REsp 1451162 - ACORDAO
Havendo fundamentação suficiente no acórdão recorrido em conformidade com o art. 93, IX, da CF e com a tese vinculante do Tema n. 339 do STF, não há nulidade por omissão ou deficiência a justificar o prosseguimento do recurso extraordinário; assim, nega-se provimento ao agravo interno e não se admite o recurso...
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- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 26 April 2024
- Procedural Posture
- Agravo Interno No Recurso Extraordinário / Julgamento Colegiado (negado Provimento)
- Outcome
- Negado provimento ao agravo interno; recurso extraordinário não admitido
- Legal Topics
- Fundamentação Das Decisões Judiciais, Tema N. 339 Do STF, Responsabilidade Da FUNAI, Tutela Do Estado Do Índio, Embargos De Declaração, Súmula 568/stj
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Procedural Posture
Agravo Interno No Recurso Extraordinário / Julgamento Colegiado (negado Provimento)
Legal Issues
- 1 suficiência da fundamentação do julgado recorrido (art. 93, IX, CF)
- 2 aplicabilidade do Tema n. 339 do STF
- 3 responsabilidade da FUNAI por cobrança de consumo de energia elétrica em aldeia indígena
Ratio Decidendi
Havendo fundamentação suficiente no acórdão recorrido em conformidade com o art. 93, IX, da CF e com a tese vinculante do Tema n. 339 do STF, não há nulidade por omissão ou deficiência a justificar o prosseguimento do recurso extraordinário; assim, nega-se provimento ao agravo interno e não se admite o recurso extraordinário.
Court Disposition
Negado provimento ao agravo interno; recurso extraordinário não admitido
Orders
- Negar provimento ao agravo interno
- Manter a decisão que negou seguimento ao recurso extraordinário (recurso não admitido)
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da CORTE ESPECIAL do Superior Tribunal de Justiça, em sessão virtual de 17/04/2024 a 23/04/2024, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Francisco Falcão, Nancy Andrighi, João Otávio de Noronha, Humberto Martins, Herman Benjamin, Luis Felipe Salomão, Mauro Campbell Marques, Benedito Gonçalves, Raul Araújo, Maria Isabel Gallotti, Antonio Carlos Ferreira, Ricardo Villas Bôas Cueva e Sebastião Reis Júnior votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento a Sra. Ministra Maria Thereza de Assis Moura. EMENTA AGRAVO INTERNO NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. SUFICIÊNCIA DA FUNDAMENTAÇÃO DO JULGADO RECORRIDO. CONFORMIDADE COM O TEMA N. 339/STF. NEGATIVA DE SEGUIMENTO. 1. "O art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão" (Tema n. 339 do STF, QO no Ag n. 791.292/PE). 2. Existente a fundamentação, entende o Supremo Tribunal Federal que foi respeitado o art. 93, IX, da CF, mesmo que a parte não a repute adequada ou completa, conforme a conclusão firmada no Tema n. 339 do STF, tese de observância obrigatória (CPC, art. 927, III). 3. Agravo interno a que se nega provimento.
RELATÓRIO Trata-se de agravo interno interposto contra a parte da decisão que negou seguimento ao recurso extraordinário, a qual recebeu a seguinte ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. FUNDAMENTAÇÃO DO JULGADO RECORRIDO. SUFICIÊNCIA. TEMA N. 339/STF. CONFORMIDADE. DIREITO CIVIL. COBRANÇA. CONSUMO DE ENERGIA ELÉTRICA EM ALDEIA INDÍGENA. TUTELA LEGAL DA FUNAI. OFENSA REFLEXA À CONSTITUIÇÃO FEDERAL. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. RECURSO NÃO ADMITIDO. A parte agravante sustenta a inaplicabilidade do Tema n. 339 do STF ao caso, uma vez que a fundamentação do acórdão objeto do recurso extraordinário não seria suficiente para resolver todos os pontos controvertidos. Nesse sentido, argumenta que, a despeito da oposição dos embargos de declaração, as teses suscitadas, relevantes ao deslinde da controvérsia, não teriam sido apreciadas pelo c olegiado, o que violaria o art. 93, IX, da CF. Aduz que " .. não foi apreciada omissão quanto ao fundamento do agravo interno de que a decisão embargada partiu da falsa premissa de que seria incontroverso que a FUNAI não teria pedido a ligação da energia elétrica" (fl. 821). Afirma silêncio, também, quanto ao disposto no art. 20 da Portaria DNAEE n. 466/1997 e à deficiência de fundamentação da pretensão da FUNAI. Requer o provimento do agravo para que o recurso extraordinário seja admitido e remetido ao Supremo Tribunal Federal. As contrarrazões foram apresentadas. É o relatório. EMENTA AGRAVO INTERNO NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. SUFICIÊNCIA DA FUNDAMENTAÇÃO DO JULGADO RECORRIDO. CONFORMIDADE COM O TEMA N. 339/STF. NEGATIVA DE SEGUIMENTO. 1. "O art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão" (Tema n. 339 do STF, QO no Ag n. 791.292/PE). 2. Existente a fundamentação, entende o Supremo Tribunal Federal que foi respeitado o art. 93, IX, da CF, mesmo que a parte não a repute adequada ou completa, conforme a conclusão firmada no Tema n. 339 do STF, tese de observância obrigatória (CPC, art. 927, III). 3. Agravo interno a que se nega provimento. VOTO Quanto à questão da adequada fundamentação das decisões judiciais, o STF, ao apreciar o Tema n. 339 de repercussão geral, firmou a seguinte tese vinculante: "O art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas." O respectivo acórdão recebeu a ementa que segue transcrita: Questão de ordem. Agravo de Instrumento. Conversão em recurso extraordinário (CPC, art. 544, §§ 3º e 4º). 2. Alegação de ofensa aos incisos XXXV e LX do art. 5º e ao inciso IX do art. 93 da Constituição Federal. Inocorrência. 3. O art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão. 4. Questão de ordem acolhida para reconhecer a repercussão geral, reafirmar a jurisprudência do Tribunal, negar provimento ao recurso e autorizar a adoção dos procedimentos relacionados à repercussão geral. (AI n. 791.292-QO-RG, relator Ministro Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 23/6/2010, DJe de 13/8/2010.) Nessa linha, a existência de motivação suficiente para o deslinde da causa afasta a ocorrência de nulidade do provimento questionado, a despeito de a parte recorrente reputar as razões de decidir incorretas, incompletas ou demasiadamente sucintas. No caso, foram declinados, de forma suficiente, os motivos da compreensão adotada no julgado recorrido, consoante se observa na seguinte transcrição: 1. Discute-se nos autos a responsabilização da FUNAI pelo pagamento do consumo de energia elétrica aferido na comunidade indígena de Tinqui Boto, na unidade consumidora 320167-8. .. 3. Em que pese ao regime de tutela a ser exercido pela UNIÃO, por intermédio da FUNAI, é necessário diferenciar a responsabilidade civil exercida por esta Fundação da responsabilidade contratual invocada pela autora para justificar a inserção da ora recorrente no polo passivo, a fim de cobrar diretamente dela o pagamento pela energia elétrica supostamente consumida nas comunidades indígenas da região. 4. A responsabilidade contratual deriva da vontade dos contraentes, manifestada na assinatura do instrumento formalizador do ajuste, estabelecendo obrigações mútuas que, se descumpridas, geram o chamado ilícito contratual, assumindo aquele que não executou a obrigação o dever de reparar o dano. Demanda, portanto, a manifestação de vontade daquele que, diante do descumprimento da obrigação contratual, será acionado para adimplir com a responsabilidade. 5. Na espécie, não há vínculo da FUNAI com o consumo de energia elétrica na região, sendo fato incontroverso nos autos não ter ela postulado a instalação da unidade consumidora no local da comunidade indígena de Tinqui Boto. Do mesmo modo, não há disposição expressa em lei estabelecendo essa relação obrigacional, a qual não pode ser presumida. 6. O que embasa a fundamentação do acórdão recorrido é a suposta tutela legal que a Fundação exerceria sobre a comunidade indígena, a qual, salvo melhor juízo, não foi recepcionada pela atual ordem constitucional. Isso porque a CF/1988 consagrou o Principio da alteridade, cujo corolário principal é o direito à diferença, implicando no dever de o Estado respeitar as peculiaridades de cada grupo social, ao mesmo tempo em que o impede de compeli-los a alterar seu modo de vida e visão de mundo. 7. Com esteio nessa diretriz, o art. 231 da CF/1988 reconhece aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições. Por sua vez, o disposto no artigo 232 da Constituição Federal prescreve que uma das consequências do reconhecimento do direito à diferença é a possibilidade de os indígenas serem partes legitimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses. Dessume-se, portanto, a não recepção do instituto da tutela estabelecida no Estatuto do Índio, visto que, ao prever essa legitimidade, foi reconhecida aos indígenas também a capacidade para o exercício de direitos e assunção de deveres. Da mesma maneira, foram apresentados fundamentos para a rejeição dos embargos de declaração opostos na sequência, o que vale repisar: O acórdão embargado decidiu a controvérsia negando provimento ao agravo interno para manter o entendimento do STJ de que a tutela orfanológica do Estado do Índio não foi recepcionada pela ordem constitucional vigente, de forma a isentar a FUNAI da responsabilidade patrimonial, como no caso em questão, da cobrança por fornecimento de energia elétrica. Nesse passo, constato que não há se falar em vício de omissão, obscuridade ou contradição no acórdão ora embargado, visto que se manifestou satisfatoriamente sobre todos os aspectos fáticos e jurídicos relevantes e inerentes à controvérsia instaurada. A bem da verdade, em estudo das razões dos embargos, verifico nítido propósito de rediscussão do mérito da causa por via transversa, uma vez que a parte aduz argumentação no sentido de reverter o entendimento assentado no acórdão embargado, mediante alegação de suposta inexistência de jurisprudência consolidada no STJ sobre o tema em debate, fundamentação deficiente do recurso da parte contrária e suposto não exame da hipótese em sua completude, sobretudo questões de ordem fática. Friso que o contraponto aos argumentos das partes não demanda a citação literal de suas palavras ou dos mesmos dispositivos legais (ou de todos), bastando que haja fundamentação fática e jurídica coerente e adstrita ao debate dos autos. Quanto à alegação de impossibilidade de incidência da Súmula 568/STJ, saliento a jurisprudência consolidada nesta Corte no sentido de que " o julgamento monocrático do recurso especial não constitui ofensa ao princípio da colegialidade, sobretudo porque, conforme a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, com a interposição de agravo regimental, torna-se superada a alegação de violação ao referido postulado, tendo em vista a devolução da matéria recursal ao órgão julgador competente" (AgRg no REsp 1.571.787/MG, relator Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, julgado em 10/5/2016, DJe de 20/5/2016). .. Assim sendo, concluo ser desnecessário, portanto, complemento algum à fundamentação assentada pelo acórdão embargado ante a ausência de máculas na prestação jurisdicional, razão pela qual não cogito de contrariedade ao art. 1.022 do CPC. Com efeito, demonstrada a realização da prestação jurisdicional constitucionalmente adequada, ainda quando não se concorde com a solução dada à causa, afigura-se inviável o prosseguimento do recurso extraordinário, pois o provimento recorrido encontra-se em sintonia com a tese fixada no Tema n. 339 do STF, de observância obrigatória (CPC, art. 927, III). Ante o exposto, nego provimento ao agravo interno. Advirto que a formalização de embargos de declaração com intuito manifestamente protelatório poderá ser sancionada com a multa prevista no art. 1.026, § 2º, do Código de Processo Civil. É como voto.