HC 885265 - DECISAO
Não conhecer do habeas corpus substitutivo por previsão de recurso próprio, mas conceder de ofício a ordem para adequar a pena acessória de suspensão/ proibição da habilitação ao mesmo período da pena privativa de liberdade aplicada, por se verificar flagrante desproporção entre dois anos fixados e oito meses de...
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- Parties
- Manifestante: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 26 June 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão (não Conhecimento E Concessão De Ordem Ex Officio)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus substitutivo; concedo a ordem de ofício para fixar a pena acessória em 8 meses de suspensão da CNH; mantidos os demais termos da sentença condenatória.
- Legal Topics
- Habeas Corpus Substitutivo, Pena Acessória De Suspensão Do Direito De Dirigir, Dosimetria Da Pena, Flagrante Ilegalidade
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Parties
Ministério Público Federal
Manifestante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão (não Conhecimento E Concessão De Ordem Ex Officio)
Legal Issues
- 1 cabimento de habeas corpus substitutivo diante de recurso próprio
- 2 possibilidade de fixação da suspensão da habilitação pelo mesmo prazo da pena privativa de liberdade
- 3 existência de flagrante ilegalidade apta a ensejar concessão de ofício
Ratio Decidendi
Não conhecer do habeas corpus substitutivo por previsão de recurso próprio, mas conceder de ofício a ordem para adequar a pena acessória de suspensão/ proibição da habilitação ao mesmo período da pena privativa de liberdade aplicada, por se verificar flagrante desproporção entre dois anos fixados e oito meses de detenção, fixando a suspensão da CNH em 8 meses e mantendo-se os demais termos da sentença condenatória.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus substitutivo; concedo a ordem de ofício para fixar a pena acessória em 8 meses de suspensão da CNH; mantidos os demais termos da sentença condenatória.
Orders
- Não conhecer do habeas corpus substitutivo
- Conceder a ordem de ofício para fixar a pena acessória em 8 meses de suspensão da CNH
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Considerando o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples (CNJ/Recomendação nº 144/2023 e CNJ/Resolução nº 376/2021), adoto o relatório de fls. 138-139 (e-STJ). O Ministério Público Federal manifestou-se pelo não conhecimento do habeas corpus (e-STJ fls. 138-142). Decido. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do col. Pretório Excelso, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio, situação que implica o não conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que configurada flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal, sendo possível a concessão da ordem de ofício. Veja-se: "A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal firmou orientação no sentido de não admitir a impetração de habeas corpus substitutivo ante a previsão legal de cabimento de recurso pertinente. Precedentes." (AgRg no HC n. 764.589/PR, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 6/2/2024, DJe de 14/2/2024.). O entendimento é de elevada importância, porquanto deve-se utilizá-lo com fito de preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. No entanto, cabe conceder ordem de ofício em caso de flagrante ilegalidade do ato impugnado. Com essas premissas, verifico aqui a ocorrência de flagrante ilegalidade, que reclama a concessão, ex officio, da ordem. No caso, a impetrante pretende a concessão da ordem para reduzir o tempo de suspensão do direito para obter a permissão ou habilitação para dirigir veículo automotor imposta ao paciente. Quanto ao proibição de se obter a permissão ou habilitação para dirigir a sentença condenatória assim dispões (e-STJ fls. 31-32): "Considerando a culpabilidade do réu e, especialmente, a gravidade do delito, observando o prazo previsto no artigo 293 do CTB, sem, contudo, guardar necessária correspondência com a pena privativa de liberdade, FIXO a pena de proibição de se obter a permissão ou habilitação para dirigir veículos automotores pelo período de dois anos, tempo este necessário e suficiente à conscientização do condutor face ao grave delito praticado, lembrando ter o legislador fixado a pena de suspensão ou proibição de se obter a permissão ou habilitação para dirigir veículo automotor de dois meses a cinco anos (art. 293 do CTB), acima, portanto, até a entrada em vigor da Lei 13.546/17, da pena corporal do delito mais grave do Código de Trânsito, o homicídio culposo. Ademais, entendo não ser plausível fixar prazos exíguos para delitos mais graves, como o presente, baseando-se unicamente na pena corporal estabelecida, deixando-os para as infrações de menor potencial ofensivo, contempladas com o mesmo prazo antes referido." Acerca do tema o acórdão recorrido restou assim fundamentando (e-STJ fl. 22): "No caso, a defesa requereu a isenção ou substituição da pena de multa, e a redução da pena de suspensão do direito de dirigir imposta. (..) Por fim, considerando a pena carcerária definitiva, fixada em 08 meses de detenção, 02 meses acima do mínimo legal, já ter sido módica, tendo em conta a maior reprovabilidade da conduta, eis que o acusado apresentava dosagem de álcool em seu sangue superior a quatro vezes o permitido por lei (25,9 dg/l - evento 3, DOC2, fls. 38/39), encontrando-se em intenso estado de embriaguez, tendo, inclusive, colidido contra outro veículo, colocando a segurança de terceiros em risco, bem como estar o réu dirigindo sem habilitação quando do fato, plenamente justificado, no caso concreto, o tempo maior da pena cumulativa de suspensão/proibição da obtenção do direito de dirigir, aplicada pelo prazo de dois anos." No entanto, a fundamentação apresentada pelas instâncias de origem destoa da jurisprudência desta Corte Superior de Justiça, a qual preceitua que, em razão das circunstâncias concretas do crime, da culpabilidade do condenado e do tipo de delito praticado no trânsito, é possível a imposição da pena acessória de suspensão do direito de dirigir pelo mesmo período da pena privativa de liberdade. Nesse sentido: AGRAVO REGIMENTAL EM EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO CULPOSO NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR (ART. 302 DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO). SUSPENSÃO DA HABILITAÇÃO PELO MESMO PRAZO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE. RAZOABILIDADE DIANTE DA GRAVIDADE CONCRETA DO DELITO. SÚMULA 168/STJ. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Encontra óbice no enunciado n. 168 da Súmula/STJ, o recurso que se volta contra acórdão que adotou a mesma orientação seguida pela jurisprudência da Terceira Seção desta Corte no sentido de que é possível a suspensão da habilitação pelo mesmo prazo da pena privativa de liberdade em casos de crimes de homicídio culposo e lesão corporal culposa na direção de veículo automotor, quando constatada a gravidade da conduta, não ficando o magistrado adstrito à análise das circunstâncias judiciais do art. 59 do Código Penal. Precedentes da Quinta Turma do STJ: AgRg no REsp 1.882.632/SC, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 22/09/2020, DJe 30/09/2020; AgRg no AREsp 1.677.731/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 18/08/2020, DJe 24/08/2020; REsp 1.481.502/RJ, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, QUINTA TURMA, julgado em 15/09/2015, DJe 03/11/2015. Precedentes da Sexta Turma do STJ: AgRg no REsp 1.771.437/CE, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 11/06/2019, DJe 21/06/2019; HC 478.444/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 30/05/2019, DJe 06/06/2019; HC 71.366/PR, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, Rel. p/ Acórdão Ministro ERICSON MARANHO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/SP), SEXTA TURMA, julgado em 16/12/2014, DJe 10/03/2015. 2. A demonstração da existência de uniformidade de entendimento entre as Turmas julgadoras sobre o objeto da controvérsia prescinde da existência de julgado da Terceira Seção do STJ examinando o mesmo tema. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg nos EDcl nos EREsp n. 1.817.950/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção, julgado em 25/11/2020, DJe de 30/11/2020.) No mesmo sentido são os seguintes precedentes de ambas as Turmas Criminais desta Corte: RECURSO ESPECIAL. PENAL. HOMICÍDIO E LESÃO CORPORAL CULPOSA NO TRÂNSITO. SUSPENSÃO DO DIREITO DE DIRIGIR. TEMPO DE DURAÇÃO. GRAVIDADE CONCRETA DA CONDUTA. CULPABILIDADE DO ACUSADO. APLICAÇÃO PELO MESMO PERÍODO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE. PRECEDENTES. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. O art. 273, caput, do Código de Trânsito Brasileiro prevê que a penalidade de suspensão ou de proibição de se obter a permissão ou a habilitação, para dirigir veículo automotor, deve ter duração de 2 (dois) meses a 5 (cinco) anos, sem estabelecer critérios precisos para a gradação desta pena. Diante da omissão no texto legal, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça firmou-se no sentido de que o Magistrado deve, de acordo com as peculiaridade do caso concreto, com especial atenção à gravidade do delito e à culpabilidade do agente, estabelecer o prazo de duração da sanção acessória. 2. A Terceira Seção desta Corte Superior pacificou o entendimento de que, em razão das circunstâncias concretas do crime, da culpabilidade do condenado e do tipo de delito praticado no trânsito, é possível a imposição da pena acessória de suspensão do direito de dirigir pelo mesmo período da pena privativa de liberdade. 3. No caso, o Recorrido, estando com a capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool, assumiu a direção de veículo automotor em rodovia estadual, trazendo consigo 2 (dois) passageiros. No curso da direção, em alta velocidade, o Recorrido perdeu o controle do veículo ao passar por uma lombada, terminando por colidir com o veículo em uma árvore, o que causou a morte de um dos passageiros por politraumatismo craniano e produziu lesões corporais no outro. 4. Considerando que as circunstâncias concretas do delito evidenciam a necessidade de maior censura à conduta praticada, mostra-se adequada a majoração do período de duração da pena de suspensão do direito de dirigir para que esta coincida com o mesmo prazo de duração da pena privativa de liberdade, nos termos da jurisprudência desta Corte Superior. 5. Recurso especial provido para fixar a pena acessória de suspensão da habilitação para dirigir veículo automotor pelo mesmo prazo da pena privativa de liberdade aplicada. (REsp n. 1.886.080/SC, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 19/10/2021, DJe de 25/10/2021.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. CONTRABANDO. DOSIMETRIA. PENA-BASE FIXADA COM BASE NAS CIRCUNSTÂNCIAS CONCRETAS DO DELITO. QUANTIDADE DE CIGARROS APREENDIDOS. TEMPO DE SUSPENSÃO DO DIREITO DE DIRIGIR. ADEQUAÇÃO ÀS PECULIARIDADES DO CASO CONCRETO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A pena-base restou exasperada com fundamento na quantidade de cigarros apreendidos no crime de contrabando. Tal posicionamento está em consonância com a jurisprudência desta Corte. 2. Quanto à suspensão do direito de dirigir, destaca-se que " .. a norma não estabelece os critérios a fim de fixar o lapso com objetivo de suspender a habilitação para dirigir, devendo o juiz estabelecer o prazo de duração da medida considerando as peculiaridades do caso concreto" (AgRg no AREsp n. 1.709.618/DF, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 16/11/2020). No caso, tendo sido utilizado veículo automotor para a prática do delito, não se mostra desproporcional o estabelecimento da suspenção do direito de dirigir pelo mesmo período da pena privativa de liberdade como efeito da condenação. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 773.990/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 26/6/2023, DJe de 29/6/2023.) No caso dos autos, verifica-se que a pena privativa de liberdade foi fixada em 8 meses de detenção, no entanto a pena acessória de proibição de se obter a permissão ou habilitação para dirigir veículos automotores foi fixado em 2 (dois) anos, de modo que é flagrantemente desproporcional. Pelo exposto, não conheço do habeas corpus substitutivo, contudo, concedo a ordem de ofício para fixar a pena acessória em período correspondente ao da pena privativa de liberdade, qual seja em 8 (oito) meses de suspensão da CNH, mantid o os demais termos da sentença condenatória Publique-se. Intimem-se. EMENTA