HC 984051 - DECISAO
Não conhecer do habeas corpus por inadequação da via eleita, pois não se demonstrou flagrante ilegalidade; mantida a fixação da indenização no valor de R$2.000,00 por força do pedido ministerial e da jurisprudência consolidada (Tema 983); mantida a valoração probatória que fundamentou a condenação; embriaguez não...
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- Parties
- Impetrante: Paciente; Condenado: Apelante; Ofendida/ex Companheira: Vítima
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 05 March 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento Pelo STJ
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus substitutivo por inadequação da via; não se verifica flagrante ilegalidade
- Legal Topics
- Habeas Corpus Substitutivo, Flagrante Ilegalidade, Danos Morais Mínimos (tema 983), Medidas Protetivas, Embriaguez E Imputabilidade, Valoração Da Palavra Da Vítima
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Parties
Paciente
Impetrante
Apelante
Condenado
Vítima
Ofendida/ex Companheira
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento Pelo STJ
Legal Issues
- 1 cabimento do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio
- 2 requisito de flagrante ilegalidade para conhecimento de ofício
- 3 possibilidade de fixação de indenização mínima por danos morais em violência doméstica quando há pedido expresso
Ratio Decidendi
Não conhecer do habeas corpus por inadequação da via eleita, pois não se demonstrou flagrante ilegalidade; mantida a fixação da indenização no valor de R$2.000,00 por força do pedido ministerial e da jurisprudência consolidada (Tema 983); mantida a valoração probatória que fundamentou a condenação; embriaguez não afasta imputabilidade.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus substitutivo por inadequação da via; não se verifica flagrante ilegalidade
Orders
- Publique-se.
- Intime-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado contra acórdão assim ementado (e-STJ, fls. 49-50): Apelação criminal. Art. 24-A, da Lei nº 11.340/06, artigos 147, do Código Penal. Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do CNJ. Apelante condenado à pena total de 01 (um) ano, 02 (dois) meses e 20 (vinte) dias de detenção em regime semiaberto. Pleito defensivo de absolvição em razão da fragilidade probatória. Crime do art. 24-A, da Lei nº 11.340/06 comprovado. Pleito absolutório que não merece acolhida. Materialidade e autoria delitivas encontram-se demonstradas pelo registro de ocorrência, e conjunto probatório. Medidas protetivas de urgência deferidas em desfavor do acusado, proibindo a aproximação da vítima. Descumprimento por parte do apelante. Não se sustenta a tese defensiva de atipicidade da conduta do réu, sob a alegação do fato ocorrido não constituir infração penal em razão de ausência de dolo. Eventual descontrole emocional causado por ingestão de álcool não autoriza o comportamento do réu. Aliás, este é o ensinamento trazido pelo artigo 28, inciso II, do Código Penal, ao dispor que a embriaguez não exclui a imputabilidade penal. O delito em análise - artigo 24-A da Lei nº 11.340/06 - tem como objeto jurídico tutelado, primeiramente, a manutenção do respeito às decisões judiciais, sendo o sujeito passivo principal a Administração da Justiça, além de proteger de forma indireta a mulher vítima de violência doméstica. Desse modo, o crime se consuma com o descumprimento da decisão judicial, razão pela qual não se acolhe, no caso, a tese sustentada pela Defesa. Nos autos do processo nº 0174721- 20.2023.8.19.0001, foram determinadas em desfavor do Apelante as medidas protetivas de proibição de aproximação e/ou contato com a vítima e proibição de frequentar a residência ou o local de trabalho dela. Apelante regularmente intimado dessa decisão em 29/05/2024. Ao se aproximar da vítima no dia 19/06/2024, o Apelante agiu em total descumprimento das medidas contra ele determinadas. Dessa forma, diante da prova oral coligida aos autos, o réu tinha conhecimento das medidas protetivas e de sua obrigação em cumprir a ordem judicial e não o fez. Crime do art. 147, do Código Penal comprovado. Na data descrita na denúncia, o réu ameaçou por palavras causar mal injusto e grave a sua ex- companheira, ora vítima, ao dizer que iria persegui-la para sempre. Decerto, a promessa de mal futuro deve ser idônea e apta a atemorizar a vítima, o que, de fato, ocorreu nos termos da declaração da mesma, sendo evidente a intenção do apelante de gerar temor em sua ex-companheira, ao ameaçá- la. Eventual descontrole emocional causado por ingestão de álcool não autoriza o comportamento do réu. Aliás, este é o ensinamento trazido pelo artigo 28, inciso II, do Código Penal, ao dispor que a embriaguez não exclui a imputabilidade penal. A jurisprudência deste Tribunal de Justiça e dos Tribunais Superiores consolidou o entendimento de que nos crimes cometidos no contexto de violência doméstica, a palavra da vítima assume especial relevância como meio de prova. Observância ao Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do CNJ. Narrativa da vítima confirmada pelas declarações prestadas pela testemunha. Pequeno reparo na dosimetria. Afastamento da circunstância judicial da má conduta social. Mantidos os demais termos da sentença fundamentada com base nos princípios da adequação e individualização da pena. Manutenção da verba indenizatória fixada na sentença em favor da vítima. Incidência do Tema 983 do STJ. Patente o sofrimento físico e psicológico vivenciado pela vítima. No caso, considerando que houve pedido ministerial expresso na denúncia, mostra-se acertado o arbitramento da indenização a título de danos morais à vítima no montante fixado na sentença. Precedente. RECURSO DEFENSIVO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. O paciente foi condenado à pena de 6 (seis) meses e 6 (seis) dias de detenção pela prática dos crimes do art. 24-A, Lei 11.340 e art. 147, Código Penal c/c art. 61, II, f, do Código Penal n/f art. 69, em regime inicial semiaberto e ao pagamento de indenização à vítima no valor de R$ 2.000,00 (dois mil) reais, na forma do artigo 387, IV, do Código de Processo Penal com juros e correção monetária, a contar da publicação da sentença, conforme súmula nº 362 do STJ. A defesa alega, em síntese que o valor estabelecido a titulos de danos morais seria elevado e que o paciente não teria condições de arcar com o valor. Ao final, requer a concessão da ordem para reduzir o valor arbitrado "para o mínimo legal" (e-STJ, fl. 8). É o relatório. Decido. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. Veja-se: "O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício" (AgRg no HC n. 895.777/PR, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 8/4/2024). "De acordo com a jurisprudência do STJ, não é cabível o uso de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, notadamente quando não há indicação de incidência de alguma das hipóteses previstas no art. 621 do CPP. Precedentes" (AgRg no HC n. 864.465/SC, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/3/2024, DJe de 20/3/2024). A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no mesmo sentido: "Do ponto de vista processual, o caso é de habeas corpus substitutivo de agravo regimental (cabível na origem). Nessas condições, tendo em vista a jurisprudência da Primeira Turma desta Corte, entendo que o processo deve ser extinto sem resolução de mérito, por inadequação da via eleita (HC 115.659, Rel. Min. Luiz Fux) (..) A orientação jurisprudencial deste Tribunal é no sentido de que o "habeas corpus não se revela instrumento idôneo para impugnar decreto condenatório transitado em julgado" (HC 118.292-AgR, Rel. Min. Luiz Fux). 4. O caso atrai o entendimento desta Corte no sentido de que não cabe habeas corpus para reexaminar os pressupostos de admissibilidade de recurso interposto perante outros Tribunais (HC 146.113-AgR, Rel. Min. Luiz Fux; e HC 110.420, Rel. Min. Luiz Fux). (..) (HC 225896 AgR, Relator Ministro Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 17/5/2023). O entendimento é de elevada importância, devendo ser utilizado para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. A concessão de ofício da ordem, nos termos dos arts. 647-A e 654, § 2º, do Código de Processo Penal, depende da existência de flagrante ilegalidade. Analisando-se o conteúdo da documentação colacionada aos autos, não se verifica de plano qualquer violação ao ordenamento jurídico ou flagrante constrangimento ilegal, que implique ameaça de violência ou coação na liberdade de locomoção do paciente, nos termos da Lei nº 14.836, de 8/4/2024, publicada no Diário Oficial da União de 9/4/2024. Especificamente no que se refere ao valor indenizatório arbitrado, não verifico qualquer ilegalidade e adoto como razões de decidir os fundamentos trazidos pelo TJRJ às fls. 58-60 (e-STJ): No que concerne ao pleito defensivo de afastamento da fixação de valor indenizatório, é pacífica a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal no sentido de ser possível a fixação de reparação mínima a título de danos morais nos casos de condenação por crimes ou contravenções praticados no âmbito de violência doméstica e familiar contra a mulher, desde que haja pedido expresso do Ministério Público ou da ofendida, ainda que não especificado o valor. Nesse sentido, vale colacionar abaixo o seguinte julgado: "APELAÇÃO CRIMINAL. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. LEI Nº 11.340/06. LESÃO CORPORAL. SENTENÇA CONDENATÓRIA QUE FIXA VALOR MÍNIMO A TÍTULO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. PEDIDO EXPRESSO NA DENÚNCIA. TEMA 983. RECURSO REPETITIVO. CONFIRMAÇÃO. TERMO INICIAL DOS JUROS DE MORA. DATA DO EVENTO DANOSO. DESPROVIMENTO. I - Nos casos de violência contra a mulher no âmbito doméstico e familiar, é possível a fixação de valor mínimo indenizatório a título de dano moral, desde que haja pedido expresso da acusação ou da parte ofendida, ainda que não especificada a quantia, e independentemente de instrução probatória (..)" (ARE 1176414, Relator(a): Min. EDSON FACHIN, julgado em 21/01/2019, publicado em PROCESSO ELETRÔNICO D Je-023 DIVULG 05/02/2019 PUBLIC 06/02/2019). Essa também é a tese fixada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Tema 983 dos Recursos Repetitivos: "Nos casos de violência contra a mulher praticados no âmbito doméstico e familiar, é possível a fixação de valor mínimo indenizatório a título de dano moral, desde que haja pedido expresso da acusação OU da parte ofendida, ainda que não especificada a quantia, e independentemente de instrução probatória." In casu, considerando que houve pedido ministerial expresso na denúncia, revela-se acertado o arbitramento da indenização mínima a ser paga pelos danos morais causados à vítima, cujo montante deve ser estabelecido em atenção aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Na presente situação, o dano moral da ofendida é evidente e decorre da violência sofrida em razão da sua condição de mulher, a qual foi xingada e humilhada pelo acusado, seu ex-companheiro. Assim, razoável e proporcional a quantia mínima estabelecida na sentença a título de dano moral em favor da vítima no valor de R$2.000,00 (dois mil reais), que somente será executada se for de interesse da mesma. Pelo exposto, não conheço do habeas corpus substitutivo e, na análise de ofício, não visualizo elementos capazes de caracterizar flagrante ilegalidade. Publique-se. Intime-se. EMENTA