HC 1023422 - DECISAO
Não se verifica manifesta ilegalidade apta a justificar concessão de ofício porque o valor dos bens furtados (R$ 186,51) ultrapassa 10% do salário-mínimo vigente, a restituição não é suficiente para reconhecer insignificância, não há laudo de avaliação que comprove pequena monta, o crime impossível não se configura...
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- Parties
- Paciente: JOAO VITOR TORRES DA SILVA; Órgão Prolator Do Acórdão: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 07 August 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Liminar Indeferida
- Outcome
- indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus
- Legal Topics
- Furto Qualificado, Princípio Da Insignificância, Crime Impossível, Habeas Corpus Substitutivo De Recurso, Restituição De Bens, Valor Da Res, Súmula 567 Do STJ, Tema Repetitivo N. 1.205
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Parties
JOAO VITOR TORRES DA SILVA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Órgão Prolator Do Acórdão
Procedural Posture
Habeas Corpus / Liminar Indeferida
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da insignificância ao furto de bens avaliados em R$ 186,51
- 2 Configuração de crime impossível diante de vigilância no local
- 3 Possibilidade de Habeas Corpus como substitutivo de recurso ordinário
Ratio Decidendi
Não se verifica manifesta ilegalidade apta a justificar concessão de ofício porque o valor dos bens furtados (R$ 186,51) ultrapassa 10% do salário-mínimo vigente, a restituição não é suficiente para reconhecer insignificância, não há laudo de avaliação que comprove pequena monta, o crime impossível não se configura e o Habeas Corpus não pode substituir recurso ordinário sem teratologia; assim, a liminar é indeferida.
Court Disposition
indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus
Orders
- Indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus.
- Cientifique-se o Ministério Público Federal.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de Habeas Corpus impetrado em favor de JOAO VITOR TORRES DA SILVA em que se aponta como ato coator o acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO assim ementado: EMENTA: DIREITO PENAL. APELAÇÃO. FURTO QUALIFICADO. RECURSO DESPROVIDO. I. Caso em Exame 1. João Vítor Torres da Silva foi condenado por furto qualificado, em concurso de pessoas, de mercadorias avaliadas em R$ 186,51, subtraídas de um hipermercado durante calamidade pública. A defesa busca absolvição com base na insignificância ou crime impossível. II. Questão em Discussão 2. A questão em discussão consiste em (i) a aplicação do princípio da insignificância, considerando o valor dos bens subtraídos, e (ii) a possibilidade de reconhecimento do crime impossível devido à vigilância no local. III. Razões de Decidir 3. A materialidade e autoria do delito estão comprovadas por documentos e depoimentos, não havendo espaço para absolvição por falta de provas. 4. O princípio da insignificância não se aplica, pois o valor dos bens excede 10% do salário-mínimo vigente, e a conduta apresenta significativa reprovabilidade e periculosidade. 5. O crime impossível não se configura, conforme Súmula 567 do STJ, pois a vigilância não impede a consumação do furto. IV. Dispositivo e Tese 5. Recurso desprovido. Tese de julgamento: 1. A restituição imediata dos bens furtados não justifica a aplicação do princípio da insignificância. 2. A vigilância no local não torna impossível a configuração do crime de furto. Consta dos autos que o paciente foi condenado à pena de 10 (dez) dias-multa, no valor unitário mínimo legal, pela prática do delito capitulado no art. 155, § 4º, IV, do Código Penal. Em suas razões, sustenta a impetrante a ocorrência de constrangimento ilegal, porquanto deixou de ser reconhecida a atipicidade material da conduta em razão do princípio da insignificância, mesmo estando presentes os requisitos para a sua aplicação. Aduz, ainda, que a subtração de bens avaliados em R$ 186,51(cento e oitenta e seis reais e cinquenta e um centavos) de um grande hipermercado representa uma lesão patrimonial de impacto irrisório, e que os bens foram integralmente restituídos à vítima, minimizando o dano. Destaca que o paciente é portador de predicados pessoais favoráveis, não possui histórico de envolvimento em atividades criminosas e sua participação não denota periculosidade intrínseca ou comportamento socialmente reprovável em grau elevado. Requer, em suma, liminarmente, a manutenção da liberdade do paciente, e no mérito, sua absolvição. É o relatório. Decido. A Terceira Seção do STJ, no julgamento do HC n. 535.063/SP, firmou o entendimento de que não cabe Habeas Corpus substitutivo de recurso próprio, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada alguma teratologia no ato judicial impugnado (Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, DJe de 25.8.2020). Assim, passo à análise das razões da impetração a fim de verificar se há flagrante ilegalidade que justifique a concessão do writ de ofício. Na espécie, consta do Voto condutor do acórdão impugnado a seguinte fundamentação para afastar a aplicação do princípio da insignificância: Outrossim, para ser aplicado o princípio da insignificância, deve ser observada a mínima ofensividade da conduta do agente, nenhuma periculosidade social da ação, o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento ou a inexpressividade da lesão jurídica provocada, o que não se demonstra no caso em análise, uma vez a res (R$ 186,51) não é considerada de pequeno valor por ultrapassar a 10% do salário-mínimo vigente à época dos fatos, consoante copiosa jurisprudência (fl. 20). Segundo entendimento firmado pela Terceira Seção do STJ a aplicação do princípio da insignificância exige o preenchimento de quatro condições, a saber: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a ausência de periculosidade social na ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e; d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. Por outro lado, segundo a jurisprudência firmada nesta Corte, o princípio da bagatela pode ser afastado quando: a) o valor da res furtiva for superior a 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos, independentemente da condição financeira da vítima; b) houver reiteração ou habitualidade no cometimento de crimes de natureza patrimonial ou maus antecedentes criminais por crimes de outra natureza, podendo ser consideradas ações penais em curso para caracterizar a habitualidade delitiva; e c) o crime for de furto qualificado. Nesse sentido, vale citar os seguintes julgados: AgRg no HC n. 926.575/DF, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 10.10.2024; AgRg no HC n. 882.046/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 3.10.2024; AgRg no HC n. 925.508/MG, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 25.9.2024; AgRg no HC n. 933.248/MS, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 24.9.2024; AgRg no HC n. 925.164/DF, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe de 20.9.2024; AgRg no HC n. 835.749/RJ, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 18.9.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024; AgRg no HC n. 921.477/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no HC n. 918.551/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no RHC n. 179.378/SP, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de 4.9.2024; AgRg no HC n. 867.178/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 27.8.2024; AgRg no HC n. 881.822/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 3.7.2024; AgRg no RHC n. 185.973/PR, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 18.4.2024; AgRg no HC n. 811.161/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 23.8.2023; AgRg no AREsp n. 2.258.620/RS, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Sexta Turma, DJe de 15/12/2023; AgRg no HC n. 744.150/SP, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 9.3.2023. Além disso, segundo entendimento sedimentado no julgamento do Tema Repetitivo n. 1.205, "a restituição imediata e integral do bem furtado não constitui, por si só, motivo suficiente para a incidência do princípio da insignificância". Por fim, inexistente laudo de avaliação, torna-se impossível verificar se os bens furtados eram de pequena monta, requisito indispensável para a aferição da expressividade ou não da lesão jurídica provocada e, consequentemente, para a aplicação do princípio da insignificância (AgRg no HC n. 899.516/SC, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 10.6.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024). Nessa linha, o julgado impugnado não diverge da jurisprudência do STJ, no tocante à aplicação do princípio da insignificância, porque o valor do bem ultrapassa 10% do salário mínimo. Por outro, para modificar o entendimento do tribunal de origem sobre o valor da res furtiva seria necessário o revolvimento fático-probatório, inviável na via estreita do Habeas Corpus. Conclui-se, assim, que no caso em análise não há manifesta ilegalidade a ensejar a concessão da ordem de ofício. Ante o exposto, com fundamento no art. 21-E, IV, c/c o art. 210, ambos do RISTJ, indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA