FRAUDE À EXECUÇÃO COMPROVADA. BOA-FÉ. IRRELEVÂNCIA. CONTEXTO FÁTICO-PROBATÓRIO. REVISÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. SÚMULA 7/STJ. ANÁLISE PREJUDICADA PELA FALTA DE IDENTIDADE ENTRE PARADIGMAS E FUNDAMENTAÇÃO DO ACÓRDÃO. .. 4. No julgamento do REsp 1.141.990/PR, submetido ao rito dos recursos repetitivos (art. 543-C do CPC/1973), o STJ firmou: a) "a natureza jurídica tributária do crédito conduz a que a simples alienação ou oneração de bens ou rendas, ou seu começo, pelo sujeito passivo por quantia inscrita em dívida ativa, sem a reserva de meios para quitação do débito, gera presunção absoluta (jure et de jure) de fraude à execução (lei especial que se sobrepõe ao regime do direito processual civil)"; b) "a alienação engendrada até 08.06.2005 exige que tenha havido prévia citação no processo judicial para caracterizar a fraude de execução; se o ato translativo foi praticado a partir de 09.06.2005, data de início da vigência da Lei Complementar n.º 118/2005, basta a efetivação da inscrição em dívida ativa para a configuração da figura da fraude"; c) "a inaplicação do artigo 185 do CTN, dispositivo que não condiciona a ocorrência de fraude a qualquer registro público, importa violação da Cláusula Reserva de Plenário e afronta à Súmula Vinculante 10, do STF". 5. O Código Tributário Nacional se sobrepõe ao regime do direito processual civil, não se empregando às Execuções Fiscais o tratamento dispensado à fraude civil, diante da supremacia do interesse público, já que o recolhimento dos tributos serve à satisfação das necessidades coletivas. 6. A jurisprudência do STJ consolidou o entendimento segundo o qual não se aplica à Execução Fiscal a Súmula 375/STJ: "O reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente." 7. Assim, no que se refere à Fraude à Execução Fiscal, deve ser observado o disposto no art. 185 do Código Tributário Nacional. Antes da alteração da Lei Complementar 118/2005, pressupõe fraude à Execução a alienação de bens do devedor já citado em Execução Fiscal. Com a vigência do normativo complementar, em 8.5.2005, a presunção de fraude ocorre apenas com a inscrição do débito em dívida ativa. 8. O acórdão recorrido consignou: "Conforme consta nos autos de execução fiscal, as Certidões de Dívida Ativa exequendas (nº 30969553, 30948637, 31015278 e 30992245) foram inscritas entre 01/10/2014 e 05/01/2015 (mov. 1.1/1/5 do apenso). A empresa Mexbras Indústria Plástica Ltda foi citada em 01/06/2015 (mov. 8.1 do apenso), portanto, após a vigência da Lei Complementar nº 118/05, que alterou a redação do art. 185 do CTN, logo, aplica-se ao caso a redação atual do art. 185, do CTN, que assim dispõe: (..) Portanto, qualquer alienação realizada pelo devedor sem outros bens após inscrição do crédito em dívida ativa deve ser considerada fraude à execução fiscal. Esse tema foi pacificado em sede de recurso repetitivo pelo STJ: (..) E, como se sabe, na fraude à execução fiscal é irrelevante a boa-fé do terceiro: (..) Aliás, esse tema acerca da irrelevância da boa-fé para fraude em execução fiscal também foi tratado no citado repetitivo REsp 1141990/PR: (..) Assim, como a alienação do veículo se deu em 18/05/2016 (mov. 1.4) e como as inscrições das CDA"s se deram entre 01/10/2014 e 05/01/2015, está efetivamente caracterizada a fraude à execução fiscal, motivo pelo qual a alienação do veículo é ineficaz perante o exequente (art. 792, § 1º do CPC).Em razão do não provimento do recurso, aplico o art. 85. § 11º do CPC e majoro os honorários advocatícios devidos para 11% do valor atualizado da causa, observada a gratuidade deferida. Portanto, ao recurso. nego provimento." (fls. 523-524, e-STJ). 9. O acórdão recorrido asseverou que a alienação do bem móvel ocorreu após a inscrição em dívida ativa. 10. A discussão a respeito da boa-fé, convém esclarecer, foi decidida pela Corte de origem, em consonância com o entendimento do STJ adotado no REsp 1.141.990/PR, que expressamente afirma que se trata de presunção absoluta (e não juris tantum), isto é, não sujeita à produção de prova em contrário. 11. O acórdão impugnado observou a exegese da legislação federal e aplicou corretamente a orientação do STJ a respeito do tema, consolidada em julgamento de recurso repetitivo, não merecendo reforma. 12. Com efeito, tratando-se de alienação de bem móvel efetuada após a entrada em vigor da LC 118/2005, a presunção jure et de jure da Fraude à Execução fica configurada porque o negócio jurídico ocorreu após a inscrição em dívida ativa. 13. Ademais, a verificação das alegações da recorrente sobre circunstâncias peculiares do caso concreto não abordadas no acórdão recorrido implica revolvimento de conteúdo fático-probatório, cuja pretensão encontra óbice na orientação da Súmula 7/STJ. 14. A incidência da Súmula 7/STJ impede o exame do dissídio jurisprudencial, na medida em que falta identidade entre os paradigmas apresentados e os fundamentos do acórdão. .. 16. Agravo Interno não provido. (AgInt no REsp n. 1.909.266/PR, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 8/3/2021, DJe de 16/3/2021. - grifo nosso) Em vista disso: "É inviável, em sede de recurso especial, o reexame de matéria fático-probatória, nos termos da Súmula 7 do STJ: "A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial"" (AgInt no AREsp n. 1.964.284/SP, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, julgado em 27/11/2023, DJe de 5/12/2023). Isso posto, com fundamento no art. 255, § 4º, I e II, do RISTJ, conheço em parte do recurso especial e, nessa extensão, nego-lhe provimento. Sem condenação em honorários advocatícios recursais, tendo em vista que o recurso especial origina-se de acórdão proferido em julgamento de agravo de instrumento, no qual não houve a fixação de honorários advocatícios sucumbenciais. Intimem-se. EMENTA