HC 1029816 - DECISAO
Demonstrada a necessidade do tratamento por documentos médicos, autorização da ANVISA para importação, certificação para cultivo e laudo agronômico, e diante da omissão administrativa quanto à regulamentação do art. 2º da Lei n. 11.343/2006, impõe-se o cabimento do habeas corpus preventivo para expedir...
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- Parties
- Paciente: JOSE GUILHERME GASPERAZZO NEVES; Autoridade Coatora: TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2 ª REGIÃO; Órgão Ministerial: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 16 October 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Mérito (concessão De Ordem)
- Outcome
- concedo a ordem de habeas corpus, em menor extensão, para expedir salvo-conduto
- Legal Topics
- Habeas Corpus Preventivo, Salvo Conduto, Cultivo De Cannabis Para Fins Medicinais, Omissão Regulamentar, Autorização ANVISA, Direito À Saúde
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Parties
JOSE GUILHERME GASPERAZZO NEVES
Paciente
TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2 ª REGIÃO
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Órgão Ministerial
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Mérito (concessão De Ordem)
Legal Issues
- 1 cabimento de habeas corpus preventivo para concessão de salvo-conduto para plantio e extração de Cannabis sativa para uso médico
- 2 comprovação da imprescindibilidade do tratamento medicinal e da capacidade técnica do paciente
- 3 efeitos da omissão regulamentar do poder público sobre a tipicidade da conduta
Ratio Decidendi
Demonstrada a necessidade do tratamento por documentos médicos, autorização da ANVISA para importação, certificação para cultivo e laudo agronômico, e diante da omissão administrativa quanto à regulamentação do art. 2º da Lei n. 11.343/2006, impõe-se o cabimento do habeas corpus preventivo para expedir salvo-conduto, vedando a criminalização da conduta quando destinada exclusivamente a fins terapêuticos; por tais fundamentos concedeu-se a ordem em menor extensão, com limites e condições expressos.
Court Disposition
concedo a ordem de habeas corpus, em menor extensão, para expedir salvo-conduto
Orders
- Expedir salvo-conduto e determinar a abstenção, pelos órgãos de persecução penal, de investigar, repreender ou atentar contra a liberdade de locomoção do paciente.
- Abster-se de apreender e destruir as sementes e insumos destinados à produção do óleo de cannabis para uso próprio e medicinal do paciente.
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de JOSE GUILHERME GASPERAZZO NEVES, no qual se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2 ª REGIÃO proferido no Recurso em Sentido Estrito n. 5009235-66.2025.4.02.5001. Extrai-se dos autos que foi impetrado habeas corpus perante o Juízo de primeiro grau objetivando a concessão de salvo-conduto em favor do paciente para o plantio de cannabis sativa, a fim de produzir óleo vegetal para fins terapêuticos. A ordem foi denegada. Irresignada, a Defesa interpôs recurso em sentido estrito perante o Tribunal local, que negou provimento a insurgência. Neste writ, o impetrante sustenta que, em virtude do diagnóstico de transtorno misto ansioso, resultante de doença do refluxo gástrico e gastrite (CID 10: F41, K21 e K29), teve prescrito tratamento por meio de extrato de óleo de Cannabis. Afirma possuir autorização administrativa válida emitida pela ANVISA, bem como capacidade técnica para produzir o medicamento, conforme comprovado por certificado de conclusão de curso específico de extração constante dos autos. Alega que o cultivo será realizado e destinado apenas para uso próprio e exclusivamente medicinal, sem fins comerciais. Defende que a conduta é atípica, aduzindo que o paciente está sob risco de criminalização pelas autoridades policiais, não obstante apenas esteja a exercer o seu direito à saúde. Assevera que não pode ser impedido de exercer seu direito na forma que melhor lhe atende em virtude da omissão estatal e a falta de regulamentação adequada do tema e o acesso as substâncias canabinoides (fl. 16). Requer, liminarmente e no mérito, o provimento do recurso, a fim de que seja concedido salvo-conduto em favor do paciente. Em decisão proferida pelo Desembargador Convocado Otávio de Almeida Toledo, o pedido liminar foi indeferido às fls. 149/150. Foram prestadas informações às fls. 153/158 e 161/188. O Ministério Público Federal, às fls. 192/196, opinou pelo não conhecimento da impetração ou, caso conhecida, pugnou pela denegação da ordem. É o relatório. Decido. Inicialmente, destaco que a Lei n. 11.343/2006 dispõe que é atribuição da União autorizar o plantio, a cultura e a colheita dos vegetais referidos no caput do art. 2º para uso exclusivamente medicinal, o que permite concluir tratamento legal díspar acerca do tema: enquanto o uso recreativo estabelece relação de tipicidade com a norma penal incriminadora, o uso medicinal, científico ou mesmo ritualístico-religioso não desafia persecução penal dentro dos limites regulamentares (RHC n. 147.169/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 14/06/2022, DJe de 20/06/2022). Não obstante, até o momento, o referido dispositivo não foi regulamentado. Desse modo, aqueles que necessitam da referida terapêutica muitas vezes se veem obrigados a recorrer à importação de canabidiol como a única alternativa . Tal situação frequentemente resulta na interrupção do tratamento ou até mesmo na sua impossibilidade devido aos custos elevados. Em relação à referida matéria, esta Corte, no julgamento do REsp n. 1.972.092/SP, entendeu pela possibilidade da utilização do habeas corpus preventivo com a finalidade de obter salvo-conduto para fins de importação, cultivo e produção artesanal do extrato de canabidiol , tendo em vista que é possível, ao menos em tese, que os pacientes (ora recorridos) tenham suas condutas enquadradas no art. 33, § 1º, da Lei n. 11.343/2006, punível com pena privativa de liberdade, é indiscutível o cabimento de habeas corpus para os fins por eles almejados: concessão de salvo-conduto para o plantio e o transporte de Cannabis sativa, da qual se pode extrair a substância necessária para a produção artesanal dos medicamentos prescritos para fins de tratamento de saúde (REsp n. 1.972.092/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 14/06/2022, DJe de 30/06/2022). Com efeito, a possibilidade excepcional de concessão de habeas corpus para fins de cultivo medicinal de cannabis sativa decorre da omissão do órgão responsável pela regulamentação do cultivo em si, pois tal conduta é expressamente autorizada no art. 2º, parágrafo único, da Lei de Drogas. Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça já se manifestou: DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. CULTIVO DE CANNABIS SATIVA PARA FINS MEDICINAIS. SALVO-CONDUTO. AGRAVO DESPROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto pelo Ministério Público Federal contra decisão monocrática que concedeu salvo-conduto em favor do paciente, permitindo o cultivo de Cannabis sativa para fins medicinais, com base em autorização da Anvisa para importação de produtos derivados. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão consiste em saber se o paciente comprovou a imprescindibilidade do tratamento com Cannabis sativa, a hipossuficiência econômica para aquisição do medicamento importado e a capacidade técnica para extração da substância medicamentosa. III. Razões de decidir 3. A imprescindibilidade do tratamento com óleo de cannabis foi comprovada por relatório médico idôneo, que atestou a insuficiência das terapias convencionais. 4. A exigência de comprovação de hipossuficiência econômica para aquisição do medicamento importado é considerada restritiva e violadora de direitos fundamentais, dado o alto custo dos medicamentos. 5. A capacidade técnica do paciente para o cultivo e extração do óleo de cannabis é presumida, desde que comprovada a participação em curso específico, não havendo regulamentação sanitária que exija reconhecimento ou credenciamento pela Anvisa. IV. Dispositivo e tese 6. Agravo desprovido. Tese de julgamento: "1. A concessão de salvo-conduto para cultivo de cannabis sativa para fins medicinais é justificada pela ausência de regulamentação administrativa e pela necessidade comprovada do tratamento. 2. Caracterizada a omissão da Administração Pública na regulamentação do art. 2º, parágrafo único, da Lei n. 11.343/06, torna-se injustificável a criminalização de condutas voltadas à proteção do direito à saúde e da dignidade da pessoa humana.". Dispositivos relevantes citados: Lei n. 11.343/2006, art. 2º, parágrafo único. Jurisprudência relevante citada: STJ, AgRg no HC 913.386/SP, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, j. 19.02.2025; STJ, REsp 2.180.253, Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJEN 14.04.2025; STJ, REsp 2.201.351, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, DJEN 02.04.2025. (AgRg no HC n. 988.565/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 3/9/2025, DJEN de 8/9/2025). PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. SALVO CONDUTO PARA CULTIVO E EXTRAÇÃO DE ÓLEO DE CANNABIS SATIVA. REQUISITOS LEGAIS COMPROVADOS. PROBLEMA DE SAÚDE EVIDENCIADO DESDE A INFÂNCIA. LAUDO E PRESCRIÇÃO MÉDICA, AUTORIZAÇÃO DE IMPORTAÇÃO, COMPROVAÇÃO DE REALIZAÇÃO DE CURSO PARA CULTIVO E LAUDO TÉCNICO AGRONÔMICO. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. A prisão em flagrante pode ser efetivada toda vez que haja comprovação de ilicitude típica criminal por parte de qualquer cidadão, desde que estejam presentes os requisitos previstos nos arts. 301 e 302 do CPP. 2. Foram constatados elementos concretos capazes de justificar a expedição de salvo conduto ao paciente para cultivar Cannabis Sativa e extrair óleo medicinal, além de portar apenas um frasco com 30 ml e 6 g, conforme prescrição médica. 3. Ausência de elementos e razões recursais que autorizem o provimento do agravo ou reforma da decisão monocrática. 4. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 993.754/RS, relator Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, julgado em 11/6/2025, DJEN de 16/6/2025). De igual modo, o REsp n. 1.972.092/SP , interposto pelo Ministério Público Federal, cuja relatoria coube ao Ministro Rogerio Schietti Cruz, teve o seu provimento negado por unanimidade, mantendo-se a decisão da Corte local, que havia concedido habeas corpus preventivo. No mesmo sentido, confiram-se os seguintes julgados desta Corte Superior: (..) ambas as turmas passaram a entender que o plantio e a aquisição das sementes da Cannabis sativa, para fins medicinais, não se trata de conduta criminosa, independente da regulamentação da ANVISA (AgRg no HC n. 783.717/PR, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Terceira Seção, julgado em 13/9/2023, DJe de 3/10/2023). AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. CULTIVO DOMÉSTICO DA PLANTA CANNABIS SATIVA PARA FINS MEDICINAIS. HABEAS CORPUS PREVENTIVO. UNIFORMIZAÇÃO DO ENTENDIMENTO DAS TURMAS CRIMINAIS. RISCO DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. DIREITO A SAÚDE PÚBLICA E A MELHOR QUALIDADE DE VIDA. REGULAMENTAÇÃO. OMISSÃO DA ANVISA E DO MINISTÉRIO DA SAÚDE. ATIPICIDADE PENAL DA CONDUTA. 1. O conjunto probatório dos autos aponta que o uso medicinal do óleo extraído da planta Cannabis sativa encontra-se suficientemente demonstrado pela documentação médica, pois foram anexados Laudo Médico e receituários médicos, os quais indicam o uso do óleo medicinal (CBD Usa Hemp 6000mg full spectrum e Óleo CBD/THC 10%). 2. O entendimento da Quinta Turma passou a corroborar o da Sexta Turma que, na sessão de julgamento do dia 14/6/2022, de relatoria do Ministro Rogério Schietti Cruz, por unanimidade, negou provimento ao Recurso Especial n. 1.972.092-SP do Ministério Público, e manteve a decisão do Tribunal de origem, que havia concedido habeas corpus preventivo. Então, ambas as turmas passaram a entender que o plantio e a aquisição das sementes da Cannabis sativa, para fins medicinais, não se trata de conduta criminosa, independente da regulamentação da ANVISA. 3. Após o precedente paradigma da Sexta Turma, formou-se a jurisprudência, segundo a qual, "uma vez que o uso pleiteado do óleo da Cannabis sativa, mediante fabrico artesanal, se dará para fins exclusivamente terapêuticos, com base em receituário e laudo subscrito por profissional médico especializado, chancelado pela ANVISA na oportunidade em que autorizou os pacientes a importarem o medicamento feito à base de canabidiol - a revelar que reconheceu a necessidade que têm no seu uso - , não há dúvidas de que deve ser obstada a iminente repressão criminal sobre a conduta praticada pelos pacientes/recorridos" (REsp n. 1.972.092/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 14/6/2022, DJe de 30/6/2022). 4. Os fatos, ora apresentados pelos agravantes, não podem ser objeto da sanção penal, porque se tratam do exercício de um direito fundamental garantido na Constituição da República, e não há como, em matéria de saúde pública e melhor qualidade de vida, ignorar que "a função judicial acaba exercendo a competência institucional e a capacidade intelectual para fixar tais conceitos abstratos, atribuindo significado aos mesmos, concretizando-os, e até dando um alcance maior ao texto constitucional, bem como julgando os atos das outras funções do Poder Público que interpretam estes mesmos princípios" (DUTRA JÚNIOR, José Felicio. Constitucionalização de fatos sociais por meio da interpretação do Supremo Tribunal Federal: Análise de alguns julgados proativos da Suprema Corte Brasileira. Revista Cadernos de Direito, v. 1, n. 1, UDF: Brasília, 2019, pags. 205-206). 5. Agravo regimental provido, para conceder o habeas corpus, a fim de garantir aos pacientes o salvo-conduto, para obstar que qualquer órgão de persecução penal turbe ou embarace a aquisição de 10 (dez) sementes de Cannabis sp., bem como o cultivo de 7 (sete) plantas de Cannabis sp. e extração do óleo, por ser imprescindível para a sua qualidade de vida e saúde. Oficie-se à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e ao Ministério da Saúde (AgRg no HC n. 783.717/PR, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Terceira Seção, julgado em 13/9/2023, DJe de 3/10/2023). Na hipótese em exame, destaco que ficou satisfatoriamente demonstrada a necessidade do uso medicinal da substância à base de cannabis, conclusão que é possível extrair, inclusive, a partir da autorização fornecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para fins de importação da substância que se pretende obter a partir do cultivo da planta. Ademais, f oram anexados aos autos: (i) relatórios médicos (fls. 69/70), (ii) receituário médico (fls. 82/83 e 86/89), (iii) certificado de conclusão do Curso de Cultivo e Extração de Cannabis Medicinal, da Bio Cultivo (fl.109), (iv) autorização da ANVISA para importação dos medicamentos prescritos (fls. 84/85), e, (v) laudo técnico agronômico referente ao cultivo da planta (fls. 117/121). Ante o exposto, concedo a ordem de habeas corpus , em menor extensão, a fim de expedir salvo-conduto, determinando a abstenção, pelos órgãos de persecução penal, de investigar, repreender ou atentar contra a liberdade de locomoção do paciente, assim como deixar de apreender e destruir as sementes e insumos destinados à produção do óleo de cannabis para o seu uso próprio e medicinal, limitado ao cultivo de 112 (cento e doze) plantas de cannabis e importação de 224 (duzentos e vinte e quatro) sementes da espécie, por ano, enquanto durar o tratamento terapêutico, nos termos de autorização médica, a ser atualizada anualmente perante o Juízo competente. Fica vedada a comercialização, doação ou transferência a terceiros da matéria-prima ou dos compostos derivados da erva. O benefício não impede o controle administrativo do processo de importação, plantio, cultu ra e transporte da substância, fora dos termos ora especificados. Comunique-se, com urgência, ao Juízo de primeiro grau e ao Tribunal de origem. Publique-se. Intimem-se. EMENTA