REsp 2102371 - ACORDAO
O Tribunal concluiu que o reexame do dolo específico exigiria revolvimento fático-probatório vedado pela Súmula nº 7 do STJ; que a dosimetria só pode ser revista em recurso especial se houver ilegalidade manifesta, o que não ocorreu; que o princípio da consunção não se aplica à concomitância dos crimes de frustração...
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- Parties
- Recorrente: Ministério Público Federal; Réu/condenado: Osmar Teixeira Moura; Agravante/recorrente: Luciano Francisco de Oliveira
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 14 October 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental No Recurso Especial / Acórdão / Julgamento Colegiado
- Outcome
- Agravo regimental desprovido
- Legal Topics
- Frustração Da Competitividade De Procedimento Licitatório, Peculato, Dolo Específico, Reexame De Provas (súmula 7 Do Stj), Dosimetria, Princípio Da Consunção, Prescrição
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Parties
Ministério Público Federal
Recorrente
Osmar Teixeira Moura
Réu/condenado
Luciano Francisco de Oliveira
Agravante/recorrente
Procedural Posture
Agravo Regimental No Recurso Especial / Acórdão / Julgamento Colegiado
Legal Issues
- 1 Se o reexame do dolo específico nos crimes de frustração da competitividade em licitação e peculato demanda revolvimento fático-probatório vedado pela Súmula nº 7 do STJ
- 2 Se a revisão da dosimetria é cabível em recurso especial na ausência de ilegalidade manifesta
- 3 Se o princípio da consunção se aplica à concomitância dos crimes de frustração de licitação e peculato
Ratio Decidendi
O Tribunal concluiu que o reexame do dolo específico exigiria revolvimento fático-probatório vedado pela Súmula nº 7 do STJ; que a dosimetria só pode ser revista em recurso especial se houver ilegalidade manifesta, o que não ocorreu; que o princípio da consunção não se aplica à concomitância dos crimes de frustração de licitação e peculato por tratarem de bens jurídicos distintos; e que a declaração de prescrição pela pena em concreto ofende o art. 110, §1º do Código Penal, devendo ser afastada, motivo pelo qual negou provimento ao agravo regimental e manteve o provimento do recurso especial do MPF para cassar o acórdão recorrido e determinar novo julgamento de origem.
Court Disposition
Agravo regimental desprovido
Orders
- Agravo regimental desprovido.
- Mantido o provimento do recurso especial interposto pelo Ministério Público Federal para cassar o acórdão recorrido e determinar que novo julgado seja proferido pela corte de origem, afastando a declaração da prescrição pela pena em concreto e a aplicação do princípio da consunção entre o art. 90 da Lei nº...
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ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Turma, por unanimidade, negar provimento ao agravo regimental. Os Srs. Ministros Reynaldo Soares da Fonseca, Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik e Messod Azulay Neto votaram com a Sra. Ministra Relatora. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Messod Azulay Neto. EMENTA Ementa: PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CRIMES DE FRUSTRAÇÃO DA COMPETITIVIDADE DE PROCEDIMENTO LICITATÓRIO. ART. 90 DA LEI Nº 8.666/1993. PECULATO. ART. 1º, I, DO DECRETO-LEI Nº 201/67. DOLO ESPECÍFICO. REEXAME DE PROVAS. SÚMULA Nº 7 DO STJ. DOSIMETRIA. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. INAPLICABILIDADE. PRESCRIÇÃO. RECURSO DA ACUSAÇÃO. IMPROVIMENTO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto em face de decisão proferida no âmbito de recurso especial apresentado pelo Ministério Público Federal contra acórdão que declarou a prescrição da pretensão punitiva com base na pena aplicada, afastando a condenação por frustração da competitividade de licitação (art. 90 da Lei nº 8.666/1993) e peculato (art. 1º, I, do Decreto-Lei nº 201/67). O recurso ministerial visa a cassação da decisão que declarou a prescrição e a manutenção da condenação concomitante pelos delitos mencionados. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há três questões em discussão: (i) definir se a revisão do dolo específico na prática do crime licitatório demanda reexame de provas, vedado pela Súmula nº 7 do STJ; (ii) estabelecer se a revisão da dosimetria é cabível em sede de recurso especial, em virtude da inexistência de ilegalidade flagrante; (iii) determinar se o princípio da consunção se aplica no caso de crimes de frustração de licitação e peculato, afastando a condenação por ambos os delitos. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O exame do dolo específico, necessário para a caracterização dos crimes de frustração da competitividade em licitação e peculato, exige revolvimento fático-probatório, o que é vedado em sede de recurso especial, conforme a Súmula nº 7 do STJ. 4. A revisão da dosimetria em recurso especial é possível apenas quando há manifesta ilegalidade ou abuso de poder, reconhecíveis sem incursões detalhadas em fatos ou provas. No caso, não foi constatada tal ilegalidade. 5. A legislação brasileira não estabelece percentual fixo para aumento da pena, cabendo ao magistrado avaliar as circunstâncias concretas do caso com base no princípio do livre convencimento motivado. 6. O STJ admite a condenação concomitante pelos crimes de fraude à licitação e peculato, não sendo aplicável o princípio da consunção no caso. 7. A decisão que declarou a prescrição da pretensão punitiva pela pena aplicada na sentença fere a legislação federal, sendo necessário afastar essa declaração. IV. DISPOSITIVO E TESE 8. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. O reexame do dolo específico nos crimes de frustração da competitividade em licitação e peculato demanda análise probatória, vedada pelo recurso especial, conforme a Súmula nº 7 do STJ. 2. A revisão da dosimetria em recurso especial é permitida apenas em casos de ilegalidade manifesta, não se admitindo incursões detalhadas em fatos e provas. 3. O princípio da consunção não se aplica à concomitância dos crimes de frustração de licitação e peculato, sendo cabível a condenação por ambos os delitos. 4. A prescrição da pretensão punitiva pela pena em concreto não deve ser reconhecida quando em afronta à legislação federal. Dispositivos relevantes citados: Lei nº 8.666/1993, art. 90; Decreto-Lei nº 201/1967, art. 1º, I; CF/1988, art. 93, IX. Jurisprudência relevante citada: STJ, Súmula nº 7; STJ, HC nº 335.977/SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 19.10.2017.
RELATÓRIO Considerando o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples (CNJ/Recomendação nº 144/2023 e CNJ/Resolução nº 376/2021), adoto o relatório de fls. 6502-6503 (e-STJ). "Cuida-se de denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal - MPF contra OSMAR TEIXEIRA MOURA, como autor dos delitos tipificados no art. 1º, I, do Decreto-Lei 201/67 e art. 90 da Lei nº 8.666/93. Segundo o MPF, o réu Osmar Teixeira Moura, na época em que era Prefeito do Município de São Miguel da Baixa Grande/PI, celebrou em nome deste um contrato com o Ministério da Saúde. Foi constatada uma série de irregularidades no período de junho de 2006 a junho de 2007 atribuídas ao réu, conforme auditoria realizada pelo DENASUS. De acordo com o Parquet, várias foram as irregularidades descritas nas constatações de nº 25374 (pagamento para Empresa J RAMALHO CONSTRUÇÕES LTDA, em 2008, o montante de R$ 33.000,00, alusivo ao serviço de limpeza e desobstrução de poços tubulares); nº 24926 (no período de junho a novembro de 2006, a realização de pagamentos à Empresa SONDONTERRA LTDA, no valor de R$ 222.500,00 referente a um serviço de limpeza e desinfecção e perfuração de 03 poços tubulares nas localidades Tabuleiros, Chapada e Melancia); nº 23337 (pagamento de R$ 13.600,00 à Empresa MÁGILA CONSTRUTORA LTDA, referente à conclusão da obra do Posto de Saúde da comunidade Nazaré); nº 23445 (contrato com o geólogo Marco Aurélio C de Freitas, por instrumento com validade de 30 dias, para prestar serviços no valor de R$ 4.000,00); nº 23 (licitação no valor de R$ 37.064,00, na modalidade convite, com a Empresa TERRASUL CONSTRUTORA LTDA); nº 25927 (diversos pagamentos referentes à aquisição de medicamentos); nº 23860 (comprovação insuficiente de despesas com frete de veículos e uso de combustíveis); e nº 20044 (contratação de serviços perante a empresa RICARDO ROQUE ARQUITETURA, referente a projetos, com as seguintes irregularidades: empresa inapta, ausência de identificação do profissional que executou a obra, não identificação do pagador, pagamento antecipado e sem atestado de recebimento)." (Fls. 500/501). A defesa do réu interpôs recurso de apelação (fls. 543/569), em face da sentença de fls. 500/515, da lavra do Juiz Federal da 3ª Vara da Seção Judiciária do Piauí, Agliberto Gomes Machado, que julgou procedente a pretensão punitiva deduzida da denúncia para condená-lo pela prática dos crimes previstos no art. 1º, inciso I, do Decreto-Lei n. 201/67. O réu Osmar Teixeira Moura foi condenado pelos crimes tipificados no art. 1º, I, do Decreto-Lei 201/67 e art. 90 da Lei n. 8.666/93, às penas de 6 (seis) anos de reclusão para o primeiro crime e 03 (três) anos de detenção para o segundo, além de multa de R$ 6.000,00 (seis mil reais). O juiz não substituiu a pena privativa de liberdade por restritivas de direitos, por não estarem preenchidos os requisitos do art. 44 do Código Penal. Fixou, ainda, o regime inicial semiaberto para o cumprimento da pena do primeiro delito e o aberto para o último. Foi concedido ao réu o direito de recorrer em liberdade. Inconformado, o apelante alega, em suas razões de apelação, que não há provas suficientes nos autos para comprovar todos os elementos dos tipos penais a ele imputados; que não houve a demonstração do dolo; que não foi comprovado dano ao erário; que formou uma Comissão de Licitação competente e que buscou colocar pessoas qualificadas para auxiliar nos trabalhos; que, como leigo, não tinha como detectar falhas nos procedimentos; que não poderia ser condenado pelos dois delitos em concurso material, defendendo a aplicação do princípio da consunção entre os crimes; e que não foram cabalmente comprovadas as circunstâncias que levaram à majoração da pena. Ao final, requer seja dado provimento ao recurso para absolvição ou, alternativamente, redução da pena. As contrarrazões foram apresentadas às fls. 571/586. A Procuradoria Regional da República da 1ª Região opinou pelo desprovimento da apelação (fls. 588/600). O Ministério Público Federal interpõe recurso especial, aduzindo violação aos artigos 59, 110, § 1º e 337-F do CP e ao artigo 1º, I, do DL n. 201/67 do Código Penal, enquanto LUCIANO FRANCISCO DE OLIVEIRA interpôs recurso especial, afirmando violação ao artigo 1º, I, do DL n. 201/67 e artigo 59 do CP. O Ministério Público Federal promoveu o não conhecimento do recurso de LUCIANO FRANCISCO DE OLIVEIRA e o provimento parcial do Ministério Público Federal. O Recurso Especial não se conheceu do recurso especial interposto por LUCIANO FRANCISCO DE OLIVEIRA e se deu provimento ao recurso especial interposto pelo Ministério Público Federal para cassar o acórdão recorrido. O recorrente LUCIANO FRANCISCO DE OLIVEIRA interpôs agravo regimental. Requer a reconsideração da decisão agravada ou o provimento de seu recurso. O Ministério Público apôs ciência. É o relatório. EMENTA Ementa: PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CRIMES DE FRUSTRAÇÃO DA COMPETITIVIDADE DE PROCEDIMENTO LICITATÓRIO. ART. 90 DA LEI Nº 8.666/1993. PECULATO. ART. 1º, I, DO DECRETO-LEI Nº 201/67. DOLO ESPECÍFICO. REEXAME DE PROVAS. SÚMULA Nº 7 DO STJ. DOSIMETRIA. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. INAPLICABILIDADE. PRESCRIÇÃO. RECURSO DA ACUSAÇÃO. IMPROVIMENTO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto em face de decisão proferida no âmbito de recurso especial apresentado pelo Ministério Público Federal contra acórdão que declarou a prescrição da pretensão punitiva com base na pena aplicada, afastando a condenação por frustração da competitividade de licitação (art. 90 da Lei nº 8.666/1993) e peculato (art. 1º, I, do Decreto-Lei nº 201/67). O recurso ministerial visa a cassação da decisão que declarou a prescrição e a manutenção da condenação concomitante pelos delitos mencionados. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há três questões em discussão: (i) definir se a revisão do dolo específico na prática do crime licitatório demanda reexame de provas, vedado pela Súmula nº 7 do STJ; (ii) estabelecer se a revisão da dosimetria é cabível em sede de recurso especial, em virtude da inexistência de ilegalidade flagrante; (iii) determinar se o princípio da consunção se aplica no caso de crimes de frustração de licitação e peculato, afastando a condenação por ambos os delitos. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O exame do dolo específico, necessário para a caracterização dos crimes de frustração da competitividade em licitação e peculato, exige revolvimento fático-probatório, o que é vedado em sede de recurso especial, conforme a Súmula nº 7 do STJ. 4. A revisão da dosimetria em recurso especial é possível apenas quando há manifesta ilegalidade ou abuso de poder, reconhecíveis sem incursões detalhadas em fatos ou provas. No caso, não foi constatada tal ilegalidade. 5. A legislação brasileira não estabelece percentual fixo para aumento da pena, cabendo ao magistrado avaliar as circunstâncias concretas do caso com base no princípio do livre convencimento motivado. 6. O STJ admite a condenação concomitante pelos crimes de fraude à licitação e peculato, não sendo aplicável o princípio da consunção no caso. 7. A decisão que declarou a prescrição da pretensão punitiva pela pena aplicada na sentença fere a legislação federal, sendo necessário afastar essa declaração. IV. DISPOSITIVO E TESE 8. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. O reexame do dolo específico nos crimes de frustração da competitividade em licitação e peculato demanda análise probatória, vedada pelo recurso especial, conforme a Súmula nº 7 do STJ. 2. A revisão da dosimetria em recurso especial é permitida apenas em casos de ilegalidade manifesta, não se admitindo incursões detalhadas em fatos e provas. 3. O princípio da consunção não se aplica à concomitância dos crimes de frustração de licitação e peculato, sendo cabível a condenação por ambos os delitos. 4. A prescrição da pretensão punitiva pela pena em concreto não deve ser reconhecida quando em afronta à legislação federal. Dispositivos relevantes citados: Lei nº 8.666/1993, art. 90; Decreto-Lei nº 201/1967, art. 1º, I; CF/1988, art. 93, IX. Jurisprudência relevante citada: STJ, Súmula nº 7; STJ, HC nº 335.977/SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 19.10.2017. VOTO De saída, quanto ao apelo de LUCIANO FRANCISCO DE OLIVEIRA, verifica-se que a alegação de ausência demonstração de dolo específico esbarra no óbice da Súmula nº 7 do STJ, pois exige o revolvimento fático-probatório, para o qual não se presta o recurso especial. Não cabe, sob pena de violação da competência recursal especial desta corte, proceder a uma extensa valorização das provas para aferir se o fato de a obra ter sido executada indica a inexistência do elemento subjetivo específico. Vale dizer, "para afastar a aplicação da Súmula 7 do STJ, não é bastante a mera afirmação de sua não incidência, devendo a parte apresentar argumentação suficiente a fim de demonstrar que, para o STJ mudar o entendimento da instância de origem sobre a questão suscitada, não é necessário reexame de fatos e provas da causa." (AgRg no AREsp 1.713.116/PI, relator Ministro João Otávio de Noronha, Quinta Turma, julgado em 2/8/2022, DJe de 8/8/2022). Com efeito, embora alegue ser "fato incontroverso no processo que a obra objeto do convênio fora efetivamente concluída", o próprio trecho da decisão recorrida mencionada pelo agravante dá conta de que "não havendo notícia de que as obras restaram inacabadas". Ou seja, afirmou-se ausência de notícia sobre o estado das obras, a reforçar a necessidade de incursão fático-probatória para o acolhimento da pretensão recursal. Ademais, é cediça a jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça no sentido de que "(..) A individualização da pena, como atividade discricionária do julgador, está sujeita à revisão apenas nas hipóteses de flagrante ilegalidade ou teratologia, quando não observados os parâmetros legais estabelecidos ou o princípio da proporcionalidade. (..)" (HC 595958 / SP, RELATOR Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, DATA DO JULGAMENTO 18/08/2020, DATA DA PUBLICAÇÃO/FONTE DJe 24/08/2020) Ou seja, a revisão da dosimetria em sede especial "é possível somente em situações excepcionais, de manifesta ilegalidade ou abuso de poder reconhecíveis de plano, sem maiores incursões em aspectos circunstanciais ou fáticos e probatórios" (HC n. 304.083/PR, Rel. Ministro FELIX FISCHER, Quinta Turma, DJe 12/3/2015). No presente feito, observa-se que a exacerbação da pena do recorrente se deu de maneira motivada e inexistem elementos que permitam afirmar flagrante ilegalidade. Quanto ao tema, é cediço nesta corte que "(..) A legislação brasileira não prevê um percentual fixo para o aumento da pena-base em razão do reconhecimento das circunstâncias judiciais desfavoráveis, tampouco em razão de circunstância agravante ou atenuante, cabendo ao julgador, dentro do seu livre convencimento motivado, sopesar as circunstâncias do caso concreto e quantificar a pena, observados os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. (..)" (AgRg no HC 863061 / SE, RELATOR Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, DATA DO JULGAMENTO 06/02/2024, DATA DA PUBLICAÇÃO/FONTE DJe 14/02/2024) No presente feito, afirmou-se que "as consequências do crime são graves, pois as obrasfraudadas, dentre outras, envolviam saúde pública, o que traz um prejuízomaior à comunidade". Inexiste reparo, portanto, aos elementos utilizados pela origem para o agravamento da pena-base, na medida em que não são, de fato, componentes do tipo penal, de modo que, inexistente desproporcionalidade na fração eleita, não há de se falar em ilicitude manifesta a ser corrigida. Dessa forma, não merece conhecimento o recurso especial interposto por LUCIANO FRANCISCO DE OLIVEIRA. De outro lado, quanto ao pleito recursal do Ministério Público Federal, constata-se, na esteira do que afirmado na corte de origem, o preenchimento dos requisitos de admissibilidade (intrínsecos/extrínsecos), assim como o prequestionamento da controvérsia, motivo pelo qual há de se conhecer do recurso. No que tange a suposta ocorrência de consunção, é também remansoso o entendimento no sentido de que "Reconhecida a autonomia dos desígnios do paciente e a distinção dos bens jurídicos tutelados pelas normas penais, evidencia-se, no caso, a inaplicabilidade do princípio da consunção, dada a ocorrência isolada dos crimes, o que torna a inviável a absorção de um delito pelo outro" (HC 415.900/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 20/02/2018, DJe 26/02/2018) Em situações similares às dos autos, o Superior Tribunal de Justiça tem admitido a condenação concomitante pelos delitos de fraude à licitação e peculato, conforme se verifica dos seguintes precedentes: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. FRAUDE AO CERTAME LICITATÓRIO. TIPICIDADE. DANO AO ERÁRIO. INEXIGIBILIDADE. 1. A orientação dominante desta Corte Superior é no sentido de que o art. 90 da Lei n. 8.666/1993 estabelece um "crime em que o resultado exigido pelo tipo penal não demanda a ocorrência de prejuízo econômico para o poder público, haja vista que a prática delitiva se aperfeiçoa com a simples quebra do caráter competitivo entre os licitantes interessados em contratar, ocasionada com a frustração ou com a fraude no procedimento licitatório" (REsp n. 1.498.982/SC, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, 6ª T., DJe 18/04/2016) CRIME DE PECULATO. AUTORIA E MATERIALIDADE. SÚMULA 7 DO STJ. 1. O Tribunal local, após aprofundada análise dos elementos colhidos no curso da instrução criminal, concluiu que restou provada a materialidade e a autoria que dão suporte à condenação do réu pelo crime de peculato e, entender de modo diverso, no intuito de abrigar o pleito defensivo de absolvição do acusado demandaria o revolvimento no material fático-probatório, providência exclusiva das instâncias ordinárias e vedada a este Sodalício em sede de recurso especial, ante o óbice da Súmula 7 do STJ. LICITAÇÃO. FRAUDE. PECULATO. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. INAPLICABILIDADE. 1. Firmou-se neste Sodalício que "Reconhecida a autonomia dos desígnios do paciente e a distinção dos bens jurídicos tutelados pelas normas penais, evidencia-se, no caso, a inaplicabilidade do princípio da consunção, dada a ocorrência isolada dos crimes, o que torna a inviável a absorção de um delito pelo outro" (HC 415.900/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 20/02/2018, DJe 26/02/2018). DOSIMETRIA. PENA-BASE. EXASPERAÇÃO. CULPABILIDADE. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. 1. A jurisprudência do STJ é no sentido de que a pena-base pode ser exasperada pelo magistrado no seu exercício discricionário juridicamente vinculado, mediante aferição negativa dos elementos concretos dos autos a denotar maior reprovabilidade da conduta imputada. 2. A Corte estadual considerou desfavorável ao acusado para ambas as condutas imputadas, a vetorial da culpabilidade, diante da destacada função exercida pelo agente na empreitada criminosa por ser considerado um de seus principais artífices e beneficiários. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no REsp 1728967 / RN, RELATOR Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, DATA DO JULGAMENTO 23/04/2019, DATA DA PUBLICAÇÃO/FONTE DJe 07/05/2019. Grifo Acrescido) AGRAVO RE GIMENTAL EM RECURSO ORDINÁRIO CONSTITUCIONAL EM HABEAS CORPUS. INOVAÇÃO RECURSAL NAS RAZÕES DO REGIMENTAL. IMPOSSIBILIDADE DE ESTA CORTE EXAMINAR ARGUMENTAÇÃO DEFENSIVA NÃO DEDUZIDA ANTERIORMENTE. FRAUDE AO CARÁTER COMPETITIVO DE PROCESSO LICITATÓRIO (REVOGADO ART. 90 DA LEI N. 8.666/93) E PECULATO (ART. 1.º, INCISO I, DO DECRETO-LEI 201/67, QUE PREVÊ OS CRIMES DE RESPONSABILIDADE DOS PREFEITOS MUNICIPAIS). TRANCAMENTO DO PROCESSO-CRIME. EXCEPCIONALIDADE. COMPETÊNCIA DO JUIZ DA CAUSA PARA ANALISAR, PRIMEIRAMENTE, A CONFIGURAÇÃO TÍPICA. CONFLITO APARENTE DE NORMAS (BIS IN IDEM, ESPECIALIDADE OU CONSUNÇÃO DE LEIS) QUE NÃO PODE SER RECONHECIDO PER SALTUM PELA JURISDIÇÃO SUPERPOSTA. FLAGRANTE ILEGALIDADE NÃO CONFIGURADA. BENS JURÍDICOS TUTELADOS APARENTEMENTE DISTINTOS. PRECEDENTES. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESSA EXTENSÃO, DESPROVIDO. (..) 6. É certo que este Colegiado, ao apreciar o REsp n. 1.288.855/SP, relatora Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, julgado em 17/10/2013, DJe de 29/10/2013) concluiu que o conflito aparente de normas especiais entre o delito então previsto no art. 89 da Lei n. 8.666/90 (dispensar ou inexigir licitação fora das hipóteses previstas em lei, ou deixar de observar as formalidades pertinentes à dispensa ou à inexigibilidade) e o crime de responsabilidade dos prefeitos municipais previsto no inciso XI do art. 1.º do Decreto-Lei n. 201/67 (adquirir bens, ou realizar serviços e obras, sem concorrência ou coleta de preços, nos casos exigidos em lei), deveria ser dirimido pelo critério cronológico. Essa antinomia jurídica - em que ambas as infrações tratavam-se de vícios em concorrência pública - difere, em absoluto, do presente exame, no qual não se pode concluir ante tempus que as tipificações são coincidentes. 7. Assim, compete ao Juiz da causa apurar se o Agravante fraudou o caráter competitivo de procedimento licitatório para direcionar de tomada de preços - razão pela qual foi acusado da prática do revogado art. 90 da Lei n. 8.666/90 (frustrar ou fraudar, mediante ajuste, combinação ou qualquer outro expediente, o caráter competitivo do procedimento licitatório, com o intuito de obter, para si ou para outrem, vantagem decorrente da adjudicação do objeto da licitação) - e se apropriou ou desviou bens ou verba pública (peculato) - pois foi denunciado também pelo art. 1.º do inciso I do Decreto-Lei n. 201/67 (apropriar-se de bens ou rendas públicas, ou desviá-los em proveito próprio ou alheio) -, distinguindo as duas condutas. Em outras palavras, em razão do alegado conflito aparente de normas, a competência para eventualmente concluir se a única tipificação cabível contra o Recorrente é a prevista no revogado art. 90 da Lei n. 8.666/90 é primeiramente do Juiz Singular. 8. Agravo parcialmente conhecido e, nessa extensão, desprovido. (AgRg no RHC 151765 / PA, RELATORA Ministra LAURITA VAZ, SEXTA TURMA, DATA DO JULGAMENTO 15/05/2023, DATA DA PUBLICAÇÃO/FONTE DJe 19/05/2023) Destarte, restou evidente o malferimento aos arts. 90 da Lei n. 8.666/90 e 1.º do inciso I do Decreto-Lei n. 201/67 pelo acórdão recorrido quando afirma que "Em relação à pretensão de aplicação do princípio da consunção, estampada na tese de que o delito de desvio de recursos absorve o delito de fraude à licitação, assiste razão à Defesa. A fraude em processos de licitação, com finalidade de apropriação dos recursos públicos, resulta na absorção do crime do Art. 90,da Lei nº 8.666/93 pelo tipo do Art. 1º, I, do Decreto-Lei nº 201/67; é dizer, a absorção do crime-meio, menos grave, previsto na lei de licitações, pelo crime de responsabilidade, que é o delito-fim." (e-STJ Fl.6061) No mesmo sentido, também a aplicação da prescrição na modalidade retroativa pelo Tribunal de origem violou o teor do art. 110, § 1º do Código Penal Brasileiro, que estabelece que "A prescrição, depois da sentença condenatória com trânsito em julgado para a acusação ou depois de improvido seu recurso, regula-se pela pena aplicada, não podendo, em nenhuma hipótese, ter por termo inicial data anterior à da denúncia ou queixa." (Grifo Acrescido) Com efeito, presente apelação ministerial, viola o dispositivo mencionado a conclusão da origem que estabelece que "In casu , tendo sido fixada a pena de 2 (dois) anos de detenção (sem levar em conta o acréscimo decorrente da continuidade delitiva), a prescrição regula-se pelo prazo de 04 (quatro) anos, conforme artigo 109, V, do Código Penal. A denúncia relativa a tais fatos foi recebida em 30/09/2014. Portanto, havendo o transcurso de prazo superior a 06 (seis) anos entre a data de consumação dos fatos (2006 e2007) e o recebimento da denúncia ( ), possível decretar a prescrição retroativa da pretensão punitiva estatal quanto aos crimes em análise, com a consequente extinção da punibilidade, a teor do que preconiza o art. 107, IV, do Código Penal." (e-STJ Fl.6063) Nesse sentido: REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. RECURSO QUE NÃO COMBATE A RAZÃO DA DECISÃO AGRAVADA. SÚMULA N. 182/STJ. INCIDÊNCIA 1. A falta de impugnação específica dos fundamentos da decisão agravada atrai a incidência do Enunciado Sumular 182 desta Corte Superior. 2. No caso, os agravantes não combateram a incidência da Súmula n. 83/STJ, único fundamento utilizado para negar seguimento ao agravo em recurso especial, fato que impede o conhecimento do regimental. DELITO TIPIFICADO NO ART. 317, CAPUT E § 1º C/C 29 DO ESTATUTO REPRESSOR. PRESCRIÇÃO RETROATIVA DA PRETENSÃO PUNITIVA DO ESTADO. OCORRÊNCIA. ARTS. 109, V, C/C O ART. 110, DO CÓDIGO PENAL. TRANSCURSO DE MAIS DE 4 (QUATRO) ANOS ENTRE O RECEBIMENTO DA DENÚNCIA E A SENTENÇA PENAL CONDENATÓRIA. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE DOS AGENTES. 1. No caso, o prazo prescricional retroativo deve ser considerado entre a data da sentença penal condenatória e o dia do recebimento da vestibular acusatória. Precedentes. 2. Ausente recurso do Ministério Público contra o acórdão que negou provimento à Apelação - trânsito em julgado para a acusação -, deve o lapso prescricional ser regulado pela pena ali imposta. 3. Na hipótese, aos ora agravantes foram fixadas as penas de 1 (um) ano, 6 (seis) meses e 20 (vinte) dias de reclusão, cujo lapso prescricional é de 4 (quatro) anos, conforme dicção do art. 109, V, do Diploma Penalista. Considerando-se os marcos interruptivos e a reprimendas aplicadas, constata-se que entre a data do recebimento da denúncia - 9/11/1999 - e a da publicação da sentença condenatória - 21/9/2009 -, já se passaram mais que 4 (quatro) anos, sendo de rigor o reconhecimento da prescrição retroativa da pretensão punitiva do Estado com a consequente extinção da punibilidade dos agentes pela prática do delito tipificado no art. 317, caput e § 1º do Código Penal. (..) (AgRg no AREsp 590044 / SP, RELATOR Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, DATA DO JULGAMENTO 04/12/2014, DATA DA PUBLICAÇÃO/FONTE DJe 16/12/2014) PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DO FUNDAMENTO DA DECISÃO AGRAVADA. SÚMULA N. 83/STJ . AGRAVO DESPROVIDO. 1. In casu, a parte agravante deixou de infirmar, de maneira adequada e suficiente, as razões apresentadas para o não seguimento do recurso especial com relação à incidência da Súmula n. 83 do STJ. 2. Com efeito: "E, ainda, esta Corte firmou o entendimento de que, "quando o inconformismo excepcional não é admitido pela instância ordinária, com fundamento no enunciado n. 83 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça, a impugnação deve indicar precedentes contemporâneos ou supervenientes aos mencionados na decisão combatida" (AgRg no AREsp 709.926/RS, rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 18/10/2016, DJe 28/10/2016), o que não ocorreu no caso destes autos" (AgRg no AREsp n. 637.462/SP, Quinta Turma, rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe de 1º/8/2017). 3. Ademais, não existindo o trânsito em julgado para a acusação da decisão proferida pelo Conselho de Sentença que desclassificou a conduta, incabível a extinção da punibilidade, consoante art. 110, § 1º, do CP. 4. Agravo regimental desprovido. (AgRg no AgRg no AREsp 2060608 / PA, RELATOR Ministro JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJDFT), SEXTA TURMA, DATA DO JULGAMENTO 20/02/2024, DATA DA PUBLICAÇÃO/FONTE DJe 23/02/2024) Destarte, merece manutenção o provimento do recurso especial interposto pelo Ministério Público Federal para cassar o acórdão recorrido, determinando que novo julgado seja proferido pela corte de origem afastando a declaração da prescrição pela pena em concreto e a consunção entre do Art. 90,da Lei nº 8.666/93 pelo tipo do Art. 1º, I, do Decreto-Lei nº 201/67. Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental. É o voto.