HC 929715 - DECISAO
Ainda que, em regra, não se conheça de habeas corpus que substitua via recursal, constatou-se ilegalidade flagrante na fixação do regime inicial fechado para a pena de reclusão de 1 ano e 8 meses, por ser desproporcional ao quantum específico dessa pena; assim, concedeu-se, de ofício, a ordem para abrandar o regime...
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- Parties
- Paciente: CLEVERTON ADILSON AGAPIO ISRAEL; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA; Interveniente: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 15 August 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Do Relator
- Outcome
- Não conheço do writ, mas concedo ordem de habeas corpus de ofício para abrandar o regime inicial de cumprimento da pena de reclusão.
- Legal Topics
- Habeas Corpus, Regime Inicial De Cumprimento De Pena, Dosimetria, Constrangimento Ilegal, Medidas Protetivas, Violência Psicológica
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Parties
CLEVERTON ADILSON AGAPIO ISRAEL
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Interveniente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Do Relator
Legal Issues
- 1 incognição do habeas corpus como substitutivo de recurso
- 2 legalidade da fixação do regime inicial de cumprimento de pena
- 3 possibilidade de concessão de ordem de ofício em caso de flagrante ilegalidade
Ratio Decidendi
Ainda que, em regra, não se conheça de habeas corpus que substitua via recursal, constatou-se ilegalidade flagrante na fixação do regime inicial fechado para a pena de reclusão de 1 ano e 8 meses, por ser desproporcional ao quantum específico dessa pena; assim, concedeu-se, de ofício, a ordem para abrandar o regime da pena de reclusão para semiaberto, mantendo-se o regime previsto para a pena de detenção, com fundamento no art. 33, §§1º-3º, e art. 59 do CP.
Court Disposition
Não conheço do writ, mas concedo ordem de habeas corpus de ofício para abrandar o regime inicial de cumprimento da pena de reclusão.
Orders
- Concedo a ordem de habeas corpus de ofício para alterar o regime inicial da pena de reclusão (1 ano e 8 meses) de regime fechado para regime semiaberto, mantendo-se o regime anteriormente fixado para a pena de detenção (5 meses e 25 dias).
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2 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado em favor de CLEVERTON ADILSON AGAPIO ISRAEL apontando como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA (Apelação n. 5014985-07.2023.8.24.0011). Depreende-se dos autos que o réu foi condenado, em sentença prolatada aos 21/3/2024, à pena de 5 meses e 25 dias de detenção, em regime inicial semiaberto, como incurso, por mais de 7 vezes e em continuidade delitiva, no art . 24-A da Lei n. 11.340/2006 (descumprimento de medida protetiva); à pena de 1 ano de reclusão pela prática do delito do art. 147-A, § 1º, II (perseguição), do Código Penal; e à pena de 8 meses de reclusão pelo cometimento do crime do art. 147-B do CP (violência psicológica com dano emocional). Tendo todos os delitos sido cometidos em concurso material de crimes, a reprimenda final ficou em 1 ano e 8 meses de reclusão, em regime inicial fechado, e 5 meses e 25 dias de detenção, em regime inicial semiaberto (e-STJ fls. 226/238). Em 11/7/2024, o Tribunal de origem deu parcial provimento à apelação defensiva, apenas para readequar a pena de multa e conceder a gratuidade de justiça, sem alteração no quantum das reprimendas corporais e nos modos carcerários (e-STJ fls. 62/73). Daí o presente writ, no qual sustenta a defesa a existência de constrangimento ilegal na fixação do modo carcerário inicial mais gravoso para ambas as penas de reclusão e de detenção. Afirma que o regime aberto é mais adequado para as duas reprimendas, por se tratar de condenado não reincidente, cuja pena corporal total não atinge 4 anos, e que teve consideradas desfavoráveis apenas duas circunstâncias do art. 59 do CP. Assim, requer: (a) "seja reconhecida a ilegalidade do acórdão impugnado para FIXAR o regime inicial aberto de cumprimento de pena do Paciente em relação a ambos os delitos. Subsidiariamente, seja fixado o regime semiaberto quanto à pena de reclusão, fixada em 01 ano e 8 meses." ; (b) "Subsidiariamente, caso não seja conhecido o habeas corpus, seja a ordem concedida de ofício, diante da manifesta ilegalidade (CRFB/88, art. 5.º, LXVIII; CPP, art. 654, § 2.º)" (e-STJ fl. 7). Prestadas as informações. O Ministério Público Federal opina pela concessão da ordem. Importante consignar que estes autos vieram conclusos à minha relatoria em razão da prevenção observada com o HC n. 920.503/SC, que trata da dosimetria relativa à condenação do paciente pelos delitos de descumprimento de medida protetiva e de ameaça, ambos cometidos contra a mesma vítima do presente writ. É o breve relatório. Decido. Inicialmente, consigne-se que o Superior Tribunal de Justiça, de longa data, vem buscando fixar balizas para a racionalização do uso do habeas corpus, visando a garantia não apenas do curso natural das ações ou revisões criminais mas também da efetiva priorização do objeto ínsito ao remédio heroico, qual seja, o de prevenir ou remediar lesão ou ameaça de lesão ao direito de locomoção. Nessa linha, "é incognoscível, ordinariamente, o habeas corpus impetrado em substituição à via recursal de impugnação própria" (AgRg no HC n. 716.759/RS, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 26/9/2023, DJe de 2/10/2023). A propósito: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. UNIFICAÇÃO DE PENAS. ART. 71 DO CÓDIGO PENAL. CONTINUIDADE DELITIVA. UNIDADE DE DESÍGNIOS. HABITUALIDADE DELITIVA. NECESSIDADE REVOLVIMENTO DO ACERVO FATICO-PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE NA VIA ESTREITA DO WRIT. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1. Esta Corte e o Supremo Tribunal Federal pacificaram orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. 2. O Superior Tribunal de Justiça possui entendimento de que para o reconhecimento da continuidade delitiva, exige-se, além da comprovação dos requisitos objetivos, a unidade de desígnios, ou seja, o liame volitivo entre os delitos, a demonstrar que os atos criminosos se apresentam entrelaçados. Dessa forma, a conduta posterior deve constituir um desdobramento da anterior (Precedentes). 3. Na espécie, a Corte local concluiu que os crimes perpetrados não possuíam um liame a indicar a unidade de desígnios, verificando-se, assim, a habitualidade e não a continuidade delitiva. Desconstituir tais premissas demandaria o revolvimento do acervo fático-probatório dos autos, inviável na via estreita do habeas corpus. 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 853.767/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 30/10/2023, DJe de 3/11/2023.) AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS INDEFERIDO LIMINARMENTE. MANDAMUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. DESCABIMENTO. EXECUÇÃO PENAL. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO EXECUTÓRIA. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA DOS FUNDAMENTOS DA DECISÃO AGRAVADA. INCIDÊNCIA DO ENTENDIMENTO DA SÚMULA 182/STJ. Agravo regimental não conhecido. (AgRg no HC n. 819.537/MG, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 28/8/2023, DJe de 31/8/2023.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO. WRIT SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL, IMPETRADO QUANDO O PRAZO PARA A INTERPOSIÇÃO DA VIA RECURSAL CABÍVEL NA CAUSA PRINCIPAL AINDA NÃO HAVIA FLUÍDO. INADEQUAÇÃO DO PRESENTE REMÉDIO. PRECEDENTES DA SEXTA TURMA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. NÃO CABIMENTO DE CONCESSÃO DA ORDEM DE OFÍCIO. SANÇÃO BASILAR FIXADA NO MÍNIMO LEGAL. RÉU PRIMÁRIO. PENA NÃO SUPERIOR A OITO ANOS. REGIME INICIAL FECHADO. POSSIBILIDADE. GRAVIDADE CONCRETA. PETIÇÃO INICIAL LIMINARMENTE INDEFERIDA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. É incognoscível, ordinariamente, o habeas corpus impetrado quando em curso o prazo para interposição do recurso cabível. Precedentes. O agravo em recurso especial defensivo, interposto, na origem, após a prolação da decisão agravada, apenas reforça o óbice à cognição do pedido veiculado neste feito autônomo. 2. Hipótese na qual é incabível a concessão de ordem de ofício. 3. Consoante jurisprudência deste Tribunal, ainda que a pena-base seja estabelecida no mínimo legal, admite-se a fixação de regime inicial mais gravoso, se declinada motivação idônea para tanto, que evidencie a gravidade concreta do delito. 4. No caso, embora o Réu seja primário, a reprimenda aplicada não exceda oito anos e não haja circunstâncias judiciais desfavoráveis, as instâncias ordinárias indicaram elementos que parecem reclamar o agravamento do modo inicial de desconto da reprimenda, quais sejam, a prática do roubo em concursos de agentes, com emprego de arma de fogo, e, sobretudo, o elevado valor da res furtiva - uma motocicleta Yamaha/MT09 Tracer, um celular e um capacete, avaliados em R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) -, o que, ao menos primo ictu oculi, demonstra a necessidade de maior rigor no estabelecimento do regime carcerário inicial. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 833.799/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 28/8/2023, DJe de 30/8/2023.) De toda forma, vislumbro ilegalidade flagrante apta a ser sanada na presente via mediante a concessão de habeas corpus de ofício. Nos termos do art. 33, §§ 1º, 2º e 3º, do CP, para a fixação do regime inicial de cumprimento de pena, o julgador deverá observar a quantidade da reprimenda aplicada, a primariedade do réu e a eventual existência de circunstâncias judiciais desfavoráveis. No caso, o quantum de pena corporal total é de 2 anos, 1 mês e 25 dias (1 ano e 8 meses de reclusão e 5 meses e 25 dias de detenção), ou seja, o apenamento total é inferior a 4 anos. Em que pese tal fato, as instâncias ordinárias ressaltaram a existência de circunstâncias judiciais desfavoráveis, consistente nos maus antecedentes do paciente e nas graves circunstâncias efetivas dos três delitos. Tais elementos demonstram que o agravamento do regime é possível; todavia, entendo que o modo fechado alvitrado para a pena de reclusão é gravoso em demasia quando analisado o quantitativo de pena, inferior a 2 anos. Assim, vislumbro ser mais adequado abrandar o regime inicial para o semiaberto em relação à pena de reclusão, mantendo o modo intermediário alvitrado para a pena de detenção, tudo com lastro na desfavorabilidade de circunstâncias judiciais. Ilustrativamente: AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO HABEAS CORPUS. DOSIMETRIA. ART. 1º, INCISO I, DO DECRETO-LEI N. 201/1967. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO IDÔNEA ACERCA DAS CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS DA CULPABILIDADE, MOTIVOS E CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME. EXISTÊNCIA DE JUSTIFICATIVA PARA MAJORAÇÃO DA PENA PELAS CONSEQUÊNCIAS DO CRIME. REDIMENSIONAMENTO DA PENA. PENA ABAIXO DE 4 ANOS. REGIME SEMIABERTO. POSSIBILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. É firme o posicionamento desta Corte no sentido da possibilidade de estabelecimento de regime inicial mais gravoso do que aquele indicado pelo quantum de pena estabelecido, quando presentes uma ou mais circunstâncias judiciais desfavoráveis, ex vi do art. 33, §§2º e 3º, do Código Penal, como na hipótese. 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg nos EDcl no HC n. 544.801/RO, de minha relatoria, Sexta Turma, julgado em 6/10/2020, DJe de 13/10/2020.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ESTELIONATO. DOSIMETRIA. PENA-BASE. PERSONALIDADE DO AGENTE. ILEGALIDADE CONSTATADA. REGIME FECHADO. PENA IGUAL A UM ANO DE RECLUSÃO. REGIME SEMIABERTO ADEQUADO. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS DESFAVORÁVEIS. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO. AGRAVO DESPROVIDO. .. VI - Conforme o disposto no artigo 33, § 3º, do Código Penal, em relação ao regime inicial para o resgate da reprimenda, além do quantum da pena, também deve haver a análise das circunstâncias judiciais previstas no artigo 59 do mesmo diploma legal. VII - In casu, consoante consta na decisão agravada, considerando o quantum de pena estabelecido (01 (um) ano de reclusão), bem como a existência de circunstâncias judiciais desfavoráveis, o regime mais gravoso sequente, qual seja, o semiaberto, mostra-se adequado ao caso, nos termos do artigo 33, parágrafo 3º do Código Penal. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 688.856/SP, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Quinta Turma, julgado em 7/12/2021, DJe de 15/12/2021.)
Ante o exposto, não conheço do writ, mas concedo ordem de habeas corpus, de ofício, para abrandar um dos regimes carcerários, como delineado acima. Publique-se. Intimem-se. EMENTA