REsp 1950893 - ACORDAO
Considerando que o delito do art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal e se consuma com a mera frustração do caráter competitivo da licitação — fato reconhecido pelo Tribunal a quo mediante utilização de empresas fictícias do mesmo grupo econômico — e que o prazo prescricional de 12 anos previsto no art....
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- Parties
- Agravante: GILSON SANTIAGO; Recorrente: Ministério Público Federal; Recorrido: LINDEMBERGUE SOUZA SILVA; Recorrido: ANTÔNIO VERÍSSIMO DE SOUZA FILHO; Recorrido: CARLOS MAGNO FERREIRA DA SILVA; Recorrido: ANTÔNIO ERASMO DE LACERDA; Recorrido: LAERTE MATIAS DE ARAÚJO; Recorrido: CARLOS ALBERTO MATIAS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 October 2025
- Procedural Posture
- Agravo Regimental / Acórdão (julgamento Em Sessão Virtual)
- Outcome
- Agravo regimental desprovido
- Legal Topics
- Fraude Em Licitação, Natureza Formal Do Crime, Prescrição
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Parties
GILSON SANTIAGO
Agravante
Ministério Público Federal
Recorrente
LINDEMBERGUE SOUZA SILVA
Recorrido
ANTÔNIO VERÍSSIMO DE SOUZA FILHO
Recorrido
CARLOS MAGNO FERREIRA DA SILVA
Recorrido
ANTÔNIO ERASMO DE LACERDA
Recorrido
LAERTE MATIAS DE ARAÚJO
Recorrido
CARLOS ALBERTO MATIAS
Recorrido
Procedural Posture
Agravo Regimental / Acórdão (julgamento Em Sessão Virtual)
Legal Issues
- 1 Se o crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 exige a comprovação de vantagem efetivamente obtida para sua consumação
- 2 Se ocorreu a prescrição da pretensão punitiva estatal
Ratio Decidendi
Considerando que o delito do art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal e se consuma com a mera frustração do caráter competitivo da licitação — fato reconhecido pelo Tribunal a quo mediante utilização de empresas fictícias do mesmo grupo econômico — e que o prazo prescricional de 12 anos previsto no art. 109, III, do Código Penal não se consumou entre os fatos (março-abril/2009) e o recebimento da denúncia (3/4/2013), negou-se provimento ao agravo regimental e afastou-se o reconhecimento de prescrição pelo Tribunal a quo.
Court Disposition
Agravo regimental desprovido
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental.
- Restabelecer a condenação dos recorridos pelo crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993.
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 16/10/2025 a 22/10/2025, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Carlos Pires Brandão, Og Fernandes, Sebastião Reis Júnior e Rogerio Schietti Cruz votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Sebastião Reis Júnior. EMENTA Direito Penal. Agravo Regimental. Crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993. Natureza formal. Prescrição afastada. Recurso desprovido. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática que deu provimento ao recurso especial do MPF para restabelecer a condenação dos acusados pelo crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993, afastando a desclassificação para o tipo penal do art. 1º, XI, do Decreto-Lei n. 201/1967 e a consequente extinção da punibilidade pela prescrição. 2. O Tribunal Regional Federal da 5ª Região havia desclassificado o delito para o art. 1º, XI, do Decreto-Lei n. 201/1967, reconhecendo a prescrição, sob o fundamento de que o crime do art. 90 da Lei n. 8.666/1993 exigiria a comprovação de vantagem efetivamente obtida. 3. A decisão monocrática restabeleceu a condenação, considerando que o crime do art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal, consumando-se com a frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório, independentemente da obtenção de vantagem ou dano ao erário. II. Questão em discussão 4. A questão em discussão consiste em saber se o crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 exige, para sua consumação, a comprovação de vantagem efetivamente obtida, ou se se trata de delito de natureza formal, consumado com a mera frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório. 5. Também se discute a ocorrência de prescrição da pretensão punitiva estatal. III. Razões de decidir 6. O crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal, consumando-se com a demonstração de que a competição foi frustrada, independentemente da comprovação de obtenção de vantagem ou dano ao erário. 7. O bem jurídico tutelado pela norma penal é a moralidade administrativa e a lisura do procedimento licitatório, sendo suficiente para a configuração típica que o agente frustre ou fraude o caráter competitivo do procedimento. 8. No caso concreto, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região reconheceu expressamente a frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório mediante a utilização de empresas fictícias pertencentes ao mesmo grupo econômico, confirmando a existência de fraude às licitações realizadas. 9. Quanto à prescrição, considerando as penas aplicadas e o prazo prescricional de 12 anos previsto no art. 109, III, do Código Penal, não houve o transcurso do prazo necessário para a extinção da punibilidade. IV. Dispositivo e tese 10. Resultado do Julgamento: Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. O crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal, consumando-se com a mera frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório, independentemente da obtenção de vantagem ou dano ao erário.
RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): Trata-se de agravo regimental interposto por GILSON SANTIAGO contra decisão monocrática em que dei provimento ao recurso especial para restabelecer a condenação dos recorridos pelo crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993, afastando a desclassificação para o tipo penal do art. 1º, XI, do Decreto-Lei n. 201/1967 e a consequente extinção da punibilidade pela prescrição, mantendo as penas fixadas na sentença condenatória. A parte agravante requer a reconsideração da decisão agravada, pugnando pelo desprovimento do recurso especial interposto pelo MPF (e-STJ fls. 2434-2454 ). É o relatório. EMENTA Direito Penal. Agravo Regimental. Crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993. Natureza formal. Prescrição afastada. Recurso desprovido. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática que deu provimento ao recurso especial do MPF para restabelecer a condenação dos acusados pelo crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993, afastando a desclassificação para o tipo penal do art. 1º, XI, do Decreto-Lei n. 201/1967 e a consequente extinção da punibilidade pela prescrição. 2. O Tribunal Regional Federal da 5ª Região havia desclassificado o delito para o art. 1º, XI, do Decreto-Lei n. 201/1967, reconhecendo a prescrição, sob o fundamento de que o crime do art. 90 da Lei n. 8.666/1993 exigiria a comprovação de vantagem efetivamente obtida. 3. A decisão monocrática restabeleceu a condenação, considerando que o crime do art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal, consumando-se com a frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório, independentemente da obtenção de vantagem ou dano ao erário. II. Questão em discussão 4. A questão em discussão consiste em saber se o crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 exige, para sua consumação, a comprovação de vantagem efetivamente obtida, ou se se trata de delito de natureza formal, consumado com a mera frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório. 5. Também se discute a ocorrência de prescrição da pretensão punitiva estatal. III. Razões de decidir 6. O crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal, consumando-se com a demonstração de que a competição foi frustrada, independentemente da comprovação de obtenção de vantagem ou dano ao erário. 7. O bem jurídico tutelado pela norma penal é a moralidade administrativa e a lisura do procedimento licitatório, sendo suficiente para a configuração típica que o agente frustre ou fraude o caráter competitivo do procedimento. 8. No caso concreto, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região reconheceu expressamente a frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório mediante a utilização de empresas fictícias pertencentes ao mesmo grupo econômico, confirmando a existência de fraude às licitações realizadas. 9. Quanto à prescrição, considerando as penas aplicadas e o prazo prescricional de 12 anos previsto no art. 109, III, do Código Penal, não houve o transcurso do prazo necessário para a extinção da punibilidade. IV. Dispositivo e tese 10. Resultado do Julgamento: Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. O crime previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal, consumando-se com a mera frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório, independentemente da obtenção de vantagem ou dano ao erário. VOTO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): A despeito dos argumentos apresentados, o recurso não apresenta elementos capazes de desconstituir as premissas que embasaram a decisão agravada, que merece ser mantida por seus próprios fundamentos. A questão nodal a ser dirimida gravita em torno da interpretação do elemento normativo inserto no tipo penal consubstanciado no art. 90 da Lei n. 8.666/1993, especificamente quanto à necessidade ou não de efetiva obtenção da vantagem decorrente da adjudicação do objeto da licitação para a configuração típica do delito. O Ministério Público Federal sustentou que o crime tipificado no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 consubstancia-se em infração penal de natureza formal, prescindindo da produção de qualquer resultado naturalístico para sua consumação, bastando, para tanto, que se evidencie a frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório. O Tribunal Regional Federal da 5ª Região, por sua vez, fundamentou o acórdão recorrido nos seguintes termos: "Dois elementos do delito em apreço se encontram devidamente presentes. Falta o terceiro, justamente, o benefício perseguido, que, a teor do final do art. 90, simboliza o intuito de obter, para si ou para outrem, vantagem decorrente da adjudicação do objeto da licitação. Esta não mereceu a menor referência e demonstração. Qual, afinal, a vantagem obtida .. O benefício decorrente da adjudicação do objeto da licitação é elemento integrante do delito hospedado no art. 90, da Lei de Licitação, de modo que, para se caracterizar a ocorrência da aludida infração, necessário que tal requisito receba o realce devido e necessário, ao lado dos demais elementos, já destacados. No caso do delito, necessário que todos os elementos apareçam e sejam indicados, de maneira concreta, tudo sob o forro da necessária e constitucional fundamentação, sem o que o crime em pauta não se concretiza. A r. sentença não apontou, tampouco o demandante, em suas manifestações, desde a inicial às contrarrazões aos apelos, centralizado, apenas e tão somente, na utilização de pessoas jurídicas fictícias, o que, isoladamente, não sustenta o delito residente no art. 90, da Lei de Licitações, por exigir, entre os seus elementos, a vantagem, e tal vantagem não foi declinada, de modo a não configurar o delito perseguido e consagrado." (e-STJ fls. 68/69) Contudo, a jurisprudência consolidada deste Superior Tribunal de Justiça é firme no sentido de que o delito previsto no art. 90 da Lei n. 8.666/1993 é de natureza formal, consumando-se com a mera demonstração de que a competição foi frustrada, independentemente da comprovação de obtenção da vantagem ou da verificação de dano ao erário. Tal entendimento alicerça-se na premissa de que o bem jurídico tutelado pela norma penal incriminadora é a moralidade administrativa e a lisura do procedimento licitatório, sendo suficiente para a configuração típica que o agente, mediante ajuste, combinação ou qualquer outro expediente, frustre ou fraude o caráter competitivo do procedimento, não se exigindo que tal vantagem seja efetivamente auferida. Na hipótese vertente, o próprio Tribunal Regional Federal da 5ª Região reconheceu expressamente, no acórdão impugnado, a frustração do caráter competitivo do procedimento licitatório mediante a utilização de empresas fictícias pertencentes ao mesmo grupo econômico, confirmando a existência de fraude às licitações realizadas. Com efeito, destacou o Tribunal, tendo utilizado a fundamentação da sentença, que "os acusados aderiram, livre e conscientemente, à vontade de manipular o resultado das licitações especificadas, mediante a utilização de empresas fictícias" e que "o esquema articulado, tanto por envolver empresas de fachada, quanto por integrarem tais empresas o mesmo grupo econômico, resultou em fraude às licitações, com a inviabilização do seu caráter competitivo e violação direta aos princípios administrativos da legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência, dentre outros". Assim sendo, tendo o próprio acórdão reconhecido a existência de fraude ao caráter competitivo das licitações, evidencia-se a violação ao art. 90 da Lei n. 8.666/1993 ao exigir, para a consumação do crime, a comprovação da vantagem efetivamente obtida, elemento estranho ao tipo penal em análise. Quanto à prescrição, é imperioso proceder-se à análise de sua eventual ocorrência. Os fatos delituosos ocorreram entre março e abril de 2009, e a denúncia foi recebida em 3/4/2013. Com a condenação em primeira instância, foram impostas, ao crime do art. 90 da Lei n. 8.666/1993, as seguintes penas: a) LINDEMBERGUE SOUZA SILVA, ANTÔNIO VERÍSSIMO DE SOUZA FILHO, CARLOS MAGNO FERREIRA DA SILVA e GILSON SANTIAGO, cada um, a 5 anos de detenção; b) ANTÔNIO ERASMO DE LACERDA a 5 anos de detenção; e c) LAERTE MATIAS DE ARAÚJO e CARLOS ALBERTO MATIAS, cada um, a 6 anos de detenção. Considerando as penas aplicadas, o prazo prescricional, conforme o art. 109, III, do Código Penal, é de 12 (doze) anos. Tendo em vista que entre a data dos fatos (março-abril/2009) e o recebimento da denúncia (3/4/2013) transcorreram menos de 4 (quatro) anos, e que o presente recurso especial ainda não transitou em julgado, não há que se falar em prescrição da pretensão punitiva estatal. Consequentemente, é insubsistente o reconhecimento da prescrição pelo Tribunal a quo, que se baseou na pena do crime erroneamente desclassificado (art. 1º, XI, do Decreto-Lei n. 201/1967). Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental. É como voto. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO Relator