HC 927479 - DECISAO
As buscas veicular e pessoal e o ingresso domiciliar fundaram-se, em essência, em denúncia anônima sem prévia verificação de sua credibilidade e ausência de fundada suspeita anterior à diligência; a descoberta posterior de entorpecente no curso da busca não convalida a abordagem e o ingresso realizados fora dos...
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- Parties
- Paciente: ARIELDO CARLOS GONÇALVES DOS SANTOS; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ; Interveniente/manifestante: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 August 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Concessiva (ordem Concedida)
- Outcome
- Ordem concedida. Habeas corpus concedido; absolvição do paciente com fundamento no art. 386, II, do CPP.
- Legal Topics
- Fundada Suspeita, Busca Pessoal, Busca Veicular, Busca Domiciliar, Denúncia Anônima, Nulidade De Provas, Frutos Da Árvore Envenenada, Consentimento Para Ingresso Domiciliar, Flagrante
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Parties
ARIELDO CARLOS GONÇALVES DOS SANTOS
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Interveniente/manifestante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Concessiva (ordem Concedida)
Legal Issues
- 1 nulidade das buscas pessoal, veicular e domiciliar por ausência de fundada suspeita
- 2 prevalência ou não da denúncia anônima como fundamento idôneo para abordagem e ingresso domiciliar
- 3 validade do suposto consentimento para ingresso no domicílio
Ratio Decidendi
As buscas veicular e pessoal e o ingresso domiciliar fundaram-se, em essência, em denúncia anônima sem prévia verificação de sua credibilidade e ausência de fundada suspeita anterior à diligência; a descoberta posterior de entorpecente no curso da busca não convalida a abordagem e o ingresso realizados fora dos parâmetros exigidos. Não havendo comprovação válida de consentimento do morador nem de fundadas razões que autorizassem o ingresso, as provas obtidas são ilícitas de acordo com o art. 157 do CPP e art. 5º, LVI, da CF, resultando na anulação das provas e de seus derivativos e, por ausência de prova da materialidade, na absolvição do paciente com fundamento no art. 386, II, do CPP.
Court Disposition
Ordem concedida. Habeas corpus concedido; absolvição do paciente com fundamento no art. 386, II, do CPP.
Orders
- Reconhecer a invalidade das buscas pessoal, veicular e domiciliar realizadas sem fundada suspeita
- Declarar a ilicitude das provas obtidas por meio das buscas e de todas as provas delas decorrentes
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, sem pedido de liminar, impetrado em favor de ARIELDO CARLOS GONÇALVES DOS SANTOS, em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ, no bojo da Apelação Criminal n. 0001602-88.2022.8.16.0113. Consta dos autos que o paciente foi denunciado e condenado por infração aos arts. 33, caput, da Lei n. 11.343/2006, 12, caput, da Lei n. 10.826/2003 e 16, caput, da Lei n. 10.826/2003, na forma do art. 70, parte final, do Código Penal, às penas de 10 (dez) anos e 10 (dez) meses de reclusão, em regime inicial fechado, e 601 (seiscentos e um) dias-multa, mínimo legal. A decisão foi mantida em segundo grau. A impetração sustenta a nulidade da busca pessoal, veicular e domiciliar por ausência de fundada suspeita, já que fundada exclusivamente em denúncia anônima. Requer a concessão da ordem para declarar a nulidade alegada, a inquinar o caderno probatório, redundando na absolvição do paciente. Vieram informações (fls. 134/174), ao que se seguiu a manifestação do Ministério Público Federal, às fls. 178/184, opinando pela concessão da ordem, para declarar a nulidade das provas decorrentes da busca pessoal e, em consequência, absolver o paciente. É o relatório. DECIDO. A ordem deve ser concedida. Quanto ao tema sob análise, cediço que a jurisprudência deste colegiado vem se consolidando e evoluindo para estabelecer balizas bem delineadas à realização das buscas pessoais e à sua validade jurídica. No âmbito do julgamento do RHC n. 158.580/BA (Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, DJe de 25/04/2022), a Sexta Turma desta Corte Superior traçou requisitos mínimos para a validade de tal expediente. Nesse sentido, foi estabelecida a exigência de fundada suspeita (justa causa) para a realização da busca pessoal ou veicular sem mandado judicial, baseada em um juízo de probabilidade, descrita com a maior precisão possível, aferida de modo objetivo e devidamente justificada pelos indícios e circunstâncias do caso concreto - de que o indivíduo esteja na posse de drogas, armas ou de outros objetos ou papéis que constituam corpo de delito, evidenciando-se a urgência de se executar a diligência. Ainda, fixou-se a exigência da chamada referibilidade da medida, ou seja, sua vinculação a uma das finalidades legais traçadas no art. 244 do CPP, notadamente quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar. O objetivo é impedir abordagens e revistas exploratórias (fishing expeditions), baseadas em suspeição genérica existente sobre indivíduos, atitudes ou situações. Por tal motivo, buscas pessoais praticadas como "rotina" ou "praxe" do policiamento ostensivo, com finalidade preventiva e motivação exploratória não satisfazem tais exigências. Assentou-se, no citado leading case, que (i) informações de fontes não identificadas (como as denúncias anônimas) e (ii) intuições e impressões subjetivas, intangíveis e não demonstráveis de maneira clara e concreta (como aquelas apoiadas exclusivamente no tirocínio policial ou a classificação subjetiva de determinada atitude ou aparência como suspeita, ou de certa reação ou expressão corporal como nervosa, ante a ausência de descrição concreta e precisa, pautada em elementos objetivos), não preenchem o standard probatório exigido. O encontro posterior (descoberta casual) de objetos ilícitos não convalida a busca realizada fora dos parâmetros assinalados para a exigência da fundada suspeita, que deve ser prévia. A violação de tais parâmetros legais resulta na ilicitude das provas obtidas em decorrência da medida (art. 157 do CPP), bem como daquelas que dela decorrerem em relação de causalidade (§ 1º do mesmo dispositivo). No HC n. 774.140/SP, de relatoria do Min. Rogerio Schietti Cruz, decidiu-se que os antecedentes da pessoa, por si sós, não configuram fundamentação idônea para a busca pessoal (grifamos): Descartado esse elemento inidôneo e irrelevante, o simples fato de o acusado ter um antecedente por tráfico (na verdade, uma ação penal ainda em andamento na ocasião, por crime supostamente praticado dois anos antes), por si só, não autorizava a busca pessoal, tampouco a veicular, porquanto desacompanhado de outros indícios concretos de que, naquele momento específico, o réu trazia drogas em suas vestes ou no automóvel. Admitir a validade desse fundamento para, isoladamente, autorizar uma busca pessoal, implicaria, em última análise, permitir que todo indivíduo que um dia teve algum registro criminal na vida seja diuturnamente revistado pelas forças policiais, a ensejar, além da inadmissível prevalência do "Direito Penal do autor" sobre o "Direito Penal do fato", uma espécie de perpetuação da pena restritiva de liberdade, por vezes até antes que ela seja imposta, como na hipótese dos autos, em que o processo existente contra o réu ainda estava em andamento. Isso porque, mesmo depois de cumprida a sanção penal (ou até antes da condenação), todo sentenciado (ou acusado ou investigado) poderia ser eternamente detido e vasculhado, a qualquer momento, para "averiguação" da sua conformidade com o ordenamento jurídico, como se a condenação criminal (no caso, frise-se, a mera existência de ação em andamento) lhe despisse para todo o sempre da presunção de inocência e lhe impingisse uma marca indelével de suspeição. Anoto, ademais, que este colegiado, no HC n. 877.943/MS, de relatoria do Min. Rogerio Schietti Cruz, definiu que não chegam a denotar a fundada suspeita, por si sós, reações sutis como (i) olhar ou desvio de olhar; (ii) levantar ou sentar; (iii) andar ou parar de andar e (iv) mudar a direção ou o passo. Entretanto, no mesmo julgamento, considerou-se que (grifamos): fugir correndo repentinamente ao avistar uma guarnição policial não configura, por si só, flagrante delito, nem algo próximo disso para justificar que se excepcione a garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar. Trata-se, todavia, de conduta intensa e marcante que consiste em fato objetivo - não meramente subjetivo ou intuitivo -, visível, controlável pelo Judiciário e que, embora possa ter outras explicações, no mínimo gera suspeita razoável, amparada em juízo de probabilidade, sobre a posse de objeto que constitua corpo de delito (conceito mais amplo do que situação de flagrante delito). Em outros casos, como no AgRg no HC n. 846.939/SP, com relatoria para o acórdão do Min. Rogerio Schietti Cruz, a evasão do acusado avistado em ponto de tráfico de drogas em posse de uma sacola, ao ver a guarnição policial, também foi apta a considerar ultrapassado o mero subjetivismo e indicativo da existência de fundada suspeita de que a sacola contivesse substâncias entorpecentes e de que o réu estivesse na posse de mais objetos relacionados ao crime. Diante do panorama jurisprudencial atual acerca da matéria, passo à análise do caso concreto. Quanto à questão, o Tribunal a quo assim decidiu, no que interessa ao deslinde da controvérsia (fls. 104/106 - grifamos): No caso concreto, segundo os depoimentos que instruem o auto de prisão em flagrante: os policiais receberam diversas informações de que recebeu notícias anônimas de que o veículo, C4/Pallas, cor preta, placas AMY6G67, estaria sendo utilizado para comercializar drogas na cidade de Marialva, o que motivou a abordagem do veículo do réu em via pública, uma vez que possuía as mesmas características; durante a abordagem e revista, no veículo, foi encontrado uma bucha de cocaína próximo ao câmbio, fato concreto que, aliado as informações prévias que os milicianos possuíam, motivou o prosseguimento da diligência; os policiais tinham, ainda, a informação anônima de que o traficante residia no Condomínio Rubi, ao chegar no referido condomínio o porteiro confirmou que Arieldo ali residia; a entrada foi franqueada pelo proprietário do imóvel, senhorio do réu e, em buscas no interior da residência, localizaram mais uma porção de cocaína (263g), 04 munições de calibre 32 e 100 munições de calibre 09mm (uso permitido) e 260 munições de calibre 5,56 e 01 carregador de rifle (fuzil), essas últimas de uso restrito. Foi encontrada, ainda, uma balança de precisão. É certo que, acerca dos requisitos para a realização da abordagem policial, o e. Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento de que "não satisfazem a exigência legal, por si sós, meras informações de fonte não identificada (e.g. denúncias anônimas) ou intuições e impressões subjetivas, intangíveis e não demonstráveis de maneira clara e concreta, apoiadas, por exemplo, exclusivamente, no tirocínio policial" (STJ, 6ª Turma, AgRg no AREsp nº 2142037, Rel. Min. Olindo Menezes, DJe 30/09/2022). No caso, todavia, resultou preenchida a situação prevista no artigo 244 do Código de Processo Penal, pois a busca pessoal do réu não decorreu, exclusivamente, de informações anônimas e/ou intuição da equipe policial, mas decorreu da fundada suspeita sobre o porte de objeto ilícito, decorrente da conduta de circular com veículo de características assemelhadas, aliado ao fato de ter sido encontrado uma bucha de cocaína no interior do veículo. Em outras palavras, os agentes públicos agiram em conformidade com o disposto no artigo 244 do Código de Processo Penal, na medida em que não realizaram a abordagem do réu de maneira aleatória, mas o fizeram mediante fundadas suspeitas deque havia algo ilícito. E, em busca pessoal, a equipe policial localizou com o ora apelante uma bucha de cocaína e, na residência, mais 263 gramas, além de diversas munições e petrechos de armas de fogo de uso permitido e de uso restrito. Por consequência, também não se há de falar em nulidade das provas obtidas mediante o ingresso dos Policiais na residência do réu, uma vez que é admissível o ingresso no domicílio em hipótese de estado de flagrância. No caso, repita-se, o ingresso dos policiais no imóvel ocorreu porque o réu foi abordado em via pública no veículo descrito pela denúncia anônima e, ao ser revistado foi encontrado o entorpecente no interior do veículo. Além disso, armazenava grande quantidade de entorpecentes e munições de arma de fogo em sua residência, além de balança de precisão. Essas circunstâncias autorizavam não só a abordagem e a busca pessoal no réu, como também o prosseguimento das diligências pela equipe policial, mediante o ingresso no imóvel autorizado pelo proprietário do imóvel (senhorio do réu), para averiguar a presença de ilícitos no local. Em suma, por se tratar de conduta que caracteriza crime permanente - em que o flagrante se prolonga no tempo -, o ingresso dos Policiais Civis no imóvel não pode ser caracterizado como violação de domicílio, especialmente porque havia justa causa para a ação policial (repita-se havia denúncias de que o veículo do réu praticava o tráfico de drogas em Marialva e os agentes públicos flagraram o réu portanto o entorpecente dentro do veículo. E no interior da residência havia mais substância entorpecente proibida e armamento sem registro ou autorização para posse. Ademais, como destacada pelo magistrado prolator da sentença "(..) durante o interrogatório (mov. 136.3), o acusado não manifestou qualquer recusa de acesso dos policiais no imóvel, pelo contrário, referiu que apontou para eles o local que as chaves do apartamento estavam, dentro do veículo C4 Pallas. Logo, a versão apresentada pelos policiais ganha credibilidade quando analisada a versão defensiva. (..)" (mov. 160.1). (..) A existência de justa causa a motivar as investigações e o estado de flagrância em que estava o réu, portanto, autorizavam a ação dos agentes públicos, conforme excepcionalmente prevê o artigo 5º, inciso XI, da Constituição Federal. E, ao contrário do alegado nas razões recursais, o fato de não existir indício de que o apelante possuía "no interior de sua residência arma de fogo e ou munições e que tais bens apenas foram encontrados em razão da entrada em seu domicílio", não vicia a ação policial, nem enseja o reconhecimento da aventada nulidade, uma vez que a descoberta fortuita (serendipidade) de conduta criminosa (no caso, posse ilegal de arma de fogo e munição de uso permitido), durante a realização de diligências para apuração de outros fatos (tráfico de drogas), legitima a apreensão. Portanto, diante da moldura fática fixada nas instâncias ordinárias (cuja modificação é inviável em sede de habeas corpus perante este Tribunal Superior, haja vista a exigência de aprofundado revolvimento fático probatório), tem-se que a busca veicular decorreu de denúncia anônima - fator que, conforme a jurisprudência do STJ, é insuficiente para autorizar a busca pessoal/veicular sem ordem judicial. Frise-se que, diante da informação apócrifa acerca da utilização do veículo para traficância (que, segundo a sentença, era informação já obtida há aproximadamente 04 (quatro) dias - fl. 59), cabia a realização de investigações complementares e a obtenção de mandado judicial ou, no da verificação de elementos robustos, objetivos e configuradores de fundada suspeita, aí sim, a abordagem. Contudo, tão somente a denúncia anônima é insuficiente para tanto. Conforme o leading case acima citado, o encontro a posteriori de uma bucha de cocaína, já no curso da diligência, não a justifica, na medida em que a fundada suspeita deve ocorrer, por óbvio, antes da realização da busca. Por outro lado, a continuidade da diligência, que evoluiu para a busca domiciliar sem ordem judicial, se encontra inquinada pela nulidade da busca veicular e, ademais, não se sustentaria por si só, ainda que este vício em seu nascedouro não tivesse ocorrido. A Sexta Turma desta Corte Superior tem entendido que a constatação de indícios da prática de tráfico de drogas em via pública pelas forças policiais não autoriza, por si só, o ingresso forçado no domicílio do autuado como desdobramento automático do flagrante realizado fora da residência (AgRg no HC n. 773.899/AM, Rel. Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 27/03/2023, DJe de 31/03/2023 - grifamos). A denúncia anônima, por si só, também não autoriza a busca domiciliar: Ademais, consoante entendimento do Supremo Tribunal Federal, a notícia anônima de crime, por si só, não é apta para instaurar inquérito policial; ela pode servir de base válida à investigação e à persecução criminal, desde que haja prévia verificação de sua credibilidade em apurações preliminares, ou seja, desde que haja investigações prévias para verificar a verossimilhança da notitia criminis anônima (v. g., Inq n. 4.633/DF, Rel. Ministro Edson Fachin, 2ª T., DJe 8/6/2018). Assim, com muito mais razão, não há como se admitir que denúncia anônima seja elemento válido para violar franquias constitucionais (à liberdade, ao domicílio, à intimidade). Não por outro motivo, esta Corte tem reiteradamente decidido que "A mera denúncia anônima, desacompanhada de outros elementos preliminares indicativos de crime, não legitima o ingresso de policiais no domicílio indicado, estando, ausente, assim, nessas situações, justa causa para a medida." (HC n. 512.418/RJ, Rel. Ministro Nefi Cordeiro, 6ª T., DJe 3/12/2019). (HC n. 686.445/RS, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 8/3/2022, DJe de 14/3/2022). Como se sabe, este Tribunal, no bojo do HC n. 598.051/SP, rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, fixou a tese de que o ingresso em domicílio exige a comprovação de fundadas razões (justa causa) evidenciadas pelo contexto fático anterior. Na mesma linha, o Tema 280 do Supremo Tribunal Federal, que ancora a licitude da entrada forçada em domicílio em fundadas razões, a serem devidamente justificadas a posteriori. É necessário, conforme a jurisprudência deste sodalício, que o flagrante delito traduza verdadeira urgência, já que a legislação, como é o caso do delito de tráfico de drogas, estabelece inclusive a hipótese de retardamento da ação policial na investigação. Confira-se: HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. FLAGRANTE. DOMICÍLIO COMO EXPRESSÃO DO DIREITO À INTIMIDADE. ASILO INVIOLÁVEL. EXCEÇÕES CONSTITUCIONAIS. INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA. INGRESSO NO DOMICÍLIO. EXIGÊNCIA DE JUSTA CAUSA (FUNDADA SUSPEITA). CONSENTIMENTO DO MORADOR. REQUISITOS DE VALIDADE. ÔNUS ESTATAL DE COMPROVAR A VOLUNTARIEDADE DO CONSENTIMENTO. NECESSIDADE DE DOCUMENTAÇÃO E REGISTRO AUDIOVISUAL DA DILIGÊNCIA. NULIDADE DAS PROVAS OBTIDAS. TEORIA DOS FRUTOS DA ÁRVORE ENVENENADA. PROVA NULA. ABSOLVIÇÃO. ORDEM CONCEDIDA. 1. O art. 5º, XI, da Constituição Federal consagrou o direito fundamental à inviolabilidade do domicílio, ao dispor que "a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial". 1.1 A inviolabilidade de sua morada é uma das expressões do direito à intimidade do indivíduo, o qual, sozinho ou na companhia de seu grupo familiar, espera ter o seu espaço íntimo preservado contra devassas indiscriminadas e arbitrárias, perpetradas sem os cuidados e os limites que a excepcionalidade da ressalva a tal franquia constitucional exige. 1.2. O direito à inviolabilidade de domicílio, dada a sua magnitude e seu relevo, é salvaguardado em diversos catálogos constitucionais de direitos e garantias fundamentais. Célebre, a propósito, a exortação de Conde Chatham, ao dizer que: "O homem mais pobre pode em sua cabana desafiar todas as forças da Coroa. Pode ser frágil, seu telhado pode tremer, o vento pode soprar por ele, a tempestade pode entrar, a chuva pode entrar, mas o Rei da Inglaterra não pode entrar!" ("The poorest man may in his cottage bid defiance to all the forces of the Crown. It may be frail, its roof may shake, the wind may blow through it, the storm may enter, the rain may enter, but the King of England cannot enter!" William Pitt, Earl of Chatham. Speech, March 1763, in Lord Brougham Historical Sketches of Statesmen in the Time of George III First Series (1845) v. 1). 2. O ingresso regular em domicílio alheio, na linha de inúmeros precedentes dos Tribunais Superiores, depende, para sua validade e regularidade, da existência de fundadas razões (justa causa) que sinalizem para a possibilidade de mitigação do direito fundamental em questão. É dizer, apenas quando o contexto fático anterior à invasão permitir a conclusão acerca da ocorrência de crime no interior da residência - cuja urgência em sua cessação demande ação imediata - é que se mostra possível sacrificar o direito à inviolabilidade do domicílio. 2.1. Somente o flagrante delito que traduza verdadeira urgência legitima o ingresso em domicílio alheio, como se infere da própria Lei de Drogas (L. 11.343/2006, art. 53, II) e da Lei 12.850/2013 (art. 8º), que autorizam o retardamento da atuação policial na investigação dos crimes de tráfico de entorpecentes, a denotar que nem sempre o caráter permanente do crime impõe sua interrupção imediata a fim de proteger bem jurídico e evitar danos; é dizer, mesmo diante de situação de flagrância delitiva, a maior segurança e a melhor instrumentalização da investigação - e, no que interessa a este caso, a proteção do direito à inviolabilidade do domicílio - justificam o retardo da cessação da prática delitiva. 2.2. A autorização judicial para a busca domiciliar, mediante mandado, é o caminho mais acertado a tomar, de sorte a se evitarem situações que possam, a depender das circunstâncias, comprometer a licitude da prova e, por sua vez, ensejar possível responsabilização administrativa, civil e penal do agente da segurança pública autor da ilegalidade, além, é claro, da anulação - amiúde irreversível - de todo o processo, em prejuízo da sociedade. 3. O Supremo Tribunal Federal definiu, em repercussão geral (Tema 280), a tese de que: "A entrada forçada em domicílio sem mandado judicial só é lícita, mesmo em período noturno, quando amparada em fundadas razões, devidamente justificadas a posteriori" (RE n. 603.616/RO, Rel. Ministro Gilmar Mendes, DJe 8/10/2010). Em conclusão a seu voto, o relator salientou que a interpretação jurisprudencial sobre o tema precisa evoluir, de sorte a trazer mais segurança tanto para os indivíduos sujeitos a tal medida invasiva quanto para os policiais, que deixariam de assumir o risco de cometer crime de invasão de domicílio ou de abuso de autoridade, principalmente quando a diligência não tiver alcançado o resultado esperado. 4. As circunstâncias que antecederem a violação do domicílio devem evidenciar, de modo satisfatório e objetivo, as fundadas razões que justifiquem tal diligência e a eventual prisão em flagrante do suspeito, as quais, portanto, não podem derivar de simples desconfiança policial, apoiada, v. g., em mera atitude "suspeita", ou na fuga do indivíduo em direção a sua casa diante de uma ronda ostensiva, comportamento que pode ser atribuído a vários motivos, não, necessariamente, o de estar o abordado portando ou comercializando substância entorpecente. (..) 6. Já no que toca ao consentimento do morador para o ingresso em sua residência - uma das hipóteses autorizadas pela Constituição da República para o afastamento da inviolabilidade do domicílio - outros países trilharam caminho judicial mais assertivo, ainda que, como aqui, não haja normatização detalhada nas respectivas Constituições e leis, geralmente limitadas a anunciar o direito à inviolabilidade da intimidade domiciliar e as possíveis autorizações para o ingresso alheio. (..) 7. São frequentes e notórias as notícias de abusos cometidos em operações e diligências policiais, quer em abordagens individuais, quer em intervenções realizadas em comunidades dos grandes centros urbanos. É, portanto, ingenuidade, academicismo e desconexão com a realidade conferir, em tais situações, valor absoluto ao depoimento daqueles que são, precisamente, os apontados responsáveis pelos atos abusivos. E, em um país conhecido por suas práticas autoritárias - não apenas históricas, mas atuais -, a aceitação desse comportamento compromete a necessária aquisição de uma cultura democrática de respeito aos direitos fundamentais de todos, independentemente de posição social, condição financeira, profissão, local da moradia, cor da pele ou raça. 7.1. Ante a ausência de normatização que oriente e regule o ingresso em domicílio alheio, nas hipóteses excepcionais previstas no Texto Maior, há de se aceitar com muita reserva a usual afirmação - como ocorreu no caso ora em julgamento - de que o morador anuiu livremente ao ingresso dos policiais para a busca domiciliar, máxime quando a diligência não é acompanhada de documentação que a imunize contra suspeitas e dúvidas sobre sua legalidade. 7.2. Por isso, avulta de importância que, além da documentação escrita da diligência policial (relatório circunstanciado), seja ela totalmente registrada em vídeo e áudio, de maneira a não deixar dúvidas quanto à legalidade da ação estatal como um todo e, particularmente, quanto ao livre consentimento do morador para o ingresso domiciliar. Semelhante providência resultará na diminuição da criminalidade em geral - pela maior eficácia probatória, bem como pela intimidação a abusos, de um lado, e falsas acusações contra policiais, por outro - e permitirá avaliar se houve, efetivamente, justa causa para o ingresso e, quando indicado ter havido consentimento do morador, se foi ele livremente prestado. (..) 10. A seu turno, as regras de experiência e o senso comum, somadas às peculiaridades do caso concreto, não conferem verossimilhança à afirmação dos agentes castrenses de que o paciente teria autorizado, livre e voluntariamente, o ingresso em seu próprio domicílio, franqueando àqueles a apreensão de drogas e, consequentemente, a formação de prova incriminatória em seu desfavor. 11. Assim, como decorrência da proibição das provas ilícitas por derivação (art. 5º, LVI, da Constituição da República), é nula a prova derivada de conduta ilícita - no caso, a apreensão, após invasão desautorizada da residência do paciente, de 109 g de maconha -, pois evidente o nexo causal entre uma e outra conduta, ou seja, entre a invasão de domicílio (permeada de ilicitude) e a apreensão de drogas. 12. Habeas Corpus concedido, com a anulação da prova decorrente do ingresso desautorizado no domicílio e consequente absolvição do paciente, dando-se ciência do inteiro teor do acórdão aos Presidentes dos Tribunais de Justiça dos Estados e aos Presidentes dos Tribunais Regionais Federais, bem como às Defensorias Públicas dos Estados e da União, ao Procurador-Geral da República e aos Procuradores-Gerais dos Estados, aos Conselhos Nacionais da Justiça e do Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil, ao Conselho Nacional de Direitos Humanos, ao Ministro da Justiça e Segurança Pública e aos Governadores dos Estados e do Distrito Federal, encarecendo a estes últimos que deem conhecimento do teor do julgado a todos os órgãos e agentes da segurança pública federal, estadual e distrital. 13. Estabelece-se o prazo de um ano para permitir o aparelhamento das polícias, treinamento e demais providências necessárias para a adaptação às diretrizes da presente decisão, de modo a, sem prejuízo do exame singular de casos futuros, evitar situações de ilicitude que possam, entre outros efeitos, implicar responsabilidade administrativa, civil e/ou penal do agente estatal. (HC n. 598.051/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 2/3/2021, DJe de 15/3/2021 - grifamos). Na espécie, nada foi indicado, para além da denúncia anônima e da busca veicular (que, como visto, não tem como consectário automático a busca domiciliar), a configurar, nem supostamente, as necessárias fundadas razões e, mais ainda, a urgência para o ingresso forçado em domicílio. Por outro lado, não há notícia de comprovação, nos moldes preconizados pelos precedentes deste Superior Tribunal (por escrito e com gravação audiovisual), do consentimento do morador para o ingresso em domicílio. Esta Corte considera inverossímil a afirmação de que a pessoa, já detida em razão de busca pessoal, submeta-se voluntariamente ao agravamento de sua situação, autorizando a busca domiciliar - diante da existência de constrangimento ambiental/circunstancial. Nesse sentido: 11. Mesmo se ausente coação direta e explícita sobre o acusado, as circunstâncias de ele já haver sido preso em flagrante pelo porte da arma de fogo em via pública e estar detido, sozinho - sem a oportunidade de ser assistido por defesa técnica e sem mínimo esclarecimento sobre seus direitos -, diante de dois policiais armados, poderiam macular a validade de eventual consentimento (caso provado), em virtude da existência de um constrangimento ambiental/circunstancial. Isso porque a prova do consentimento do morador é um requisito necessário, mas não suficiente, por si só, para legitimar a diligência policial, porquanto deve ser assegurado que tal consentimento, além de existente, seja válido, isto é, livre de vícios aptos a afetar a manifestação de vontade. (..) 15. Deveras, retomando a hipótese dos autos, uma vez que o acusado já estava preso por porte de arma de fogo em via pública, sozinho, diante de dois policiais armados, sem a opção de ser assistido por defesa técnica e sem mínimo esclarecimento sobre seus direitos, não é crível que estivesse em plenas condições de prestar livre e válido consentimento para que os agentes de segurança estendessem a diligência com uma varredura especulativa auxiliada por cães farejadores em seu domicílio à procura de drogas, a ponto de lhe impor uma provável condenação de 5 a 15 anos de reclusão, além da pena prevista para o crime do art. 14 do Estatuto do Desarmamento, no qual já havia incorrido. (..) (HC n. 762.932/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 22/11/2022, DJe de 30/11/2022). Quanto à afirmação de que teria havido o consentimento de terceiro, não morador, mas proprietário do imóvel, também não há falar em sua validade, pois a garantia da inviolabilidade não é da propriedade, mas do domicílio - sendo tal exercício e, portanto, garantia, titularizado pelo morador. Confira-se: HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. TRÁFICO ILÍCITO DE DROGAS E POSSE ILEGAL DE ARMAS E MUNIÇÕES. INGRESSO FORÇADO EM DOMICÍLIO. AUSÊNCIA DE FUNDADAS RAZÕES. ILICITUDE DAS PROVAS OBTIDAS. PRECEDENTES. ORDEM CONCEDIDA. 1. O Supremo Tribunal Federal, no Julgamento do Recurso Extraordinário 603.616/RO, apreciando o Tema n. 280 da repercussão geral, de Relatoria do Ministro GILMAR MENDES, firmou a tese de que o ingresso em domicílio sem mandado judicial, tanto durante o dia quanto no período noturno, somente é legítimo se baseado em fundadas razões, devidamente amparadas pelas circunstâncias do caso concreto, que indiquem situação de flagrante no interior da residência. 2. No voto condutor do precedente em exame, o Relator salientou que, "embora do policial que realiza a busca sem mandado judicial não se exige certeza quanto ao sucesso da medida", a "proteção contra a busca arbitrária exige que a diligência seja avaliada com base no que se sabia antes de sua realização, não depois" (RE 603.616, Rel. Ministro GILMAR MENDES, TRIBUNAL PLENO, julgado em 05/11/2015, DJe-093 09/05/2016). 3. No caso, o ingresso forçado na casa onde estava o Acusado não possui fundadas razões, pois está apoiado apenas no fato de que havia denúncia anônima sobre o delito, bem como em razão do comportamento da Corré, que se dirigiu para o interior da residência quando da visualização da viatura. Tais circunstâncias não justificam, por si sós, a dispensa de investigações prévias ou do mandado judicial. 4. A autorização concedida pelo suposto proprietário do imóvel não legitimou a entrada dos policiais na residência onde foram encontradas a droga, a arma e as munições, já que, por meio do contrato de locação, o locador cede o uso do bem para que outra pessoa (o locatário) nele resida. Nesse contexto, tal autorização caberia apenas ao morador do referido imóvel, o que não se verifica na hipótese. 5. Ordem de habeas corpus concedida, a fim de anular as provas obtidas mediante busca e apreensão domiciliar, bem como as provas delas decorrentes e, em consequência, absolver o Paciente das imputações feitas na Ação Penal n. 0027.19.009.442-8. (HC n. 699.233/MG, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 7/6/2022, DJe de 13/6/2022). Diante de tais considerações, inescapável a conclusão de que a descoberta a posteriori decorreu de buscas irregulares, em violação das normas de regência, o que torna imprestável, no caso concreto, a prova ilicitamente obtida e, por conseguinte, todas as dela decorrentes (art. 157, e seu § 1º, do CPP). Ante o exposto, acolhendo o parecer do Ministério Público Federal, concedo a ordem a fim de reconhece r a invalidade das buscas e a consequente ilicitude das provas por tal meio obtidas, bem como de todas as que delas decorreram, a redundar, por ausência completa de prova da materialidade, na necessária absolvição do paciente, com fundamento no art. 386, II, do CPP. Publique-se e intimem-se. EMENTA