HC 1046638 - DECISAO
Não se conheceu da impetração em sede de habeas corpus quando utilizada como sucedâneo de recurso próprio; entretanto, diante de ilegalidade flagrante na fundamentação da majoração da pena-base (quantidade apreendida modesta e ausência de fundamentação concreta para exasperação), concedei a ordem de ofício para que...
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- Parties
- Paciente: DANIEL APARECIDO DE MOURA; Corré: ANDRESSA DANIELE SANTOS DA SILVA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 November 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento E Concessão De Ordem De Ofício
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem de ofício para determinar que o Tribunal de origem individualize novamente as penas aplicadas ao paciente e à corré, observando os termos desta decisão.
- Legal Topics
- Habeas Corpus Como Sucedâneo De Recurso Próprio, Dosimetria, Pena Base, Natureza E Quantidade Da Substância Entorpecente (art. 42, Lei 11.343/2006), Regime Inicial De Cumprimento, Revisão Criminal, Extensão De Efeitos (art. 580 Cpp)
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Parties
DANIEL APARECIDO DE MOURA
Paciente
ANDRESSA DANIELE SANTOS DA SILVA
Corré
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento E Concessão De Ordem De Ofício
Legal Issues
- 1 cabimento do habeas corpus como substituto de recurso próprio/revisão criminal
- 2 legalidade da majoração da pena-base por natureza do crack sem fundamentação concreta
- 3 fixação do regime inicial fechado sem motivação concreta
Ratio Decidendi
Não se conheceu da impetração em sede de habeas corpus quando utilizada como sucedâneo de recurso próprio; entretanto, diante de ilegalidade flagrante na fundamentação da majoração da pena-base (quantidade apreendida modesta e ausência de fundamentação concreta para exasperação), concedei a ordem de ofício para que o Tribunal de origem individualize novamente as penas aplicadas ao paciente e à corré, observando a orientação jurisprudencial e legal indicada, estendendo os efeitos à corré nos termos do art. 580 do CPP.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem de ofício para determinar que o Tribunal de origem individualize novamente as penas aplicadas ao paciente e à corré, observando os termos desta decisão.
Orders
- Não conhecer da impetração
- Conceder a ordem de ofício determinando que o Tribunal de origem individualize novamente as penas aplicadas ao paciente e à corré, observando os termos desta decisão
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de DANIEL APARECIDO DE MOURA em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Consta dos autos que o paciente foi condenado às penas de 5 anos e 10 meses de reclusão em regime fechado e de pagamento de 583 dias-multa, como incurso nas sanções do art. 33, caput, da Lei n. 11.343/2006. A impetrante sustenta que há constrangimento ilegal na primeira fase da dosimetria, porque a pena-base foi majorada em 1/6 apenas pela natureza do crack, sem quantidade expressiva e sem fundamentação concreta, em afronta aos arts. 42 da Lei n. 11.343/2006 e 59 do Código Penal. Argumenta que referências vagas e genéricas não autorizam a exasperação da pena-base e que deve ser afastada a valoração negativa sem base empírica idônea. Assevera que o regime inicial fechado não pode ser imposto de forma automática, à luz da declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 2º da Lei n. 8.072/1990 pelo STF, impondo-se a individualização conforme o art. 33, §§ 2º e 3º, do Código Penal. Pondera que a fixação de regime mais gravoso demanda motivação concreta, conforme os enunciados 718 e 719 da Súmula do STF, não bastando a gravidade em abstrato do delito de tráfico. Requer, liminarmente e no mérito, o redimensionamento da pena com fixação da pena-base no mínimo legal e a alteração do regime inicial de cumprimento. Indeferida a liminar, o Ministério Público manifestou-se pela concessão da ordem. É o relatório. O Superior Tribunal de Justiça entende ser inviável a utilização do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio, previsto na legislação, impondo-se o não conhecimento da impetração. Sobre a questão, confiram-se os seguintes julgados desta Corte Superior: PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. NULIDADE. ABSOLVIÇÃO IMPETRAÇÃO DE HABEAS CORPUS NA FLUÊNCIA DO PRAZO PARA A INTERPOSIÇÃO DE RECURSOS NA ORIGEM. IMPOSSIBILIDADE. 1. "O writ foi manejado antes do dies ad quem para a interposição da via de impugnação própria na causa principal, o recurso especial. Dessa forma, a impetração consubstancia inadequada substituição do recurso cabível ao Superior Tribunal de Justiça, não se podendo excluir a possibilidade de a matéria ser julgada por esta Corte na via de impugnação própria, a ser eventualmente interposta na causa principal" (AgRg no HC n. 895.954/DF, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo - Desembargador Convocado do TJSP, Sexta Turma, julgado em 12/8/2024, DJe de 20/8/2024.) 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 939.599/SE, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 23/10/2024, DJe de 28/10/2024 - grifo próprio.) DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DO HABEAS CORPUS COMO SUCEDÂNEO DE REVISÃO CRIMINAL. AGRAVO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto por Pablo da Silva contra decisão monocrática que não conheceu de habeas corpus, com base no entendimento de que o habeas corpus foi utilizado em substituição a revisão criminal. O agravante foi condenado a 1 ano de reclusão, com substituição da pena por restritiva de direitos, pela prática de furto (art. 155, caput, CP). A defesa pleiteou a conversão da pena restritiva de direitos em multa, alegando discriminação com base na condição financeira do paciente. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há duas questões em discussão: (i) definir se é cabível o conhecimento do habeas corpus utilizado em substituição à revisão criminal; e (ii) estabelecer se a escolha da pena restritiva de direitos, em vez de multa, configura discriminação por condição financeira. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O habeas corpus não é admitido como substituto de revisão criminal, conforme a jurisprudência consolidada do STJ e do STF, ressalvados casos de flagrante ilegalidade. 4. Não houve demonstração de ilegalidade evidente na escolha da pena restritiva de direitos, sendo esta compatível com a natureza do crime e as condições pessoais do condenado. IV. DISPOSITIVO E TESE 5. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. O habeas corpus não pode ser utilizado como substituto de revisão criminal, salvo em casos de flagrante ilegalidade. 2. A escolha de pena restritiva de direitos, em substituição à privativa de liberdade, não configura discriminação por condição financeira, desde que adequadamente fundamentada. Dispositivos relevantes citados: Código Penal, art. 155; STJ, AgRg no HC 861.867/SC; STF, HC 921.445/MS. (AgRg no HC n. 943.522/SC, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 22/10/2024, DJe de 4/11/2024 - grifo próprio.) Portanto, não se pode conhecer da impetração. Em atenção ao disposto no art. 647-A do CPP, verifico que o julgado impugnado possui ilegalidade flagrante que permite a concessão da ordem de ofício, conforme se depreende da fundamentação a ser exposta a seguir. Assim constou do acórdão (fl. 58): Diante da tibieza da prova acusatória, impõe-se absolver o peticionário quanto ao crime de associação para o tráfico, solução que diga-se desde já aproveita a corré, nos termos do artigo 580, do Código de Processo Penal. Em consequência, subsiste para o peticionário e para a corré somente a condenação por infração ao artigo 33, caput, da Lei nº 11.343/06. 2.2. Todavia, razão não assiste à Defesa no tocante à redução das penas básicas. No que concerne ao crime de tráfico ilícito de drogas, as penas foram majoradas, acertadamente, em 1/6 além do piso, em razão da especial nocividade da substância crack. De fato, a droga crack, como sabido, possui poder vulnerante maior que outras substâncias como a maconha ou a cocaína, por exemplo. No caso, foram apreendidos 15g de crack e a reiterada apreciação de casos envolvendo esta droga tem evidenciado que apenas 1g é suficiente para confeccionar entre 10 e 20 pedras. Assim, a majoração deve ser mantida. Regime prisional fechado não impugnado. 3. Como já afirmado, no que importa ao crime de associação para o tráfico, a absolvição do peticionário aproveita a corré Andressa Daniele Santos da Silva, nos termos do artigo 580, do Código de Processo Penal. No que importa à condenação remanescente de tráfico, a condenação deve ser mantida, com dosimetria preservada, nos termos da r. sentença. Embora o art. 42 da Lei n. 11.343/2006 estabeleça que, na fixação da pena-base, o juiz deve considerar com preponderância a natureza e a quantidade da substância entorpecente, a aplicação deste dispositivo deve observar os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, evitando-se a exasperação desproporcional da reprimenda quando ausentes circunstâncias concretas que justifiquem maior reprovabilidade. No caso em análise, a quantidade total de droga apreendida (15 g de crack) é modesta e não pode, por si só, justificar a majoração da pena-base. O fracionamento em porções, embora indique destinação comercial, é circunstância inerente ao próprio tipo penal de tráfico, não constituindo elemento extraordinário apto a fundamentar maior rigor na dosimetria. A jurisprudência desta Corte Superior tem evoluído no sentido de exigir maior rigor na fundamentação para exasperação da pena-base em crimes de tráfico de drogas, especialmente quando se constata ínfima quantidade de entorpecentes. Nesse sentido, foi definida a tese do Tema Repetitivo n. 1.262 do STJ, segundo a qual, " n a análise das vetoriais da natureza e da quantidade da substância entorpecente, previstas no art. 42 da Lei n. 11.343/2006, configura-se desproporcional a majoração da pena-base quando a droga apreendida for de ínfima quantidade, independentemente de sua natureza". A evolução jurisprudencial caminha no sentido de que a simples invocação da natureza da droga e do fracionamento, sem outros elementos concretos que revelem efetiva maior gravidade da conduta, não justifica a majoração da pena-base, sob pena de violação dos princípios constitucionais da individualização da pena e da proporcionalidade. Com efeito, a quantidade de droga apreendida, considerada em termos absolutos, situa-se em patamar que não extrapola as circunstâncias comuns ao delito de tráfico, não justificando, portanto, tratamento mais rigoroso na primeira fase da dosimetria. A propósito: PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. TRÁFICO. PENA-BASE. EXASPERAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. PEQUENA QUANTIDADE DE DROGA. REGIME ABERTO. LEGALIDADE. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça é no sentido de que a pena-base não pode ser fixada acima do mínimo legal com fundamento em elementos constitutivos do crime ou com base em referências vagas, genéricas, desprovidas de fundamentação objetiva para justificar a sua exasperação. 2. Na hipótese do tráfico ilícito de entorpecentes, é indispensável atentar para o que disciplina o art. 42 da Lei n. 11.343/2006, segundo o qual o juiz, na fixação das penas, considerará, com preponderância sobre o previsto no art. 59 do Código Penal, a natureza e a quantidade da substância ou do produto, a personalidade e a conduta social do agente. Precedentes. 3. No presente caso, a quantidade total dos entorpecentes apreendidos (18g de cocaína e 594g de maconha), apesar da natureza altamente deletéria de uma delas (cocaína), não justifica a majoração da pena-base, por não extrapolar o tipo penal, devendo ser afastado tal fundamento. 4. No tocante ao regime de cumprimento de pena, a Súmula Vinculante n. 59/STF dispõe que é impositiva a fixação do regime aberto e a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos quando reconhecida a figura do tráfico privilegiado (art. 33, § 4º, da Lei n. 11.343/2006) e ausentes vetores negativos na primeira fase da dosimetria (art. 59 do CP), observados os requisitos do art. 33, § 2º, alínea c, e do art. 44, ambos do Código Penal. Assim, fixada a pena-base no mínimo legal e reconhecido ao acusado o benefício do tráfico privilegiado, faz jus ao regime aberto e à substituição da pena privativa de liberdade por duas penas restritivas de direito, como feito pelas instâncias de origem. 5. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp n. 2.203.257/RS, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 14/5/2025, DJEN de 19/5/2025, grifo próprio.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. DOSIMETRIA. PENA-BASE. QUANTIDADE NÃO EXPRESSIVA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. "Em se tratando de crime de tráfico de drogas, como ocorre in casu, o juízo, ao fixar a pena, deve considerar, com preponderância sobre o previsto no artigo 59 do Estatuto Repressivo, a natureza e a quantidade da substância entorpecente, a personalidade e a conduta social do agente, consoante o disposto no artigo 42 da Lei n. 11.343/2006" (AgRg no HC n. 736.623/MS, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 24/5/2022, DJe de 30/5/2022.) 2. No caso, a decisão agravada afastou o acréscimo da pena-base pois, não obstante a natureza gravosa da droga apreendida, trata-se, no caso, de quantidade que não é expressiva (220,7g de cocaína e 163,690g de maconha), o que vai ao encontro da orientação desta Corte Superior, no sentido de que a apreensão de quantidade não relevante de droga não constitui, de forma isolada, motivo apto à manutenção da segregação cautelar. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 834.172/PA, relator Ministro Jesuíno Rissato, Desembargador convocado do TJDFT, Sexta Turma, julgado em 15/4/2024, DJe de 18/4/2024, grifo próprio.) Ademais, considerando que, no acórdão impugnado, a corré ANDRESSA DANIELA SANTOS DA SILVA também foi beneficiada com o deferimento da revisão criminal, com o fim de absolvê-la pelo delito de associação para o tráfico, e, conforme consta da transcrição acima e da sentença (fl. 34), não há diversidade de fundamento para aumento da pena-base, mostra-se cabível a extensão dos efeitos da presente decisão, nos termos do art. 580 do CPP. Ante o exposto, com fundamento no art. 210 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheço do habeas corpus e concedo a ordem de ofício para determinar que o Tribunal de origem individualize novamente as penas aplicadas ao paciente e à corré, observando-se os termos desta decisão. Comunique-se, com urgência, ao Tribunal de origem e ao Juízo de primeiro grau. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA