HC 1051972 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus por inadequação da via recursal diante de decisão já transitada em julgado, mas, de ofício, concedo a ordem para afastar a obrigação de reparar os danos no valor mínimo fixado na sentença, pois a imposição de indenização mínima exige pedido expresso na denúncia, indicação de valor e...
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- Parties
- Paciente: EVELINE DE ABREU SILVA; Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (Apelação n. 0018604-93.2022.8.19.0014)
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 30 January 2026
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Pelo Superior Tribunal De Justiça Habeas Corpus Não Conhecido E Ordem Parcialmente Concedida
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem, de ofício, para afastar a obrigação de reparar os danos causados pela infração no valor mínimo de R$ 50.000,00.
- Legal Topics
- Furto Qualificado (art. 155, § 4º, II, Cp), Dosimetria Da Pena, Culpabilidade, Fixação De Indenização Mínima, Exigência De Pedido Expresso Na Denúncia (art. 387, IV, Cpp), Adequação Do Habeas Corpus
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Parties
EVELINE DE ABREU SILVA
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (Apelação n. 0018604-93.2022.8.19.0014)
Recorrido
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Pelo Superior Tribunal De Justiça Habeas Corpus Não Conhecido E Ordem Parcialmente Concedida
Legal Issues
- 1 Possibilidade de utilização do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio após trânsito em julgado
- 2 Validade da negativação da vetorial culpabilidade baseada em comportamento dissimulado posterior ao fato
- 3 Exigência de pedido expresso, indicação de valor e instrução específica para fixação de indenização mínima (art. 387, IV, CPP)
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus por inadequação da via recursal diante de decisão já transitada em julgado, mas, de ofício, concedo a ordem para afastar a obrigação de reparar os danos no valor mínimo fixado na sentença, pois a imposição de indenização mínima exige pedido expresso na denúncia, indicação de valor e instrução específica, requisitos ausentes nos autos; manteve-se, por sua vez, a negativação da culpabilidade por estar fundada em motivo idôneo (atuação dissimulada).
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem, de ofício, para afastar a obrigação de reparar os danos causados pela infração no valor mínimo de R$ 50.000,00.
Orders
- Não conhecer do habeas corpus.
- Conceder a ordem para afastar a obrigação de reparar os danos no valor mínimo de R$ 50.000,00.
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de EVELINE DE ABREU SILVA contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (Apelação n. 0018604-93.2022.8.19.0014). Consta dos autos que a paciente foi condenada, em primeiro grau de jurisdição, às penas de 3 anos de reclusão, em regime aberto, e 10 dias-multa, além da obrigação de indenizar a vítima no valor mínimo de R$ 55.000,00, sendo a pena privativa de liberdade substituída por restritivas de direitos, pela prática do crime previsto no art. 155, § 4º, inciso II, do Código Penal (e-STJ fls. 41/43). Irresignada, a defesa interpôs recurso de apelação, o qual foi desprovido (e-STJ fls. 12/22). No presente mandamus (e-STJ fls. 3/11), a impetrante sustenta que o Tribunal a quo impôs constrangimento ilegal à paciente, pois manteve sentença que negativou a vetorial culpabilidade, no exame das circunstâncias judiciais, sem fundamentação idônea. Aduz que a dissimulação posterior à prática delitiva, consistente na "ajuda" prestada à vítima no ato de procurar as coisas subtraídas não pode acarretar incremento na pena, posto que se trata de fato posterior à conduta criminosa e no exercício da autodefesa. Além disso, impugna o estabelecimento do valor mínimo de R$ 55.000,00 para a reparação dos danos causados pela infração. No ponto, alega que não consta da denúncia requerimento nesse sentido, o que impossibilitou o pleno exercício do contraditório e ampla defesa. Ao final, pede a concessão da ordem para que a pena-base da paciente seja reduzida e a exclusão da obrigação de reparar os danos causados pela infração no valor mínimo de R$ 55.000,00. O pedido liminar foi indeferido (e-STJ fls. 51/52). As informações foram prestadas às e-STJ fls. 62/66 e 72/83. O Ministério Público Federal, por meio do parecer exarado às e-STJ fls. 85/88, opinou pelo não conhecimento do writ, conforme a seguinte ementa: PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO. ACÓRDÃO TRANSITADO EM JULGADO. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. 1. O habeas corpus não deve ser conhecido, porque não é a via adequada para rediscussão da ação penal quando o processo ordinário já transitou em julgado e estão ausentes flagrante ilegalidade, nulidade absoluta ou teratologia a serem sanadas. 2. No caso, trata-se de condenação definitiva, por isso o habeas corpus foi utilizado como sucedâneo de revisão criminal. Como não há nessa Corte, julgamento de mérito passível de revisão em relação à condenação sofrida pelo Paciente, forçoso reconhecer a incompetência do Superior Tribunal de Justiça para o processamento do presente pedido. - Parecer pelo não conhecimento do habeas corpus. É o relatório. Decido. Inicialmente, o Superior Tribunal de Justiça, seguindo o entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, como forma de racionalizar o emprego do habeas corpus e prestigiar o sistema recursal, não admite a sua impetração em substituição ao recurso próprio. Cumpre analisar, contudo, em cada caso, a existência de ameaça ou coação à liberdade de locomoção da paciente, em razão de manifesta ilegalidade, abuso de poder ou teratologia na decisão impugnada, a ensejar a concessão da ordem de ofício. Nesse sentido, a título de exemplo, confiram-se os seguintes precedentes: STF, HC n. 113.890/SP, Relatora Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 3/12/2013, publicado em 28/2/2014; STJ, HC n. 287.417/MS, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 20/3/2014, DJe 10/4/2014; e STJ, HC n. 283.802/SP, Relatora Ministra LAURITA VAZ, Quinta Turma, julgado em 26/8/2014, DJe 4/9/2014. Na espécie, embora a impetrante não tenha adotado a via processual adequada, para que não haja prejuízo à defesa da paciente, passo à análise da pretensão formulada na inicial, a fim de verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. Busca-se, em síntese, a neutralização da vetorial culpabilidade, no exame das circunstâncias judiciais, e a exclusão da obrigação de reparar os danos causados pela infração. Como é cediço, a dosimetria da pena insere-se dentro de um juízo de discricionariedade do julgador, atrelado às particularidades fáticas do caso concreto e subjetivas do agente, somente passível de revisão por esta Corte no caso de inobservância dos parâmetros legais ou de flagrante desproporcionalidade. No caso, segue a motivação apresentada pelo Tribunal a quo para manter o desvalor atribuído à vetorial culpabilidade, no exame das circunstâncias judiciais (e-STJ fls. 19/20): 11. Primeiramente, insta destacar que a fixação da pena imposta se insere em juízo de discricionariedade regrada do julgador, vinculado às particularidades fáticas do caso concreto e subjetivas do agente, somente passível de revisão em caso de inobservância dos parâmetros legais ou de evidente desproporcionalidade. 12. Nesse sentido, apenas terá cabimento a aplicação da pena- base no patamar mínimo legal, se todas as circunstâncias judiciais previstas no artigo 59 do Código Penal, forem favoráveis ao sentenciado, o que, evidentemente, não retrata a realidade deste processo. 13. No presente, o magistrado sentenciante, de forma fundamentada e em conformidade com os princípios da razoabilidade e da individualização da pena, aumentou a pena-base em um ano e seis meses após reconhecer como negativas a culpabilidade e as consequências do crime. 14. Assim sendo, considerou que a apelante teve elevada culpabilidade ao agir de forma dissimulada com a vítima, levando-a a crer que "a ajudaria a procurar as joias, quando na verdade já sabia que elas jamais seriam encontradas pois as havia furtado e revendido". Extrai-se da transcrição supra que o exame negativo da culpabilidade da paciente possui assento em fundamento idôneo. Com efeito, logo após a subtração, a paciente agiu de forma dissimulada com o fim de desviar a atenção para a verdadeira autoria do delito, o que efetivamente denota maior reprovabilidade e enseja a negativação da vetorial culpabilidade. Nesse sentido: PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. TRÁFICO DE DROGAS E POSSE IRREGULAR DE ARMA DE FOGO DE USO PERMITIDO. PENA- BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. POSSIBILIDADE. BIS IN IDEM. INOCORRÊNCIA. CONFISSÃO ESPONTÂNEA. ATENUANTE GENÉRICA NÃO CONFIGURADA. .. 3. Ademais, a atuação dissimulada do agente também foi considerada para a culpabilidade desfavorável do paciente, imprimindo maior reprovabilidade a sua conduta. 4. A autoria do delito restou configurada pelo quadro fático apresentado, não havendo o magistrado se utilizado das manifestações do paciente para firmar seu convencimento quanto ao crime tipificado no art. 12 da Lei n. 10.826/2003. 5. Habeas corpus não conhecido. (HC n. 274.078/MG, relator Ministro Gurgel de Faria, Quinta Turma, julgado em 16/4/2015, DJe de 28/4/2015.) Por outro lado, procede o inconformismo da defesa em relação ao estabelecimento da obrigação de reparar os danos causados pela infração no valor mínimo de R$ 55.000,00, pois não consta da denúncia ofertada pelo Ministério Público estadual nenhum pedido de reparação dos danos causados pela infração (e-STJ fls. 23/25). Com efeito, é firme o entendimento desta Corte no sentido de que o estabelecimento da obrigação de reparar o dano causado pela infração, conforme prevê o art. 387, inciso IV, do Código de Processo Penal, pressupõe pedido expresso na denúncia, a indicação de valor mínimo para a reparação e instrução específica, a fim de viabilizar o exercício do do contraditório e da ampla defesa. A propósito: DIREITO PENAL E PROCESSO PENAL. RECURSO ESPECIAL. LESÃO CORPORAL CULPOSA NA CONDUÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR. CONDENAÇÃO À REPARAÇÃO MÍNIMA DOS DANOS. ART. 387, IV, DO CPP. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DO VALOR PRETENDIDO NA DENÚNCIA. VIOLAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DO SISTEMA ACUSATÓRIO. PRECEDENTES DA TERCEIRA SEÇÃO. RECURSO PROVIDO. .. 4. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de que a fixação de valor mínimo para indenização à vítima pelos danos materiais causados pela infração reclama pedido expresso na inicial, indicação do valor pretendido e realização de instrução específica a respeito do tema. Quanto aos danos morais, são exigidos o pedido expresso e a indicação do valor pretendido na inicial acusatória, garantindo, assim, o contraditório e a ampla defesa. .. IV. Dispositivo e tese 6. Recurso provido. .. (REsp n. 2.185.737/DF, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 20/8/2025, DJEN de 25/8/2025.) DIREITO PROCESSUAL PENAL. RECURSO ESPECIAL. CRIME DE ROUBO MAJORADO. FIXAÇÃO DE VALOR MÍNIMO DE REPARAÇÃO. ARTIGO 387, IV, DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. NECESSIDADE DE PEDIDO LÍQUIDO E CERTO NA DENÚNCIA E DE INSTRUÇÃO PROBATÓRIA ESPECÍFICA. REQUISITOS NÃO PREENCHIDOS. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. .. 5. A fixação de valor mínimo para reparação dos danos requer pedido expresso, indicação de valor e prova suficiente, possibilitando ao réu o direito de defesa e produção de contraprova. O pedido genérico de reparação dos danos não atende ao comando legal. 6. A ausência de pedido líquido e de instrução probatória específica impedem a fixação de indenização mínima, sob pena de cerceamento de defesa. Isso quer dizer que o acórdão recorrido está em linha com a jurisprudência dessa Corte de Justiça e que não houve violação ao art. 387, IV, do Código de Processo Penal. .. 8. Recurso especial desprovido. (REsp n. 2.091.527/PI, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 18/2/2025, DJEN de 25/2/2025.) Nesse contexto, impõe-se a exclusão da obrigação de indenizar a vítima no valor mínimo de R$ 55.000,00. Ante o exposto, com base no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do STJ, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem, de ofício, para afastar a obrigação de reparar os danos causados pela infração, no valor mínimo de R$ 50.000,00, fixados na sentença. Intimem-se. EMENTA