AREsp 2602828 - DECISAO
Na ausência de exame pericial e sem demonstração nos autos de quaisquer das excepcionalidades que autorizariam a sua substituição por outros meios, a qualificadora do rompimento de obstáculo deve ser afastada, nos termos da jurisprudência da Sexta Turma do STJ, procedendo-se à nova dosimetria da pena que foi...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: JOÃO PEREIRA VIANA; Tribunal a Quo: Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios; Interveniente: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 30 August 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão Em Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial para afastar a qualificadora do rompimento de obstáculos e redimensionar a pena.
- Legal Topics
- Furto, Qualificadora De Rompimento De Obstáculo, Prova Pericial, Dosimetria Da Pena, Recurso Especial
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
JOÃO PEREIRA VIANA
Recorrente
Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
Tribunal a Quo
Ministério Público Federal
Interveniente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão Em Recurso Especial
Legal Issues
- 1 necessidade de laudo pericial para comprovação da qualificadora de rompimento de obstáculo
- 2 possibilidade de desclassificação do crime para furto simples na ausência de perícia
- 3 valoração da prova oral em face da ausência de exame pericial
Ratio Decidendi
Na ausência de exame pericial e sem demonstração nos autos de quaisquer das excepcionalidades que autorizariam a sua substituição por outros meios, a qualificadora do rompimento de obstáculo deve ser afastada, nos termos da jurisprudência da Sexta Turma do STJ, procedendo-se à nova dosimetria da pena que foi reduzida para 1 ano e 2 meses de reclusão, mais 11 dias-multa.
Court Disposition
Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial para afastar a qualificadora do rompimento de obstáculos e redimensionar a pena.
Orders
- Afastar a qualificadora do rompimento de obstáculos
- Redimensionar a pena para 1 ano e 2 meses de reclusão, mais 11 dias-multa
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO JOÃO PEREIRA VIANA interpõe recurso especial, fundado no art. 105, III, "a", da Constituição Federal, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios na Apelação Criminal n. 0704318-11.2022.8.07.0012. Nesta oportunidade, a defesa sustenta a violação dos arts. 155, § 4º, I, do Código Penal e 158 do Código de Processo Penal. Para tanto, alega a ausência de laudo pericial para a comprovação da qualificadora do rompimento de obstáculo e pretende a desclassificação da conduta para furto simples. O recurso especial foi inadmitido no Juízo prévio de admissibilidade realizado pelo Tribunal a quo, o que ensejou a interposição deste agravo. O Ministério Público Federal, em seu parecer, opinou pelo não provimento do agravo. Decido. O agravo é tempestivo e infirmou os fundamentos da decisão agravada. O especial, por sua vez, suplanta o juízo de prelibação, haja vista a ocorrência do necessário prequestionamento, além de estarem presentes os demais pressupostos de admissibilidade (cabimento, legitimidade, interesse, inexistência de fato impeditivo, tempestividade e regularidade formal), motivos pelos quais avanço na análise de mérito da controvérsia. Consta dos autos que o réu foi condenado, pela prática do delito tipificado no art. 155, § 4º, I, do Código Penal, à pena de 2 anos e 4 meses de reclusão, em regime semiaberto, mais multa. Sobre a configuração da qualificadora, ficou registrado na sentença que, "apesar da negativa do acusado e da inexistência de perícia no local, a qualificadora da prática do crime mediante rompimento de obstáculo merece ser aplicada, notadamente porque o fato foi confirmado em juízo pela vítima e pelo policial" (fl. 166). O Juiz de primeiro grau ressaltou, ainda, que "a demonstração de arrombamento de cadeado, no caso dos autos, não exige conhecimento técnico, sendo prescindível a prova pericial" (fl. 167). O Tribunal estadual manteve a incidência da qualificadora, pois, "embora o réu tenha confessado a prática do crime apenas na modalidade simples (confessou o furto, mas negou o arrombamento) e a prova técnica para a constatação do rompimento de obstáculo não tenha sido realizada, as provas orais produzidas são suficientes, nos termos do art. 167 do CPP, para a constatação do rompimento do cadeado do imóvel" (fl. 241). A respeito do tema, registro que, no julgamento do REsp n. 1.320.298/MG, ocorrido no dia 15/12/2015, a Sexta Turma desta Corte Superior examinou a possibilidade de, em razão das particularidades do caso concreto e em respeito ao sistema de livre apreciação da prova, reconhecer a incidência da qualificadora da escalada nos delitos de furto quando sua ocorrência for incontroversa nas provas colhidas nos autos, a despeito da ausência de laudo pericial que a ateste. Na oportunidade, empreendi análise mais aprofundada do tema, com proposta de modificação de entendimento predominante na Corte. Porém, levado referido recurso a julgamento, meu voto não foi acolhido pela Sexta Turma, ficando como relator para o acórdão o Ministro Nefi Cordeiro, que consignou o entendimento da maioria sob a seguinte ementa: .. 1. Consoante orientação jurisprudencial desta Corte, o reconhecimento da qualificadora da escalada, prevista no art. 155, § 4º, II, do Código Penal, exige a realização de exame pericial, o qual somente pode ser substituído por outros meios probatórios quando inexistirem vestígios, o corpo de delito houver desaparecido ou as circunstâncias do crime não permitirem a confecção do laudo. 2. Recurso provido para afastar a qualificadora da escalada da condenação do recorrente pelo delito de furto. (REsp n. 1.320.298/MG, Rel. Ministro Rogerio Schietti, Rel. p/ acórdão Ministro Nefi Cordeiro, 6ª T., DJe 23/2/2016) Com relação à qualificadora do rompimento de obstáculo, a Sexta Turma deste Tribunal Superior também conclui pela imprescindibilidade, em regra, da sua comprovação por laudo pericial, admitida, excepcionalmente, a realização de exame indireto ou a sua complementação por outros meios de prova, quando não subsistirem os vestígios materiais ou não forem suficientes para a confecção do laudo. A partir de então, com a ressalva de meu entendimento pessoal, aderi ao entendimento da Sexta Turma, para reconhecer, como regra, a imprescindibilidade da realização de exame pericial para constatação do rompimento de obstáculo. Na hipótese dos autos é incontroverso que não foi realizado exame pericial para atestar o rompimento do obstáculo e as instâncias ordinárias não demonstraram nenhuma excepcionalidade que justificasse a sua ausência. Assim, deve ser afastada a referida qualificadora. Passo, portanto, à nova dosimetria da pena. Considerando os critérios adotados pelas instâncias antecedentes, verifico que a pena-base foi fixada em 1/6 acima do mínimo, pela culpabilidade. Assim, na primeira etapa, a pena passa a ser de 1 ano e 2 meses de reclusão. Na segunda fase, a pena permaneceu inalterada, uma vez que compensadas a confissão espontânea e a reincidência, o que a torna definitivamente estabelecida em 1 ano e 2 meses de reclusão, mais 11 dias-multa, ante a ausência de causas de aumento e de diminuição. À vista do exposto, com fundamento no art. 932, VIII, do CPC, c/c o art. 253, parágrafo único, II, "c", parte final, do RISTJ, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, a fim de afastar a qualificadora do rompimento de obstáculos, redimensionando a pena para 1 ano e 2 meses de reclusão, mais 11 dias-multa. Publique-se e intimem-se. EMENTA