HC 1011867 - DECISAO
Houve flagrante ilegalidade no acórdão do Tribunal de origem ao exigir exame criminológico e indeferir a progressão com base em fundamentos genéricos como a gravidade abstrata do delito, longa pena e probabilidade de reincidência, sem indicar elementos concretos da execução; além disso, as condenações são anteriores...
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- Parties
- Paciente: VANDERLEI LEITE DE MEIRA; Autoridade Coatora: 6ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo; Parte Agravante: Ministério Público
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 June 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Habeas corpus concedido de ofício para cassar o acórdão impugnado e restabelecer a decisão do Juízo da Execução Penal que deferiu a progressão ao regime semiaberto.
- Legal Topics
- Habeas Corpus Substitutivo De Recurso, Progressão De Regime, Exame Criminológico, Novatio Legis in Pejus, Retroatividade, Súmula 439/stj, Súmula 568/stj
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Parties
VANDERLEI LEITE DE MEIRA
Paciente
6ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo
Autoridade Coatora
Ministério Público
Parte Agravante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Cabe habeas corpus substitutivo de recurso ou apenas não conhecimento salvo flagrante ilegalidade?
- 2 É aplicável retroativamente a Lei nº 14.843/2024 que tornou obrigatório o exame criminológico para progressão de regime?
- 3 Pode a gravidade abstrata do crime, longa pena ou reincidência justificar indeferimento da progressão sem elementos concretos da execução?
Ratio Decidendi
Houve flagrante ilegalidade no acórdão do Tribunal de origem ao exigir exame criminológico e indeferir a progressão com base em fundamentos genéricos como a gravidade abstrata do delito, longa pena e probabilidade de reincidência, sem indicar elementos concretos da execução; além disso, as condenações são anteriores à Lei nº 14.843/2024, de modo que sua obrigatoriedade não se aplica retroativamente. Assim, concedeu-se habeas corpus de ofício para cassar o acórdão e restabelecer a decisão do Juízo da Execução Penal que deferiu a progressão ao regime semiaberto.
Court Disposition
Habeas corpus concedido de ofício para cassar o acórdão impugnado e restabelecer a decisão do Juízo da Execução Penal que deferiu a progressão ao regime semiaberto.
Orders
- Cassação do acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo
- Restabelecimento da decisão do Juízo da Execução Penal que deferiu a progressão ao regime semiaberto
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de VANDERLEI LEITE DE MEIRA, em que se aponta como autoridade coatora a 6ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (fl. 2). Na inicial, a Defesa informa que o paciente, após resgatar o requisito objetivo, solicitou a concessão da progressão ao regime semiaberto, tendo o pedido sido deferido pelo magistrado de primeira instância. No entanto, a 15ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo deu provimento ao agravo interposto pelo Ministério Público, cassando a sentença agravada e determinando a recondução do sentenciado ao regime anterior, além da realização de exame criminológico (fl. 3). Alega a Defesa que a decisão contraria jurisprudência pacificada do Superior Tribunal de Justiça, sendo manifestamente ilegal (fl. 3). Sustenta que o paciente preencheu os requisitos previstos em texto de lei para a progressão de regime, não havendo nenhuma peculiaridade que justifique o indeferimento do pedido (fl. 6). Afirma que a concessão do benefício não acarretaria risco à sociedade, e que o princípio do in dubio pro societate não se aplica ao caso (fls. 6-7). Aduz ainda a inconstitucionalidade da Lei nº 14.843/24, que tornou obrigatório o exame criminológico para a progressão de regime, contrariando a Lei 10.792/2003 (fls. 8-10). No mérito, a Defesa requer a concessão da ordem de habeas corpus, cassando a decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo e mantendo a decisão de primeira instância que deferiu ao reeducando a progressão ao regime semiaberto (fl. 11). É o relatório. DECIDO. A presente impetração investe contra acórdão, funcionando como substituto do recurso próprio, motivo pelo qual não deve ser conhecida. A 3ª Seção, no âmbito do HC 535.063-SP, de relatoria do Ministro Sebastião Reis Júnior, julgado em 10/06/2020, e o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do AgRg no HC 180.365, de relatoria da Ministra Rosa Weber, julgado em 27/03/2020, consolidaram a orientação de que não cabe habeas corpus substitutivo ao recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Passo a analisar a presença de coação ilegal que desafie a concessão da ordem ofício, em observância § 2º do artigo 654 do Código de Processo Penal. No caso em análise, a defesa pretende, em síntese, a progressão de regime independentemente da realização de exame criminológico. Da análise dos elementos informativos constantes dos autos, verifica-se flagrante ilegalidade a legitimar a atuação desta Corte. O Juízo das Execuções Penais, ao apreciar o pleito de progressão de regime formulado em favor do paciente, concedeu o benefício, por entender presentes os requisitos legais. No acórdão a quo, o benefício foi afastado e determinada a realização de exame criminológico, com os seguintes fundamentos (fls. 74-75): VANDERLEI resgata pena corporal de 7 anos e 8 meses de reclusão, em regime inicial fechado, por narcotráficos, cujo término está previsto somente para 24/3/2029 (fls. 13). Nesse diapasão, pela natureza do delito e longa pena a cumprir, ausente suficiente comprovação de completa assimilação da terapêutica penal, cuja aferição ainda não se fez possível, pela ausência de elementos seguros e indicadores de que não reincidirá, o que somente poderá ser aquilatado com a realização de exame criminológico. Malgrado discussão sobre in(constitucionalidade) da Lei nº 14.843/2024, também conhecida como "Lei Sargento PM Dias", o exame criminológico, antes facultativo, já era exigível e imperioso, com justificativa individual, nos casos albergados pela Súmula/STJ, nº 439 - "delitos cometidos com violência ou grave ameaça ou quando o agente demonstrar uma elevada periculosidade na execução do crime" -, o que é o caso, tornando estéril debate sobre eventual irretroatividade da novel legislação. Quanto à aplicação da nova Lei nº 14.836/2024, trago à colação excerto de julgado proferido pelo Min. Otávio de Almeida Toledo, na data de 5/11/2024, nos autos do HC n. 939.570/MG, que bem analisou a matéria da impossibilidade de retroatividade da lei processual penal nesse caso, de acordo com o histórico de julgamentos deste STJ: Nesse sentido, reputo de substancial importância destacar que o Superior Tribunal de Justiça, em mais de uma ocasião, deparou- se com diversas alterações legislativas, as quais, naturalmente, modificaram dispositivos da Lei de Execução Penal ao longo de sua vigência. Em tais ocasiões, esta Corte Superior tem convergido quanto à interpretação a ser conferida a alterações incidentes ao direito fundamental de locomoção, pacificando o entendimento no sentido de que a aplicação de normas dessa natureza, com vigência posterior aos casos pretéritos, impõe respeito ao direito fundamental estabelecido pelo art. 5º, inciso XL, da Constituição da República, segundo o qual, a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu. .. Acresça-se à fundamentação aqui exposta que este Egrégio fixou jurisprudência acerca de casos relativos a outros institutos da execução penal, modificados pela mesma legislação ora em análise (Lei n. 14.836/2024), a exemplo da atual obrigatoriedade da realização de exame criminológico para fins de progressão de regime, sendo essa alteração concebida como norma de natureza penal. Desse modo, a interpretação dada foi no sentido de tratar-se de típico caso de novatio legis in pejus; de modo que se impõe a impossibilidade da aplicação retroativa a fatos anteriores à sua vigência (AgRg no HC n. 888628, relator Ministro Otávio De Almeida, desembargador convocado do TJSP, Sexta Turma, 23/10/2024; RHC n. 200.670/GO, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 20/08/2024, DJe de 23/08/2024). (grifei) No mesmo sentido, manifestação da Quinta Turma deste STJ: .. 1. Em outras alterações efetuadas na Lei de Execuções Penais, as Cortes Superiores firmaram entendimento no sentido de que as novas disposições deveriam ser aplicadas aos delitos praticados após a sua vigência, por inaugurarem situação mais gravosa aos apenados. 2. Ressalta-se que, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, ao analisar as modificações trazidas pela Lei n. 14.843/2024 no direito às saídas temporárias, o Ministro André Mendonça, relator do HC n. 240.770/MG, entendeu que se trata de novatio legis in pejus, incidente, portanto, aos crimes cometidos após o início de sua vigência. 3. Cabe estender esse raciocínio à nova redação do art. 112, § 1º, da LEP, que passou a exigir exame criminológico para progressão de regime, de modo que deve ser mantido o entendimento firmado na Súmula n. 439/STJ, segundo o qual "admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada." 4. Em se tratando de hipótese na qual foi exigido o exame criminológico mediante decisão fundada exclusivamente na gravidade abstrata do delito, sem análise dos elementos concretos da execução da pena, verifica-se constrangimento ilegal apto a ensejar a concessão da ordem, de ofício. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 929.034/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 30/9/2024, DJe de 4/10/2024.) No caso, as condenações do paciente são anteriores à Lei n. 14.843/2024, não sendo aplicável a disposição legal em comento de forma retroativa. Antes da Lei nº 14.843/2024, embora o exame criminológico não fosse requisito obrigatório para a progressão do regime prisional, em hipóteses excepcionais, os Tribunais Superiores admitiam a sua realização para a aferição do requisito subjetivo do apenado. Nesse sentido, a jurisprudência desta Corte Superior firmou o entendimento de que o afastamento do requisito subjetivo das benesses executórias deve ser embasado nos elementos concretos extraídos da execução, verbis: .. a gravidade abstrata do crime não justifica diferenciado tratamento à progressão prisional, uma vez que fatores relacionados ao delito são determinantes da pena aplicada, mas não justificam diferenciado tratamento à negativa da progressão de regime ou do livramento condicional, de modo que respectivo indeferimento somente poderá fundar-se em fatos ocorridos no curso da própria execução. Precedentes do STJ (HC n. 519.301/SP, Terceira Seção, Rel. Min. Nefi Cordeiro, DJe de 13/12/2019) (AgRg no HC 803.075/SP, Quinta Turma, de minha relatoria, D Je de 31/5/2023). Desse modo, os fundamentos utilizados pelo Tribunal de origem não se mostram idôneos para afastar a presença do requisito subjetivo. Para tanto, o julgador deve indicar elementos concretos extraídos da execução da pena, não servindo como embasamento ao indeferimento da progressão de regime a menção à gravidade abstrata dos delitos praticados, à longa pena em cumprimento ou à reincidência, consoante entendimento firmado por esta Corte Superior de Justiça, a exemplo dos seguintes julgados: .. 1. "É assente o entendimento nesta Corte, segundo o qual, a gravidade abstrata do crime não justifica diferenciado tratamento à progressão prisional, uma vez que fatores relacionados ao delito são determinantes da pena aplicada, mas não justificam diferenciado tratamento à negativa da progressão de regime ou do livramento condicional, de modo que respectivo indeferimento somente poderá fundar-se em fatos ocorridos no curso da própria execução." (HC n. 519.301/SP, relator Ministro Nefi Cordeiro, Terceira Seção, julgado em 27/11/2019, DJe 13/12/2019.) 2. Na espécie, verifica-se ilegalidade flagrante na fundamentação adotada pelas instâncias ordinárias, pois não é idôneo indeferir a progressão sob argumentação genérica, baseada na gravidade abstrata do crime, longevidade da pena, e na probabilidade de reincidência, sem indicação de elementos concretos extraídos da execução da pena que pudessem justificar a negativa do benefício. 3. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 824.493/MG, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, julgado em 28/8/2023, DJe de 30/8/2023.) .. 2. É assente o entendimento nesta Corte, segundo o qual, a gravidade abstrata do crime não justifica diferenciado tratamento à progressão prisional, uma vez que fatores relacionados ao delito são determinantes da pena aplicada, mas não justificam diferenciado tratamento à negativa da progressão de regime ou do livramento condicional, de modo que respectivo indeferimento somente poderá fundar-se em fatos ocorridos no curso da própria execução (HC n. 519.301/SP, Ministro Nefi Cordeiro, Terceira Seção, DJe 13/12/2019). 3. Sem razão o regimental, pois a decisão recorrida está de acordo com o entendimento jurisprudencial desta Corte Superior, uma vez que a gravidade abstrata, a longa pena a cumprir e a reincidência não constituem fundamentos idôneos a justificar a necessidade de realização de exame criminológico. Precedentes. 4. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 696.604/ES, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 19/10/2021, DJe de 22/10/2021.) Diante de tais considerações, vislumbra-se a existência de flagrante ilegalidade passível de concessão da ordem. Dessa forma, estando o acórdão prolatado pelo Tribunal a quo em desconformidade com o entendimento desta Corte de Justiça quanto ao tema, incide, no caso o enunciado da Súmula 568/STJ, in verbis: "O relator, monocraticamente e no Superior Tribunal de Justiça, poderá dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante acerca do tema." Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. No entanto, concedo habeas corpus de ofício para cassar o acórdão impugnado e restabelecer a decisão proferida pelo Juízo da Execução Penal que deferiu a progressão de regime ao apenado. Intime-se, com urgência, a origem para cumprimento. Publique-se. Intimem-se. EMENTA