HC 708744 - DECISAO
O habeas corpus não foi conhecido por inadequação da via recursal (substituição de recurso próprio), não se identificando ilegalidade flagrante; além disso, a manutenção da pronúncia e da qualificadora foi fundamentada na presença de indícios suficientes de autoria e na comprovação da materialidade, e a alteração...
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- Parties
- Paciente: ROSA MARIA TEMPESTA BERTO; Órgão Julgador: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo; Manifestante: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 December 2021
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Não Conhecido
- Outcome
- habeas corpus não conhecido
- Legal Topics
- Homicídio Qualificado, Pronúncia, Qualificadora Do Recurso Que Dificultou a Defesa, Princípio in Dubio Pro Societate, Adequação Da Via Recursal, Reexame De Provas (súmula 7 Do Stj)
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Parties
ROSA MARIA TEMPESTA BERTO
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Órgão Julgador
Ministério Público Federal
Manifestante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Não Conhecido
Legal Issues
- 1 adequação da via eleita (habeas corpus versus recurso próprio)
- 2 possibilidade de uso do habeas corpus como substituto de recurso ordinário
- 3 manutenção da pronúncia e da qualificadora do recurso que dificultou a defesa (surpresa)
Ratio Decidendi
O habeas corpus não foi conhecido por inadequação da via recursal (substituição de recurso próprio), não se identificando ilegalidade flagrante; além disso, a manutenção da pronúncia e da qualificadora foi fundamentada na presença de indícios suficientes de autoria e na comprovação da materialidade, e a alteração demandaria revolvimento do acervo fático-probatório, o que é incabível na via mandamental.
Court Disposition
habeas corpus não conhecido
Orders
- indeferido o pedido liminar
- não conheço do presente habeas corpus
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se dehabeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de ROSA MARIA TEMPESTA BERTO contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo assim ementado (e-STJ fl. 732): Recurso em Sentido Estrito - Homicídio qualificado - Decisão de pronúncia - Admissibilidade da acusação - Presença de indícios suficientes de autoria e materialidade do crime comprovada - Atenção à máxima in dubio pro societate - Submissão da acusada a julgamento perante o Tribunal do Júri - Inteligência do artigo 413, caput, do CPP - Recurso não provido. Consta dos autos que o paciente foi pronunciado pela prática do crime de homicídio qualificado (recurso que dificultou a defesa da vítima). A sentença foi ratificada pela Corte de origem (e-STJ fls. 731/742). No presente writ, sustentam os impetrantes a necessidade de, no caso concreto, excluir a qualificadora do recurso que dificultou a defesa do ofendido, ante a precariedade que a fundamentou. Alegam que o exame da matéria não necessita de revolvimento do material fático/probatório dos autos. Requer, liminarmente, a suspensão da ação penal na origem (autos n.0000502-70.2014.8.26.0511). No mérito, pleiteia seja decotada da pronúncia a qualificado do recurso que dificultou a defesa do ofendido. Indeferido o pleito liminar (e-STJ fls. 821/822), opinou o Ministério Público Federal "pela denegação da ordem" (e-STJ fls. 825/829). É o relatório. Decido. O presente habeas corpus não merece ser conhecido por ausência de regularidade formal, qual seja, a adequação da via eleita. De acordo com a nossa sistemática recursal, o recurso cabível contra acórdão do Tribunal de origem que denega a ordem no habeas corpus é o recurso ordinário, consoante dispõe o art. 105, II, "a", da Constituição Federal. Do mesmo modo, o recurso adequado contra acórdão que julga recurso em sentido estrito é o recurso especial, nos termos do art. 105, III, da Constituição Federal. Acompanhando a orientação da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, a jurisprudência desta Corte Superior firmou-se no sentido de que o habeas corpus não pode ser utilizado como substituto de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício. Nesse sentido, encontram-se, por exemplo, estes julgados: HC n. 313.318/RS, Quinta Turma, RelatorMinistroFELIX FISCHER, julgamento em 7/5/2015, DJ de 21/5/2015; HC n. 321.436/SP, Sexta Turma, RelatoraMinistraMARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, julgado em 19/5/2015, DJ de 27/5/2015. No entanto, nada impede que, de ofício, este Tribunal Superior constate a existência de ilegalidade flagrante, circunstância que ora passo a examinar. O Tribunal a quo, manter a pronúncia,consignou, em relação à qualificado, o seguinte (e-STJ fls. 741/742): Quanto à qualificadora, tem-se, a princípio, devidamente demonstrado o emprego de recurso que dificultou a defesa da vítima, já que o ofendido foi atacado, logo após receber uma ligação em seu celular e se dirigir ao portão de sua residência, sendo, inesperadamente, golpeado, inviabilizando sua defesa. Outrossim, imposta destacar que a qualificadora somente poderia ser afastada no momento da decisão de pronúncia quando manifestamente improcedente ou descabida, pois a decisão sobre sua caracterização deve ficar a cargo do Conselho de Sentença. Neste sentido é a jurisprudência do E. Superior Tribunal de Justiça: "II - Esta Corte entende que havendo nos autos elementos probatórios a sustentara incidência das qualificadoras alinhavadas na denúncia, cabe ao Tribunal doJúri, juiz natural da causa, e não ao Juízo togado, dirimir eventual incerteza arespeito da dinâmica dos fatos, assim, as circunstâncias que caracterizam qualificadoras do delito somente podem ser excluídas quando se revelar em manifestamente improcedentes, o que não é o caso dos autos." (AgRg no AREsp1355643 / TO, Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, Data dojulgamento 13/12/2018, DJe 01/02/2019) Assim, presentes os requisitos do artigo 413 do Código de Processo Penal, imperiosa a manutenção da decisão atacada, devendo a acusada ser submetida a julgamento popular pela suposta prática do crime capitulado no artigo 121,parágrafo 2º, inciso IV, do Código Penal. A pronúncia encerra simples juízo de admissibilidade da acusação, exigindo o ordenamento jurídico somente o exame da ocorrência do crime e de indícios de sua autoria, não se demandando aqueles requisitos de certeza necessários à prolação da sentença condenatória, sendo que as dúvidas, nessa fase processual, resolvem-se pro societate. Nessa linha, os seguintes julgados: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO CONSUMADO. PRONÚNCIA. TESES DE INEXISTÊNCIA DE INDÍCIOS SUFICIENTES DE AUTORIA E DE INAPLICABILIDADE DO PRINCÍPIO IN DUBIO PRO SOCIETATE. PRESUNÇÃO CONSTITUCIONAL DE INOCÊNCIA. DECISÃO DE PRONÚNCIA. ART. 413 DO CPP. INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS QUE RECONHECERAM A MATERIALIDADE DO DELITO E OS INDÍCIOS SUFICIENTES DE AUTORIA APTOS A SUSTENTAR A ACUSAÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO NO CONJUNTO PROBATÓRIO CONTIDO NOS AUTOS. CONCLUSÃO DIVERSA QUE DEMANDARIA O REEXAME DO ACERVO FÁTICOPROBATÓRIO DOS AUTOS. INVIABILIDADE NA VIA ESTREITA DO WRIT. AUSÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Não se desconhece o entendimento consolidado de que na fase processual do judicium accusationis, eventual dúvida acerca da robustez dos elementos de prova, resolve-se em favor da sociedade, consoante o princípio do in dubio pro societate. Ocorre, porém, que esse entendimento vem sendo criticado por alguns doutrinadores que ensinam que, havendo dúvida quanto à materialidade delitiva, ou em relação à existência de indícios suficientes de autoria ou de participação, deve prevalecer a presunção constitucional de inocência. 2. É cediço, contudo, que a decisão de pronúncia, por ser mero juízo de admissibilidade da acusação, não exige prova incontroversa da autoria do delito, bastando tão somente a presença de indícios suficientes de autoria ou de participação e a certeza quanto à materialidade do crime. Precedentes. 3. Na hipótese, as instâncias ordinárias reconheceram a materialidade do delito e concluíram que havia indícios suficientes de autoria aptos a sustentar a acusação, com fundamento no conjunto probatório dos autos, o qual autorizou um juízo de probabilidade de autoria/participação. Desse modo, a pretensão da Defensoria Pública estadual no sentido de alterar o acórdão impugnado ensejaria a verificação da presença dos indícios suficientes de autoria, o que não é possível na via eleita, haja vista a necessidade de revolvimento dos elementos fáticos e probatórios dos autos" (AgRg nos EDcl no HC n.º 559.901/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, SEXTA TURMA, julgado em 23/6/2020, DJe 4/8/2020). 4. Desse modo, comprovada a materialidade e sendo suficientes os indícios que indicam a autoria criminosa, não há falar em constrangimento ilegal apto à concessão da ordem de ofício. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n.º 645.646/RO, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 15/6/2021, DJe 21/6/2021) AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO QUALIFICADO. PRONÚNCIA. 1) PROVA DA MATERIALIDADE E INDÍCIOS DE AUTORIA SUFICIENTES PARA EMBASAR A DECISÃO DE PRONÚNCIA. FASE PROCESSUAL NA QUAL VIGORA O PRINCÍPIO DO IN DÚBIO PRÓ SOCIETATE. 2) REVISÃO DE ENTENDIMENTO QUE DEMANDA INCURSÃO NA SEARA FÁTICO-PROBATÓRIA. INCIDÊNCIA DO ÓBICE DA SÚMULA 7 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA - STJ. 3) NULIDADE PROCESSUAL E OFENSA À CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 282 E 356 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL - STF. 4) OFENSA A PRINCÍPIOS E DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. INADEQUAÇÃO DA ANÁLISE EM SEDE DE RECURSO ESPECIAL. USURPAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO COL. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 5) AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. As instâncias ordinárias entenderam que as provas ;carreadas aos autos são suficientes para comprovar a materialidade e há indícios de autoria imprescindíveis à pronúncia. Na fase de pronúncia, eventuais dúvidas estão sujeitas ao princípio in dubio pro societate, e devem ser dirimidas em momento próprio, pelo Conselho de Sentença. 2. Diante da conclusão das instâncias ordinárias, para se concluir de forma diversa, seria inevitável o amplo revolvimento das provas carreadas aos autos, procedimento sabidamente inviável na instância especial. A referida vedação encontra respaldo no enunciado n. 7 da Súmula desta Corte, verbis: "A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial". .. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg nos EDcl no AREsp 1752228/RJ, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 8/6/2021, DJe 14/6/2021) HABEAS CORPUS SUBSTITUTO DE RECURSO ORDINÁRIO. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. HOMICÍDIO QUALIFICADO. SENTENÇA DE PRONÚNCIA. AUTORIA DELITIVA. NECESSIDADE DE REVOLVIMENTO DE FATOS E PROVAS. EXCESSO DE LINGUAGEM. NÃO OCORRÊNCIA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. 1. O Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato ilegal for passível de impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. 2. A decisão de pronúncia tem por escopo a admissibilidade da acusação de prática de crime doloso contra a vida, remetendo o caso à apreciação do Tribunal do Júri. Por sua natureza perfunctória, prevalece nessa fase o princípio in dubio pro societate, segundo o qual se preserva as elementares do tipo penal a serem submetidas à avaliação dos jurados, dispensando-se fundamentação exauriente. 3. A reversão do entendimento exarado pela decisão de pronúncia não é possível sem exame verticalizado e aprofundado do conjunto probatório, providência que não se coaduna com os estreitos limites cognitivos do habeas corpus. 4. Por outro lado, não prospera a alegação de excesso de linguagem por ocasião da sentença de pronúncia, uma vez que o julgador de primeiro grau, em momento algum, declinou um juízo de convicção a respeito da culpabilidade do paciente, cuidando apenas de apresentar elementos de prova mínimos - e estritamente necessários - para reconhecer a prova da materialidade e indícios da autoria de crime doloso contra a vida, a ser julgado pelo Tribunal do Júri, o que afasta o apontado constrangimento ilegal. 5. Habeas corpus não conhecido. (HC n.º 623.614/AL, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 16/3/2021, DJe 19/3/2021) Dessa forma, para a admissão da denúncia, há que se sopesar as provas, indicando os indícios da autoria e da materialidade do crime, bem como apontar os elementos em que se funda para admitir as qualificadoras porventura capituladas na inicial, dando os motivos do convencimento, sob pena de nulidade da decisão, por ausência de fundamentação. Do mesmo modo, a excessivafundamentação, neste momento processual, pode levar à ocorrência de nulidade por excesso de linguagem. Nessa linha, a exclusão de qualificadoraconstantena pronúncia somente pode ocorrer quando manifestamente improcedente, sob pena de usurpação da competência do Tribunal do Júri, juiz natural para julgar os crimes dolosos contra a vida. Assim, as qualificadoras propostas na denúncia somente podem ser afastadas quando, de forma inequívoca, mostrarem-se absolutamente improcedentes. Caso contrário, havendo indícios da sua existência e incerteza sobre as circunstâncias fáticas, deve prevalecer o princípio in dubio pro societatis, cabendo ao Tribunal do Júri manifestar-se sobre a ocorrência ou não de tais circunstâncias (HC n. 228.924/RJ, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, DJe 9/6/2015). Como visto, o Tribunal local, soberano na análise do conjunto fático/probatório dos autos, ao decidiu manter a sentença depronúncia, concluiu pela presença de elementos indicativos da presença da qualificadora,eis que a vítima teria sidoatingida de inopino. Assim, para alterar a conclusão a que chegou as instâncias ordinárias e decidir pela ausência de provas acerca da presençadaqualificadora do recurso que dificultou a defesa da vítima (surpresa), como requer a defesa, demandaria, necessariamente, o revolvimento do acervo fático/probatório delineado nos autos, providência incabível na sede mandamental. Desse modo, não há como reconhecer o apontado constrangimento ilegal. Ante o exposto, não conheço do presente habeas corpus. Intimem-se.